Neste dia, saímos de Lecce bem cedo, com o objetivo de percorrer várias praias ao longo do sul da Puglia, do lado do mar Adriático, precisamente na zona onde se desenha o “tacão” da bota italiana.
Esta costa é conhecida pelas suas grutas e pequenos areais, muitas vezes apontados como paragens imperdíveis. Inicialmente, pensámos visitar uma ou duas dessas praias mais resguardadas, mas rapidamente percebemos que, apesar da sua beleza, estavam bastante concorridas, o que lhes retirava a tranquilidade que procurávamos.
Assim, acabámos por optar por uma praia de maior dimensão nesta mesma zona, onde seria mais fácil encontrar espaço e desfrutar do ambiente com calma... e foi aí que passámos grande parte da manhã, entre mergulhos e momentos de descanso à beira-mar.
O trajeto que realizámos ao longo deste dia foi de cerca de 100 km - seguindo, de forma aproximada, os percursos assinalados neste mapa - sempre acompanhados pela proximidade do mar e pelas paisagens características desta costa do Adriático:
Praia de Torre dell'Orso
Foi esta a praia que escolhemos - a Praia Torre dell'Orso - que se estende ao longo de um belíssimo areal de areia branca, com cerca de 800 metros, encaixado entre dois imponentes penhascos de calcário, e partilhando o cenário com a vizinha praia das Le Due Sorelle.
À esquerda ergue-se uma antiga torre de vigia, que deu nome à povoação local, Torre dell'Orso. A designação significa “Torre dos Ursos”, o que desperta curiosidade, já que não existem ursos nesta região de Itália. Segundo algumas interpretações, o nome poderá derivar de uma rocha próxima com forma semelhante a um urso, ou, alternativamente, pode estar associado a Santa Úrsula, uma das santas padroeiras locais.
Mas o que é evidente quando observamos a torre, é que não se encontra qualquer semelhança com a figura de um urso, mantendo-se o nome envolto em alguma incerteza e tradição popular.
Este areal é muitas vezes apelidado de “as Caraíbas do Salento” ou “Caraíbas italianas”, devido à água cristalina em tons turquesa e à areia branca que, vá… em certos ângulos e com alguma imaginação (e talvez um filtro de Instagram), até podem fazer lembrar destinos tropicais. Mas, sejamos honestos, comparar a Praia Torre dell'Orso às Caraíbas é daquelas comparações otimistas e muito criativas. Desde logo, a temperatura da água trata de nos trazer rapidamente de volta à realidade: no início do verão rondava uns refrescantes 21º, o que está muito longe do “caldinho” caribenho onde se entra no mar sem pensar duas vezes.
Ainda assim, a expressão “Caraíbas do Salento” pegou e é usada sem pudor na promoção local. Aliás, mal se chega à praia, somos recebidos por cartazes, símbolos e referências que reforçam essa ideia.
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Chegando à Praia Torre dell'Orso, somos imediatamente envolvidos por uma paisagem marcada por falésias, dunas suaves e zonas de pinhal, compondo um cenário natural muito equilibrado entre a beleza da linha costeira e a vegetação típica mediterrânica.
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A praia oferece excelentes condições, tanto para estender a toalha ao sol como para ir a banhos. As águas são calmas, transparentes e com uma temperatura agradável - não chegam ao nível das Caraíbas, mas também estão bem longe do choque térmico do Atlântico, o que já é uma melhoria considerável.
O verdadeiro desafio destas praias da Puglia costuma ser a quantidade de gente que invade o areal, sobretudo em julho e agosto, quando encontrar espaço livre pode ser quase impossível. No entanto, como estávamos no início de junho, o cenário era bem diferente: havia algumas zonas organizadas com chapéus de sol das concessionárias - os famosos lidos - mas com muito pouca ocupação, e vários troços de areia praticamente à nossa disposição. Resultado? Um autêntico luxo: um mar aberto, calmo e quase vazio, perfeito para nadar sem confusões nem multidões. E foi exatamente isso que fizemos… durante toda a manhã, sem pressas e sem grande concorrência.
