terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Dubai


Ao regressarmos de uma viagem à Tailândia, voando com a Emirates, fizemos um stop-over no Dubai, onde ficámos dois dias muito grandes. A ideia era conhecer superficialmente a capital do emirado, que faz parte dos Emirados Árabes Unidos, relativamente à qual tínhamos expetativas muito reduzidas… por ser algo demasiado artificial, sem alma e sem chama. Mas, apesar de se confirmarem esses atributos da falta de alma e de chama, na verdade, acabámos de gostar bastante desta nossa visita ao Dubai… e até foi bastante emocionante, inclusive, foi ainda mais emocionante uma semana depois de termos regressado, quando os misseis iranianos começaram a sobrevoar o emirado e o espaço aéreo foi fechado, o que nos deixou com uma sensação de que escapámos por um triz.

Mas quando por lá andámos, nada fazia prever o que iria acontecer, mesmo que admitíssemos que o louco do Trump e o facínora do Netanyahu pudessem atacar o Irão, ninguém previa que os iranianos fossem responder atacando os países do golfo, e em particular os Emirados.

Por isso andámos por lá com a sensação de estarmos num doa países mais seguros do mundo, que se orgulha, com vaidade, do luxo das suas infraestruturas… como o maior centro comercial do mundo, a maior marina do mundo e, claro, ao maior arranha-céus do mundo, o Bruj Khalifa, símbolo principal do emirado.
O voo onde viemos, desde Krabi, no sul da Tailândia, chegou pouco depois das 3h da manhã, o que nos deu tempo para dar entrada no hotel, guardar as bagagens, e instalar o cartão de dados móveis que nos foi dado no aeroporto – deram-nos 10 Gb por pessoa para 24h.

Depois de nos prepararmos para um dia que iria ser longo, apanhámos um Uber, que aqui funciona bem, diretamente para o Burj Khalifa.

Mas ainda antes de começar a descrever a nossa visita ao downtown, onde fica o Burj Khalifa, deixo aqui o mapa do emirado, onde se assinalam os locais visitados ao longo destes dois dias:
 



Burj Khalifa e Dubai Mall

O Burj Khalifa é o edifício mais alto do mundo e um dos maiores símbolos da modernidade do emirado do Dubai. A construção começou em 2004 e foi concluída em 2010, tendo sido oficialmente inaugurado a 4 de janeiro desse ano.

A ideia de construir esta torre surgiu como parte de um plano para diversificar a economia de Dubai, tornando-o menos dependente do petróleo e mais focado no turismo, comércio e investimento internacional. O projeto foi desenvolvido pela empresa Emaar Properties, cujas referência se encontra por todo o lado, e contou com tecnologias avançadas de engenharia para atingir os seus impressionantes 828 metros de altura… lá está, é algo claramente artificial, mas, para nós, que somos engenheiros civis, tem um interesse suplementar.

Em termos de importância, o Burj Khalifa tornou-se um verdadeiro símbolo do crescimento e ambição de Dubai. Representa a capacidade do emirado de realizar projetos inovadores e de grande escala, colocando-o no mapa mundial como um centro moderno e competitivo.

Além disso, este edifício é um dos principais polos turísticos da região. Milhões de visitantes vão todos os anos ao Burj Khalifa para subir aos miradouros, apreciar a vista da cidade e assistir aos espetáculos de luzes e fontes na sua base. Assim, o edifício não só reforça a imagem de Dubai como destino de luxo, como também contribui significativamente para a economia através do turismo.



Quando chegámos, a noite estava ainda escura, e ainda ficámos algum tempo cá em baixo, a percorrer a envolvente do lago que existe na base do prédio, com a beleza de um bonito skyline formado pelos edifícios do downtown da cidade.



É nesta altura que nos impressionamos com a grandiosidade deste extraordinário edifício, e com sua elegância singular. Cá em baixo, junto ao lago, tem a robustez de um arranha-céus maciço, mas, à medida que vai subindo, cresce em sucessivos pisos, cada vez mais estreitos, desenhando uma silhueta pontiaguda que culmina numa agulha esguia, apontada ao céu.





Tínhamos marcado uma visita para as 6h30, onde iriamos subir aos pisos 124 e 125, que são os mais comuns, embora se possam fazer subidas a pisos superiores, para quem quiser ter uma experiência mais exclusiva, mas também mais cara. Na versão e no horário que escolhemos, o preço foi de cerca de 40 €/pessoa, mas pode ser bem mais elevado se escolhermos outros horários.

