Neste dia voltámos a sair de manhã cedo de Lecce, a caminho do sul da península do Salento, para aproveitarmos as praias banhadas pelo Mar Jónico. Estas talvez sejam as melhores praias de todo o continente italiano, pois são as únicas com areia realmente branca e com águas azul-turquesa, e com uma temperatura muito razoável, que fazem lembrar, levemente, as Caraíbas.
Só na Sardenha encontramos praias melhores do que estas, embora, por toda a costa italiana, vão surgindo muitas praias bonitas, das mais típicas às mais glamourosas, mas sempre com areia preta ou calhau, só aqui no sul da Puglia é que aparece este tipo de costa, a que estamos mais habituados.
O percurso deste dia começou em direção ao cabo que separa as águas do Adriático, com as do mar Jónico, que passa por baixo em direção à Grécia… embora sejam apenas diferentes designações para várias partes de um mesmo mar, o Mediterrâneo.
O caminho na direção do Santuário do Cap Santa Maria, onde fizemos a primeira paragem, e os restantes percursos do dia, seguiu mais ou menos os trilhos representados neste mapa:
Santuário de Santa Maria de Finibus Terrae
O Santuário de Santa Maria de Finibus Terrae ergue-se num dos locais mais simbólicos do extremo sul da Puglia, em Santa Maria di Leuca, precisamente onde a terra parece terminar e se abre para o encontro entre o Mar Jónico e o Mar Adriático. O próprio nome “Finibus Terrae” - fim da terra - reflete essa sensação de limite geográfico e espiritual, tornando o santuário um lugar de peregrinação e contemplação desde a Antiguidade. Acreditava-se estar ali o verdadeiro “fim da terra” do lado sul (a mesma coisa que acontece com o cabo Finisterra, mas nesse caso, no lado ocidental, na Galiza, no norte de Espanha).
Atualmente a sensação de limite permanece viva, reforçada pela imensidão do mar e pela luz intensa que caracteriza esta extremidade da Itália.
Construído sobre um antigo local de culto, possivelmente dedicado a uma divindade pagã, o santuário cristão afirma-se como um ponto de transição entre diferentes épocas e crenças. Ao longo dos séculos, foi várias vezes reconstruído, mantendo sempre a sua importância como destino religioso e como marco simbólico para viajantes e marinheiros.
Mesmo ao lado do santuário encontra-se a Colonna Mariana, uma coluna monumental onde se apoia uma estátua da Virgem Maria. Esta estrutura funciona, não apenas como elemento decorativo, mas também como símbolo de proteção espiritual para quem parte ou chega por mar. A coluna destaca-se na paisagem por ser um elemento vertical, criando um conjunto marcante, com o farol, que ali está bem próximo.
O farol, que domina o promontório, é um dos elementos mais marcantes deste extremo da Puglia, tanto pela sua função prática como pelo seu valor simbólico. Conhecido como Faro de Santa Maria di Leuca, ergue-se assinalando este ponto notável do sul do continente italiano.
Construído no século XIX, o farol apresenta uma torre de pedra clara, sóbria e robusta, que se eleva acima do conjunto arquitetónico envolvente. A sua luz, visível a grande distância, desempenhou historicamente um papel essencial na navegação, guiando embarcações e marinheiros que ali chegam, vindos do infinito.
Do alto deste cabo, onde o sagrado se cruza com a geografia, somos convidados, tanto à reflexão religiosa como à simples contemplação da natureza. Entre o silêncio do santuário e a vastidão do mar, sente-se uma atmosfera de fim e de recomeço, como se aquele ponto extremo de Itália, fosse simultaneamente um limite e uma porta aberta para o desconhecido.
A partir daqui inicia-se uma belíssima costa, banhada pelo Mar Jónico, que iremos agora percorrer, escolhendo duas entre as várias praias de areia branca que aqui existem, onde iremos permanecer algum tempo, desfrutando de mergulhos refrescantes e tórridos banhos de sol. Estas praias distinguem-se pela sua beleza suave e luminosa, marcada por extensos areais de areia branca e fina que formam dunas naturais cobertas por vegetação mediterrânica, criando uma paisagem harmoniosa que se prolonga ao longo de quilómetros. As baías que se formam sucessivamente, desenham enseadas, quase sempre de águas calmas e rasas, com tonalidades entre o azul-turquesa e o verde-claro, muitas vezes comparadas às dos destinos tropicais.
