quarta-feira, 11 de junho de 2025

Matera


Vindos do sul da Puglia, seguindo pela costa do mar Jónico, percorremos cerca de duas horas de carro até chegar a Matera. Ao longo deste trajeto, deixámos para trás a zona do “tacão” da bota italiana - que corresponde à região da Puglia - e entrámos na região da Basilicata, que continua ainda a integrar o icónico contorno da bota de Itália.

Antes de entrarmos no centro histórico de Matera, fizemos uma breve paragem num ponto de observação, o Belvedere di Murgia Timone, situado em frente à encosta calcária onde se ergue a cidade, para apreciarmos a sua silhueta completa. Para lá chegar, foi necessário percorrer uma estrada acidentada até ao topo da montanha e, depois, seguir por trilhos pedonais ao longo da encosta, aproximando-nos gradualmente do vale. O resultado é uma imagem completa de uma das faces do centro histórico desta cidade tão peculiar.
Seguimos, entretanto, até à zona envolvente da cidade velha, onde é mais fácil estacionar o carro, e continuámos depois a pé até ao alojamento, já em pleno centro histórico.

O percurso que fizemos durante um dia de visita à cidade, seguiu aproximadamente os trilhos assinalados no seguinte mapa:

A cidade ocupa várias colinas, o que permite que possamos contemplar cada um dos vales densamente ocupados pelas típicas casas brancas, que formam esta pequena cidade. Este enquadramento cria um cenário quase teatral, onde as habitações parecem sobrepor-se em camadas, acompanhando o relevo natural e oferecendo vistas impressionantes a partir de diferentes pontos, onde a presença da torre da catedral se torna dominante nos vários ângulos de observação.
Ao longo dos séculos, Matera foi moldada pela necessidade e pela adaptação ao território, resultando num labirinto de ruelas, escadarias e habitações trogloditas que hoje coexistem com espaços mais modernos. Essa fusão entre o antigo e o contemporâneo faz de Matera, não apenas um lugar de grande valor histórico, mas também um destino interessante para quem o visita.

Esta cidade, é uma das mais antigas do mundo que vêm sendo habitadas continuamente. Reconhecida como Património Mundial pela UNESCO, em 1993, destaca-se pelo seu centro histórico e, sobretudo, pelos “Sassi di Matera” - um conjunto impressionante de habitações escavadas na rocha que remontam ao período paleolítico (só uma nota para dizer que sassi é o plural de sasso, uma das palavras italianas para “pedra”).

Durante a nossa visita, perdemo-nos pelas ruas empedradas e inclinadas, entre casas, igrejas e miradouros. O destaque vai para as construções mais antigas, integradas na própria rocha das encostas, especialmente nos bairros Sasso Barisano e Sasso Caveoso. Aqui forma-se um verdadeiro labirinto de ruelas, casas trogloditas e igrejas escavadas na pedra calcária, num testemunho único das origens da presença humana em Itália.


O Sasso Barisano

Esta é uma zona animada dos famosos Sassi - com casas escavadas na rocha e com fachadas integradas nos imensos pedregulhos que formam as colinas da cidade. Este bairro reflete uma tendência que combina os traços históricos e tradicionais, com uma nova utilização dos edifícios, com hotéis, alojamentos e restaurantes, reabilitados num padrão moderno de design e conforto - fazendo lembrar as aldeias turcas da Capadócia.

A imagem do Sasso Barisano é particularmente bonita, sobretudo quando a observamos dos miradouros que ficam sobre as encostas que formam o vale onde o bairro se insere, em particular quando olhamos para a colina onde fica a catedral da cidade… como acontece a partir do miradouro localizado junto à Igreja de San Pietro Barisano.

Mais tarde, já do lado oposto, junto à catedral, tivemos uma nova perspetiva sobre este bairro do Sasso Barisano, revelando um impressionante emaranhado de casas que parecem sobrepor-se de forma quase caótica, criando um efeito visual surpreendente.
Ao descermos pela encosta do lado norte, contornámos um caminho chamado de Via Madonna delle Virtù, que limita a cidade junto ao desfiladeiro profundo formado pelo vale do rio Torrente Gravina.

