Tendo estado antes em Positano, Amalfi já não nos deslumbra da mesma forma. É algo muito injusto para certos locais que acabam por perder algum do seu brilho, porque são ofuscados pela proximidade de outros lugares ainda mais especiais e deslumbrantes. Talvez devesse ter invertido a ordem, deixando Positano para o fim, mas, a verdade, é que não sabia que isto poderia acontecer.
Porque, à primeira vista, Amalfi tem tudo para nos encantar… uma bonita vila junto ao mar, com uma belíssima baía rodeada por penhascos íngremes, onde nascem construções históricas dispostas de forma prodigiosa e em perfeita harmonia. O resultado é uma paisagem extraordinária - maldito Positano, que não nos deixa apreciar toda a dimensão desta beleza.
Apesar de ter um certo aspeto de aldeia histórica, Amalfi não deixa de ser um centro de veraneio, visitado por quem procura o mar, para um dia de praia ou para a prática de um dos desportos náuticos que por aqui se podem experimentar. E lá encontramos de novo as praias da areia preta e calhau, mas com aquelas águas quentinhas que o Mediterrâneo nos oferece.
Mas, de qualquer forma, são sempre bonitas estas praias italianas, pelo enquadramento, claro, que é lindíssimo, mas também pelo jogo de cores criado pelos chapéus de sol que cobrem o areal.
E todas estas zonas costeiras parecem-nos ainda mais bonitas quando são vistas do mar, a partir de um barco, e aí torna-se mais evidente o enquadramento da paisagem, com os habituais contrastes entre as encostas e o mar, e a forma rara com que esta aldeia se dispôs, meio encavalitada nos rochedos, como que posando para que um pintor consiga fazer uma aguarela perfeita.
Mas, mesmo quando regressamos a terra, Amalfi surge-nos como uma vila simpática, cheia de gente que anda entre lojas e esplanadas, apreciando o ambiente, que é bastante agradável e tem um toque de glamour… mas não tanto como o “maldito” Positano, claro.
Esta terra cresce sobretudo ao longo das encostas, sobrando apenas uma pequena zona ao nível do mar, por detrás da marginal que faz o contorno da praia e do porto. É nessa zona que encontramos a praça central da vila, a Piazza Duomo, conhecida pela Fontana Sant'Andrea, onde todos aproveitam para se refrescar e encher as garrafas de água, que ali é bastante fresca.
Mas aquilo que mais impressiona nesta praça é a presença da imponente Catedral de Amalfi e da sua escadaria colossal.
Ninguém esperaria encontrar uma catedral tão exuberante em plena costa amalfitana. O Duomo di Amalfi, também chamado de Duomo de Sant'Andrea, é uma igreja católica romana medieval, com uma fachada bizantina listada, muito bonita e em ótimo estado de conservação. A catedral é dedicada ao apóstolo Santo André, cujas relíquias estão guardadas na sua cripta.
Saindo de Amalfi a pé, estamos a cerca de 500 m até chegarmos a Atrani, uma pequena vila desta costa. Fomos apreciando o próprio caminho, onde vamos passando por algumas zonas de estrada com apontamentos bastante bonitos, e vamos também desfrutando da paisagem que é marcada pelo azul forte das águas deste mar.
Escondida entre as falésias e o mar, surge então Atrani, que conserva ainda uma atmosfera autêntica e tranquila, distante do turismo em massa que invade as vilas vizinhas de Amalfi ou Positano, mas poupa esta pequena terriola.
As ruelas estreitas com algumas passagens em arco e as suas casas onde o branco é dominante, criam um cenário quase medieval. No coração da vila está a Piazza Umberto I, pequena e charmosa, onde a vida parece correr num ritmo próprio, rodeada de cafés e restaurantes familiares, em torno da icónica escadaria da torre do relógio da Chiesa di San Salvatore de' Birecto.
A praia, protegida pelas encostas, é pequena e desimpedida, ideal para quem quiser experimentar um mergulho nas águas calmas e tépidas, fora da confusão das outras praias desta costa, que sofrem a pressão de um turismo massivo.
Mas a imagem de marca desta baía é a da torre da Igreja de San Salvatore de’ Birecto, uma obra do século X, ligada à história da República Marítima de Amalfi.