Spiaggia di Pescoluse
Esta praia é chamada de Maldive del Salento - depois das Caraíbas agora chegámos às Maldivas - espetáculo!... se fosse verdade. Mas apesar de serem praias muito bonitas e com cores típicas dos trópicos, e até com águas de uma temperatura bastante razoável… está ainda muito distante do nível das Maldivas.
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Nesta vertente do mar Jónico, o mar costuma ser tranquilo, convidando a banhos prolongados, sendo especialmente agradável pela sua transparência e pela temperatura, mais quente que no Adriático (nesta altura já andava próxima dos 23º e admito que, mais perto do agosto, possa estar ainda um pouco mais quente).
As baías oferecem abrigo natural contra o vento, contribuindo para a formação de superfícies lisas, quase sem ondulação, num autêntico espelho de água, onde nos apetece mergulhar e por lá permanecer.
Ao longo desta costa alternam-se zonas mais selvagens, onde a presença humana é discreta e a natureza se mantém pouco alterada, com áreas ligeiramente mais desenvolvidas, com pequenos apoios de praia. Nessas zonas concessionadas, vamos encontrar sempre alguns bares e restaurantes e, sobre o areal, os típicos chapéus de sol e espreguiçadeiras que formam os chamados lidos. Mas logo ao lado existem também vários troços livres, e mais naturais, onde podemos estender as nossas toalhas ou fixar o nosso guarda-sol… e foi nessas zonas que resolvemos ficar.
Mas para além destas dunas de areia branca e vegetação mediterrânica, o mais importante será sempre este belíssimo mar, de águas cristalinas e em tons de azul-turquesa, que está ali inteiramente disponível para o podemos utilizar, ao longo dos mais de 5 km desta baía.
Ao final da manhã seguimos para uma outra praia, já mais a norte. Nesta costa teríamos várias alternativas que poderíamos escolher e a nossa decisão recaiu sobre as praias mais naturais, ou sejam, menos próximas das marinas e dos aglomerados turísticos e urbanos. Foi assim que decidimos ficar esta tarde na Spiaggia le Dune di Punta Prosciutt.
Spiaggia le Dune di Punta Prosciutt
Esta praia faz parte da Baía do Porto Cesareo, na região de Salento, e este areal, em particular, não está incluído nas várias praias privadas desta baía, sempre com os lidos, onde teríamos de pagar para permanecer… o que seria um grande desperdício, já que contávamos estar sobretudo dentro de água.
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Esta praia foi escolhida por estar fora das zonas urbanas e cheias de restaurantes que ocupam a marginal desta enseada, e é conhecida pelas suas dunas de areia branca, envolvidas por uma vegetação mediterrânea, criando um ambiente meio-selvagem e natural, em harmonia com as águas calmas e transparentes da baía.
E foi uma ótima escolha, uma extensa zona de dunas praticamente deserta… a areia está por nossa conta e o mar também é todo nosso… e foi assim que por ali ficámos, sem pressas, e pelo tempo que nos apeteceu, entre mergulhos e banhos de sol.
Para terminar o dia, fizemos ainda uma agradável paragem para um lanche num dos restaurantes do lido mais próximo, antes de regressarmos à estrada e seguirmos em direção a Matera, onde passaríamos o serão e onde iríamos dormir. Neste percurso vamos deixando gradualmente a zona do “tacão da bota” do mapa de Itália, correspondente à Puglia, entrando numa região distinta e mais a norte, a Basilicata.
Fechámos assim um dia passado nas magníficas praias jónicas da Puglia, uma autêntica joia ainda por descobrir. Mesmo para muitos dos viajantes que exploram esta região italiana, é frequente que a atenção se concentre sobretudo na costa do Mar Adriático e nas suas cidades e aldeias mais conhecidas, esquecendo este lado banhado pelo Mar Jónico.
E, no entanto, é precisamente aqui que se revela um verdadeiro paraíso: extensos areais de areia branca, águas calmas e transparentes e uma sensação de espaço e tranquilidade difícil de encontrar noutras zonas mais exploradas. Tal como já tinha referido, é nesta costa que se encontram, muito provavelmente, as melhores praias de todo o continente italiano - não apenas pela sua beleza natural, mas também pela forma como ainda conseguem preservar um certo carácter autêntico e pouco massificado.
Junho de 2025
Carlos Prestes
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