Bangkok foi a nossa porta de entrada na Tailândia e revelou-se, desde o primeiro instante, bastante intensa, luminosa e cheia de contrastes. O primeiro impacto chega pelos sentidos: o calor húmido e pegajoso do ar, os aromas da comida de rua misturados, por vezes, com o odor fétido do lixo. Depois, surgem o dourado brilhante dos templos, que quase encandeia, e o movimento incessante das ruas, numa confusão permanente de trânsito - carros, motos e tuk-tuks que se cruzam numa coreografia caótica, mas curiosamente funcional. No meio deste aparente caos, a cidade pulsa com uma energia única. Entre tradição e modernidade, mercados animados e templos silenciosos, fomos entrando lentamente no ritmo de Bangkok, abrindo assim a porta para a descoberta deste país fascinante.
Tínhamos marcado alguns tours pelo GetYourGuide, mas deixámos também algum tempo para explorarmos a cidade de forma livre, ao sabor daquilo que íamos encontrando. No final, visitámos os locais assinalados no mapa seguinte, representados por cores distintas para cada um dos três dias de visita (já que o quarto dia foi reservado para uma visita a uns mercados a sul da capital tailandesa de que falarei noutra crónica).
Mas ainda antes do primeiro dia, ou seja, no final da tarde em que chegámos à cidade, e apesar do cansaço da viagem e da baralhação do fuso horário (7 horas, nesta altura do ano), partimos logo à descoberta da cidade e fizemos um passeio noturno pelo rio.
Cruzeiro pelo Rio Chao Phraya
Tínhamos uma reserva para um dos muitos cruzeiros noturnos que percorrem o rio e que partem do chamado Asiatique Riverfront. O percurso atravessa grande parte da cidade e passa também pela zona dos templos, oferecendo uma perspetiva muito especial de Bangkok iluminada.
Existem opções de saídas que apanham o pôr-do-sol e outras que acontecem já à noite, normalmente com jantar incluído. Optámos pelo pacote completo e tivemos assim uma primeira amostra bastante generosa da gastronomia local.
Ainda a caminho do Riverfront apanhámos o barco de carreira pública, e foi esse o nosso primeiro contacto com a cidade e com a sua vivência eletrizante. Foi também nesse momento que começámos a perceber como Bangkok se constrói de contrastes: entre o mais tradicional e o mais moderno, aqui representado pelos arranha-céus que surgem ao longo das margens.
Chegámos então ao Asiatique Riverfront, um animado e muito interessante mercado noturno à beira-rio, que combina lojas, restaurantes e entretenimento, ao estilo de um parque de diversões. Instalado em antigos armazéns portuários recuperados, é hoje um dos pontos de encontro mais populares de Bangkok e local de partida de muitos cruzeiros no rio.
Este espaço é animado e oferece sempre belas paisagens do rio, primeiro com as cores do entardecer e, mais tarde, já totalmente iluminados.
Saímos depois no cruzeiro noturno que segue pelo rio Chao Phraya, numa experiência muito agradável que nos permite observar a cidade sob uma outra perspetiva. Aqui, em pleno rio, o movimento intenso das ruas dá lugar a uma navegação tranquila, enquanto as luzes da cidade se refletem na água e revelam alguns dos templos e monumentos mais emblemáticos iluminados.
Durante o percurso é servido um jantar buffet com vários pratos típicos da gastronomia tailandesa, que permite provar diferentes sabores locais num ambiente descontraído. Enquanto se janta, há música ao vivo a acompanhar a viagem (bastante foleira, diga-se) e, em determinados momentos, surgem pequenas apresentações de danças tradicionais tailandesas que acrescentam um toque cultural à noite… para quem gosta do estilo.
O resultado é uma experiência que combina gastronomia, cultura e paisagem urbana, transformando o cruzeiro numa forma muito especial de descobrir Bangkok ao cair da noite - e também de abrir o apetite para o que ainda estava por vir nos dias seguintes.
O barco inverte a marcha quando chegamos à ponte Rama VIII, uma ponte moderna que recebeu o nome do avô do atual rei da Tailândia.
No regresso voltamos a observar os monumentos iluminados, agora a partir da margem oposta, e passamos também junto a um dos principais centros comerciais da cidade, o IconSiam.
Ao regressarmos ao Asiatique Riverfront, o espaço estava ainda mais animado do que quando tínhamos partido. As luzes refletiam-se no rio, a música misturava-se com o burburinho das pessoas e o ambiente parecia ter ganhado uma nova energia ao longo da noite. Ficámos por ali mais algum tempo, simplesmente a absorver o momento.
Mas o cansaço começava finalmente a impor-se. Tínhamos no corpo quase 12 horas divididas em dois voos, várias horas passadas em aeroportos e uma diferença de fuso horário de sete horas. Tinham sido um ou dois dias muito intensos - daqueles que parecem esticar o tempo - mas que, paradoxalmente, nos deixavam com uma sensação profunda de felicidade e de expectativa pelo que ainda estava por vir.
Terminámos o dia a regressar ao hotel num dos meios de transporte mais típicos de Bangkok: um Tuk Tuk. Não é propriamente o mais barato, mas é seguramente o mais divertido, especialmente à noite, quando os néons se acendem e o driver decide que está a participar num rali improvisado no meio do trânsito caótico da cidade.
Dia 1 em Bangkok (8 de fevereiro)
Neste dia tínhamos uma reserva para visitar uma série de templos, pelo que nos deslocámos até ao porto mais próximo do hotel, o Sathorn Pier e apanhámos um barco até ao Tha Chang Pier, já próximo do ponto de encontro para o percurso reservado.
O Grande Palácio
A visita ao Grande Palácio de Bangkok é um dos momentos mais marcantes de uma viagem à capital tailandesa. O conjunto impressiona tanto pela exuberância da arquitetura como pelo profundo significado histórico ligado à monarquia do país. No interior do complexo encontra-se um conjunto religioso, o Wat Phra Kaew, onde é guardado o Buda de Esmeralda, considerado o objeto religioso mais sagrado da Tailândia.
O tour que reservámos para este dia incluía, além do Grande Palácio, a visita a dois outros templos emblemáticos de Bangkok: o Wat Pho e o Wat Arun. Pagámos antecipadamente cerca de 20€ por pessoa, valor que incluía o guia, os trajetos entre os diferentes locais - realizados de autocarro e numa curta travessia de barco - e ainda uma pequena pausa com uma garrafa de água e uma água de coco. As entradas nos templos não estavam incluídas e foram pagas no local, num total de cerca de 1000 baht (aproximadamente 25€ por pessoa). No conjunto, pareceu-nos um preço bastante justo para uma experiência tão completa, que se prolongou por cerca de cinco horas.