Além disso, podemos ainda encontrar um outro atrativo... é que foram ali rodadas várias cenas de uma série recente da Netflix, chamada de Ripley (baseada na mesma novela da escritora Patrícia Highsmith, que deu origem ao filme O Talentoso Mr Ripley, de 1999). Atrani surge nesta série como um dos cenários mais marcantes e contribui decisivamente para a atmosfera visual da narrativa. Esta pequena vila aparece a preto e branco com as suas casas encaixadas nas encostas que descem até ao mar, criando um pano de fundo pitoresco e, ao mesmo tempo, claustrofóbico, com as ruas estreitas, os seus arcos e as longas escadarias labirínticas, que reforçam a sensação de isolamento e de comunidade fechada, onde cada movimento parece ser observado… e as imagens da série tiram partido dessa estética de uma forma perfeitamente extraordinária.
Apesar de filmada a preto e branco, as imagens potenciam o contraste entre luz e sombra que caracteriza Atrani... com as fachadas iluminadas pela luz mediterrânica e as suas sombras, destacando as passagens escuras e as vielas sombreadas, acentuando uma atmosfera de film noir, que reforça o tom psicológico e ambíguo da história.
Cava de'Tirreni
Foi escolhida Cava de'Tirreni apenas por estar perto da Costa Amalfitana e ter uma oferta de alojamento a preços mais normais, sem o disparate que se encontra nas povoações costeiras, que pedem fortunas por um quarto de hotel.
Além disso, ao contrário do que acontece nos locais mais turísticos, aqui é mais fácil estacionar (mas atenção, que desta segunda visita a este local, em 2025, os estacionamentos na rua passaram a ter uma tarifa de 2,5€/hora a partir das 22h, o que torna caríssimo passar o serão e toda a noite nas proximidades do centro histórico. A solução será encontrar uma garagem que presta este serviço de parqueamento a preços mais razoáveis e, normalmente, os alojamentos dão-nos essa indicação)
Como a nossa escolha foi feita apenas para conseguir hotel a um preço que não fosse um assalto à carteira, não contávamos com nada mais deste local, mas, na realidade, acabou por ser uma agradável surpresa.
Trata-se de uma pequena cidade, bastante simpática, com um ambiente histórico e monumental, e muito interessante.
Aquilo que mais caracteriza esta terra é a existência de uma rua, o Corso Umberto I, que nos seus primeiros 500 m é acompanhada por fachadas em arcos de ambos os lados, o que dá um total de 1 km de arcadas, ocupadas por todo o tipo de comércio e por bastantes restaurantes e esplanadas. É esta imagem de marca da cidade que a torna especial, e foi isso que mais nos agradou na nossa visita.
Pelo caminho vamos passando por algumas piazzas, bem ao estilo das cidades italianas de província, como é o caso da Piazza Vittorio Emanuele III, onde fica uma das principais igrejas da terra, a Concattedrale S. Maria della Visitazione.
Mas do que mais gostei nesta cidade foi o facto de ser também um espaço bastante agradável durante a noite, pois, quem aqui se aloja para visitar a Costa Amalfitana, só cá regressa ao final da tarde. E, na verdade, quando saímos à noite para jantar, encontramos uma cidade movimentada, bastante bonita, com as suas arcadas iluminadas, e com vários restaurantes bem acolhedores.
Para jantar experimentámos alguns restaurantes bastante bons, como a Braceria Scacciaventi, um restaurante com uma decoração interessante, muito ao estilo wine-house, que se estende pelo exterior numa esplanada sob as arcadas. Tem uma ótima garrafeira, com todo o tipo de vinhos italianos, e um menu variado, muito para além das habituais pastas... uma ótima escolha, tanto o restaurante como a cidade.
Ravello
Começámos o dia contornando toda a montanha pelo lado Norte, descendo depois até a meio da encosta onde fica mais uma das pérolas da Costa Amalfitana, a vila de Ravello.
Esta volta enorme, como se assinala no mapa, segue por estradas tortosas de montanha, mas, ainda assim, é mais rápida do que vir pelo Sul e percorrer uma parte da estrada da costa.
