Bangkok foi a nossa porta de entrada na Tailândia e revelou-se, desde o primeiro instante, bastante intensa, luminosa e cheia de contrastes. O primeiro impacto chega pelos sentidos: o calor húmido e pegajoso do ar, os aromas da comida de rua misturados, por vezes, com o odor fétido do lixo. Depois, surgem o dourado brilhante dos templos, que quase encandeia, e o movimento incessante das ruas, numa confusão permanente de trânsito - carros, motos e tuk-tuks que se cruzam numa coreografia caótica, mas curiosamente funcional. No meio deste aparente caos, a cidade pulsa com uma energia única. Entre tradição e modernidade, mercados animados e templos silenciosos, fomos entrando lentamente no ritmo de Bangkok, abrindo assim a porta para a descoberta deste país fascinante.
Tínhamos marcado alguns tours pelo GetYourGuide, mas deixámos também algum tempo para explorarmos a cidade de forma livre, ao sabor daquilo que íamos encontrando. No final, visitámos os locais assinalados no mapa seguinte, representados por cores distintas para cada um dos três dias de visita (já que o quarto dia foi reservado para uma visita a uns mercados a sul da capital tailandesa de que falarei noutra crónica).
Mas ainda antes do primeiro dia, ou seja, no final da tarde em que chegámos à cidade, e apesar do cansaço da viagem e da baralhação do fuso horário (7 horas, nesta altura do ano), partimos logo à descoberta da cidade e fizemos um passeio noturno pelo rio.
Cruzeiro pelo Rio Chao Phraya
Tínhamos uma reserva para um dos muitos cruzeiros noturnos que percorrem o rio e que partem do chamado Asiatique Riverfront. O percurso atravessa grande parte da cidade e passa também pela zona dos templos, oferecendo uma perspetiva muito especial de Bangkok iluminada.
Existem opções de saídas que apanham o pôr-do-sol e outras que acontecem já à noite, normalmente com jantar incluído. Optámos pelo pacote completo e tivemos assim uma primeira amostra bastante generosa da gastronomia local.
Ainda a caminho do Riverfront apanhámos o barco de carreira pública, e foi esse o nosso primeiro contacto com a cidade e com a sua vivência eletrizante. Foi também nesse momento que começámos a perceber como Bangkok se constrói de contrastes: entre o mais tradicional e o mais moderno, aqui representado pelos arranha-céus que surgem ao longo das margens.
Chegámos então ao Asiatique Riverfront, um animado e muito interessante mercado noturno à beira-rio, que combina lojas, restaurantes e entretenimento, ao estilo de um parque de diversões. Instalado em antigos armazéns portuários recuperados, é hoje um dos pontos de encontro mais populares de Bangkok e local de partida de muitos cruzeiros no rio.
Este espaço é animado e oferece sempre belas paisagens do rio, primeiro com as cores do entardecer e, mais tarde, já totalmente iluminados.
Saímos depois no cruzeiro noturno que segue pelo rio Chao Phraya, numa experiência muito agradável que nos permite observar a cidade sob uma outra perspetiva. Aqui, em pleno rio, o movimento intenso das ruas dá lugar a uma navegação tranquila, enquanto as luzes da cidade se refletem na água e revelam alguns dos templos e monumentos mais emblemáticos iluminados.
Durante o percurso é servido um jantar buffet com vários pratos típicos da gastronomia tailandesa, que permite provar diferentes sabores locais num ambiente descontraído. Enquanto se janta, há música ao vivo a acompanhar a viagem (bastante foleira, diga-se) e, em determinados momentos, surgem pequenas apresentações de danças tradicionais tailandesas que acrescentam um toque cultural à noite… para quem gosta do estilo.
O resultado é uma experiência que combina gastronomia, cultura e paisagem urbana, transformando o cruzeiro numa forma muito especial de descobrir Bangkok ao cair da noite - e também de abrir o apetite para o que ainda estava por vir nos dias seguintes.
O barco inverte a marcha quando chegamos à ponte Rama VIII, uma ponte moderna que recebeu o nome do avô do atual rei da Tailândia.
No regresso voltamos a observar os monumentos iluminados, agora a partir da margem oposta, e passamos também junto a um dos principais centros comerciais da cidade, o IconSiam.