No lado direito do areal, a praia ganha o nome das duas formações rochosas que se erguem em frente às falésias, conhecidas como Le Due Sorelle (as “duas irmãs”). Estas rochas, muito semelhantes entre si, emergem do mar a curta distância da costa e tornaram-se um dos símbolos mais reconhecíveis da paisagem.
Como não podia deixar de ser, estão envoltas numa lenda local: conta-se que duas irmãs, fascinadas pela beleza daquele mar, decidiram aventurar-se nas suas águas, mas acabaram por ser levadas pelas correntes. Sensibilizados com a tragédia, os deuses terão transformado as jovens em duas rochas, para que permanecessem juntas para sempre, eternamente unidas no meio do mar.
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Faraglioni di Sant'Andrea
Já a caminho para sul, a cerca de 3 km da praia anterior, encontramos uma impressionante zona de falésias calcárias, conhecida como Sant'Andrea. Do topo do penhasco, somos brindados com vistas absolutamente deslumbrantes sobre as formações rochosas esculpidas pelo mar ao longo do tempo, rodeadas por um azul-turquesa intenso que parece quase irreal. O contraste entre o branco das rochas e a cor vibrante da água cria cenários de grande beleza, daqueles que nos fazem parar, olhar… e simplesmente apreciar.
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Os Faraglioni di Sant'Andrea constituem um dos cenários costeiros mais impressionantes de toda a Puglia. Estas formações calcárias, esculpidas pacientemente pelo vento e pelo mar ao longo de milhares de anos, surgem como autênticas esculturas naturais: pilares, arcos e agulhas de rocha branca que contrastam de forma quase perfeita com o azul-turquesa intenso do Adriático. O resultado são paisagens dramáticas e fotogénicas, onde cada ângulo parece melhor do que o anterior - um verdadeiro paraíso para quem gosta de fotografia ou simplesmente de ficar a contemplar estas imagens de sonho.
Mas este belíssimo lugar não se esgota na contemplação a partir do topo. Para os mais aventureiros - e sempre com os devidos cuidados - existem trilhos que descem pelas falésias até zonas mais próximas da água, revelando uma perspetiva diferente destas formações. Lá em baixo, o mar convida inevitavelmente a um mergulho, e nadar entre estas estruturas rochosas, com a transparência da água a deixar ver o fundo, cria uma experiência memorável. Ainda assim, é essencial ter atenção às condições do mar e ao piso irregular, garantindo que a aventura se mantém segura e sem percalços.
Por fim, completámos a visita com uma caminhada pelos trilhos que contornam o topo das falésias, levando-nos até à baía seguinte, que mantém aquele azul vivo e absolutamente indecente, quase a provocar. Perante um cenário destes, apetece-nos ficar por ali, dar uns mergulhos, estender a toalha ao sol e, já agora, acompanhar tudo isso com umas coisinhas para picar, acompanhadas por um belo vinho branco bem fresquinho.
Mas para concretizar esse plano idílico, só nos falta mesmo termos um barco. E é aqui que a realidade entra em cena - a paisagem é de luxo, o espírito é aventureiro, mas a carteira continua firmemente em classe económica. Enfim… maldita seja a vida dos pobres!
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Otranto
Fizemos a paragem seguinte na encantadora vila costeira de Otranto, um lugar que cativa desde o primeiro instante. Erguida sobre um maciço rochoso com vista privilegiada sobre o mar, distingue-se pelas intensas cores azul-turquesa do Adriático e pelo rico património da sua cidade velha, que lhe valeu o reconhecimento da UNESCO, como património cultural.
À chegada, ficámos rendidos: como pode uma localidade de raízes históricas estar envolta em praias que parecem saídas de um cenário... estas sim, a lembrar as Caraíbas? As areias claras e, sobretudo, o azul profundo e sereno das águas, criam a sensação de uma imensa e belíssima piscina natural.
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Quisemos explorar a praia e experimentar as águas, aqui já com uma temperatura mais agradável, talvez por serem mais rasas. Fomos percorrendo as diferentes zonas de areia, absorvendo a beleza das paisagens e aproveitando cada oportunidade para entrar no mar. Sempre com a cidade velha como pano de fundo, diante de um espelho de água infinito, que parece irreal, e que nos foi prendendo o olhar.
