segunda-feira, 9 de junho de 2025

Lecce


A cidade de Lecce é frequentemente apelidada de “Florença do Sul”, afirmando-se como uma das joias do sul de Itália, famosa pelo deslumbrante barroco leccese, que se distingue pelo uso do calcário dourado, pelas ruas elegantes e por uma atmosfera serena que convida à descoberta do seu rico património histórico e arquitetónico.
Reservámos um hotel em pleno centro histórico da cidade, que usámos como base de apoio, entre as aldeias da zona norte da Puglia, e as praias do sul desta península.

Para quem opta por ficar alojado no coração de Lecce, o principal desafio é o estacionamento. Existem lugares na via pública com parquímetro, pagos até às 19h e gratuitos durante a noite, mas a disponibilidade é bastante limitada. Em alternativa, há parques cobertos, mais práticos, embora significativamente mais caros, já que também cobram durante o período noturno.

O centro histórico é bastante compacto e muito acolhedor, marcado por ruas empedradas, arquitetura clássica e uma forte presença de igrejas, maioritariamente em estilo barroco, que conferem à cidade uma identidade única e um ambiente particularmente encantador.

Por onde quer que nos deixemos vaguear nesta pequena cidade, acabaremos inevitavelmente por cruzar, mais do que uma vez, os seus principais monumentos, assinalados neste mapa:
 

O centro da cidade é servido por um pequeno jardim, chamado de Jardim Giuseppe Garibaldi, um dos espaços verdes emblemáticos e históricos de Lecce, desde a sua inauguração em 1830. Inicialmente era conhecido como "Villa della Lupa", devido à presença de uma jaula com lobos que remetia ao símbolo da cidade de Lecce, mas poucos anos depois o parque foi renomeado em homenagem a Garibaldi. Hoje, os jardins são um local popular para relaxar, com áreas de lazer para crianças, fontes ornamentais, bancos sombreados e espaços para eventos culturais e musicais.


Piazza Sant'Oronzo e Anfiteatro Romano

Depois de atravessarmos este jardim - rodeado por algumas ruas com estacionamento disponível com parquímetro, onde deixámos o carro sempre que foi necessário - entrámos nas ruas pedonais do centro histórico e chegámos à sua praça principal, onde ficava o nosso hotel, a Piazza Sant'Oronzo, conhecida pelo seu Anfiteatro Romano.

A Piazza Sant'Oronzo é um espaço que combina história antiga com a vida moderna, sendo um ponto de encontro popular, tanto para os habitantes locais como para os visitantes. A praça é dedicada a Sant'Oronzo, o padroeiro de Lecce, cuja estátua de bronze se encontra sobre uma coluna de 29 metros de altura, localizada no centro da praça. Esta coluna foi erguida no século XVII como agradecimento pela proteção do Santo durante uma epidemia de peste em 1656. A estátua atual é uma réplica colocada em 2024, substituindo a original do século XVIII, que foi restaurada e preservada noutro local.
Além de alguns edifícios históricos que cercam esta praça, como o Palazzo del Sedile, uma antiga sede do município construída no final do século XVI, e a Igreja de Santa Maria della Grazia, um exemplo notável da arquitetura barroca, o grande destaque neste local vai para o Anfiteatro Romano, uma impressionante estrutura do período romano descoberta no início do século XX durante as escavações de obras de construção.
O Anfiteatro Romano de Lecce, datado entre o final do século I a.C. e o início do século I d.C., é um dos mais importantes testemunhos da presença romana na antiga cidade de Lupiae. Com capacidade para acolher entre 12.000 e 14.000 espectadores, era utilizado para espetáculos como lutas de gladiadores e combates entre animais, desempenhando um papel central na vida social da época.

Atualmente, apenas cerca de um terço da estrutura original está visível, permanecendo o restante enterrado sob a Piazza Sant'Oronzo e os edifícios circundantes. Ainda assim, é possível observar parte da arena de forma elíptica e das bancadas inferiores, o que permite ter uma noção clara da grandiosidade deste espaço, construído há mais de dois mil anos.
Junto às bancadas encontra-se um pequeno museu onde estão expostos diversos achados arqueológicos provenientes das escavações, como esculturas e elementos decorativos. Este anfiteatro assume grande importância histórica e cultural, sendo um dos principais testemunhos da antiga cidade romana e um elemento fundamental para compreender a evolução urbana e cultural de Lecce ao longo dos séculos.