Ao regressarmos ao Asiatique Riverfront, o espaço estava ainda mais animado do que quando tínhamos partido. As luzes refletiam-se no rio, a música misturava-se com o burburinho das pessoas e o ambiente parecia ter ganhado uma nova energia ao longo da noite. Ficámos por ali mais algum tempo, simplesmente a absorver o momento.
Mas o cansaço começava finalmente a impor-se. Tínhamos no corpo quase 12 horas divididas em dois voos, várias horas passadas em aeroportos e uma diferença de fuso horário de sete horas. Tinham sido um ou dois dias muito intensos - daqueles que parecem esticar o tempo - mas que, paradoxalmente, nos deixavam com uma sensação profunda de felicidade e de expectativa pelo que ainda estava por vir.
Terminámos o dia a regressar ao hotel num dos meios de transporte mais típicos de Bangkok: um Tuk Tuk. Não é propriamente o mais barato, mas é seguramente o mais divertido, especialmente à noite, quando os néons se acendem e o driver decide que está a participar num rali improvisado no meio do trânsito caótico da cidade.
Dia 1 em Bangkok (8 de fevereiro)
Neste dia tínhamos uma reserva para visitar uma série de templos, pelo que nos deslocámos até ao porto mais próximo do hotel, o Sathorn Pier e apanhámos um barco até ao Tha Chang Pier, já próximo do ponto de encontro para o percurso reservado.
O Grande Palácio
A visita ao Grande Palácio de Bangkok é um dos momentos mais marcantes de uma viagem à capital tailandesa. O conjunto impressiona tanto pela exuberância da arquitetura como pelo profundo significado histórico ligado à monarquia do país. No interior do complexo encontra-se um conjunto religioso, o Wat Phra Kaew, onde é guardado o Buda de Esmeralda, considerado o objeto religioso mais sagrado da Tailândia.
O tour que reservámos para este dia incluía, além do Grande Palácio, a visita a dois outros templos emblemáticos de Bangkok: o Wat Pho e o Wat Arun. Pagámos antecipadamente cerca de 20€ por pessoa, valor que incluía o guia, os trajetos entre os diferentes locais - realizados de autocarro e numa curta travessia de barco - e ainda uma pequena pausa com uma garrafa de água e uma água de coco. As entradas nos templos não estavam incluídas e foram pagas no local, num total de cerca de 1000 baht (aproximadamente 25€ por pessoa). No conjunto, pareceu-nos um preço bastante justo para uma experiência tão completa, que se prolongou por cerca de cinco horas.
O percurso começou precisamente pelo Grande Palácio, com um vasto conjunto de pátios, templos, palácios e edifícios cerimoniais. A sua construção teve início em 1782 por ordem do rei Rama I, fundador da dinastia Chakri, quando a capital do reino foi transferida para Bangkok. Durante cerca de século e meio, este espaço funcionou como residência oficial dos reis da Tailândia e como centro político e administrativo do país. Atualmente, a família real já não reside no complexo, mas alguns edifícios - como o Chakri Maha Prasat, o Palácio Real, marcado por influências arquitetónicas europeias - continuam a ser utilizados em cerimónias oficiais, mantendo-se como um poderoso símbolo da história, da espiritualidade e da identidade cultural tailandesa.
Wat Phra Kaew
No coração do Grande Palácio de Bangkok, ergue-se um dos espaços espirituais mais reverenciados da Tailândia: o Wat Phra Kaew, um conjunto de templos no qual se encontra uma capela que é conhecida como o Templo do Buda de Esmeralda.
A arquitetura do complexo envolve-nos numa atmosfera de contemplação, pelos vários edifícios ornamentados, onde se destacam os telhados escalonados com múltiplas camadas, rematados por chofahs (elementos decorativos em forma de uma ave mítica), e superfícies revestidas a dourados, vidros e mosaicos coloridos.
Um dos principais edifícios do Wat Phra Kaew é a capela, ou Ubosot, a sala de ordenação que guarda o sagrado Buda de Esmeralda.
Deixámos os sapatos à porta e entrámos descalços nesta capela, onde ficámos sentados no chão, algum tempo e em silêncio, permitindo que o ritmo abrandasse, num processo que talvez possa ser de meditação, se assim o conseguirmos, ou talvez seja apenas uma tentativa de escutar o que um lugar como este tem para revelar.