O percurso começou precisamente pelo Grande Palácio, com um vasto conjunto de pátios, templos, palácios e edifícios cerimoniais. A sua construção teve início em 1782 por ordem do rei Rama I, fundador da dinastia Chakri, quando a capital do reino foi transferida para Bangkok. Durante cerca de século e meio, este espaço funcionou como residência oficial dos reis da Tailândia e como centro político e administrativo do país. Atualmente, a família real já não reside no complexo, mas alguns edifícios - como o Chakri Maha Prasat, o Palácio Real, marcado por influências arquitetónicas europeias - continuam a ser utilizados em cerimónias oficiais, mantendo-se como um poderoso símbolo da história, da espiritualidade e da identidade cultural tailandesa.
Wat Phra Kaew
No coração do Grande Palácio de Bangkok, ergue-se um dos espaços espirituais mais reverenciados da Tailândia: o Wat Phra Kaew, um conjunto de templos no qual se encontra uma capela que é conhecida como o Templo do Buda de Esmeralda.
A arquitetura do complexo envolve-nos numa atmosfera de contemplação, pelos vários edifícios ornamentados, onde se destacam os telhados escalonados com múltiplas camadas, rematados por chofahs (elementos decorativos em forma de uma ave mítica), e superfícies revestidas a dourados, vidros e mosaicos coloridos.
Um dos principais edifícios do Wat Phra Kaew é a capela, ou Ubosot, a sala de ordenação que guarda o sagrado Buda de Esmeralda.
Deixámos os sapatos à porta e entrámos descalços nesta capela, onde ficámos sentados no chão, algum tempo e em silêncio, permitindo que o ritmo abrandasse, num processo que talvez possa ser de meditação, se assim o conseguirmos, ou talvez seja apenas uma tentativa de escutar o que um lugar como este tem para revelar.
Neste espaço somos atraídos para a figura que domina a capela, o Buda de Esmeralda, a estátua mais sagrada da Tailândia, feita de jade verde e considerada como um símbolo espiritual e protetor do país… com as suas vestes que são mudadas pelo rei em função das estações do ano.
Apesar da multidão que enchia o templo, o silêncio impunha-se com naturalidade. No ar pairava uma gravidade serena, mas densa, como se aquele espaço guardasse séculos de devoção. Ali, a presença da espiritualidade sente-se com um peso profundo, que convida ao recolhimento e à contemplação.
O complexo do Wat Phra Kaew revela uma riqueza impressionante, onde cada detalhe parece convidar a uma pausa e a um olhar mais atento. Entre os muitos elementos que o compõem, neste espaço sagrado encontram-se estruturas marcantes como o Royal Pantheon, o Phra Mondop, o dourado Phra Sri Rattana Chedi e as imponentes figuras de Thotsakan. Nomes que soam estranhos ao nosso ouvido ocidental, mas que correspondem a templos e esculturas carregados de simbolismo, formando um conjunto arquitetónico de extraordinária beleza e significado.
O Royal Pantheon é um templo construído no século XIX para homenagear os reis da Dinastia Chakri. No seu interior encontram-se estátuas que representam vários monarcas tailandeses, embora o espaço só seja aberto ao público em ocasiões especiais. Ainda assim, mesmo visto apenas por fora, o edifício impressiona pela riqueza e elegância das suas fachadas, com colunas douradas e forradas a cerâmico decorativo que, por si só, já valorizam suficientemente este templo.
O Phra Mondop é uma espécie de biblioteca que guarda textos sagrados budistas, mas que se impõe sobretudo pela extraordinária beleza das suas fachadas. Revestido por delicados mosaicos de vidro verde e dourado, o templo reflete a luz tropical e parece brilhar a cada mudança do sol. As colunas esguias, os padrões minuciosos e os ornamentos dourados criam uma composição de grande harmonia e riqueza visual, transformando o edifício numa verdadeira joia arquitetónica.
O Phra Sri Rattana Chedi é o chamado pagode dourado. Construído no século XIX, guarda relíquias de Buda e destaca-se pelo seu revestimento totalmente dourado e pela sua importância religiosa dentro do templo.
Os Thotsakan são uns gigantes guardiões que surgem à entrada de alguns templos na Tailândia, e encontramos dois deles neste complexo. Na mitologia, é basicamente um rei-demónio, mas que foi “promovido” a segurança dos templos. Fica ali, imponente e com cara de poucos amigos, para afastar os maus espíritos. E cumpre bem esse papel: é quase como ter um segurança de discoteca mitológico à porta do templo, só que com muito mais estilo.
Nos Jardins do Grande Palácio podem ser encontradas inúmeras outras construções e esculturas, quase sempre de inspiração religiosa e espiritual. Estas obras, cuidadosamente espalhadas pelo espaço, transformam toda a área num ambiente mágico e envolvente, onde a arte e a devoção se fundem de forma harmoniosa.
De volta ao grandioso do palácio real, logo ao lado, ergue-se mais um santuário, o Dusit Maha Prasat Throne Hall. Naquele espaço sagrado, o silêncio e a reverência envolviam o ambiente que não pudemos visitar, com o corpo da rainha-mãe, que ali repousava em câmara ardente, após o seu falecimento em outubro de 2025, aguardando as cerimónias derradeiras.
Ao nos despedirmos do palácio, os nossos olhos retêm ainda uma imagem final do Wat Phra Kaew, com os seus contornos quase divinos de tão bonitos, um tesouro de beleza e serenidade que ficará gravado na memória.
Seguimos depois para um outro templo, o Wat Pho, que fica a cerca de 800 metros, pelo que nos levaram num autocarro de carreira pública, evitando a caminhada, que pode parecer curta, mas com o calor húmido que se fazia sentir, seria certamente bastante dura.
Wat Pho
No templo de Wat Pho sentimos um ritmo diferente daquele que pulsa na cidade que o rodeia. Assim que atravessamos os seus portões, o tempo parece abrandar e começamos por anunciar a nossa chegada, batendo suavemente num gongo - que emite um som grave e profundo que se espalha pelo ar - sinalizando que ali estamos e que viemos em paz. É um gesto simples muito antigo, eco de rituais praticados por povos ancestrais que, da mesma forma, marcavam a sua presença com respeito e veneração.
Nos pátios de pedra e jardins silenciosos, o lugar convida mais à contemplação do que à pressa. O complexo é vasto, pontuado por chedis revestidos de mosaicos coloridos, estátuas guardiãs e galerias com fileiras de budas dourados que observam o mundo com serenidade. O som distante de sinos e o murmúrio dos visitantes misturam-se com o cheiro suave de incenso, criando uma atmosfera de calma quase meditativa.
No interior do templo principal repousa a sua figura mais célebre, o gigantesco Reclining Buddha (que é o significado de Wat Pho). A estátua representa o Buda no momento da passagem para o nirvana, deitado de lado, sereno, com uma expressão que parece suspensa entre o descanso e a eternidade… o budismo tem esta cultura do ócio como forma de vida, o que me agrada particularmente.
Com cerca de 46 metros de comprimento, o corpo dourado ocupa quase todo o espaço do pavilhão, obrigando-nos a percorrê-lo lentamente, entre a cabeça e os seus pés, que estão decorados com motivos em madrepérola.