Pelo caminho encontramos algumas construções especiais, numa zona que concentra um conjunto de igrejas, capelas e espaços monásticos escavados na pedra calcária, refletindo séculos de vida religiosa e adaptação ao território.

Um dos destaques desta zona vai para o complexo rupestre Madonna delle Virtù dei Greci, um impressionante espaço monástico de origem medieval e com influência bizantina, que inclui uma série de frescos e é formado por uma complexa rede de grutas interligadas.
Quem tiver tempo, e quiser visitar esta igreja rupestre, pode adquirir o bilhete de entrada no local ou comprar previamente online. Mas em Matera, existem também algumas opções de bilhetes combinados que podem compensar, sobretudo se quisermos explorar vários pontos de interesse. Entre elas estão passes turísticos como o Matera City Pass ou o Matera Tourpass, que incluem diferentes atrações, igrejas rupestres e museus. De forma geral, se a visita for breve, pode fazer sentido optar por bilhetes individuais ou pequenos combinados; mas para uma experiência mais completa da cidade, um passe turístico poderá ser a opção mais prática e económica.

Ao final da Via Madonna delle Virtù avistamos o outro bairro de casas escavadas na pedra, o Sasso Caveoso, onde se destaca a imagem da sua principal igreja, a Chiesa di San Pietro Caveoso, e um rochedo saliente, que abraça a Igreja da Madonna de Idris.
Ao alcançarmos o topo do maciço onde se ergue a Igreja da Madonna de Idris, depois de conseguimos escalar até ao patamar mais elevado, a paisagem abre-se sobre a colina oposta, revelando ainda o bairro de Sasso Barisano - que tivemos oportunidade de explorar mais tarde, percorrendo as rampas íngremes e as escadarias que funcionam ali como ruas.


     


Sasso Caveoso

Já no outro bairro histórico da cidade que faz parte dos famosos Sassi, o bairro do Sasso Caveoso é também uma antiga área onde as casas e igrejas foram escavadas diretamente na rocha calcária, formando um tecido urbano irregular e adaptado ao relevo.

Durante séculos foi habitado por populações com condições de vida muito precárias, o que levou ao seu abandono parcial no século XX. Mais recentemente, o bairro foi recuperado e restaurado, tornando-se hoje uma importante atração turística, com alojamentos, restaurantes e espaços culturais integrados nas antigas grutas.

Este bairro desenvolve-se em torno de um monte rochoso que domina a paisagem, onde se localiza a Piazza Madonna de Idris, bem como as capelas escavadas na rocha dedicadas à mesma Santa, a Nossa Senhora de Idris.

Mas ainda antes de explorarmos este bairro, fomos visitar a sua principal igreja, a Chiesa di San Pietro Caveoso. Esta igreja tem uma fachada distinta, em estilo barroco, mas destaca-se sobretudo pela posição panorâmica sobre o vale da Gravina. Foi construída no século XIII e posteriormente reformulada, integrando-se na paisagem rochosa característica dos Sassi, sendo um dos principais marcos históricos e religiosos da zona.

No interior, apresenta uma disposição em três naves, com decoração relativamente sóbria, mas enriquecida por pinturas e elementos decorativos de época, refletindo as várias fases históricas da sua evolução.

       
Seguimos então pelas ruas apertadas e íngremes que formam o bairro Sasso Caveoso. As casas sobrepõem-se de forma caótica, abrindo lugar a pequenas pracetas e a uma densa rede de ruas estreitas e escadarias, que formam um autêntico labirinto, que fomos percorrendo sem rumo definido, só pelo prazer de explorar um lugar tão singular.

Ao longo da encosta voltada para o vale da Gravina di Matera, observa-se uma maior concentração de habitações trogloditas, escavadas diretamente na rocha e formando um conjunto de aspeto quase primitivo, profundamente integrado na paisagem natural.
Subindo depois a colina que nos conduz ao Bairro Piano, vamos alcançando patamares sucessivamente mais elevados, de onde se revelam amplas paisagens sobre a envolvente.

Mas só conseguimos uma vista completa sobre o vale onde se encaixam os dois bairros que acabávamos de visitar - o Sasso Barisano e o Sasso Caveosol - quando atingimos o miradouro que fica na Piazza Giovanni Pascoli, onde começa o Bairro Piano.



