Na viagem que fizemos à Andaluzia no Verão de 2018 contávamos aproveitar um dia percorrendo o chamado Caminito del Rey, um passadiço vertiginoso empoleirado nas paredes de um desfiladeiro, localizado a cerca de 60 km da Costa del Sol e da cidade de Málaga. Mas, nessa altura, não nos apercebemos que seria necessário fazer uma marcação antecipada através do site e, quando fizemos uma tentativa de reserva, embora ainda faltassem uns 20 dias para a data da viagem, já só tinham vagas para três meses depois, o que nos impediu de concretizar esta visita.
Foi assim que resolvemos repetir esta viagem em 2021, garantindo, desta vez, que conseguiríamos obter previamente as reservas para poder percorrer os trilhos do famoso Caminito del Rey.
O percurso do Caminito del Rey, que fica no desfiladeiro de los Gaitanes, era considerado como um dos trajetos de trekking mais perigosos do mundo, só ultrapassado pelo trekking Huashan na China... mas não se assustem, que isso foi antes das recentes obras de reabilitação. Após a nova abertura em 2015 este percurso ficou bastante seguro e nem é muito exigente em termos físicos, facilmente acessível mesmo para crianças e pessoas de mais idade, desde que não tenham mobilidade reduzida.
Localização e acesso
No mapa seguinte estão assinalados os pontos mais importantes que foram percorridos nesta caminhada através do desfiladeiro de lo Gaitanejo e do passadiço do Caminito del Rey:
Começámos por deixar o carro no parque que está marcado no
mapa, mas chamo a atenção que pode acontecer que esteja esgotado, como ocorreu pouco tempo depois da nossa chegada. De qualquer forma há sempre a hipótese de estacionarmos
ao longo das próprias estradas, mas podemos ter que nos afastar um pouco mais,
tornando o percurso pedonal um bocadinho mais longo.
Esta zona não é só procurada por caminhantes, é também
muito usada por quem procura as praias que se formam nas albufeiras que
resultam das três barragens que ali existem. As águas verdes e calmas, que são visíveis
ao redor dos bosques que ali se formam, são bastante apelativas, não só para banhos,
mas também para a prática de alguns desportos náuticos, como a canoagem.
Saindo do parque, seguimos o caminho mais curto até à entrada dos passadiços, que é de cerca de um quilómetro e meio, e que nos leva através de um túnel pedonal devidamente assinalado, o chamado Tunel Largo, que nos conduz depois um por trilho florestal em terra-batida de acesso bastante fácil, que vai acompanhando sempre as bonitas paisagens do curso de água que alimenta a Central Elétrica del Gaitanejo.
Em menos de meia-hora estávamos a chegar à entrada do percurso vedado do Caminito, onde mostrámos os bilhetes (previamente adquiridos na net para o percurso sem guia, a 10€/pessoa... com guia o bilhete é bastante mais caro), e onde se encontra o único WC disponível ao longo de todo o percurso. Fomos integrados num grupo, apesar da visita não incluir guia, deram-nos um capacete que devemos usar ao longo do caminho e fizeram-nos um briefing de segurança. A partir daí estamos por nossa conta, embora possamos recorrer aos funcionários que vão vigiando todo percurso para evitar problemas de maior.
O facto de não estarmos com guia dá-nos um grau de liberdade bem maior e podemos seguir livremente ao nosso ritmo, parando sempre que quisermos e demorando o tempo que for necessário.
Contudo, fazem-nos falta as informações que o guia vai transmitindo e, por isso, devemos estar atentos às placas informativas que vamos encontrando, através das quais podemos perceber um pouco da história deste lugar.
A história del Caminito del Rey
Em meados do século XIX o desfiladeiro del Gaitanes era um vale quase deserto, apenas raramente frequentado por pastores ou caçadores. Nessa época foi decidido criar uma linha férrea entre as minas existentes na região de Córdova e as fábricas localizadas em Málaga. Essa linha foi aberta em 1865, atravessando túneis e viadutos ao longo deste desfiladeiro, numa obra de engenharia altamente arrojada para a época.