Mas o Wat Pho não é apenas a casa deste Buda monumental. O templo é também um dos mais antigos e importantes centros espirituais de Bangkok, conhecido pela sua tradição de estudo, pelas escolas de massagem tailandesa e pelos vários santuários. Caminhar pelos seus claustros é descobrir pequenos detalhes: tigelas onde moedas tilintam suavemente e são alimentadas pelos crentes, pátios escondidos com estátuas de pedra e sombras frescas onde monges aproveitam para repousar em silêncio.
Falando de monges - aqueles budistas de cabeça rapada e vestimentas cor de laranja, conhecidas por Kasaya - parece que esses respeitáveis senhores não podem ver uma mulher de mini-saia ou com os ombros à mostra que, aparentemente, a iluminação espiritual fica logo em risco. Para evitar dramas místicos, decretaram então que as mulheres têm de entrar compostinhas: ombros tapados e calças ou saias que cubram os joelhos. Curiosamente, os homens podem aparecer de calções que não há problema nenhum - sinal de que, pelos vistos, a tentação funciona de forma bastante seletiva. Ridículo? Certamente. Mas quando estamos em casa dos outros, temos mesmo de aceitar as regras.
Já no Grande Palácio a coisa é mais democrática: ali também os homens têm de vestir calças. Nós já sabíamos disso e fui prevenido, vestido de calças como se fosse para o escritório. Só que, com o calor e a humidade da Tailândia, a experiência aproxima-se mais de uma sauna ambulante do que de um passeio turístico. Quem não estava preparado teve de resolver o problema à entrada, onde oportunos vendedores disponibilizam calças para compra, a preços bem mais elevados do que é habitual na capital tailandesa. Por isso, é normal ver turistas a passear pelo palácio vestidos com umas calças largueironas, normalmente decoradas com padrões de elefantes espalhafatosos que fazem lembrar alguns cortinados dos anos 70.
Voltando à visita do templo de Wat Pho, deixamos por momentos o gigantesco Reclining Buddha, que continua o seu repouso eterno, e caminhamos pelos restantes espaços do complexo. Uma das paragens mais marcantes é a galeria Phra Rabiang, onde surgem alinhadas várias estátuas de Buda provenientes de diversas regiões da Tailândia. As figuras douradas repetem-se numa cadência quase hipnótica, todas exibindo o gesto conhecido como Bhumisparsha Mudra - o momento simbólico em que Buda toca a terra e a invoca como testemunha da sua iluminação.
Muitas destas esculturas foram reunidas aqui durante o reinado de Rama I, trazidas de antigas capitais históricas como Ayutthaya e Sukhothai. Hoje permanecem lado a lado, como guardiãs silenciosas de diferentes épocas da arte e da espiritualidade tailandesas.
Ao percorrer o corredor, entre o brilho do ouro, a repetição das formas e a quietude do espaço, sente-se a dimensão espiritual e monumental deste antigo complexo de templos.
Por todo o interior de Wat Pho, entre pátios tranquilos e caminhos de pedra aquecidos pelo sol de Bangkok, erguem-se os imensos Chedis. As suas superfícies estão revestidas por delicados fragmentos de porcelana e vidro que, ao refletirem a luz, fazem a pedra parecer quase viva. De perto, revelam um intricado mundo de flores, padrões e cores; ao longe, surgem como grandes joias pousadas no silêncio do templo.
No final deste templo fizemos uma pausa num dos mercados de street food que nos restituiu o ânimo para continuar este dia tão intenso. Entre as opções de água de coco ou algumas frutas, como manga, melancia ou ananás, já previamente descascadas, lá subimos os níveis de açúcar e ganhámos força para continuar.
Wat Arun
Desta vez levaram-nos até ao barco e atravessámos o rio Chao Phraya para a margem Oeste, onde se encontra o Wat Arun.
Durante a travessia já se mostra a imponência do Thonburi Prang, adornado com porcelana colorida, e que domina esta margem do rio, como já tínhamos constatado na noite anterior, quando fizemos um passeio de barco passando por esta zona, e este monumento se destacava na paisagem completamente iluminado.
Num templo da Tailândia, um Prang é uma torre alta e estreita, de inspiração na arquitetura do antigo Império Khmer, e que, normalmente, ocupa uma posição central nestes complexos religiosos. A sua forma simboliza o mítico Monte Meru, considerado o centro do universo no budismo e hinduísmo.
Entrando no complexo, depois de pagarmos o bilhete de acesso, dirigimo-nos a um dos templos menores, onde nos deparamos com os famosos Giants of Wat Chaeng. Estes gigantes de pedra com expressões carrancudas, parecem levar a sério a tarefa de vigiar o templo, mas de um jeito quase engraçado, como se estivessem prestes a resmungar com qualquer turista desajeitado que chegue perto demais.
Cobertos de cores e padrões que brilham ao sol, parecem equilibrar reverência e humor: protetores ancestrais de um lado e quase bonecos de decoração, meio-apalhaçados, do outro.
Mas o verdadeiro coração do Wat Arun é o seu prang central, e foi ali que nos demorámos mais tempo, quase rendidos à sua presença. Subindo ao primeiro nível, não se contempla apenas a grandiosidade desta torre esguia e ornamentada, mas também se abre diante de nós uma vista que abraça todo o templo e os seus detalhes: os pátios, os mosaicos, os pequenos chedis e a calma do rio que desliza ao longe.
.jpg)
Terminámos aqui esta visita aos templos, intensa e quase mágica, numa verdadeira viagem pela história. Ao deixarmos para trás o Grande Palácio, o Wat Pho e o Wat Arun, ficou a sensação de termos percorrido não apenas três complexos monumentais, mas também três capítulos essenciais de uma mesma narrativa. Entre o brilho dourado dos pavilhões do palácio, a serenidade contemplativa do Buda reclinado de Wat Pho e a elegância do prang de Wat Arun, fomos atravessando paisagens onde a espiritualidade, a arte e a história parecem entrelaçar-se naturalmente. Cada templo revelou o seu próprio ritmo: o esplendor quase teatral do palácio, o silêncio meditativo de Wat Pho e a presença luminosa de Wat Arun, erguendo-se como um farol de pedra que domina aquela margem do rio.
No final, mais do que imagens ou monumentos, levámos connosco uma sensação de harmonia, como se, por algumas horas, tivéssemos caminhado por um lugar onde o tempo recua e a beleza serve de ponte entre o mundo terreno e algo que pressentimos um pouco mais elevado.
Khao San Road
Voltando à margem Leste do Rio Chao Phraya, ficámos agora entregues ao nosso próprio ritmo. Apanhámos um tuk-tuk e seguimos até a uma das ruas mais conhecidas desta zona de Bangkok, a animada Khao San Road.
Na verdade, esta rua vive em conjunto com a paralela Rambuttri Road, e entre as duas forma-se um pequeno universo vibrante. O ar enche-se de aromas de street food que saem das bancas espalhadas pelos passeios, misturados com o ambiente descontraído de restaurantes de aspeto convidativo, muitos com esplanadas bem decoradas. Pelo meio, surgem também inúmeras lojas onde se vendem as inevitáveis marcas “pirata”, muitas vezes a preços tão baixos que se tornam bastante apelativas.