Já lá de cima é possível ver grande parte da cidade de Dubai, o deserto e o mar, com uma vista panorâmica impressionante… e como subimos à noite, ainda tivemos oportunidade de ver a cidade toda iluminada.









Permanecemos por ali, no terraço do piso 124 – curiosamente, estava bastante frio, quem diria que ia passar frio no Dubai – e fomos observando a mudança das cores, que se mostrava à medida que o sol ia nascendo e o céu clareando.







Depois de assistirmos ao nascer do sol, ficámos ainda a apreciar a envolvente de prédios que ocupa esta parte da cidade, que apresentava uma luminosidade meio difusa, provavelmente devido às poeiras do deserto, que é muito típica destas zonas.

Mesmo na base do edifício, começam a ficar nítidas as imagens do tal maior centro comercial do mundo, o Dubai Mall, e da maior fonte do mundo, a Fonte do Dubai, e ainda do conjunto de edifícios que envolvem esta zona do 
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E só descemos quando já era completamente de dia, mas ainda nos iríamos demorar pelo caminho, nas várias instalações que mostram as fases da obra, com os processos construtivos… que só tem interesse para engenheiros.

Mas só quando chegámos cá abaixo é que tivemos o verdadeiro impacto da dimensão do Burj Khalifa, um arranha-céus extraordinário.















Era já uma manhã enorme e precisávamos de um pequeno-almoço reforçado, por isso entramos mo centro comercial, e arranjámos, de facto, um local onde nos serviram uma refeição que nos soube pela vida.

Aqui usam o Dirham, que corresponde a 0,23 €, mas nunca chegámos a trocar dinheiro, pagámos tudo com Revolut, e numa travessia de barco aceitaram-nos as notas de Euro.

Depois do pequeno-almoço recuperámos forças para dar umas voltas explorando, por fora e por dentro, o maior shopping do mundo, mas sem grande interesse em comprar fosse o que fosse, foi mais para apreciar o luxo e a dimensão e estravagância, deste espaço.







Quanto ao tipo de extravagâncias que aqui se encontram, são imensas, sobretudo ao nível dos artigos mais luxuosos, por exemplo, com incorporação de ouro, ou mesmo uma pista de hóquei no gelo, isto no país onde as temperaturas chegam a atingir quase 50º.



Como não somos consumistas de joias nem de marcas de luxo, fomos apenas apreciando o que nos rodeava, primeiro no interior daquele espaço infinito; e depois já no exterior, junto à fonte, onde voltaríamos à noite, quando tudo isto anima. Mas por agora só havia tempo para mais uma contemplação do conjunto de arranha-céus do downtown, que constrói o skyline, dominados pela estrela da companhia… o Burj Khalifa.











Museum of the Future e o Dubai Frame

Ao final da manhã, depois de explorarmos o vasto shopping e toda a área envolvente, marcada por edifícios elegantes que parecem gravitar em torno do mais imponente de todos, o Burj Khalifa, iriamos agora voltar ao hotel, e esperar para que um driver nos fosse apanhar para um percurso durante toda a tarde, até ao deserto.

Pelo caminho encontrámos duas das atrações da cidade, o Museum of the Future e o Dubai Frame, sobre as quais vou deixar uma breve referência.

Inaugurado em 2022, quando teve lugar a Expo Dubai 2020 (que atrasou dois ano devido à pandemia), o Museu do Futuro destaca-se tanto pela arquitetura futurista como pelo seu conceito inovador. A arquitetura é completamente disruptiva, concebida em forma de um anel alongado, com cerca de 77 metros de altura, revestido a aço onde se distinguem textos em caligrafia árabe, formando sulcos que funcionam também como janelas. Não tendo pilares ou colunas no interior, faz desta estrutura uma obra de engenharia bastante complexa… e já se sabe, nós gostamos deste tipo de coisas, naturalmente por deformação profissional.

Ao contrário dos museus tradicionais, este não se foca no passado, mas sim em imaginar e explorar o futuro, com experiências imersivas ligadas à tecnologia, sustentabilidade, saúde e exploração espacial. No interior, os visitantes percorrem diferentes cenários interativos que simulam como poderá ser a vida nas próximas décadas. Mais do que um museu convencional, é uma experiência sensorial e visual, especialmente apelativa para quem se interessa por inovação e design… mas é bastante caro, cerca de 40€/pessoa.