Já nos finais do mesmo século surgiu um novo desafio para esta zona, com a possibilidade de aproveitar o desnível do rio Guadalhorce entre a entrada e a saída do desfiladeiro. A obra consistia em desviar a água à entrada de Los Gaitanes e forçá-la a circular ao longo de três quilómetros por um canal, para deixá-la cair desde mais de 100 m de altura até à central hidroelétrica já existente do Salto del Chorro. Na sequência deste projeto foram ainda construídas outras barragens aproveitando o conjunto de linhas de água daquela zona.
A necessidade de transportar materiais e fazer a vigilância e manutenção destes sistemas hidráulicos, levou a que fosse necessário criar um percurso ao longo do desfiladeiro e, por isso, foi construído um caminho de serviço, altamente inseguro, concebido com uma espécie de prateleiras escoradas nos rochedos, e que é o antepassado do atual Caminito del Rey... e é ainda hoje visível nalguns troços, logo abaixo dos novos passadiços.
Esta via de serviço foi concluída em 1905, mas o conjunto de obras relacionadas com este novo sistema hidroelétrico só foi inaugurado em 1921. Dada a importância do evento desta inauguração, o Rey Alfonso XIII fez questão de estar presente para prestigiar a nova obra. E é aí que surge a dúvida daquilo que terá acontecido: conta a história que o Rei percorreu todo o caminho de serviço, sem quaisquer receios da sua perigosidade… mas há quem diga que ele somente o espreitou, mas não teve coragem de percorrê-lo.
Mas seja lá como for, a verdade é que este percurso foi batizado como El Caminito del Rey, mesmo que o Rei jamais o tenha percorrido… certo é que muitos outros, homens bravos e totalmente anónimos, que terão trabalhado e morrido na sua construção, terão ficado eternamente na sombra de um Rei (provavelmente) pouco corajoso.
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A história mais recente
Durante várias décadas de abandono, a passagem do tempo e a falta de manutenção, levaram a que estes passadiços se tivessem deteriorado significativamente, tornando-os praticamente inacessíveis.
No entanto, estes desfiladeiros são também um local de referência para os praticantes de escalada, o que sempre atraiu muita gente. Esta atração pelo perigo, tanto para alpinistas como para caminhantes mais arrojados, fez com que estes desfiladeiros tenham continuado a ser frequentados, apesar (ou talvez por isso) da sua perigosidade. Foi assim aumentando o número de visitantes, o que levou também a vários acidentes (alguns fatais), criando-se uma fama maldita que ainda atraía mais gente.
Nessa altura, este percurso e as suas pistas de escalada, eram considerados como um dos trilhos mais perigosos do mundo e, após dois acidentes fatais em 1999 e 2000, o governo local decidiu fechá-lo. No entanto, até que as obras de reabilitação tivessem começado, outras pessoas perderam a vida tentando escalar o desfiladeiro.
O acesso a qualquer zona não autorizada tornou-se então proibido e alvo de multas pesadas, até que, em março de 2015, o Caminito foi aberto ao público com todas as condições de segurança que hoje encontramos.
Percorrendo os trilhos
Desde o início do primeiro desfiladeiro até à saída do último, o percurso é de cerca de três quilómetros e meio, mas, se acrescentarmos o troço inicial, desde o estacionamento, e o troço final, até à paragem de autocarro, teremos uma caminhada mínima de quase sete quilómetros.
Entrando agora no percurso, mal saímos do ponto de partida, junto à tomada de água da Central Eléctrica del Gaitanejo, onde o rio Guadalhorce começa a sua queda vertiginosa, avistamos a primeira garganta a ser explorada, o desfiladeiro del Gaitanejo, com os rochedos de calcário na vertical, onde são ancorados os primeiros troços dos passadiços.
Passadiços no desfiladero del Gaitanejo (cerca de 800m)
Esta primeira parte do Caminito atravessa o desfiladeiro del Gaitanejo, quase sempre através passadiços fixados ao rochedo, mas inclui também alguns túneis escavados na rocha que fomos atravessando.