Foi por ali que passámos as horas seguintes, sem grande pressa, entre bancas, lojas e restaurantes, onde almoçámos tranquilamente e acabámos por sair carregados com uma coleção considerável de artigos de marca - ou, pelo menos, de algo que se parecia bastante com essas marcas - sempre negociados a preços simpáticos.
Estas ruas ganham um maior frenesim durante a noite, pois são uma espécie de night market, mas à tarde, embora menos agitadas, não deixam de ser interessantes.
A rua é famosa pela energia que revela, uma vez mais, sobretudo à noite, com os vendedores ambulantes com incontáveis bancas de street food para todos os gostos. Aqui encontram-se até aqueles petiscos exóticos, como escorpiões, crocodilo, cobras, lagartas e escaravelhos… não experimentámos, mas não por falta de coragem, é só que os fritos nos fazem mal.
Como era ainda o nosso segundo dia em Bangkok, não quisemos arriscar qualquer comida de rua e preferimos um dos restaurantes que se encontram nestas duas ruas, quase todos com ótimo aspeto.
Uma das atrações que aqui são oferecidas são as casas de massagens, que são bastante procuradas pelos turistas, e que nestas ruas, ocupam os passeios com as espreguiçadeiras onde as massagens serão feitas. Também não quisemos alinhar, guardaríamos a experiência para outro dia num SPA que nos foi referenciado.
Voltando às compras, este acabou por ser o melhor local que encontrámos na Tailândia para comprar as marcas que procurávamos (com menos oferta do que em Krabi, mas com preços mais baratos).
O resultado foi o que se esperava, várias mochilas da North Face, diversos pares de ténis Adidas e New Balance, e ainda alguns outros artigos de diferentes marcas que acabámos por comprar, de forma quase descontrolada… reconheço. Felizmente tínhamos levado um saco de viagem extra para precaver essa circunstância e usarmos nos voos de regresso.
Regressámos num daqueles autocarros clássicos - clássicos no sentido em que já devem ter visto mais história do que muitos museus - e que nos levou até à zona do hotel, na rua Silom, numa autêntica aventura turística… não oficialmente incluída no programa. Estas relíquias sobre rodas fazem parte do imenso caos - curiosamente harmonioso - que caracteriza as ruas da capital tailandesa. Tudo parece prestes a colapsar, mas, de alguma forma, tudo funciona. Uma espécie de milagre urbano diário.
O mesmo caos também se aplica aos cabos elétricos e de telecomunicações, que encontramos por todo o lado, e que repousam elegantemente sobre os postes em sofisticados novelos de engenharia improvisada. Estão sempre muito bem organizados, transmitindo-nos aquela reconfortante sensação de que, seguramente, não haverá qualquer curto-circuito… ou, se houver, fará parte do espetáculo.
.jpg)
.jpg)
.JPG)
Para fechar um dia super-intenso, tínhamos agendada uma subida ao bar do edifício Sirocco, chamado de Sky Bar, para tomar uma bebida e apreciar uma das grandes atrações da noite de Bangkok... a peregrinação turística aos rooftops dos edifícios mais altos.
O Sirocco é uma referência da cidade - sobretudo por ter aparecido no filme The Hangover Part II - embora, sejamos honestos, a vista não seja propriamente daquelas que nos deixem espantados. Penso que o miradouro do King Power Mahanakhon, o edifício mais alto da cidade, deverá oferecer uma experiência mais interessante… mas até a vista do nosso quarto de hotel não era pior do que esta.
Lá em cima encontrámos o cenário esperado: bar elegante, bebidas caríssimas, uma vista algo limitada, para além da imagem sobre o restaurante com a cúpula dourada que caracteriza o local. E até o tempo de permanência, que também era limitado, simpaticamente controlado - meia hora para quem vinha só beber um copo - mais tempo apenas para quem fosse jantar. Mas, tendo em conta os preços do restaurante, confesso que preferia regressar à rua e investir num belo prato de escaravelhos fritos.
Assim, cumprimos o ritual: bebemos a nossa bebida, tirámos as fotos possíveis, descemos novamente à realidade e fomos jantar a preços normais.


Dia 2 em Bangkok (9 de fevereiro)
Neste dia partimos ainda cedo de Bangkok, a bordo de uma van que nos conduziu para Sul ao longo de cerca de 100 quilómetros. A estrada afastava-nos gradualmente do ritmo intenso da cidade e levava-nos ao encontro de dois mercados muito especiais, lugares onde a tradição tailandesa continua viva e se revela em cada banca e em cada encontro.
A crónica desta visita está guardada noutra página, que pode ser acedida através do seguinte link:
De regresso a Bangkok, já a meio da tarde, dispúnhamos ainda de algumas horas e fomos a um dos SPA's mais referenciados na cidade, pois tínhamos feito uma reserva para umas massagens tailandesas no SPA Mahanakhon Cube, da cadeia
Let's Relax, que fica no complexo do edifício mais alto de Bangkok, o King Power Mahanakhon.
Neste local encontramos um pequeno refúgio de tranquilidade que contrasta com o ritmo frenético de Bangkok. Mal se entra, o corpo parece perceber imediatamente ao que vem: luz suave, aromas relaxantes e um silêncio que nos protege do caos da cidade que se vive lá em baixo… mas nem tudo iria ser assim tão pacífico.
Mas afinal, o que é uma massagem tailandesa? Neste caso, foram duas horas de uma experiência… digamos que, bastante exigente.
Instalamo-nos, vestimos uma espécie de quimono meio sedoso, respiramos fundo e entregamo-nos ao destino. A partir daí somos atacados por mãos experientes - e, de vez em quando, também por cotovelos e joelhos - que se dedicam a encontrar e desfazer nós musculares cuja existência eu desconhecia… e que, sinceramente, estava perfeitamente disposto a deixar que ficassem onde estavam.
Entre alongamentos improváveis, pressões cirúrgicas e momentos em que suspeitei que aquilo já contava como tortura, percorreram-me o corpo inteiro com o objetivo de me levar à clássica conclusão de que: “isto dói… mas sabe muito bem”. Infelizmente, eu fiquei mais pelo nível do: “isto dói… e amanhã não me vou conseguir mexer”.
Ainda assim, milagrosamente, saímos de lá mais leves, mais direitos e com a sensação de que alguém desmontou o corpo todo, arrumou tudo no sítio certo e voltou a montar - e surpresa - sem sobrar qualquer peça.
Muito bonito, sim senhor, mas na próxima vez vou escolher uma das outras ofertas do cardápio: daquelas massagens com óleos quentes, música tranquila e sem risco de vida.
A Ana sentiu mais ou menos o mesmo que eu e, uns dias depois, já em Krabi, optámos sabiamente por massagens suaves com óleos aromáticos. Enquanto isso, a Marta decidiu voltar a marcar mais duas horas de massagem tailandesa... maluca a miúda.