Neste espaço somos atraídos para a figura que domina a capela, o Buda de Esmeralda, a estátua mais sagrada da Tailândia, feita de jade verde e considerada como um símbolo espiritual e protetor do país… com as suas vestes que são mudadas pelo rei em função das estações do ano.
Apesar da multidão que enchia o templo, o silêncio impunha-se com naturalidade. No ar pairava uma gravidade serena, mas densa, como se aquele espaço guardasse séculos de devoção. Ali, a presença da espiritualidade sente-se com um peso profundo, que convida ao recolhimento e à contemplação.
O complexo do Wat Phra Kaew revela uma riqueza impressionante, onde cada detalhe parece convidar a uma pausa e a um olhar mais atento. Entre os muitos elementos que o compõem, neste espaço sagrado encontram-se estruturas marcantes como o Royal Pantheon, o Phra Mondop, o dourado Phra Sri Rattana Chedi e as imponentes figuras de Thotsakan. Nomes que soam estranhos ao nosso ouvido ocidental, mas que correspondem a templos e esculturas carregados de simbolismo, formando um conjunto arquitetónico de extraordinária beleza e significado.
O Royal Pantheon é um templo construído no século XIX para homenagear os reis da Dinastia Chakri. No seu interior encontram-se estátuas que representam vários monarcas tailandeses, embora o espaço só seja aberto ao público em ocasiões especiais. Ainda assim, mesmo visto apenas por fora, o edifício impressiona pela riqueza e elegância das suas fachadas, com colunas douradas e forradas a cerâmico decorativo que, por si só, já valorizam suficientemente este templo.
O Phra Mondop é uma espécie de biblioteca que guarda textos sagrados budistas, mas que se impõe sobretudo pela extraordinária beleza das suas fachadas. Revestido por delicados mosaicos de vidro verde e dourado, o templo reflete a luz tropical e parece brilhar a cada mudança do sol. As colunas esguias, os padrões minuciosos e os ornamentos dourados criam uma composição de grande harmonia e riqueza visual, transformando o edifício numa verdadeira joia arquitetónica.
O Phra Sri Rattana Chedi é o chamado pagode dourado. Construído no século XIX, guarda relíquias de Buda e destaca-se pelo seu revestimento totalmente dourado e pela sua importância religiosa dentro do templo.
Os Thotsakan são uns gigantes guardiães que se encontram à entrada de alguns templos na Tailândia, e encontramos dois deles neste complexo. Na mitologia, é basicamente um rei-demónio, mas que foi “promovido” a segurança dos templos. Fica ali, imponente e com cara de poucos amigos, para afastar os maus espíritos. E cumpre bem esse papel: é quase como ter um segurança de discoteca mitológico à porta do templo, só que com muito mais estilo.
Nos Jardins do Grande Palácio podem ser encontradas inúmeras outras construções e esculturas, quase sempre de inspiração religiosa e espiritual. Estas obras, cuidadosamente espalhadas pelo espaço, transformam toda a área num ambiente mágico e envolvente, onde a arte e a devoção se fundem de forma harmoniosa.
De volta ao grandioso do palácio real, logo ao lado, ergue-se mais um santuário, o Dusit Maha Prasat Throne Hall. Naquele espaço sagrado, o silêncio e a reverência envolviam o ambiente que não pudemos visitar, com o corpo da rainha-mãe, que ali repousava em câmara ardente, após o seu falecimento em outubro de 2025, aguardando as cerimónias derradeiras.
Ao nos despedirmos do palácio, os nossos olhos retêm ainda uma imagem final do Wat Phra Kaew, com os seus contornos quase divinos de tão bonitos, um tesouro de beleza e serenidade que ficará gravado nas nossas memórias.
Seguimos depois para um outro templo, o Wat Pho, que fica a cerca de 800 metros, pelo que nos levaram num autocarro de carreira pública, evitando a caminhada, que pode parecer curta, mas com o calor húmido que se fazia sentir, seria certamente bastante dificil.
Wat Pho
No templo de Wat Pho sentimos um ritmo diferente daquele que pulsa na cidade que o rodeia. Assim que atravessamos os seus portões, o tempo parece abrandar e começamos por anunciar a nossa chegada, batendo suavemente num gongo - que emite um som grave e profundo que se espalha pelo ar - sinalizando que ali estamos e que chegámos em paz. É um gesto simples muito antigo, eco de rituais praticados por povos ancestrais que, da mesma forma, marcavam a sua presença com respeito e reverência.
