Bari
Saindo de Matera pela manhã, demoramos cerca de uma hora para percorrer os 65 km até à capital da Puglia, a cidade de Bari. Não será a cidade mais marcante da região, do ponto de vista turístico - talvez essa seja Lecce - mas não deixa de ser um local interessante, principalmente pela proximidade do mar Adriático e pela sua cidade velha.
A meio da tarde, haveríamos de seguir até Giovinazzo, uma pequena e acolhedora vila de pescadores, onde escolhemos passar esta última noite, pela proximidade do aeroporto de Bari, onde iriamos apanhar um avião na manhã seguinte.
Bari é a capital da região da Puglia, uma cidade portuária voltada para o mar Adriático, com um ambiente autêntico e uma história rica, visível sobretudo na sua cidade velha, onde ruas estreitas, igrejas antigas e praças animadas revelam o quotidiano tradicional italiano.
Para além deste centro histórico destacam-se alguns pontos de interesse, como a Basílica de São Nicolau, um importante local de peregrinação, e o Castelo Normando-Suevo, que testemunha o passado medieval da cidade.
Chegámos a meio da manhã, deixámos o carro num parque, e partimos a pé por um percurso que nos levou pela cidade, seguindo aproximadamente os trilhos marcados neste mapa:
Começámos a nossa visita pelo Castelo de Bari, também chamado Castello Normanno-Svevo, que é um dos principais marcos históricos da cidade.
O castelo foi originalmente construído pelos normandos no século XII e, mais tarde, já no século XIII, foi reconstruído e reforçado pelo imperador Frederico II, o que lhe deu a forma imponente que se mantém até hoje. A estrutura defensiva deste castelo segue a arquitetura militar medieval e é constituída por muralhas espessas, torres angulares e um fosso que o rodeia parcialmente.
Ao longo dos séculos, teve várias funções: fortaleza, residência nobre e até prisão. Hoje, o castelo é um espaço cultural relevante, com exposições e outros eventos, e é também um museu que expõe a história da região da Puglia.
Para conhecermos a cidade de Bari, vamos entrar pelo seu centro histórico, conhecido como Bari Vecchia, começando na Piazza Federico II di Svevia, que fica mesmo em frente ao castelo.
As ruas e praças da Bari Vecchia são um verdadeiro mergulho na autenticidade do sul de Itália. Um labirinto de ruelas estreitas em pedra clara, que contam séculos de história, onde a vida acontece à porta de casa: vizinhos a conversar, roupa estendida nas varandas e senhoras a fazer massa fresca à mão.
O fabrico e venda de massa é mais do que uma tradição, é mesmo uma parte da vida diária dos habitantes deste bairro. Nas ruas, especialmente na típica Strada Arco Alto, é comum ver senhoras locais a preparar massa fresca à porta de casa.
A mais comum destas massas que são vendidas em bancas de rua, é a orecchiette, com formato de pequenas “orelhinhas”, feitas apenas com sêmola de trigo duro e água. Com um gesto rápido e preciso, moldam cada peça com uma faca, num processo passado de geração em geração.
Há uns dias, no início da nossa viagem pela Puglia, já tínhamos experimentado num restaurante a especialidade local que utiliza este tipo de massa, o orecchiette com cime di rapa (que são grelos), e stracciatella ou burrata... um bom petisco, embora, em matéria de pasta italiana, há uma oferta imensa por todo o país que me agradam bastante mais.
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A Bari Vecchia apresenta um traçado urbano labiríntico, típico das cidades mediterrânicas medievais, com ruas estreitas, irregulares e densamente compactas, desenvolvidas de forma orgânica ao longo do tempo, numa configuração que responde às necessidades defensivas históricas, mas também ao clima quente da região da Puglia, proporcionando sombra e ventilação natural.
A malha urbana, com ruas apertadas e pequenas praças, vai revelando os edifícios com fachadas simples, com grande ligação ao espaço público, onde a vida quotidiana se vai estendendo pelas ruas, reforçando o caráter comunitário destas populações.
E nós percorremos estes espaços de forma espontânea, deixando-nos levar por cada beco, sem grande destino ou objetivo, apreciando apenas o que nos vai rodeando.
Pelo meio das ruas do centro histórico, vão surgindo alguns monumentos religiosos, que não quisemos deixar de visitar, como é o caso da catedral da cidade, ou a Basílica Catedral Metropolitana Primarcial de São Sabino, cuja torre sineira se destaca do contorno formado pelos telhados da Bari Vecchia.