Dia 3 em Bangkok (10 de fevereiro)
Neste dia estávamos por nossa conta e contávamos percorrer, a pé, de autocarro ou até alguns trechos de tuk-tuk, toda uma parte da cidade que se situa entre o famoso mercado das flores, o Pak Khlong Talat, e o bairro do Chinatown.
Percurso pelos canais da margem Oeste
Quando chegámos de barco ao porto de Yodpiman, ainda antes de avançar para a cidade, decidimos procurar um percurso que nos permitisse explorar a margem Oeste do rio através dos seus canais. Face à pressão do momento e à abordagem do vendedor, acabámos por aceitar um passeio de barco ali mesmo. O problema é que comprar na hora e na rua tem o seu preço… e neste caso foi quase 40€ por pessoa. Digamos que pagámos não só o passeio, mas também uma pequena “taxa de espontaneidade”. Fica a lição: comprar antecipadamente compensa bastante, porque os preços são bem mais simpáticos. Negociar talvez ajudasse, mas regatear preços não é exatamente o meu talento natural.
Mas já estava pago, por isso o melhor era mesmo aproveitar. Entrámos então no barco, um tipo de embarcação tradicional da Tailândia, conhecido como barco de cauda longa, com um longo eixo ligado ao motor que termina na hélice.
São muito comuns na zona de Krabi, para onde fomos alguns dias mais tarde, mas também circulam pelo rio da capital, deslizando pela água sob o olhar dos templos mais vistosos.
O motor roncou com aquele som metálico e persistente, típico dos barcos de cauda longa e, pouco depois, deixámos o movimento largo do rio para entrar nos canais da margem Oeste de Bangkok, passando por uma eclusa que nos fez chegar ao nível da água destes canais, que está abaixo do nível do rio.
Ali, a cidade muda de ritmo, o trânsito desaparece, os arranha-céus ficam para trás e, de repente, parece que atravessámos um pequeno portal para uma outra Bangkok, mais antiga e bastante típica, revelando uma forma de vida dos seus habitantes que não encontramos na margem Leste.
Os khlongs - como são chamados estes canais - serpenteiam por entre bairros onde a vida se organiza em torno da água. Nas margens surgem as casas lacustres, muitas delas de madeira, apoiadas em estacas, algumas inclinadas ou deformadas que parecem estar à beira do colapso. Em certos alpendres, roupas coloridas secam ao sol; noutros, são as plantas que ocupam toda a envolvente da casa, algumas delas em vasos que parecem viver permanentemente a poucos centímetros de uma queda acidental no canal.
A água, de um castanho assumido e sem complexos, reflete os contornos da aldeia de forma ondulada, sobretudo pela agitação causada pelas embarcações que ali passam, sempre com o motor a vibrar e com a hélice lá atrás a empurrar o barco.
Por vezes surge alguma calmia, quando os barcos param para observarmos as atrações principais, e até nos chegam a tentar vender bugigangas através de embarcações que se encostam ao nosso barco... em modo de mercado aquático.
Entre as casas que ali predominam, vão também surgindo alguns templos. Pequenos, grandes, discretos ou exuberantes, com telhados ornamentados que brilham ao sol. De vez em quando, o dourado de um chedi ou de uma estátua que surge por entre as árvores, como se estivesse a espreitar os turistas que ali passam.
E depois, de repente, ele surge inesperadamente… o enorme Buda sentado, inteiramente dourado, imponente e tranquilo, elevando-se acima das casas e por entre as copas das árvores. É impossível não nos impressionarmos. A estátua parece observar calmamente o vai-vem dos barcos, como se estivesse habituada a esta pequena romaria diária de visitantes com olhos arregalados.
Depois o barco abranda, as câmaras disparam e instala-se um breve burburinho coletivo que surge quando algo é realmente impressionante… num daqueles momentos que justificam todo o passeio.
Mas um outro momento de tensão viria ainda um pouco mais tarde… mas até lá continuámos a apreciar as chamadas palafitas, desde as mais miseráveis, até a algumas moradias com um aspeto muito razoável, de alguém que aprecia bastante viver sobre a água, sujeita, porém, a ver tudo inundado de um momento para o outro... imagino eu, a pensar nas cheias que ocorrem nestas zonas do Sudoeste asiático.
A viagem continua e, a certa altura, alguém aponta para a margem e diz qualquer coisa num tom meio alarmado e todos olham. Estendido numa das margens como quem apanha sol, surge um animal grandes, escuro e com ar pré-histórico. De longe, e com a imaginação ligeiramente estimulada, parece-nos um crocodilo.
Durante alguns segundos, instala-se uma pequena apreensão silenciosa. Alguns encolhem-se e inclinam-se para dentro do barco, imaginando o que aconteceria se as mãos estivessem perto da água.
Entretanto estes répteis começam a surgir por todo o lado, a nadar, nas margens ou à entrada dos esgotos… que nojo! Felizmente, rapidamente conseguimos ver alguns mais de perto e percebemos que não eram nada crocodilos… e soubemos depois, pelo condutor do barco, que eram os chamados lagartos-monitor, uma espécie de iguana gigante, da mesma família dos Dragões-de-Komodo, que vive nos canais da cidade (e mais tarde constatámos que são criaturas simpáticas que também aparecem nos lagos dos parques verdes). Mas ainda assim, continuam a ter um ar jurássico e vagamente assustador, apesar de não parecem particularmente interessados nos turistas.
.jpg)
O passeio prosseguiu por mais algum tempo, sempre com os outros barcos com quem nos cruzamos a acenarem, como velhos conhecidos. E vamos continuando a ver as mesmas casas lacustres, algumas bem miseráveis, algumas pontes mais exóticas e pequenas cenas da vida quotidiana. Crianças acenam das margens, monges passam pelos pátios dos templos, onde se vêm esculturas, e até um daqueles demónios dos templos que parece nos quer assustar.
Para além de podermos comtemplar esta zona típica da cidade passeando de barco através dos canais, poderíamos também chegar até ao Buda Sentado vindos de transportes públicos (são cerca de 4 km, se fosse a pé, e talvez o dobro se for de táxi ou tuk-tuk). Dessa forma teremos uma maior proximidade com o templo deste imenso Buda dourado e podemos explorar as margens dos canais onde se encontram alguns templos menores e também umas lojas e restaurantes que pudemos ver no nosso passeio, mas sem poder lá chegar.
.JPG)
.JPG)
Ao fim de cerca de duas horas e meia, regressámos ao rio principal com a sensação de termos visto algo diferente daquilo que já tínhamos conhecido. Durante este tempo deixámos para trás a cidade apressada e entrámos numa Bangkok mais silenciosa e autêntica, onde a vida se vai desenrolando ao ritmo das águas. Entre casas de madeira suspensas sobre os canais, pequenos templos dourados que surgem inesperadamente entre as árvores e pessoas que vivem o seu quotidiano com uma naturalidade tranquila, tivemos a impressão de espreitar um lado mais genuíno da cidade. Cada curva do canal revelava um novo detalhe: um quintal que termina na água, um barco que serve de mercearia ambulante, um monge a atravessar o pátio de um templo. Pequenas cenas simples que, juntas, contam muito sobre a forma como a cidade e os seus habitantes convivem com o rio.