Ravello é frequentemente descrita como um refúgio empoleirado nas colinas, a cerca de 350 metros acima do nível das águas do mar Tirreno, ao contrário da maior parte dos polos turísticos desta costa, que ficam mesmo junto ao mar.
Trata-se de uma vila tranquila e refinada, com uma atmosfera muito mais calma do que outras localidades mais movimentadas da costa, como Positano ou Amalfi.
Chegando a esta pequena povoação estacionámos no Parcheggio Piazza Duomo (um parque relativamente grande e que, surpreendentemente, nem foi assim tão caro), e começámos justamente pela Piazza Duomo, onde encontramos o Duomo di Ravello, a catedral românica dedicada a São Pantaleão.
Fomos depois percorrendo os trilhos nos levaram até aos principais miradouros, com vistas panorâmicas espetaculares sobre o mar Tirreno, sobretudo aquelas que podemos desfrutar a partir dos terraços dos principais jardins que ocupam as encostas de Ravello, como o caso dos luxuosos jardins da Villa Rufolo e da Villa Cimbrone, com uma beleza que nos transmite uma sensação intemporal de romantismo.
Estes dois jardins constituem a principal oferta paisagística de Ravello, pelo que será conveniente fazermos as respetivas visitas (por um preço de 8€ na Villa Rufolo e de 10€ na Villa Cimbrone), ou perderemos os atrativos essenciais desta vila.
E em pleno centro histórico, ainda no próprio terreiro da Piazza Duomo, surge a Torre-Museo Antiquario, que é também o portão de acesso à Villa Rufolo.
A Villa Rufolo foi construída no século XIII pela família Rufolo, e foi mais tarde restaurada pelo escocês Sir Francis Neville Reid. A sua base arquitetónica remonta à época medieval, preservando ainda os traços árabes, e integra também igrejas românicas e construções senhoriais com destaque para o claustro ornamentado e a Torre Maggiore, hoje museu e miradouro com vistas fantásticas sobre as encostas da Costa Amalfitana.
Os jardins da Villa Rufolo são o grande atrativo da propriedade. São constituídos por alamedas e distribuem-se em diferentes terraços que descem em direção ao mar e oferecem vistas deslumbrantes. Foram redesenhados no século XIX por Sir Francis Neville Reid, que acrescentou espécies exóticas, mantendo o carácter romântico do espaço, que é hoje uma das principais imagens de marca de Ravello, quando juntamos alguns dos recantos deste jardim, com as paisagens infinitas do mar Tirreno.
Em 1880, Richard Wagner inspirou-se nestes jardins para a ópera Parsifal e, atualmente, a villa acolhe o Ravello Festival de música clássica.
Seguimos depois pela ligação entre a Villa Rufolo e a Villa Cimbrone, por ruas apinhadas de turistas e com um belíssimo ambiente, cheias de lojas de souvenires, com muitos produtos associados aos limões e tudo o que se fabrica à base do aroma de limão siciliano e da imagem destes citrinos. Mas passámos também por umas ruelas mais estreitas e íngremes, autênticos carreiros que sobem e descem pela encosta, e que nos oferecem vistas magníficas das montanhas que envolvem a povoação de Ravello e dos campos de limoeiros que ali florescem.
Chegámos entretanto à Villa Cimbrone, que tem também origens medievais, mas ganhou o esplendor atual no início do século XX, quando foi transformada por Lord Grimthorpe num refúgio aristocrático em estilo romântico.
Os jardins sofreram influências de jardineiros e botânicos ingleses, que combinaram o estilo de jardim inglês com as referências mais habituais dos jardins italianos, resultando num conjunto de espaços repletos de pérgulas cobertas de glicínias, estátuas, templos e recantos floridos.
O palácio da Villa Cimbrone, tem uma base da época medieval, mas foi transformado no início do século XX por Lord Grimthorpe num elegante edifício neogótico-romântico. Hoje funciona como hotel de luxo, mas mantém ainda alguns espaços históricos, como o claustro e a cripta, além de interiores decorados com lareiras, afrescos e mobiliário de época. Ao longo do tempo recebeu personalidades importantes, como é o caso de Winston Churchill ou Greta Garbo, reforçando assim a sua fama como um dos palácios mais charmosos da Costa Amalfitana.