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A também chamada Catedral de São Sabino, situada na Piazza dell’Odegitria, foi construída entre o final do século XII e o final do século XIII. Edificada em pedra calcária clara, típica da região, constitui um exemplo marcante da arquitetura românica da Puglia.
Destaca-se por uma fachada sóbria e equilibrada, com elementos decorativos simples, e por um interior amplo e luminoso. No subsolo, conserva vestígios arqueológicos e uma cripta com relíquias, refletindo a importância histórica e religiosa do edifício.
De um dos lados, conseguimos observar o campanário da igreja, ou torre sineira. Foi construído de forma sóbria e igualmente em pedra calcária clara, acompanhando a linguagem românica do conjunto.
Esta torre é facilmente visível ao longo da cidade e funciona como elemento de referência na paisagem urbana da Bari Vecchia, marcando a presença da catedral.
Ao sairmos da praça da catedral continuámos por uma outra zona do centro histórico, e fomos encontrando mais um sem número de ruas apertadas e típicas, por onde nos deixámos levar, mais uma vez, de forma aleatória, apenas para apreciar a arquitetura e a vivência que ali se respira.
No meio destas ruas encontramos mais uma das principais igrejas da cidade, a Basílica de São Nicolau (Basilica di San Nicola), um dos lugares mais importantes de peregrinação da região, onde se encontram as relíquias deste santo.
À primeira vista, a fachada românica desta igreja pode parecer sóbria, quase austera, mas basta atravessar as portas para perceber que este monumento é um espaço onde a fé, a história e a tradição, estão bem presentes no dia a dia.
A basílica foi construída no século XI para acolher as relíquias de São Nicolau, trazidas da antiga cidade de Mira - na atual Turquia - por marinheiros de Bari. Este episódio, visto por alguns como um resgate e por outros como um verdadeiro roubo, acabou por transformar Bari num importante centro de peregrinação cristã. Ainda hoje, fiéis de várias partes do mundo - tanto católicos como ortodoxos - visitam este local, o que torna esta basílica num raro ponto de encontro entre diferentes tradições religiosas.
O interior da igreja é relativamente simples, mas profundamente carregado de simbolismo. Ainda assim, é ao descer à cripta - a cave da basílica - que se revela o seu verdadeiro coração espiritual. É ali, num ambiente mais recolhido e silencioso, que repousa o túmulo de São Nicolau. A atmosfera transforma-se, com uma luz mais suave e o ar mais denso, e instala-se uma sensação de respeito quase inevitável. Mais do que uma simples atração turística, este é, sobretudo, um espaço de fé viva, onde os peregrinos se aproximam com a sua devoção. Ainda assim, confesso que nunca me senti totalmente confortável em criptas de igrejas, e aqui não foi exceção.
As peregrinações continuam a desempenhar um papel central na identidade deste lugar. Ao longo do ano, Bari recebe multidões que vêm prestar homenagem a São Nicolau, o Santo protetor dos navegantes. Uma das tradições mais marcantes acontece em maio, quando uma grande procissão leva a sua imagem até ao mar, evocando a ligação do santo aos marinheiros e à cidade portuária.
Visitar esta Basílica, é mais do que conhecer um edifício histórico, pois será sempre uma aproximação à figura de São Nicolau, um Santo que inspirou inúmeras lendas ao longo dos séculos - incluindo a imagem moderna do Pai Natal - no entanto, aqui em Bari, ele é lembrado não como uma personagem mítica, mas como uma presença espiritual concreta, cuja influência continua a atrair crentes e curiosos.
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À saída da basílica continuamos pelas ruas do centro histórico, sobre o qual já não há mais nada a acrescentar… basta apenas apreciar mais algumas das fotos que fomos tirando.
Na zona mais a sul da cidade velha, vamos começando a encontrar uma arquitetura com uma tendência ligeiramente diferente, e surge a Chiesa del Santissimo Nome di Gesù, uma igreja barroca do final do século XVI, a fazer lembrar as igrejas de Lecce.
Esta zona é marcada pela presença da muralha da cidade, aqui chamada de Fortino Sant Antonio, e pela Piazza Mercantile, a praça mais ampla da Bari Vecchia.
Saindo agora do centro histórico percorremos a marginal com vista para o mar Adriático, que se define ao longo da orla marítima, chamada de Lungomare Nazario Sauro, onde o azul intenso do mar se estende até ao horizonte e se mistura com o ritmo tranquilo da cidade. Ao longo do percurso, palmeiras alinhadas, edifícios elegantes e o som constante das ondas, criam um cenário perfeito para uma caminhada descontraída.