É verdade que foi um pouco caro - muito mais do que esperávamos pagar - mas há experiências que, depois de vividas, fazem essa avaliação parecer menos importante, porque, no fim, levámos connosco algo mais valioso: a memória de uma Bangkok diferente, mais próxima, mais humana, e a sensação de termos navegado, ainda que por poucas horas, pelo coração mais autêntico da cidade.
Pak Khlong Talat - Mercado das flores
Ao regressarmos de novo à margem Leste do rio, deixaram-nos perto do templo Wat Pho, onde já tínhamos estado há dois dias, e entrámos numa zona frenética, quer pela concentração de turistas que vêm dos templos e passam pelas lojas de street food quer pela população local, que ali se movimenta em torno da proximidade do mercado das flores… o vibrante Pak Khlong Talat, o maior mercado de flores da capital tailandesa, que tem uma importância vital para todos os crentes, que ali adquirem flores frescas para fazerem as suas oferendas a Buda.
O mercado funciona 24 horas por dia e o período com mais atividade é mesmo durante a madrugada, quando chegam carregamentos vindos de várias regiões da Tailândia.
Visitar este lugar é mergulhar num cenário onde as cores, os aromas e o movimento constante criam uma experiência sensorial muito interessante. Logo que ali entramos, o primeiro impacto resulta do caos imenso e que parece totalmente descontrolado, mas também de uma abundância desmedida, com montes de rosas, crisântemos e malmequeres empilhados a granel, no chão ou em torno das bancas improvisadas, ainda sem terem sido separados e incluídos nos arranjos que, mais tarde, serão usados em oferendas religiosas.
Noutras partes do mercado encontramos já os arranjos devidamente preparados para serem levados até aos templos, onde serão depositados como oferendas ao Buda.
Mas a experiência não se limita ao edifício principal do mercado. À medida que se percorrem as ruas à volta, percebe-se que todo o bairro vive em torno das flores. Pequenas lojas e armazéns alinham-se ao longo das calçadas, com sacos cheios de pétalas, cestos de botões frescos e muitos ramos já preparados para as oferendas.
Entre os aromas doces e a azáfama dos trabalhadores, surgem momentos simples e aleatórios que compõem o quadro: uma senhora a escolher cuidadosamente flores de lótus, um jovem a transportar um enorme ramo de orquídeas ao ombro, ou um grupo de floristas a montar coroas ornamentais sentados no chão.
Mesmo para quem não pretende comprar nada, como era o nosso caso, o mercado oferece uma imagem de autenticidade do quotidiano de Bangkok, onde a espiritualidade e o burburinho da vida urbana se cruzam, num bairro inteiro que floresce a cada dia que nasce.
Chinatown de Bangkok
Tínhamos marcado no mapa um trajeto que nos levaria caminhando até ao bairro do Chinatown, mas o calor húmido da cidade não é um bom companheiro para grandes caminhadas e, por isso, decidimos apanhar um tuk-tuk, que permite continuar a apreciar a paisagem urbana, mas mais descansados.
O bairro de Chinatown revela-se como um dos lugares mais vibrantes e caóticos da cidade. Basta entrar nas suas ruas, passando por uma das suas portas, como este Chinatown Gate, para sentir imediatamente uma energia própria, que ocupa um emaranhado de becos, com lojas antigas e bancas de rua onde a vida parece decorrer a um ritmo acelerado, entre vendedores, clientes e turistas curiosos.
.jpg)
.JPG)
.JPG)
As fachadas das lojas, muitas delas onde predominam os tons de vermelho, criam um cenário muito próprio. Sobre as ruas estreitas pendem letreiros chineses em caracteres dourados, enquanto lanternas e balões decorativos anunciam a aproximação do Ano Novo Chinês, que ocorrerá no dia 17 de fevereiro (faltava uma semana). As celebrações marcarão a passagem para o ano do cavalo, e o bairro aguardava por esta data com decorações festivas, cores intensas e um movimento ainda mais frenético da comunidade chinesa (porém, desta vez de uma forma mais contida do que é habitual, devido ao ano de luto vivido na Tailândia pela morte da Rainha-mãe… tal como já referi).
.jpg)
.jpg)
.jpg)
O centro deste bairro é atravessado pela movimentada Yaowarat Road, a grande artéria do Chinatown. Aqui, o trânsito avança lentamente entre carros, tuk-tuks e motas que se cruzam num fluxo contínuo, enquanto nas laterais as bancas de comida e as pequenas lojas disputam cada centímetro de espaço. O ruído das buzinas mistura-se com as conversas, os aromas da cozinha de rua e o brilho das luzes dos letreiros, criando um ambiente que é simultaneamente caótico e fascinante.
Passear pela Chinatown é aceitar esse turbilhão urbano de lojas, restaurantes de rua e mercados, e deixarmo-nos levar pelas ruas cheias de história, observando o movimento incessante deste pedaço de Bangkok que mantém viva a herança chinesa que marcou profundamente a cidade.
De um dos lados do bairro, junto ao Chinatown Gate, o mesmo portão de que já falei, um arco vermelho e dourado guardado por dragões que parecem vigiar a porta simbólica deste bairro histórico de Bangkok, ergue-se o templo Wat Traimit Withayaram Worawihan, onde repousa o extraordinário Golden Buddha… que é feito em ouro maciço.
O templo, que infelizmente não visitámos, guarda um Buda com mais de cinco toneladas de ouro. Durante séculos, porém, ninguém parecia ter dado por isso: a estátua esteve escondida debaixo de uma discreta camada de estuque, como quem veste um fato barato para não dar nas vistas. A revelação só aconteceu por acidente, já no século XX, quando alguém provavelmente pensou: “Isto está a lascar… será que é tinta?”, e afinal era ouro.
Apesar de não termos visto o Buda original, a envolvente do templo oferece algumas réplicas de budas em diferentes posições e poses meditativas. A diferença é que estes parecem ter optado por um guarda-roupa mais económico: em vez de ouro verdadeiro e maciço, estes apresentam apenas uma respeitável demão de tinta dourada… digo eu, que não sei bem qual a técnica que é usada para dourar budas.
Ali bem perto encontra-se mais um templo, este muito pequeno, o Wat Mangkon Kamalawat, que é muitas vezes conhecido como templo do “Buda negro”. Entre incenso e uma luz suave, é um dos centros espirituais da comunidade chinesa, especialmente animado durante o Chinese New Year, que estava para breve.
Mesmo sem entrar no templo, que está reservado aos crentes, conseguimos ver este buda de fora, onde surge entre decorações de cor vermelha e dourada, numa imagem, por vezes difusa, pelo fumo ondulante do incenso.
Bem ao centro, está figura serena de Gautama Buddha, o Buda Negro, que nos observa em silêncio, como se guardasse séculos de orações, promessas e segredos murmurados.