O ponto de maior destaque desta villa é a famosa Terrazza dell’Infinito, um miradouro adornado com bustos de mármore a mais de 350 metros acima do mar, que oferece uma das vistas mais impressionantes da Costa Amalfitana… e é claramente um dos lugares mais belos e emblemáticos de Ravello.
O acesso a este terraço faz-se pelo Viale dell’Immenso, uma alameda ladeada de árvores e pérgulas, que nos conduz até à entrada deste magnífico miradouro, que é materializada por um pequeno templo neoclássico, o Tempio di Cerere, que é dedicado simbolicamente à Deusa romana da agricultura e da fertilidade, Ceres (ou Deméter na mitologia grega), cuja estátua ali se encontra.
Já no terraço, para além das vistas espantosas, destaca-se também a balaustrada que é adornada com bustos clássicos de mármore, criando um cenário teatral que se tornou mum dos cartões-postais de Ravello.
Este espaço está quase sempre preenchido por muitos turistas, e até é difícil conseguirmos fazer uma fotografia limpa, sem aparecer ninguém… estas fotos que aqui mostro, são uma raridade, porque logo de seguida, e já me apareceu um dos habituais intrusos.
Mas para além da imagem singular dos bustos que ornamentam a balaustrada, o mais extraordinário neste terraço é mesmo a vista infinita que é considerada como uma das mais espetaculares de Itália, sobretudo ao entardecer, quando o horizonte parece fundir-se com o mar, e daí o nome de Terrazza dell’Infinito.
Mas a qualquer hora do dia, podemos sempre contemplar as magnificas paisagens que de ali se alcançam, com as encostas muito verdes que parecem mergulhar sobre o mar Tirreno, fazendo deste local de contemplação, um dos espaços mais fotografados de toda a Costa Amalfitana… como é o caso destas belíssimas fotografias.
De seguida descemos a estrada até Atrani, começando mais uma aventura, o que acontece sempre que conduzimos pelas estradas da Costa Amalfitana. Depois da descida, também ela aflitiva, continuámos pela estrada marginal entre Amalfi e Sorrento, ao longo de 32 km, mas numa velocidade de pára-arranca que nos fez demorar cerca de hora e meia, passando por todas as povoações e praias da costa.
Despedimo-nos assim de Ravello como quem se afasta de um lugar suspenso entre o céu e o mar. Há nesta pequena vila da Costa Amalfitana uma quietude quase intocável, como se cada pedra, cada jardim e cada varanda, tivessem sido moldados para convidar ao silêncio e à contemplação de um horizonte que nos parece infinito.
E é com essa serenidade que parto, levando comigo a certeza de que há destinos que não se visitam apenas, vivem-se para permanecem connosco para sempre.
Sorrento
Esta cidade não pertence tecnicamente à Costa Amalfitana, pois está localizada na Península Sorrentina, do lado da baía de Nápoles, mas, ainda assim, é considerada a porta de entrada nesta costa, e é também um destino encantador por si só.
É uma das cidades mais interessante de toda a região da Campânia, com origem grega e romana, sempre foi um ponto estratégico e um destino turístico, celebrado desde o século XIX por artistas e escritores que encontravam inspiração nesta belíssima terra.
A sua localização entre falésias e virada para Norte, oferece uma vista infinita para o Golfo de Nápoles e para o imponente Vesúvio, o vulcão adormecido que parece estar sempre de vigia.
O centro histórico mantém o traçado medieval com ruelas estreitas, cheias de antigas memórias, que se entrelaçam nas casas pitorescas barulhentas e em igrejas silenciosas, palácios cheios de histórias e pequenas praças onde o sol pousa e nos aquece… e tudo isso compõe a alma serena e eterna da Itália, que aqui tão bem se representa.
Começámos pela Piazza Torquato Tasso, junto à estátua dedicada a Santo Antão Abade, no coração da cidade que bate ao compasso dos passos dos viajantes. É dali que iniciamos o nosso caminho, seguindo pela esquerda e entrando na Via Santa Maria della Pietà, que se desenrola por entre vitrines das lojas mais clássicas do centro.