Teatro Romano

A pouco mais de 200 metros deste grande anfiteatro encontra-se um outro teatro romano. Ao contrário do primeiro, plenamente visível, este é mais discreto e permanece quase escondido entre os edifícios do centro histórico, podendo facilmente passar despercebido a quem não saiba exatamente onde procurar.

Além disso, só se torna visível se este estiver aberto. Embora o acesso ao espaço seja geralmente gratuito, a verdade é que o período de abertura acompanha o horário do Museo del Teatro Romano, que fica na mesma área, e funciona entre as 10h00 e as 18h00, e encontra-se ainda encerrado às segundas-feiras.

Este Teatro Romano é um dos vestígios mais discretos e surpreendentes da presença romana na cidade. Datado do século I d.C., encontra-se parcialmente preservado e quase escondido. Com capacidade para cerca de cinco mil espectadores, era utilizado para a representação de peças teatrais - como tragédias e comédias. Hoje, ainda é visível uma parte das bancadas e do palco, permitindo perceber a estrutura original deste espaço que, durante séculos, permaneceu soterrado e esquecido.


Piazza del Duomo

Apenas a algumas dezenas de metros vamos chegar à Piazza del Duomo, uma das praças mais impressionantes do estilo barroco italiano. Diferente de outras praças abertas, esta ocupa um espaço fechado, acessível apenas por uma entrada estreita, o que cria um efeito de cenário teatral quando se entra nela.

Vamos ali encontrar alguns monumentos de referência, como a Catedral de Lecce, uma igreja dedicada à Assunção da Virgem Maria, e que é considerada um dos mais importantes monumentos religiosos da cidade e um dos melhores exemplos do barroco leccese.

A sua origem remonta ao século XII, mas o edifício atual resulta de uma profunda reconstrução realizada durante o século XVII sob a direção do arquiteto Giuseppe Zimbalo, uma das figuras mais marcantes da arquitetura local.
A catedral apresenta uma particularidade interessante, pois possui duas fachadas - sendo a principal relativamente sóbria, enquanto a fachada lateral, voltada para a entrada da praça Duomo, é muito mais trabalhada e representa melhor o estilo barroco exuberante que caracteriza a cidade de Lecce. Esta assimetria foi pensada para valorizar o conjunto urbano da praça, criando um efeito cénico e monumental.
Ao lado do corpo da Catedral ergue-se o campanário, ou torre sineira, um dos elementos mais marcantes do perfil da cidade e um excelente exemplo da elegância do barroco leccese. Construída no século XVII, e também projetada por Zimbalo, atinge cerca de 70 metros de altura, em cinco troços que vão diminuindo sucessivamente, criando um efeito visual harmonioso.

Para além da sua função religiosa, a torre teve também um papel estratégico, servindo como ponto de vigilância sobre o território envolvente. Esse ponto de observação é, ainda hoje, acessível, com um terraço panorâmico que, em dias de boa visibilidade, permite avistar não só a cidade de Lecce, mas também o mar Adriático e até as montanhas da Albânia.

Hoje, a torre é um dos símbolos mais reconhecíveis da cidade, com a sua estrutura em pedra calcária, típica da região, que lhe dá uma tonalidade clara que ganha destaque com a luz do sol. Mais do que um edifício religioso, a Catedral de Lecce é um ponto central da sua vida histórica e cultural, integrando o conjunto arquitetónico harmonioso da Piazza del Duomo, considerada uma das praças mais bonitas de Itália.


As igrejas de Lecce

Mas para além da catedral, Lecce está cheia de outras igrejas que constituem a sua principal atração, sobretudo devido ao estilo barroco, numa variante exclusiva, o já mencionado barroco leccese.

Assim, um dos principais interesses para quem visita este centro histórico, será percorrer as suas ruas empedradas, apreciando a arquitetura, sempre em ótimo estado de conservação, e ir descobrindo as diversas igrejas que nos vão surgindo.

Se não tivermos muito tempo, limitamo-nos a apreciar as fachadas, entrando apenas naquelas cujo acesso está aberto ao público. Se quisermos uma visita mais imersiva podemos comprar o ingresso para um circuito que dá para visitar várias igrejas, e que é chamado de LeccEccle, do qual falarei mais à frente.