Perto de Chinatown fica a histórica Hua Lamphong Railway Station, uma estação criada com uma arquitetura inspirada nas grandes estações europeias da época, foi durante décadas o ponto de partida das principais ligações ferroviárias do país. Esta estação foi mandada construir pelo rei Rama V - e só podia ser ele - pois foi o rei que mais viajou e que realmente quis conhecer o mundo, visitando países como Inglaterra, França, Rússia, Alemanha e até Portugal. Essas viagens influenciaram profundamente as reformas que introduziu no então Siam, desde a administração do Estado até aos caminhos-de-ferro, escolas e arquitetura moderna. A estação só foi inaugurada em 1916 e, nessa altura, já governava o Rei Rama VI, filho do criador da ideia de fazer esta estação, que, entretanto, já tinha falecido.
.jpg)
Durante muitos anos esta foi a principal estação ferroviária de Bangkok e hoje é ainda exibida com orgulho pelos tailandeses, mas depois corrigem, dizendo que edifícios destes têm vocês muitos, e não é disto que andam à procura… e é bem verdade. De qualquer forma, torna-se curioso encontrar uma espécie da Atocha madrilena, a escassos metros do Chinatown de Bangkok, um dos bairros mais típicos da cidade.
Embora hoje parte do tráfego tenha sido transferido para o moderno Krung Thep Aphiwat Central Terminal, a Hua Lamphong continua a ser um símbolo histórico do desenvolvimento ferroviário da Tailândia, e mantém-se aberta ao público, funcionando também como uma espécie de museu, onde se recordam as antigas composições ferroviárias.
A vida noturna em Bangkok
Ao longo dos dias que passámos em Bangkok fomos aproveitando sempre aquilo que a cidade tem para oferecer, sobretudo nos night markets e nas zonas de street food. Perto do nosso hotel, na rua Silom, existe um dos night markets mais importantes desta parte nova da cidade, por onde passámos quase todos os dias, depois de jantar... ou para jantar.
Patpong Night Market
Situado no bairro de Silom, este night market é daqueles lugares onde a noite se revela com grande entusiasmo. Assim que o sol desaparece, as ruas transformam-se em dois largos corredores luminosos de lojas, bancas de comida, néones e música, que se enchem de gente, para jantar, para entrar nos bares ou para comprar alguma coisa nas lojas que exibem todo o tipo de produtos, das marcas locais àquelas que são “inspiradas” nas grandes marcas internacionais.
Ao redor das bancas de comidas e bebidas, espalham-se várias mesas e cadeiras de plástico, onde se dispõem os visitantes, num ambiente animado, que vão trazendo petiscos diversos, seguindo a tentação irresistível da street food.
Nas pequenas bancas improvisadas frita-se, grelha-se e salteia-se todo o tipo de iguarias que perfumam a rua inteira: espetadas fumegantes, noodles e vegetais preparados no wok, ou vários tipos de caril, de cores e níveis de picante distintos.
Mesmo quem chega apenas para “dar uma volta rápida” acaba, quase inevitavelmente, com alguma coisa para provar. Pode ser apenas um inocente copo de fruta tropical bem fresca… embora, para os mais aventureiros, exista sempre a possibilidade de dar um salto gastronómico mais ousado, por exemplo como uma espetada de crocodilo, que ali aparece com a mesma naturalidade com que nós servimos um prego no pão.
Depois há os bares, e esta foi, curiosamente, a única zona onde nos deparámos com este tipo de estabelecimentos, dos que alimentam a fama de um certo turismo sexual frequentemente associado à Tailândia. Alguns apresentam-se discretos, quase tímidos; outros brilham sem pudor sob os néons coloridos. À porta, empregados sempre sorridentes convidam os visitantes a entrar, exibindo menus que prometem bebidas, música e diferentes formas de entretenimento, incluindo os famosos espetáculos de table dancing, que são visíveis para quem passa na rua e fazem parte da reputação já lendária desta zona.
Tudo é apresentado com uma surpreendente naturalidade, como se fosse apenas mais uma atração na animada noite de Bangkok e, de certa forma, para muitos visitantes, acaba mesmo por ser. Ainda assim, para quem passa por ali pela primeira vez, o contraste pode ser inesperado e até um pouco desconcertante, sobretudo quando surge a poucos metros de bancas de comida de rua e vendedores de souvenires.
No final, o Patpong Night Market revela-se como um verdadeiro espetáculo de contrastes: um lugar onde, em poucos passos, se pode regatear uma mala “de marca”, saborear um prato fumegante acabado de sair de uma banca de rua e assistir ao vibrante teatro da vida noturna da cidade. Tudo acontece ao mesmo tempo, entre néons e aromas de comida, embalado pelo murmúrio constante de gente que ri, negoceia com entusiasmo e se deixa levar pela curiosidade de descobrir os muitos rostos da noite de Bangkok.
Degustação de street food no Chinatown
Numa das noites decidimos aventurar-nos num daqueles tours gastronómicos em que saímos de tuk-tuk, e prometem levar-nos, ao cair da noite, até ao Chinatown, com paragens estratégicas em restaurantes e bancas de street food, alegadamente recomendadas pelo Guia Michelin - ou, pelo menos, por alguém que conhece alguém que já ouviu falar do Michelin.
Saímos em conjunto com vários tuk-tuk’s, escolhendo uma das versões destes tours: há os mais completos, com percursos mais longos, que chegam até à zona dos templos e incluem quatro ou cinco paragens para degustações. O nosso foi uma versão um pouco mais light, com apenas três paragens para provar a cozinha de rua. Depois disso, ficámos entregues à nossa própria sorte no bairro chinês, o que foi agradável. Tudo isto pela quantia de 33€ por pessoa… não sei se é caro ou se é barato. No fim tivemos ainda de tratar do regresso ao hotel por conta própria, e voltámos a escolher um tuk-tuk.
Num balanço final, fiquei com a sensação de que talvez não compense muito fazer este tour organizado. Em vez disso, parece-me bem mais interessante apanhar um tuk-tuk diretamente na rua (negociando sempre o preço, claro), pedir para ir até ao Chinatown e, já lá, escolhermos nós próprios as bancas que tiverem melhor aspeto, ou a fila maior, que normalmente é um bom sinal. No fim, é só apanhar outro tuk-tuk de volta. Provavelmente fica mais barato e, acima de tudo, mais divertido, porque ficamos livres para explorar o local, escolhendo o que realmente nos apetece, e na comida, podemos evitar alguns pratos do menu de degustação que não nos inspirem grande confiança. Por exemplo, os restaurantes de peixe deixam-me sempre um pouco desconfiado - quem me garante que o peixe não veio daquele rio meio duvidoso?
Ainda assim, acabámos por provar tudo o que nos puseram à frente. Pelo caminho apareceu um caldo com umas bolinhas de peixe de aspeto bastante suspeito, depois uma espécie de sonhos fritos acompanhados por vários doces, bastante bom (uma sobremesa a meio da degustação). Por fim uma sopinha bem caldosa onde nadavam uns pedaços de carne de porco e umas almôndegas.
Muito tradicional, sem dúvida, embora não fosse propriamente o tipo de prato que nos fizesse crescer água na boca. Digamos apenas que foi mais uma aventura, do que uma experiência gastronómica… confesso que preferia ter comido uma espetada de crocodilo. Mas o pessoal estava com boa onda, e isso é o que mais importa.