Mas ainda antes, passámos junto ao Teatro Margherita, um belíssimo edifício que se destaca pela sua elegante fachada em estilo Liberty, que foi construído sobre estacas diretamente na água e ligado à cidade por uma ponte.
Entrando depois no centro mais clássico da cidade, chegamos ao Corso Cavour, uma das principais avenidas de Bari, ligando a zona moderna ao centro histórico. Ao longo desta via movimentada, encontram-se lojas, cafés e um conjunto de edifícios elegantes de referência.
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Entre os vários edifícios marcantes que se alinham ao longo da Corso Cavour, destacam-se o Palazzo dell’Intendenza, o edifício do Banca d’Italia e o Teatro Petruzzelli, todos eles exibindo fachadas elegantes que refletem a riqueza arquitetónica e a importância histórica desta avenida.
Toda a envolvente desta avenida caracteriza-se sempre por uma arquitetura elegante e eclética, muito influenciada pelo crescimento urbano de Bari, que ocorreu a partir do final do século XIX. Assim encontramos edifícios de inspiração neoclássica ou Art Nouveau - ou a sua variante italiana, o estilo Liberty - com fachadas trabalhadas, varandas em ferro forjado e elementos decorativos que revelam atenção ao detalhe.
No conjunto, a avenida revela uma harmonia visual interessante, onde diferentes estilos coexistem de forma coerente, criando um cenário urbano sofisticado que reflete a ambição de Bari enquanto cidade em expansão naquela época.
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Uma outra rua das mais importantes desta zona é a Via Sparano, que é uma artéria pedonal de comércio, que nas horas em que as lojas estão abertas, funciona quase como um centro comercial ao ar livre, destacando-se pelas suas lojas de marcas internacionais, boutiques e cafés, que se sucedem ao longo de um traçado amplo e cuidado.
Nesta rua comercial, surge um monumento religioso, a Chiesa di San Ferdinando, com um formato completamente desajustado a toda a envolvente arquitetónica. No centro de uma cidade onde predomina o mais típico e o mais clássico, surge este edifício moderno, e até desajeitado, que parece não fazer parte deste cenário.
No final da Via Sparano chegamos a mais uma importante avenida da cidade, o Corso Vittorio Emanuele II.
Esta via funciona como eixo de ligação entre a cidade antiga (a Bari Vecchia) e a zona mais moderna, e destaca-se pelas suas largas faixas arborizadas, onde predominam as palmeiras, e pelos edifícios imponentes que refletem a expansão urbana da cidade nos séculos XIX e XX.
Ao longo da avenida encontram-se alguns dos edifícios mais importantes de Bari, como o Teatro Piccinni, um dos teatros mais antigos da cidade, com uma elegante fachada neoclássica; e o Palazzo Fizzarotti, um palácio singular com grande riqueza decorativa; e ainda o Palazzo di Città, a sede do município.
No conjunto, o corso apresenta uma envolvente arquitetónica variada, mas harmoniosa, onde edifícios históricos convivem com espaços de lazer e comércio, criando uma atmosfera que faz desta avenida um dos principais pontos de encontro e passeio em Bari.
No final desta tarde iriamos ainda visitar a pequena vila de pescadores de Giovinazzo, um lugar acolhedor, ideal para um jantar à beira-mar, apreciando as cores do pôr-do-sol.
E quanto a Bari, era hora de nos despedirmos, ficando a memória de uma cidade luminosa, onde o mar Adriático está sempre ali mesmo ao lado e nos acompanha a cada passo. Entre ruas históricas, avenidas elegantes e fachadas cheias de carácter, constrói-se uma paisagem feita de contrastes simples e autênticos.
Mas a imagem dominante que nos fica desta cidade é a da Bari Vecchia, o seu centro histórico, com as ruelas estreitas e um ambiente genuíno, que é a principal marca distintiva desta bonita cidade.
Giovinazzo
Giovinazzo recebe-nos com a serenidade de quem conhece o mar há séculos. Esta pequena vila, voltada para o Adriático, carrega no seu porto uma memória antiga, de partidas, regressos, encontros e desencontros.
Logo no primeiro dia desta viagem, mal chegámos à região da Puglia, e escolhemos passar o serão nesta vila acolhedora. Na altura - tal como agora, nove dias depois - fomos recebidos, à entrada do centro, por um imenso letreiro que assinala a chegada a Giovinazzo, como se nos quisessem dar as boas-vindas de forma simples, mas calorosa.