Parámos para um almoço leve e tranquilo numa esplanada, brindada com esta vista verdadeiramente magnífica sobre uma envolvente de sonho. Entre o azul intenso do mar e o casario da cidade ao fundo, fomos convidados a saborear, não só a refeição, mas também cada detalhe da paisagem.
Seguimos depois pela marginal principal, onde as praias são concessionadas e, por isso, têm os característicos chapéus de sol e espreguiçadeiras - os lidos, como são conhecidos aqui em Itália. Estes espaços conferem uma identidade própria à linha costeira, integrando, neste caso, a bonita paisagem natural da envolvente.
Ao longo do percurso, íamos apreciando as sucessivas perspectivas sobre a baía, onde o azul do mar se funde com o horizonte e contrasta com as formações rochosas e a arquitetura da cidade.
A própria marginal de Otranto é também um espaço interessante, está repleta de restaurantes com esplanadas convidativas, um dos grandes atrativos da cidade para quem deseja apreciar a gastronomia local. Aqui, destacam-se os pratos de peixe e marisco, frescos e abundantes, refletindo a proximidade ao mar Adriático, já perto do encontro com as águas do mar Jónico que chegam da Grécia.
Daqui da marginal, começamos a apreciar a silhueta inconfundível da cidade velha, que se ergue com imponência sobre o mar, como um guardião da história e da paisagem envolvente. Entre o conjunto compacto de edifícios, destaca-se o perfil da Catedral de Santa Maria Annunziata, verdadeiro marco arquitetónico e espiritual, que assume um papel central neste cenário reconhecido como património pela UNESCO.
Ao entrarmos na cidade velha, deparamo-nos de imediato com as imponentes muralhas do Castelo Aragonês e alguns dos seus portões de acesso, que evocam o passado defensivo da cidade. Ali perto, destaca-se também um dos seus símbolos mais marcantes: o Monumento aos Heróis e Mártires de Otranto de 1480, memória de um episódio decisivo na sua história, durante a invasão otomana.
Prosseguindo pela teia de ruelas estreitas do centro histórico, revela-se uma arquitetura típica e cheia de carácter, onde cada recanto parece contar uma história. Pelo caminho, surgem alguns dos principais pontos de interesse, como a Igreja de São Pedro e, naturalmente, a Catedral de Otranto, verdadeiro ex-líbris da cidade.
A Catedral de Santa Maria Annunziata, é o principal símbolo histórico e religioso da cidade. Construída no século XI, destaca-se sobretudo pelo seu impressionante mosaico no pavimento, que representa a “árvore da vida” com cenas bíblicas e mitológicas, sendo uma obra única na Europa. Ainda no seu interior encontra-se também a capela dos Mártires de Otranto, que guarda os restos mortais de centenas de habitantes executados em 1480 pelos otomanos.
Já no exterior, destaca-se a fachada, simples e sóbria, de estilo românico, construída em pedra clara, onde se salienta a rosácea central acima do portal, que dá elegância ao conjunto.
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As ruas do centro histórico de Otranto são um verdadeiro convite a um passeio descontraído e sem pressa. Estreitas e labirínticas, revelam uma arquitetura típica mediterrânica, com casas caiadas, varandas floridas e pequenos apontamentos em pedra que testemunham séculos de história.
Ao longo do percurso, surgem lojas de artesanato e souvenires, cafés, restaurantes e recantos típicos, onde a vida local se mistura com uma dinâmica turística. Entre sombras frescas e rasgos de luz, cada rua oferece novas perspectivas, criando uma atmosfera autêntica e acolhedora que convida à descoberta.
Contornando as muralhas do Castelo Aragonês, passando pelas suas torres ou bastiões, terminamos na Torre Matta, que serve de miradouro sobre a imensa marina de recreio, um dos maiores portos de abrigo desta zona belíssima, que percorre toda a costa adriática que ocupa a parte posterior do tacão da bota que desenha os contornos do mapa de Itália.
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Chegámos ao fim deste percurso pela costa adriática da Puglia, um dos cenários mais autênticos e encantadores do sul de Itália. Entre o azul intenso do mar, as falésias recortadas, as praias de águas cristalinas e as cidades carregadas de história, cada paragem revela uma identidade própria e proporciona momentos que não iremos esquecer.
Junho de 2025
Carlos Prestes
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