Nos pátios de pedra e jardins silenciosos, o lugar convida mais à contemplação do que à pressa. O complexo é vasto, pontuado por chedis revestidos de mosaicos coloridos, estátuas guardiãs e galerias onde fileiras de budas dourados que observam o mundo com serenidade. O som distante de sinos e o murmúrio dos visitantes misturam-se com o cheiro suave de incenso, criando uma atmosfera de calma quase meditativa.
No interior do templo principal repousa a sua figura mais célebre, o gigantesco Reclining Buddha (que é o significado de Wat Pho). A estátua representa o Buda no momento da passagem para o nirvana, deitado de lado, sereno, com uma expressão que parece suspensa entre o descanso e a eternidade… o budismo tem esta cultura do ócio como forma de vida, o que me agrada bastante.
Com cerca de 46 metros de comprimento, o corpo dourado ocupa quase todo o espaço do pavilhão, obrigando-nos a percorrê-lo lentamente ao longo do seu corpo, entre a cabeça e os seus pés, que estão decorados com madrepérola.
Mas o Wat Pho não é apenas a casa deste Buda monumental. O templo é também um dos mais antigos e importantes centros espirituais de Bangkok, conhecido pela sua tradição de estudo, pelas escolas de massagem tailandesa e pelos inúmeros pequenos santuários. Caminhar pelos seus claustros é descobrir pequenos detalhes: tigelas onde moedas tilintam suavemente e são alimentadas pelos crentes, pátios escondidos com estátuas de pedra e sombras frescas onde monges permanecem em silêncio.
Falando de monges - aqueles budistas de cabeça rapada e vestimentas cor de laranja, conhecidas por Kasaya - parece que esses respeitáveis senhores não podem ver uma mulher de mini-saia ou com os ombros à mostra que, aparentemente, a iluminação espiritual fica logo em risco. Para evitar dramas místicos, decretaram então que as mulheres têm de entrar compostinhas: ombros tapados e calças ou saias que cubram os joelhos. Curiosamente, os homens podem aparecer de calções que não há problema nenhum - sinal de que, pelos vistos, a tentação funciona de forma bastante seletiva. Ridículo? Talvez. Mas quando estamos em casa dos outros, temos de aceitar as regras da casa.
Já no Grande Palácio a coisa é mais democrática: ali também os homens têm de vestir calças. Nós já sabíamos disso e fui prevenido, vestido de calças como se fosse para o escritório. Só que, com o calor e a humidade da Tailândia, a experiência aproxima-se mais de uma sauna ambulante do que de um passeio turístico. Quem não estava preparado teve de resolver o problema à entrada, onde oportunos vendedores disponibilizam calças para compra, a preços bem mais elevados do que é habitual na capital tailandesa. Por isso, é normal ver turistas a passear pelo palácio vestidos com umas calças largueironas, normalmente decoradas com padrões de elefantes espalhafatosos que fazem lembrar alguns cortinados dos anos 70.
Voltando à visita do templo de Wat Pho, deixamos por momentos o gigantesco Reclining Buddha, que continua o seu repouso eterno, e caminhamos pelos restantes espaços do complexo. Uma das paragens mais marcantes é a galeria Phra Rabiang, onde surgem alinhadas várias estátuas de Buda provenientes de diversas regiões da Tailândia. As figuras douradas repetem-se numa cadência quase hipnótica, todas exibindo o gesto conhecido como Bhumisparsha Mudra - o momento simbólico em que Buda toca a terra e a invoca como testemunha da sua iluminação.
Muitas destas esculturas foram reunidas aqui durante o reinado de Rama I, trazidas de antigas capitais históricas como Ayutthaya e Sukhothai. Hoje permanecem lado a lado, como guardiãs silenciosas de diferentes épocas da arte e da espiritualidade tailandesas.
Ao percorrer o corredor, entre o brilho do ouro, a repetição das formas e a quietude do espaço, sente-se a dimensão espiritual e monumental deste antigo complexo de templos.