Também escolhemos jantar junto ao porto, que é muito mais do que um abrigo para os barcos que ali encontram descanso. É, na verdade, o coração vivo desta pequena vila, e é ali, junto à baía, que tudo começa - onde a vida ganha forma e depois se espalha pelas ruelas estreitas, e ao longo das fachadas de pedra clara e pelas varandas que se debruçam, curiosas, sobre o mar.
Chegámos, desta vez, já ao final da tarde, quando a luz começava a transformar todo o ambiente. As cores do entardecer pintavam o mar e a zona do porto com tons quentes, dourados e suaves, e o sol descia devagar, refletindo-se nas águas tranquilas e nos cascos adormecidos das embarcações.
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Mas ainda antes de explorarmos esta baía onde se forma o porto de Giovinazzo, entrámos na vila pela Piazza Vittorio Emanuele II, que é o seu verdadeiro centro, não apenas geograficamente, mas também na forma como concentra a sua vida quotidiana.
Aqui experimenta-se uma atmosfera autêntica, ainda sem a marca de um turismo massivo, que encontramos quase por toda a Itália. Este é um ponto de encontro natural, com crianças a brincar, idosos em conversa animada, e o vai-vem tranquilo de quem ali passa sem pressa. À noite, ganha outro ritmo, mais animado, com luzes quentes, esplanadas cheias e o murmúrio constante de conversas que se misturam com o som do mar, ali bem perto.
A praça é marcada por edifícios de traça elegante e sóbria, com fachadas em pedra clara que refletem a luz intensa desta zona do sul de Itália. Mas o seu principal elemento é a fonte dos tritões, elegante e algo inesperada, com as suas figuras marinhas a trazer movimento e frescura a este espaço. À sua volta, um edifício domina o cenário, trata-se da Parrocchia di San Domenico, uma modesta, mas grandiosa, igreja que se integra nesta praça de forma equilibrada.
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Entrámos depois pelas ruas da cidade-velha, deixando-nos envolver pela arquitetura típica, de pedra clara e ruas empedradas. Pelo caminho, destacam-se algumas construções - assinaladas no mapa apresentado no início da crónica deste último dia - com destaque para a principal igreja da vila, a Concattedrale di Santa Maria Assunta, que sobressai na paisagem pelas suas duas torres sineiras distintas, que lhe conferem uma presença única e facilmente reconhecível.
Nesta caminhada pelo centro histórico vamos encontrando alguns troços da antiga muralha, atualmente reabilitada e utilizada para usufruto turístico, sendo integrada, por exemplo, nos passadiços de acesso junto ao mar.
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Continuámos o passeio, seguindo agora pelo lado oposto da baía do porto, de onde a cidade-velha se revela por inteiro. Dali, o perfil de Giovinazzo ganha outra clareza - mais amplo, mais definido - e, ao entardecer, ainda mais belo. A luz suave começava a envolver o centro histórico em torno do porto, dando-lhe um tom quase dourado, sereno e intemporal... proporcionando imagens lindíssimas.
Depois desta caminhada tranquila, escolhemos um restaurante com vista aberta sobre o mar. O sol preparava-se para desaparecer no horizonte e, pouco a pouco, a luz transformava-se em tons alaranjados e profundos, pintando o Adriático com reflexos quentes e criando paisagens de uma beleza profunda.
Durante a noite, a vila de Giovinazzo não perde a sua beleza, talvez a intensifique ainda mais. A luz suave que passa a envolver a vila quando o sol parte, torna tudo mais íntimo, mais próximo, e a atmosfera acolhedora transforma-se em algo ainda mais tocante, quase como um convite silencioso a ficar um pouco mais.
E foi exatamente o que fizemos, ficámos mais algum tempo… ao sair do restaurante voltámos às ruas e continuámos apreciar de novo este belíssimo ambiente.
As ruelas e praças revelam agora uma imagem ainda mais pura do centro histórico, dominado pela sua principal igreja, a Concattedrale di Santa Maria Assunta, que surge iluminada, destacando-se com elegância do céu já escuro, como um ponto de referência silencioso que dá profundidade à noite.
Uma última imagem deste porto fica suspensa no olhar, já não como presença, mas como memória. Há nela uma tristeza serena, a de quem se despede sabendo que leva mais do que trouxe. Como sempre acontece no fim de uma viagem, mas aqui de forma mais intensa, a partida pesa. Não é apenas Giovinazzo que fica para trás, com a sua beleza simples de vila piscatória, mas toda uma região que se entranhou devagar e nos acompanhou em silêncio, deixando uma saudade profunda, feita de luz, de mar e de instantes que insistem em permanecer.
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