Esta rua vai-nos conduzindo até a um dos pontos mais sagrados de Sorrento, o complexo que integra a Arcidiocesi di Sorrento - Castellammare di Stabia, e a catedral da cidade, a Cattedrale dei Santi Filippo e Giacomo.
Mais do que um conjunto religioso, esta catedral ergue-se com uma quietude majestosa, como se guardasse por entre os seus muros, séculos de orações sussurradas, passos de peregrinos e o eco das vozes que, ao longo do tempo, ali buscaram consolo.
Este antigo complexo episcopal encontra-se junto à Piazza Sant'Antonino, no coração do centro histórico, onde o ruído do presente se encontra com o silêncio devoto do passado. Embora as suas raízes reportem à Idade Média, foi no século XV que a catedral ganhou a forma que hoje encontramos, e que foi ainda enriquecida mais tarde, seguindo os esplendores do barroco, mas sempre fiel à sua alma mediterrânea.
Mas voltando à Piazza Torquato Tasso, e se quisermos agora experimentar a rua do verdadeiro comércio local do centro histórico, devemos seguir pelo lado direito da praça, abrindo-se como um segredo a estreita ruela da Via San Cesareo. Ali, entre as arcadas baixas, o ar move-se com o passar dos turistas num vaivém constante, fazendo soar o tilintar de alguns souvenirs e trazendo-nos o aroma a limoncello, a grande especialidade desta terra… e tudo isso, num murmúrio permanente de vozes em todas as línguas.
Percorrendo depois outras das ruelas do centro histórico, chegamos à Chiesa di San Francesco. Uma bela igreja que pertence a um convento de frades franciscanos, e que foi erguida no século XIV sobre os alicerces de uma antiga capela. A sua fachada, sóbria e quase tímida entre as ruas do centro histórico, esconde um interior barroco e um claustro, que são as principais preciosidades deste conjunto.
Saindo desta igreja, mas ainda na Via S. Francesco, e estamos já num dos principais spots da cidade, o imenso terraço que serve de miradouro sobre as praias de Sorrento.
É aqui, suspensa entre o céu e o mar, que a cidade Sorrento se entrega à contemplação, e é muito mais do que um simples miradouro, daqui de cima, as praias da cidade parecem-nos conchas esculpidas nos rochedos das falésias pela paciência do mar, banhadas por uma luz que parece saída de um quadro renascentista, e salpicadas pelos coloridos dos toldos e chapéus de sol dos lidos que ocupam cada uma das praias.
Neste terraço, encontra-se um elevador para acesso às praias desta zona, que é chamada de Marina Piccola, mas há também uma rampa que nos permite descer a pé. Lá em baixo podemos pagar para ocupar uma espreguiçadeira de um dos lidos que ali funcionam e que se diferenciam, entre si, pelas cores e padrões dos chapéus de sol.
Mas existem também umas pequenas praias púbicas de areia preta onde se podem esticar as toalhas, mas essas estão destinadas exclusivamente aos habitantes de Sorrento… não sei como é que controlarão os comprovativos de morada. Mas confesso que nenhuma das soluções me agradaria, nem nos lidos nem nos triângulos de areia reservados aos sorrentinos. Na verdade, temos praias tão boas que até nos custa entrar nestas imitações daquilo que é uma praia, só se fosse para nos refrescarmos, numa água que é sempre muito agradável.
Assim, percorremos os vários lidos e apreciámos este imenso complexo de praia, mas tudo a seco, nem molhámos os pés.
As praias que se aninham ao pé das falésias não são apenas faixas de areia ou calhau banhadas pelo mar Tirreno, são refúgios esculpidos pela natureza e pela história, onde o mar abraça a rocha com uma persistência milenar. Suspensas entre o azul profundo do mar e os penhascos rochosos que as protegem como muralhas de um antigo reino, estas enseadas revelam-se quase como segredos: acessíveis por rampas e escadas subterrâneas, túneis escavados na pedra ou pequenos elevadores que descem do centro histórico até ao nível da água.