O Dubai Frame é uma estrutura icónica em forma de moldura gigante, com cerca de 150 metros de altura, localizada no Zabeel Park. Foi inaugurado em 2018 e funciona como miradouro e museu, permitindo observar simultaneamente o Dubai antigo e a zona moderna do downtown, a partir do topo, onde existe uma ponte com piso de vidro para otimisar as vistas panorâmicas. A experiência inclui ainda uma exposição sobre a evolução da cidade, desde o passado até a uma visão do futuro. Neste caso o preço é mais barato, cerca de 13 €/pessoa, mas não tínhamos tempo para subir e ficámos a observar cá de baixo.





Deserto de Lahbab

Fizemos mais de uma hora até chegar ao deserto, não tanto pela distância, mas pelo trânsito, surpreendente caótico em todo o emirado.

Estávamos já nas proximidades da fronteira com Oman, quando chegámos ao Deserto de Lahbab., que constitui uma das paisagens marcantes dos arredores da cidade do Dubai, conhecido pelas suas dunas de areia fina com tonalidades avermelhadas e alaranjadas, que contrastam com o céu limpo e intenso, e que formam belas noites estreladas. Aqui as dunas são altas e ondulantes e até dinâmicas, formando um relevo quase escultórico, moldado constantemente pelo vento.



O deserto é sempre assim, dá-nos uma sensação absoluta de espaço: um horizonte aberto, praticamente sem fim, onde o silêncio só é interrompido pelo sopro do vento ou pelo som de um veículo a atravessar a areia. Durante o dia, a luz forte realça as cores quentes do terreno, enquanto ao final da tarde o cenário ganha tons mais suaves e dourados, criando um ambiente particularmente envolvente.

Apesar da aparência árida, o deserto tem uma beleza serena e quase hipnótica, convidando tanto à contemplação como à aventura, seja num passeio pelas dunas ou numa experiência mais intensa a atravessá-las.



Ao chegarmos ao local, aguardavam-nos vários camelos prontos para nos transportar - coitados - confesso que não é algo que aprecie particularmente, apesar de saber que são animais naturalmente adaptados a este tipo de esforço e que o fazem com aparente tranquilidade.







Começámos com um curto passeio de camelo pelas dunas, onde a areia fina, em tons quentes e avermelhados, parece estender-se sem fim. Ainda assim, não é uma experiência propriamente imersiva - acaba por ser mais um faz-de-conta que evoca as antigas caravanas que atravessavam o deserto. Apesar disso, não deixa de ser divertido - afinal, como acontece com muitas experiências no Dubai, também os passeios de camelo têm um certo toque de artificialidade.





Ao longo do passeio, surgem inevitavelmente as típicas imagens das sombras da caravana projetadas sobre a areia - sempre bonitas e sugestivas - que nos fizeram recordar experiências semelhantes noutros lugares, nomeadamente no Norte de África, onde também já tínhamos feito passeios de camelo.



Seguiu-se uma tentativa divertida de “ski” nas dunas - na verdade, não havia skis, apenas pranchas de snowboard e umas tábuas para nos sentarmos, o que nos levou a escolher essa opção de deslizar sentados, entre risos e algum desequilíbrio - se tivessem skis talvez ainda pudéssemos ter dado um show sobre a areia.





Depois da atividade, fomos recebidos com um pequeno lanche, onde não faltaram algumas frutas descascadas e uma coisa mais do deserto - o café com tâmaras – e eu adoro tâmaras e também gosto de café, foi perfeito.

Houve ainda mais algum tempo livre para simplesmente apreciar a paisagem e, para os mais aventureiros, a possibilidade de explorar as dunas em moto-quatro, pagando o extra (uma tentação que deixei para os mais destemidos).









O regresso trouxe uma das partes mais intensas da experiência: um longo raid de jipe, com mais de uma hora, em que atravessámos quilómetros de dunas a alta velocidade, subindo e descendo encostas de areia como se estivéssemos numa etapa do Dakar, numa mistura constante de adrenalina e algum receio.







Já no final, parámos em pleno deserto para assistir ao pôr do sol, fechando o ciclo de um dia que começara com o sol a nascer do lado oposto destas dunas.

Sendo o primeiro dia do Ramadão, o nosso driver, em jejum até então, aproveitou esse momento para comer a sua primeira refeição, apenas uns frutos secos e, à hora certa, estendeu o seu tapete na areia, orientado para Meca (que nem fica assim tão longe daqui), e fez a sua oração, discretamente atrás do jipe.

Enquanto isso, deixámo-nos ficar a contemplar o sol que desaparecia lentamente por detrás das dunas - um instante de rara beleza, marcado, não só pela paisagem, mas também por toda a envolvente espiritual que ali se fazia sentir.