Bairro Piano

Este bairro corresponde à zona mais recente da cidade, situada num planalto, no topo das colinas onde ficam os Sassi di Matera. Ao contrário destes bairros mais antigos, o Piano caracteriza-se por um traçado urbano mais regular, com ruas amplas, praças e edifícios construídos à superfície, refletindo uma organização urbana mais moderna. O nome deste distrito está obviamente relacionado com a forma plana da área em que está localizado

Este bairro desenvolveu-se sobretudo a partir dos séculos mais recentes, funcionando como área de expansão da cidade e acolhendo funções administrativas, comerciais e residenciais. A partir do Piano, é possível obter vistas privilegiadas sobre os Sassi, permitindo compreender melhor a relação entre a cidade “nova” e a antiga ocupação escavada na rocha.

Entrando neste bairro pelo miradouro da Piazza Giovanni Pascoli, encontramos o Palazzo Lanfranchi, um bonito edifício do século XVII, com uma arquitetura sóbria e monumental. Trata-se de um antigo seminário que alberga, atualmente, o Museu Nacional de Arte Medieval e Moderna da Basilicata, reunindo coleções de pintura, escultura e arte contemporânea… e tira partido das vistas panorâmicas das suas salas, sobre os Sassi di Matera - mas isso é algo que a cidade oferece de muitos outros locais.
Seguimos depois pelas ruas planas do eixo pedonal do Bairro Piano, que nos conduzem por este planalto, começando pela Via Domenico Ridola e continuando pela Via del Corso, sempre cheias de turistas.

Pelo caminho surge a Igreja do Purgatório, uma igreja barroca do século XVIII, que se destaca pela fachada ornamentada, onde surgem elementos simbólicos ligados à morte e à redenção, como caveiras e motivos alusivos ao purgatório.

No final da Via del Corso chegamos à Piazza Vittorio Veneto, onde se destaca o CineTeatro Comunale Gerardo Guerrieri e o chamado Palombaro lungo.
O Palombaro Lungo é um grande reservatório subterrâneo de água, que fica sob a Piazza Vittorio Veneto e faz parte de um sistema complexo de captação e armazenamento que permitiu o desenvolvimento de Matera, mesmo num clima muito seco.

Foi construído entre os séculos XVI e XIX a partir da junção de várias grutas e túneis, e é o maior reservatório da cidade. As suas paredes foram impermeabilizadas com uma argamassa especial (cocciopesto), permitindo armazenar água apesar da rocha ser permeável. Deixou de ser utilizado no século XX com a chegada do Aqueduto da Puglia.

O Palombaro Lungo pode ser visitado com acesso por uma escadaria que desce até ao reservatório subterrâneo. A visita é feita normalmente de forma livre, sem guia, com um bilhete de 3€ que podemos comprar no local. No interior, existem passadiços e iluminação que permitem percorrer parte do espaço em segurança e observar a dimensão impressionante da cisterna. Convém verificar o horário antes da visita, pois não é muito extenso.

À entrada do reservatório passamos por um piso subterrâneo suportado por arcadas, onde se abre um belíssimo miradouro, o Belvedere dei Tre Archi.

Deste local vamos poder observar uma outra perspetiva de uma das encostas do Sasso Barisano e do Bairro Castelvecchio, onde se destaca a catedral da cidade, com a sua torre sineira.

Um pouco mais à frente, continuando nesta zona animada do Bairro Piano, chegamos à Piazza San Giovanni, onde existe a Igreja de San Giovanni Battista, que traduzimos como Igreja São de João Batista.

É uma das igrejas mais antigas e importantes de Matera, datada do século XIII e representando um notável exemplo do estilo românico na região. A fachada é relativamente simples, mas elegante, com o portal decorado com uma rosácea. O interior é formado por três naves com colunas e elementos esculpidos, refletindo a sobriedade da arquitetura medieval.


Bairro Castelvecchio

Para terminarmos o dia regressámos de novo pela Via del Corso, até à entrada do bairro Castelvecchio, que corresponde a uma das áreas mais antigas da cidade, situada junto ao núcleo primitivo medieval.