Por todo o interior de Wat Pho, entre pátios tranquilos e caminhos de pedra aquecidos pelo sol de Bangkok, erguem-se os imensos Chedis. As suas superfícies estão revestidas por delicados fragmentos de porcelana e vidro que, ao refletirem a luz, fazem a pedra parecer quase viva. De perto, revelam um intricado mundo de flores, padrões e cores; ao longe, surgem como grandes joias pousadas no silêncio do templo. Entre o brilho dos mosaicos e a quietude do espaço sagrado, estes chedis parecem guardar não apenas relíquias, mas também uma profunda sensação de harmonia.
No final deste templo fizemos uma pausa num dos mercados de street food que nos restituiu o ânimo para continuar este dia tão intenso. Entre as opções de água de coco ou algumas frutas, como manga, melancia ou ananás, já previamente descascadas, lá subimos os níveis de açúcar e ganhámos força para continuar.
Wat Arun
Desta vez levaram-nos até ao barco e atravessámos o rio Chao Phraya para a margem Oeste, onde se encontra o Wat Arun.
Durante a travessia já se mostra a imponência do Thonburi Prang, adornado com porcelana colorida, e que domina esta margem do rio, como já tínhamos constatado na noite anterior em que fizemos um passeio de barco passando por esta zona, e este monumento se destacava na paisagem completamente iluminado.
Num templo da Tailândia, um Prang é uma torre alta e estreita, de inspiração na arquitetura do antigo Império Khmer, e que, normalmente ocupa uma posição central nestes complexos religiosos. A sua forma simboliza o mítico Monte Meru, considerado o centro do universo no budismo e hinduísmo.
Entrando no complexo, depois de pagarmos o bilhete de acesso, dirigimo-nos a um dos templos menores, onde nos deparamos com os famosos Giants of Wat Chaeng. Estes gigantes de pedra, com os braços cruzados e expressões carrancudas, parecem levar a sério a tarefa de vigiar o templo, mas de um jeito quase engraçado, como se estivessem prestes a resmungar com qualquer turista desajeitado que chegue perto demais.
Cobertos de cores e padrões que brilham ao sol, parecem equilibrar reverência e humor: protetores ancestrais de um lado e quase bonecos de decoração, meio-apalhaçados, do outro.
Mas o verdadeiro coração do Wat Arun é o seu prang central, e foi ali que nos demorámos mais tempo, quase rendidos à sua presença. Subindo ao primeiro nível, não se contempla apenas a grandiosidade desta torre esguia e ornamentada, mas também se abre diante de nós uma vista que abraça todo o templo e os seus detalhes: os pátios, os mosaicos, os pequenos chedis e a calma do rio que desliza ao longe, como se todo o complexo respirasse em perfeita harmonia.
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Terminámos aqui esta visita aos templos, intensa e quase mágica, numa verdadeira viagem pela história. Ao deixarmos para trás o Grande Palácio, o Wat Pho e o Wat Arun, ficou a sensação de termos percorrido não apenas três complexos monumentais, mas também três capítulos essenciais de uma mesma narrativa. Entre o brilho dourado dos pavilhões do palácio, a serenidade contemplativa do Buda reclinado de Wat Pho e a elegância do prang de Wat Arun, fomos atravessando paisagens onde a espiritualidade, a arte e a história parecem entrelaçar-se naturalmente. Cada templo revelou o seu próprio ritmo: o esplendor quase teatral do palácio, o silêncio meditativo de Wat Pho e a presença luminosa de Wat Arun, erguendo-se junto ao Rio Chao Phraya como um farol de pedra que domina aquela margem.
No final, mais do que imagens ou monumentos, levámos connosco uma sensação de harmonia, como se, por algumas horas, tivéssemos caminhado por um lugar onde o tempo recua e a beleza serve de ponte entre o mundo terreno e algo que pressentimos um pouco mais elevado.
Khao San Road
Voltando à margem Leste do Rio Chao Phraya, ficámos agora entregues ao nosso próprio ritmo. Apanhámos um tuk-tuk e seguimos até a uma das ruas mais conhecidas desta zona de Bangkok, a animada Khao San Road.
Na verdade, esta rua vive em conjunto com a paralela Rambuttri Road, e entre as duas forma-se um pequeno universo vibrante. O ar enche-se de aromas de street food que saem das bancas espalhadas pelos passeios, misturados com o ambiente descontraído de restaurantes de aspeto convidativo, muitos com esplanadas bem decoradas. Pelo meio, surgem também inúmeras lojas onde se vendem as inevitáveis marcas “pirata”, muitas vezes a preços tão baixos que se tornam bastante apelativas.