E depois existem os lidos, nome que é dado em Itália aos apoios de praia com espreguiçadeiras e chapéus de sol. São como salões ao ar livre, elegantes, acolhedores, e impregnados de uma nostalgia mediterrânea que mistura lazer, tradição e o prazer simples de estar diante do mar infinito. Os estabelecimentos de praia que ocupam esta zona, são quase como extensões naturais da rocha, com estruturas de madeira em torno de piscinas naturais que ali se formam, e sempre muito coloridos, pelos toldos e pelos chapéus listrados com diferentes cores.
Os lidos não são apenas uma infraestrutura de praia, são também guardiões de uma arte de viver que é típica da Costa Amalfitana, onde o luxo não é exagerado, mas na harmonia entre a natureza, a simplicidade e a beleza, é privilegiada… mas para nós, que não temos a cultura deste tipo de praia, tudo isto nos parece pouco natural.
Ficámos algum tempo por ali, passando por alguns dos lidos e seguindo depois até ao porto, onde chegam e partem embarcações para Capri, Ischia, Nápoles, ou para fazer um dos tours ao longo da Costa Amalfitana.
Junto ao porto, onde se chega pela Via Marina Piccola, vamos encontrar uma imensa marina, também ela encostada a uma das falésias da cidade, e neste caso são visíveis alguns edifícios de referência que estão localizados no topo da colina, como é o caso do Hotel Excelsior Vittoria, famoso pela sua arquitetura neoclássica, com jardins perfumados por limoeiros e laranjeiras, e um terraço que é considerado um dos mais belos do Mediterrâneo. Ao longo dos séculos, recebeu figuras ilustres como Wagner, Goethe, Oscar Wilde, Sophia Loren e até a Rainha Isabel II de Inglaterra.
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Ao lado deste hotel existe uma rua algo estranha, uma espécie de desfiladeiro ou um canyon, que é atravessado pela Via Luigi de Maio, que desce serpenteando em direção ao mar. O que torna este caminho verdadeiramente notável é a imagem que se observa a partir do miradouro no topo do balcão da falésia, que mostra a rua a ser “engolida” pelo desfiladeiro, quando este se abre, rasgando o penhasco. E foi por ali que tivemos de fazer a nossa penosa subida até ao centro histórico.
No percurso seguinte dirigimo-nos para a outra extremidade da cidade, onde fica a outra marina. Foi necessário descermos de novo até ao nível do mar, desta vez chegámos ao antigo porto de pesca, chamado de Marina Grande, um dos bairros mais autênticos e encantadores da cidade.
Trata-se de uma antiga vila de pescadores que mantém ainda grande parte do ambiente pitoresco original, com casas coloridas, barcos tradicionais e restaurantes junto ao mar onde se saboreia peixe fresco e especialidades locais.
Aquele bairro é um pedaço de tempo suspenso entre o mar e a memória, sem a sofisticação dos hotéis que se erguem nas falésias, nem a pressa turística de outras partes da cidade. Ali a vida respira devagar, mais simples, mais humana, com os barcos coloridos, gastos pelo tempo, que balançam como sonhos adormecidos na superfície azul-turquesa das águas.
E junto à praia, a Via Marina Grande percorre o bairro como uma veia de cor, ladeada por fachadas em amarelo, vermelho e azul, lavadas de sal e vento, e verdadeiras testemunhas de uma eternidade marítima.
Na pequena praia de areia negra, salpicada pelo mosaico vivo das toalhas e chapéus de sol, os banhistas entregam-se ao calor generoso do sol, e o ar traz consigo o cheiro das redes que secam à brisa, misturado com o aroma do peixe grelhado vindo das trattorie à beira-mar.
Este lugar já tinha adquirido um brilho especial, depois de Sophia Loren aqui ter deixado a sua presença. Foi em 1955, nas filmagens do clássico Pane, Amore e…, quando a atriz caminhou entre as mesmas ruas e pelas margens desta baía, transformando a Marina Grande num cenário eterno.
Algumas cenas do filme revelam exatamente o que hoje se vê: o casario colorido, os barcos a balançar, a vida simples junto ao mar. Décadas passaram e, no entanto, as semelhanças são ainda percetíveis, como se o tempo tivesse apenas suavizado as arestas, sem apagar a essência.