Começando pela Piazza Sant'Oronzo, encontramos a Chiesa di Santa Maria della Grazia, mesmo encostada ao Anfiteatro, uma elegante igreja do século XVI, com vários elementos barrocos e uma fachada relativamente sóbria, contrastando com a riqueza decorativa típica da cidade. O acesso é livre e o interior destaca-se pelos altares ornamentados, onde se podem apreciar pinturas e elementos decorativos de caráter religioso.

Pouco depois, seguindo o percurso assinalado no mapa com os ícones a verde, encontramos a Chiesa di Santa Chiara, que é mais um dos interessantes exemplos do barroco leccese, destacando-se pela sua fachada curva pouco comum, e que lhe dá um aspeto elegante e dinâmico. Foi construída no século XVII e está associada a um antigo convento de Clarissas.

O interior é particularmente marcante, com uma nave de planta elíptica decorada em estuque trabalhado, altares ornamentados e apontamentos dourados. No entanto, o acesso a esta igreja não é gratuito, estando incluído no bilhete conjunto que dá acesso ao circuito das igrejas barrocas.

Seguindo depois na direção da Porta San Biagio, chegamos à Chiesa di San Matteo, uma pequena igreja barroca do século XVII, conhecida pela sua fachada invulgar - com a parte inferior convexa e a superior côncava - e por um interior elegante, de planta elíptica, decorado com estátuas dos apóstolos. A entrada é geralmente gratuita.

O ponto de paragem seguinte é na Piazza del Duomo, onde está a Catedral da Nossa Senhora da Assunção e o seu campanário - que já foram referidos. Falta só mencionar que o acesso a estes monumentos da praça do Duomo está incluído no bilhete do circuito de igrejas barrocas, e que inclui a visita à própria catedral e à sua torre sineira, e também ao antigo Seminário, o Palazzo Arcivescovile, um edifício histórico que também fica na praça do Duomo. Neste palácio encontra-se o Museo di Arte Sacra (MuDAS), onde se expõem esculturas, pinturas e objetos litúrgicos que ajudam a contextualizar artisticamente as igrejas visitadas.

A Chiesa di Santa Teresa fica Via Giuseppe Libertini e é o próximo local de paragem. Trata-se de uma pequena capela do século XVII, que está ligada a um antigo convento Carmelita, e que é mais um exemplo do barroco local. A sua fachada, é feita em pedra clara típica de Lecce e revela a linguagem barroca formando um conjunto visualmente equilibrado e refinado.

Esta igreja não faz parte do circuito pago para a visita aos templos barrocos, pelo que a sua entrada é gratuita.

Voltando para trás na Via Giuseppe Libertini, que liga com a Via Vittorio Emanuele II, vamos encontrar depois uma das mais bonitas igrejas da cidade, a Chiesa di Santa Irene. Esta igreja tem entrada livre, ou seja, não está incluída no bilhete para o circuito do barroco.

É uma das igrejas locais mais importantes da cidade e usa uma pedra mais clara do que o habitual do barroco. Foi construída no século XVII e é dedicada a Santa Irene, antiga padroeira de Lecce, antes de Sant’Oronzo. A sua fachada é sóbria e elegante, contrastando com um interior amplo e com uma decoração rica, composto por uma única nave com várias capelas laterais ornamentadas. Destaca-se pelos altares elaborados, pelas pinturas e pelo ambiente solene, refletindo a importância religiosa e artística que teve na época.

Pouco depois, chegamos à Piazza Castromediano onde se encontra a Chiesa del Gesù, uma igreja com entrada livre, não incluída no bilhete do circuito.

É uma igreja barroca do século XVI associada à ordem dos jesuítas, refletindo uma estética mais contida e funcional em comparação com outras igrejas da cidade. A fachada é relativamente sóbria, com linhas equilibradas e decoração discreta, seguindo a tradição arquitetónica jesuíta.

A 150 metros encontramos aquela que é talvez a mais bonita igreja de Lecce, a Basílica da Santa Cruz. Esta igreja não é de entrada live, ou seja, faz parte do bilhete conjunto para o circuito de igrejas barrocas.