Foi por ali que passámos as horas seguintes, sem grande pressa, entre bancas, lojas e restaurantes, onde almoçámos tranquilamente e acabámos por sair carregados com uma coleção considerável de artigos de marca - ou, pelo menos, de algo que se parecia bastante com essas marcas - sempre negociados a preços bastante interessantes.
Estas ruas ganham um maior frenesim durante a noite, pois são uma espécie de night market, mas, durante a tarde, embora menos agitadas, não deixam de ser interessantes.
A rua é famosa pela energia que revela, sobretudo à noite, com os vendedores ambulantes e os mercados noturnos, com incontáveis bancas de street food para todos os gostos. Aqui encontram-se também aqueles petiscos exóticos, como escorpiões, crocodilo, cobras, lagartas e escaravelhos… não experimentámos, mas não por falta de coragem, é só que os fritos nos fazem mal.
Como ainda era o nosso segundo dia em Bangkok, não arriscámos a comida de rua e preferimos um dos restaurantes, quase todos com ótimo aspeto, que se encontram nestas duas ruas.
Uma das atrações que aqui são oferecidas são as casas de massagens, que são bastante procuradas pelos turistas, e que aqui, ocupam os passeios com as espreguiçadeiras onde as massagens serão feitas. Também não quisemos alinhar, guardaríamos para a experiência para outro dia num SPA que nos foi referenciado.
Voltando às compras, este acabou por ser o melhor local que encontrámos na Tailândia para comprar as marcas que procurávamos (com menos oferta do que em Krabi, mas com preços mais baratos).
O resultado foi o que se esperava, várias mochilas da North Face, diversos pares de ténis Adidas e New Balance, e ainda alguns outros artigos de diferentes marcas que acabámos por comprar, de forma quase descontrolada… reconheço. Felizmente tínhamos levado um saco de viagem extra para precaver essa circunstância e usarmos nos voos de regresso.
Regressámos num daqueles autocarros clássicos - clássicos no sentido em que já devem ter visto mais história do que muitos museus - e que nos levou até à zona do hotel, na rua Si Lom, numa autêntica aventura turística… não oficialmente incluída no programa. Estas relíquias sobre rodas fazem parte do imenso caos - curiosamente harmonioso - que caracteriza as ruas da capital tailandesa. Tudo parece prestes a colapsar, mas, de alguma forma, tudo funciona. Uma espécie de milagre urbano diário.
O mesmo caos também se aplica aos cabos elétricos e de telecomunicações, que encontramos por todo o lado, e que repousam elegantemente sobre os postes em sofisticados novelos de engenharia improvisada. Estarão sempre muito bem organizados, transmitindo-nos aquela reconfortante sensação de que, seguramente, não haverá qualquer curto-circuito… ou, se houver, fará parte do espetáculo.
Para fechar um dia super-intenso, tínhamos agendada uma subida ao edifício Sirocco Sky Bar, já perto do hotel, para tomar uma bebida e apreciar uma das grandes atrações da noite de Bangkok: a peregrinação turística aos rooftops dos edifícios mais altos.
O Sirocco é uma referência da cidade – sobretudo por ter aparecido no filme The Hangover Part II - embora, sejamos honestos, a vista não seja propriamente daquelas que nos deixem espantados. Penso que o miradouro do King Power Mahanakhon, o edifício mais alto da cidade, deverá oferecer uma experiência mais interessante… mas até a vista do nosso quarto de hotel não era pior do que esta.
Lá em cima encontrámos o cenário esperado: bar elegante, bebidas caríssimas, uma vista algo limitada, para além da imagem sobre o restaurante com a cúpula dourada que caracteriza o local. E até o tempo de permanência, que também era limitado, simpaticamente controlado - meia hora para quem vinha só beber um copo - mais tempo apenas para quem fosse jantar. Mas, tendo em conta os preços do restaurante, confesso que preferia regressar à rua e investir num belo prato de escaravelhos fritos.
Assim, cumprimos o ritual: bebemos a nossa bebida, tirámos as fotos possíveis, descemos novamente à realidade e fomos jantar a preços normais.