sábado, 15 de abril de 2023

Nantes


Nantes é a capital da região francesa do Pays de la Loire, onde começámos a nossa visita a esta zona do Vale do Loire. Não é propriamente uma cidade fantástica, mas, apesar disso, justifica que se reserve algum tempo para uma breve visita… e foi o que fizemos.

Chegámos à cidade já no final da tarde, mas ainda a tempo de uma caminhada pelas principais atrações, ficando depois para jantar e aproveitar o serão, quando a cidade adquire algum movimento de rua. Durante a noite escolhemos ficar em torno da Rue du Bouffay e da Rue Beauregard, ambas em pleno centro e com várias ofertas de restaurantes, e perto do parque de estacionamento de Parking Feydeau, onde estacionámos o carro.

Mas antes disso visitámos todo o centro histórico seguindo, mais ou menos, o percurso marcado neste mapa:


Place du Commerce e Place Royale

Começámos por uma das praças do centro da cidade, a Place du Commerce, onde existia um antigo porto no Rio Loire, até ter sido feito um aterro, já no início do século XX, que deu origem à atual praça. Além de várias esplanadas, encontram-se ali um dos cinemas da cidade, o Pathé Nantes, e um imenso edifício onde funciona uma loja FNAC.

Um pouco depois entramos na Place Royale, que é uma espécie de Plaza Mayor espanhola, respeitando as regras da arquitetura clássica, com simetria nas fachadas, e com uma fonte ao centro, que é um dos símbolos da cidade… e em segundo plano é ainda visível a torre da Basilique Saint-Nicolas, com uma imagem que é dominante nesta zona da cidade.
A praça foi construída em 1865 e a fonte, que se ergue ao centro, simboliza a importância para a cidade de Nantes do rio e da sua ligação já próxima ao mar. A fonte representa a cidade disfarçada de mulher coroada, que vigia o rio Loire e os seus afluentes, o Erdre, o Sèvre, o Cher e o Loiret.


Basilique Saint-Nicolas

A Basílica de Saint-Nicolas foi construída entre 1844 e 1869 e é um dos primeiros projetos neogóticos em toda a França.

A basílica foi construída sobre a antiga igreja de São Nicolau, integrando uma parte das suas infraestruturas. A construção ocorreu sob a liderança do padre Félix Fournier, que iria ser bispo de Nantes, e cuja sepultura se encontra ainda no interior da igreja.

Tal como toda esta zona de França, a cidade de Nantes também foi sujeita a bombardeamentos durante a Segunda Guerra Mundial, nomeadamente em setembro de 1943, quando estes bombardeamentos danificaram severamente o centro histórico e também a Basílica de Saint-Nicolas. No entanto, nas décadas seguintes ao fim da guerra, foi desencadeado um grande projeto de reconstrução e, já na década de 1970, a Basílica tinha sido completamente recuperada, tanto no seu interior como nas fachadas, que são belíssimas e se encontram atualmente em ótimo estado, depois de mais algumas intervenções de reabilitação e restauro, já mais recentes.

A igreja tem 86 m de comprimento e 32 m de largura, e a sua cobertura, que atinge os 24 m de altura, descreve uma cruz-latina… mas a silhueta desta igreja é sobretudo dominada pela imensa torre sineira que atinge os 100 m de altura.


Rue de la Barillerie e Rue de Verdun

No caminho até ao próximo local de paragem, a Catedral da cidade, percorremos duas das principais ruas de comércio local, a Rue de la Barillerie e a Rue de Verdun, naquilo que pode ser considerado como a Baixa da cidade de Nantes.

De qualquer maneira, e tal como toda a cidade, estas ruas não podem ser consideradas como particularmente bonitas nem minimamente interessantes, pelo que nos limitámos a atravessá-las, sem grandes pausas.



Cathédrale Saint-Pierre-et-Saint-Paul

No final da Rue de Verdun chegamos à Place Saint-Pierre, onde se encontra a principal igreja da cidade, a Catedral de São Pedro e São Paulo.

É uma igreja católica muito antiga, a sua construção começou no século XV, mas os trabalhos haveriam de demorar muito mais do que aquilo que se previa, tendo-se transformado num estaleiro interminável, um dos mais demorados na história da arquitetura religiosa francesa… em que as obras só acabaram quatro séculos depois, no ano de 1893.

Muito mais tarde, e já depois das reparações realizadas após o final da Segunda Guerra, a Catedral foi sujeita a um incêndio devastador no ano de 1972, que quase a destruiu completamente. Foi por isso novamente submetida a importantes trabalhos de restauro, o que lhe devolveu o seu esplendor original a que corresponde a imagem atual desta bonita catedral.

A fachada principal é formada por duas torres em pedra branca, e não em granito, como acontece geralmente no Oeste francês, e o corpo do edifício, que é constituído pelas abóbadas, tem uma cobertura que descreve uma cruz-latina, com um comprimento de 103 m e que atinge uma altura bastante elevada de 37,5 m… e é mesmo mais alta do que a da Notre-Dame de Paris.
No interior da catedral encontra-se o túmulo de François II, último duque da Bretanha, e de Marguerite de Foix, a sua segunda esposa, pais de Ana da Bretanha. Mas a verdade é que, na altura da nossa visita, o acesso ao interior da catedral estava bastante condicionado, nomeadamente às suas criptas, que não podiam ser visitadas, pois voltou a acontecer um novo incêndio, desta vez muito recentemente e em plena época de Covid, no mês de julho de 2020.