Caminhar por aqui é sentir uma presença que já não é visível, mas permanece suspensa no ar, com a sombra luminosa de Sophia Loren, um eco de beleza e intensidade que se mistura com o sal, o vento e a luz desta enseada de Sorrento.
Hoje, ao passear pela baía e pelas ruas apertadas deste bairro, encontram-se murais e fotografias que recordam a presença da atriz italiana… entre a tradição marítima e a aura cinematográfica, a Marina Grande é um ponto imperdível para quem visita Sorrento.
Este bairro típico é também um dos locais onde se encontram mais referências ao futebol, e à loucura destes italianos do Sul pelas suas equipas. E apesar de não estarmos em Nápoles, o clube da terra, o Napoli, é também o orgulho dos habitantes da região da Catânia e, por isso, não faltam referências clubísticas, com graffitis, murais e bandeiras, por entre as ruas mais pitorescas da cidade.
E é assim termino esta visita à cidade de Sorrento, com uma breve reflexão sobre a importância do clube de futebol da região para as suas populações, com alusões aos três únicos títulos do seu Napoli no campeonato italiano, o último dos quais conquistado há menos de um mês:
O Nápoles só precisou de três momentos para transformar a sua história numa lenda. O primeiro aconteceu nos anos 80, com Maradona. Mais do que futebol, foi uma epifania coletiva, quando o argentino fez da cidade um altar e cada vitória era celebrada como um milagre. Nessa altura, os napolitanos descobriram que também do Sul se podia conquistar o impossível, e a sua alegria era a de um povo finalmente reconhecido.
O segundo título, em 2023, teve um sabor diferente. Não foi apenas a quebra de um longo jejum, mas um reencontro entre a juventude e as memórias que lhes foram contadas. O grito dos adeptos misturava a nostalgia dos que tinham visto Diego em campo com a surpresa dos que só o conheciam pintado nos murais da cidade.
E em 2025, apenas um mês antes da nossa visita, chegou a terceira conquista que trouxe maturidade. O entusiasmo foi o mesmo, o fogo de artifício incendiou a noite, mas já não havia o espanto de quem se sente uma exceção. Havia, sim, a certeza de quem já sabe ser grande. Três títulos, três épocas diferentes, e uma única paixão: a de um povo que fez da bola a sua identidade e que, sempre que vence, transforma a vida num mito.
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Despeço-me assim de Sorrento, uma cidade cheia de vida e, ao mesmo tempo, surpreendentemente acolhedora. Nesta bonita terra aninhada entre montanhas, encontrámos um toque do glamour italiano, e uma forma de estar convidativa, como se o tempo se deixasse abrandar entre as falésias e o mar. Na Marina Grande, onde a vida dos pescadores ainda se desenrola com simplicidade, descobre-se a beleza que não precisa de artifícios: o compasso lento das marés, o perfume salgado do vento, os barcos coloridos que balançam como notas de uma canção antiga. Ali, à beira da água, apreciam-se certos instantes que não exigem nada além de serem vividos, e guardados, para sempre, na memória… misturando-se com outras memórias cinematográficas que ali serão sempre evocadas.
Mas esta é também uma despedida das duas viagens que fizemos à Costa Amalfitana, onde percebi, mais uma vez, que não é preciso muito para nos sentirmos pequenos diante da beleza. As estradas estreitas que serpenteiam pelas falésias, os tons de azul que mudam ao longo do dia e as vilas que parecem suspensas sobre o mar, têm um poder silencioso de nos prender o olhar e o coração. Em 2019 fiquei deslumbrado; em 2025 voltei a sentir o mesmo encantamento, mas desta vez com a calma de quem reconhece um lugar especial e se deixa simplesmente estar. A Costa Amalfitana não se vive com pressa - pede tempo, pede pausa, pede entrega - mas é isso precisamente o que nos falta, quando mergulhamos no turbilhão de uma torrente de turistas apressados. Mas não há muito que se possa fazer, é este o modelo habitual de quem visita estas terras italianas… mas não deixa de as tornar inesquecíveis, desta vez como em cada regresso, que será sempre um reencontro, com algo novo para descobrir, mesmo que nos seja já familiar.
Agosto de 2019 e Junho de 2025
Carlos Prestes