Na verdade, a street food não é propriamente o elemento mais especial das noites do Chinatown, já que esse tipo de comida se encontra um pouco por toda a cidade. O que realmente distingue este bairro é a decoração das ruas, cheia de motivos chineses, lanternas e néons, criando uma atmosfera quase cinematográfica.
Há também algo de particularmente emocionante ao percorrer aquelas ruas de tuk-tuk, ziguezagueando pelo trânsito, ultrapassando as filas de carros, enquanto os néons vão piscando à nossa volta. No fundo, mais do que a comida, é este ambiente frenético e vibrante que faz com que esta experiência se torne imperdível.
Dia 4 em Bangkok (11 de fevereiro)
Neste último dia em Bangkok, ao fim do qual iriamos seguir até ao aeroporto para apanhar um avião para Krabi, ficámos pela zona mais moderna, em torno da avenida Silom, onde ficava o nosso hotel. Mas já nos dias anteriores, de certa forma, tínhamos explorado esta parte da cidade.
Na avenida Silom
Começamos pelo próprio hotel, o Pullman Bangkok Hotel G, que é um dos arranha-céus que não passam despercebidos, onde tivemos um quarto lá em cima, e usámos também o piso da piscina, ambos com uma vista de fazer inveja a alguns dos rooftops da moda, tão procurados pelos turistas… com a imagem de vários edifícios modernos da cidade, incluindo o mais alto de todos, o icónico King Power Mahanakhon, aquele arranha-céus que parece ter sido “pixelizado” durante a construção.
Ainda nesta avenida, que percorríamos de cada vez que caminhávamos até ao rio, vamos encontrando uma paisagem cada vez mais típica e também mais degradada, com ruas transversais mais sujas, onde as ratazanas surgiam ao pé dos depósitos de lixo, e onde o trânsito intenso e caótico é sempre um dos personagens dominantes.
Mas já próximo do rio, voltamos a encontrar um dos arranha-céus de referência, o Siroco, onde estivemos no bar do rooftop há uns dias e que é famoso pela cúpula dourada, mas sobretudo por ter servido de palco a um dos filmes da sequela A Ressaca, The Hangover Part II.
Já junto ao rio
Nesta parte na margem Leste do rio temos dois piers principais, o Cais de Sathorn e o Cais do Ferry Si Phraya, junto ao centro comercial River Side.
O primeiro é o cais onde apanhámos a carreira pública diariamente, quer para o lado do Asiatique Riverfront, logo no primeiro dia, quer para o lado oposto, a caminho da zona dos templos.
O cais junto ao Riverside, um centro comercial que serve de ponto de encontro a alguns tours do GetYourGuide, garante a travessia do rio até ao famosíssimo IconSiam, um centro comercial que dizem ser o mais importante da cidade. Estes shoppings são genuínos quanto às lojas de marcas mesmo a sério, mas onde os preços são só ligeiramente mais simpáticos do que em Portugal, ou seja, não é aqui que nos vamos perder a fazer compras e, confesso, não perdemos mesmo qualquer tempo a explorar este tipo de superfícies.
Ainda assim não deixámos de desfrutar das paisagens que esta zona oferece sobre da margem oposta, fosse a partir do próprio cais ou quando passámos por ali nos nossos percursos de barco, apreciámos sempre com curiosidade aquilo que nos envolvia.
Agora, já mais longe do rio
Mantendo o tema dos centros comerciais, existe um outro, bem grande, mas um pouco diferente, refiro-me ao MBK Center. Numa das viagens que fizemos, concretamente aos mercados ferroviário e aquático, o lugar de chegada do tour era neste centro comercial… só por isso viemos aqui.
Este centro comercial tem um estilo mais popular, e funciona com pequenas lojas, principalmente com artigos nacionais e algum artesanato tailandês. Permite algumas compras económicas, mas claramente mais para os tailandeses do que para os turistas.
Mas o conjunto do edifício do shopping e dos viadutos pedonais de acesso, é até bastante apelativo e revela uma modernidade que depois não encontramos no interior de centro.
No caminho de regresso ao hotel, que fizemos a pé, fomos apreciando a envolvente desta zona mais moderna de Bangkok, com jardins e prédios altos, com destaque para o já referido King Power Mahanakhon, o edifício mais alto da capital tailandesa, e que é também um símbolo local. Outro símbolo, que aparece por todo o lado, é a imagem do rei Maha Vajiralongkorn, ou Rama X, figura omnipresente na cidade e adorada pela população… provavelmente porque “quem feio ama, bonito lhe parece” pois ele é mesmo feiinho como a noite.
Já de volta à Silom Road, a rua do hotel, entramos na zona em que o Metro passa em viaduto, passando por cima das ruas, e não em túnel. E, claro, ainda com o mesmo protagonista, que não larga o palco, lá estava ele outra vez, o King Power Mahanakhon a dominar o cenário.
Parque Lumphini
Seguindo por essa parte da rua Silom, onde o Metro passa, vamos chegar ao grande parque da cidade, o Parque Lumphini.
Trata-se de um verdadeiro pulmão verde para esta cidade, um refúgio onde habitantes locais e visitantes escapam ao ritmo frenético de Bangkok. Logo pela manhã e ao final do dia, enche-se de gente a fazer desporto, com destaque para o tradicional Tai-chi, que os deverá deixar devidamente relaxados.
No centro, um grande lago ajuda a compor o cenário, rodeado por amplas zonas relvadas e por um conjunto de arranha-céus, criando um skyline elegante, uma espécie de versão tropical, e mais descontraída, do Central Park.
Além de passearmos tranquilamente por este parque e de desfrutarmos das paisagens envolventes, vamos também tropeçando em alguns detalhes bem locais. É o caso dos lagartos-monitores, já nossos conhecidos de outras andanças, pelos canais da cidade, e que aqui surgem dos lagos, aparentemente mais limpinhos e pacíficos, fazendo até companhia a que passeia.
A visita ao Lumphini Park, que muitas vezes fica fora dos roteiros desta cidade, acaba por ser bastante interessante. Trata-se de um espaço tranquilo que serve de pausa no meio do ritmo acelerado de Bangkok, onde a natureza e a cidade se encontram de forma quase perfeita, entre o verde do parque, os reflexos no lago e os arranha-céus que se erguem à volta, criando belíssimos skylines.
Chegámos ao fim da nossa passagem por Bangkok e confesso que não esperava gostar tanto desta cidade. Revelou-se um destino vibrante, intenso e cheio de contrastes, que nos conquistou quase sem darmos por isso. Entre a serenidade dos templos, o burburinho dos mercados, a modernidade dos arranha-céus e o fluxo constante no rio, vivemos uma experiência rica e surpreendente.
É daquelas viagens que não ficam apenas nas fotos nem nos textos que deixo aqui neste blog, mas deixam também memórias que sabemos que vão perdurar.
Fevereiro de 2026
Carlos Prestes