Desenvolve-se numa posição elevada, funcionando historicamente como zona de defesa e de organização do tecido urbano inicial. Caracteriza-se por ruas estreitas, traçado irregular e edifícios de origem medieval, refletindo uma fase de transição entre a ocupação rupestre dos Sassi di Matera e a cidade construída à superfície.

Apesar de menos marcante do que os Sassi, o Castelvecchio tem grande valor histórico, pois marca a evolução urbana de Matera para além das habitações escavadas na rocha.

A ligação ao Castelvecchio começa na Piazza S. Francesco onde se encontra mais uma das igrejas da cidade, a Igreja de São Francisco de Assis. Foi construída no século XIII e posteriormente reformulada em estilo barroco, com destaque para a sua fachada ornamentada e para a localização, numa das principais praças da cidade.
O destino seguinte passa pela Piazza del Sedile e pela Via Duomo, até chegarmos à Piazza Duomo, onde se encontra a principal igreja da cidade, a Basilica Cattedrale… e voltamos a dispor de um miradouro de observação sobre os Sassi de Matera.

E encontramos aí o principal monumento do bairro Castelvecchio, e até de toda a cidade, a Basilica Cattedrale di Matera, também conhecida como Catedral da Virgem da Bruna e de Santo Eustáquio. Foi construída no século XIII em estilo românico-apuliano e tem uma bonita fachada, embora relativamente sóbria, onde se destaca a rosácea central e o portal decorado.

No interior, apresenta uma nave ampla com decoração predominantemente barroca, resultado de intervenções posteriores à construção medieval, onde se evidenciam altares ornamentados, frescos e elementos dourados.

Mas um dos elementos mais relevantes do interior desta igreja é o fresco do Juízo Final, que se encontra logo junto à entrada, do lado direito, de forma discreta. Trata-se de um fresco medieval (século XIII), atribuído a Rinaldo da Taranto, que foi descoberto durante as obras de restauro, e representa o julgamento das almas, com Cristo ao centro.


A catedral assume, não só um papel religioso, mas também simbólico para a cidade de Matera, sendo um dos seus principais marcos visuais, erguendo-se no ponto mais alto da cidade e dominando a paisagem com a sua torre, que marca a silhueta da maior parte das vistas panorâmicas.


A noite na cidade de Matera

Matera é um local lindíssimo durante a noite, pois, totalmente iluminada, a cidade torna-se mágica e encantadora... e não há muito que se possa dizer sobre esse encanto para além da partilha das magnificas imagens que podemos observar dos vários miradouros que a cidade oferece.



Matera não se esgota no que se vê - permanece no silêncio dos seus rochedos e na memória das suas formas. Ao cair da tarde, quando a luz suaviza os contornos dos Sassi di Matera e o vale da Gravina di Matera se alonga em sombras, a paisagem ganha uma dimensão quase intemporal. Tudo parece suspenso entre o passado e o presente, como se a cidade ainda guardasse, nas suas cavidades e muros, os gestos e as vidas de quem ali habitou ao longo de milénios.

Caminhar por Matera é percorrer uma história contínua, esculpida na rocha e moldada pela necessidade e persistência humana. Há uma beleza crua e essencial neste lugar - uma harmonia rara entre natureza e construção, entre dureza e delicadeza, entre abandono e renascimento.

Ao partir, fica a sensação de que Matera não é apenas um destino, mas uma experiência que se entranha lentamente. Um lugar que não se impõe, mas que se revela, e que, depois de conhecido, permanece connosco como uma paisagem interior difícil de esquecer.


Termino, uma vez mais, evocando a noite, quando a cidade se ilumina e se revela de forma mágica e hipnótica, como se tivesse sido esculpida apenas para ser vista à luz do luar e das suas próprias luzes quentes.

As casas dos Sassi di Matera, incrustadas na rocha, começam a acender-se uma a uma, criando um brilho dourado irregular que se espalha pela encosta. Sem pressa, vão surgindo janelas e ruas iluminadas que transformam a pedra num cenário vivo, profundo e inesperadamente acolhedor.

E na praça da Catedral, como se a própria cidade respirasse em harmonia, alguém faz soar numa viola a melodia perfeita para este cenário de encantamento.



Junho de 2025