Lá em baixo, vai correndo o Rio Guadalhorce, nome que vem do árabe e quer dizer Rio do Silêncio... muito pouco apropriado ao barulho ensurdecedor das quedas de água, que nos vai acompanhando. Mas depois da fúria das águas há sempre uma represa onde se forma um pequeno lago, e onde a cor da água se torna mais viva, aquele esverdeado que resulta da partículas minerais em suspensão, contrastando com o avermelhado do imenso rochedo.
E logo a seguir as águas voltam a embrulhar-se nas rochas, continuando furiosamente o seu percurso, e oferecendo mais uma bela imagem de um novo canion que surge lá à frente, começando a desenhar-se um tipo de paisagem que faz lembrar o Oeste americano.
Trilho florestal em terra-batida do vale Hoyo (1500m)
Quando acabamos a primeira parte do desfiladeiro terminam também os passadiços e entramos numa zona de bosque com trilhos em terra-batida, onde encontramos algumas sombras e até uns bancos de jardim para fazer um picnic improvisado, se nos apetecer.
Recordo que, neste percurso pelo Caminito, podemos demorar o tempo que quisermos, sobretudo nestas zonas, fora dos desfiladeiros, onde se pode parar e até fazer o tal picnic. Ou seja, cada um pode seguir o seu próprio ritmo, e isso é uma vantagem evidente em relação a quem escolhe acompanhar um guia, e que ficará muito mais condicionado.
As paisagens nesta zona continuam a ser inspiradoras e, nessa altura, começamos já a ver as imagens da via férrea, aquela que foi contruída ainda no século XIX, mas que se mantém, ainda hoje, no mesmo traçado.
Passadiços no desfiladero del Gaitanejo - troço conhecido por Caminito del Rey (cerca de 800m)
À medida que percorremos os caminhos ao longo do bosque vamo-nos aproximando do novo desfiladeiro. Esta última zona rochosa é a mais extraordinária e é aquela que, originalmente, foi batizada de El Caminito del Rey. Aqui as paredes do desfiladeiro são ainda mais altas, chegando a atingir os 300 m, com os passadiços suspensos à parede rochosa a meia altura.
Aqui, os passadiços contornam as reentrâncias que as montanhas vão formando, sempre a uma altura muito elevada, com o rio lá muito em baixo, que continua a correr veloz. Toda esta zona mostra ainda o antigo Caminito, que podemos ver por debaixo do novo passadiço.
Nesta zona a montanha parece engolir a linha de comboio que se vai mostrando intermitentemente à saída de cada túnel.
Nesta parte em que terminam as escarpas rochosas e entramos num espaço aberto, começa a surgir um vento dominante a rasgar por entre o desfiladeiro, que nos dá uma sensação de desconforto, pela combinação da altura a que estamos e o vento desequilibrante que se faz sentir.
Essa sensação de desconforto vai piorando à medida que nos aproximamos da ponte suspensa, que vamos ter de atravessar... de facto o incómodo foi ainda mais severo e gerou mesmo uma certa adrenalina... com a ponte toda a abanar, nem fui capaz de parar para tirar uma foto, só me acalmei já do outro lado com os pés bem assentes, e de onde a ponte suspensa já me parecia bastante inofensiva.
Chegámos à última escarpa, já fora do desfiladeiro mas que é ainda impressionante, pela altura e pela nossa pequenez, uns pontinhos minúsculos no meio daquele paredão enorme.
O troço final até ao autocarro (2000m)
Faltavam os dois últimos quilómetros até ao autocarro no El Chorro, que nos iria levar de volta até ao estacionamento. Um percurso curto, mas ainda difícil, porque inclui uma subida significativa já no troço final e com o autocarro à vista. Mas, mesmo nesta zona, já longe do Caminito, as paisagens que nos cercam continuam a ser bastante interessantes, enquadrando a última escarpa rochosa, com o rio e as montanhas envolventes.
Terminámos assim esta experiência grandiosa, que nos fez perceber um pouco do esforço que ali foi vivido durante a construção daqueles passadiços e compreendendo bem melhor até onde pode ir o desafio do homem na conquista da natureza.
Deixo aqui um breve vídeo feito durante a travessia do Caminito del Rey, mostrando uma outra perspetiva da mesma experiência.
Carlos Prestes