Trata-se do maior símbolo do barroco leccese e é uma das igrejas mais impressionantes da cidade. Foi construída entre os séculos XVI e XVII, e destaca-se sobretudo pela sua fachada com uma decoração extraordinária, considerada uma das mais exuberantes de Itália, com esculturas detalhadas, figuras humanas, animais e elementos ornamentais esculpidos na pedra clara típica de Lecce.

O interior, mais sóbrio em comparação com o exterior, apresenta uma nave ampla com altares laterais decorados e um ambiente harmonioso. No conjunto, é um exemplo marcante do virtuosismo artístico e da criatividade do barroco local.

Depois da apresentação das principais igrejas do centro histórico de Lecce, faço agora uma última referência ao circuito que inclui a visita a algumas delas, conforme fui mencionando.

O chamado circuito LeccEcclesiae é um passe que permite visitar várias igrejas e monumentos barrocos de Lecce com um único bilhete, válido durante 15 dias a partir da data de ativação, que pode ser feita online. Trata-se de um percurso pedonal pelo centro histórico, pensado para ser explorado ao ritmo de cada visitante, com a opção de poder ser feito em apenas meio-dia ou distribuído por vários dias.

O bilhete base custava 11€ (valores de 2025), existindo uma opção mais completa, por 21€, que inclui a subida ao campanário da catedral (com elevador). Com este passe, é possível visitar locais como a Catedral de Lecce, a cripta, a torre sineira, a Basílica de Santa Croce, Santa Chiara, San Matteo e o antigo seminário com o museu de arte sacra.

Na prática, é uma forma conveniente e económica de explorar os principais tesouros barrocos da cidade, permitindo visitas ao longo de um período flexível.


Durante a nossa estadia em Lecce encontrámos ainda outros monumentos interessantes, como o Castello Carlo V, com as suas muralhas e portões. Este castelo foi construído originalmente na Idade Média, para proteger a cidade contra as invasões, sobretudo dos otomanos, que representavam uma ameaça constante no século XVI, mas foi depois significativamente ampliado e reforçado por ordem do imperador Carlos V.

Quanto aos portões de acesso à cidade velha, destaco aqueles por onde passámos, a Porta Rudiae e a Porta San Biagio, duas das antigas portas de entrada da cidade, que constituem vestígios das muralhas que protegiam o centro histórico na época medieval.

A Porta Rudiae, de origem mais antiga, apresenta um aspeto imponente, com uma fachada que inclui esculturas de santos e elementos simbólicos ligados à história religiosa da cidade. Já a Porta San Biagio, foi reconstruída no século XVIII, e é a mais elegante das duas, destacando-se pelo seu estilo barroco simples e pelo brasão da cidade no topo.



A noite na cidade

A cidade de Lecce revela uma beleza singular ao cair da noite, quando as belíssimas igrejas barrocas, elegantemente iluminadas, se erguem como faróis na malha de ruas empedradas, convidando-nos a deambular sem rumo.
         

E depois há sempre a excelente gastronomia – ou não estivéssemos nós em Itália – com uma vasta oferta de restaurantes e bistrôs, que se estendem pelas ruas em esplanadas acolhedoras e nos servem as melhores opções da comida típica da Puglia.



Lecce fica na memória como uma cidade feita de luz e pedra, onde cada esquina parece ter sido talhada com o cuidado de um artesão. Em cada dia que passa, o centro histórico deixa de ser apenas um cenário e transforma-se num ritmo: o das ruas estreitas, das praças cheias de vida, das fachadas barrocas que parecem mudar com o movimento do sol.

Percorrer Lecce é descobrir, quase sem dar por isso, camadas de história sobrepostas - dos anfiteatros romanos às igrejas trabalhadas em pedra clara, passando por portas antigas que ainda hoje guardam a memória das muralhas da cidade. Tudo aqui parece coexistir sem pressa, como se o tempo tivesse decidido abrandar, ficando a sensação de que Lecce não se esgota numa visita. Há sempre um detalhe que passou despercebido ou uma igreja em que não se entrou. Talvez seja isso que torna esta cidade especial: não se oferece de imediato, convida sempre a um regresso… mas que talvez não seja possível cumprir.


Junho de 2025
Carlos Prestes