Place Maréchal-Foch

Logo depois da catedral surge a imensa Praça Maréchal Foch, a maior praça da cidade e que chegou a ser chamada de Place d'Armes, na sequência da Revolução Francesa e, mais tarde, durante a Restauração da monarquia, tornou-se na Place Louis XVI.

Atualmente foi rebatizada com o nome de Ferdinand Foch, um importante Marechal francês, embora mantenha ainda, bem no centro da rotunda que se forma nesta praça, a chamada coluna de Luís XVI.

Esta era a antiga Coluna da Liberdade, que foi erguida em 1790, com 28 metros de altura e com uma estátua deste rei no seu topo… e que é uma das raras estátuas de Luís XVI ainda presentes no espaço público francês.
Num dos lados da praça, junto ao edifício da catedral, encontra-se a Porte Saint-Pierre, um vestígio das muralhas da cidade medieval. Num outro lado está o Hotel de Charette, um edifício de 1824, que foi usado como sede da Gestapo no ano de 1944. E em frente deste hotel encontra-se o antigo Hotel Montaudouin, onde estiveram Napoleão I e Josephine, em 1808.

Na envolvente da Praça Maréchal Foch estendem-se dois imensos terreiros que a complementam e lhe dão dimensão. Um deles chama-se Cours Saint-Pierre e desenvolve-se entre a praça e o Castelo dos Duques da Bretanha, mas encontrava-se totalmente ocupado por uma feira, daquelas com carrosséis e carrinhos de choque. 

No sentido oposto está o outro terreiro, o Cours Saint-André, que nos leva até às margens de um dos afluentes do Loire, o rio Erdre, onde se encontra a Pont Saint-Mihiel e de onde pudemos observar a paisagem do rio, com as suas casas flutuantes.


Château des ducs de Bretagne

Chegámos depois ao Castelo de Nantes, o chamado Castelo dos Duques da Bretanha, que é um monumento emblemático desta cidade e o primeiro dos châteaux do Loire que encontramos na nossa viagem.

Trata-se de uma fortaleza constituída por sete torres ligadas por cortinas de muralhas, com um fosso com água que rodeia todo o castelo.
Os passadiços, que garantem o acesso sobre o fosso, e as próprias muralhas, são de acesso livre. Do lado interior chegamos a um pátio onde se encontra a elegante residência ducal do século XV, um edifício com fachadas brancas. O palácio ducal foi feito em estilo gótico com sinais de inspiração renascentista, onde funciona o Museu de História de Nantes, o único espaço do castelo que não é de entrada livre.


Paroisse Sainte Croix-Saint Pierre

Voltando ao centro da cidade chegámos de novo às principais ruas, em torno do bairro de Bouffay, e junto a uma pequena paróquia, mas bastante importante, a Igreja de Santa Cruz e São Pedro, ou Paroisse Sainte Croix-Saint Pierre. Trata-se de uma igreja jesuíta com um interior que deve ser bastante interessante… o deve ser, é porque já apanhámos a igreja fechada e não a conseguimos visitar.

Mas anunciavam-se uma série de atrações, como as esculturas de madeira no púlpito, estilo Luís XV, as estátuas de Santa Helena e de Santo António de Pádua (que, para nós, será sempre de Lisboa), e o altar-mor, feito em mármore branco e com o retábulo em talha dourada.

Esta igreja foi consagrada como diocese de Nantes em 1844 e é também conhecida como a Notre-Dame-de-Nantes.
Estávamos agora disponíveis para encontrar o restaurante onde iríamos jantar, mas, ainda antes disso, fomos surpreendidos por uma animação especial e um pouco desconfortável.

É que estavam a decorrer em França imensas manifestações na sequência de uma proposta de lei em que se aumentava a idade da reforma de 62 para 64 anos… sendo que a nossa já está quase nos 67, e continuamos todos caladinhos. Mas os franceses não se calam, e às vezes até partem ou queimam tudo o que encontram, e isso já não faz sentido nenhum. Ora, a animação de final de tarde na cidade de Nantes era exatamente uma dessas grandes manifestações, que até decorreu ordeiramente, mas foi sempre vigiada por batalhões de policias que preenchiam todo o centro histórico, esperando por qualquer movimento mais brusco dos manifestantes.
Apesar do desconforto da situação, lá nos refugiámos num dos restaurantes do centro, onde jantámos e esperámos até que a noite caísse e o movimento acalmasse.


Terminámos assim a visita à cidade de Nantes de onde partiríamos na manhã seguinte para percorrermos toda a envolvente do rio Loire, e visitarmos alguns dos principais châteaux que ali se encontram.

Não é uma cidade particularmente interessante, mas como já esperávamos que assim fosse, também não ficámos minimamente desiludidos, e até foi engraçado assistir de perto às típicas rebeliões francesas, de sindicatos e coletes amarelos num lado, e polícia de choque, no outro... felizmente sem confrontos.


Carlos Prestes


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