Dubai Souk

Na manhã do dia seguinte resolvemos visitar a zona da cidade-velha onde moram os habitantes nativos do Dubai, que, na maioria, não vivem nos arranha-céus que formam as partes mais modernas desta cidade.

Chegámos ao chamado Boating Point, um porto junto ao Dubai Creek, um braço de mar meio artificial que entra terra adentro a partir do Golfo Pérsico. Voltámos a usar um Uber, que foi o que fizemos sempre, pareceu-nos uma boa alternativa, embora o custo seja ligeiramente superior ao que pagamos aqui em Portugal. Se ficássemos mais tempo fazia sentido explorar a hipótese de andar de Metro, um comboio que aqui corre sobre viadutos.

Neste pequeno pier, é visível toda a margem oposta, onde ficam os bairros onde os locais habitam, e onde fica também um dos mercados mais típicos da cidade-velha, o Gold Souk. Mas na margem de onde saímos, destaca-se a imagem de uma das principais mesquitas desta zona, e que aqui surge difusa, pelo sol ainda baixo do início da manhã.









Apanhámos um curioso barco de carreira pública que atravessa o Dubai Creek, a um preço quase insignificante – mas como não tínhamos moeda local, tivemos que lhes dar uma nota de 5 €, quase 10 vezes mais do que o valor dos três bilhetes.

Estes barcos da carreira pública que atravessam o Dubai Creek são conhecidos como Abras e podem ser descritos como pequenas embarcações tradicionais de madeira, totalmente abertos e equipados com um motor. No interior, têm dois bancos corridos paralelos ao centro, onde os passageiros se sentam costas com costas, muitas vezes quase encostados uns dos outros.





Visitar os souks do Dubai é mergulhar num lado mais autêntico e tradicional da cidade, bem diferente do brilho moderno dos arranha-céus. Na zona de Deira, junto ao canal Creek, encontramos um labirinto de ruas estreitas onde o comércio acontece como há décadas… mas não se pense que vamos encontrar algo parecido com os souks marroquinos, pois aqui o ambiente é menos intenso e visualmente menos marcante.

A entrada do mercado faz-se pela rua Old Baladiya, assinalada por um pórtico de entrada, que encontramos assim que saímos do porto.



O mercado das especiarias, o Dubai Spice Souk, é um verdadeiro convite aos sentidos, envolvendo-nos com os aromas intensos de produtos vindos de várias partes do mundo - açafrão, canela, cardamomo ou incenso - dispostos de forma a realçar o contraste de cores e criar um cenário marcadamente exótico. Os vendedores, sempre atentos, incentivam a aproximação e a conversa, contribuindo para um ambiente animado e genuíno.













De regresso à Old Baladiya Street, a principal artéria da zona, encontramos um ambiente que também funciona como mercado, embora com lojas mais modernas em vez das bancas tradicionais. Aqui, além das especiarias - igualmente disponíveis - surgem outros produtos mais direcionados para os turistas, como peças de artesanato ou os famosos chocolates do Dubai.





Ainda na mesma rua surge a chamada Mesquita Verde, cujo nome oficial é Khalifa Al Tajer Mosque. É facilmente reconhecível pelos seus tons esverdeados e azulados, que lhe valeram a designação popular. Ao contrário de outras mesquitas mais tradicionais da cidade, apresenta um estilo mais moderno e simples, destacando-se menos pela ornamentação e mais pelo conceito arquitetónico.



A poucos passos dali encontra-se o Gold Souk, que revela um contraste impressionante. Apesar da rua principal deste mercado, a Al Khor Street, estar coberta por uma vasta estrutura de madeira, com tons de castanho e pouco exuberante, as lojas - e, sobretudo, as suas montras - brilham intensamente com peças de ouro de todas as formas e tamanhos, desde joias delicadas a colares exuberantes que parecem verdadeiras obras de arte. É difícil não ficar surpreendido com a quantidade e a opulência expostas num mercado que é, justamente, um dos mais famosos do mundo neste tipo de comércio.

Mas à hora a que visitámos estes mercados, ainda de manhã, o ambiente encontrava-se algo morno, com pouco movimento de clientes e até de lojistas, que só começam a surgir mais tarde. Por isso, acabámos por não assistir ao seu verdadeiro dinamismo, sobretudo no que diz respeito às transações no mercado do ouro… que estava meio vazio.









Regressando ao porto, torna-se agora mais evidente a mesquita situada na margem oposta do canal, no bairro de Bur Dubai: a chamada Grande Mesquita de Dubai. A sua silhueta é facilmente reconhecida pelo imponente minarete, com cerca de 70 metros de altura, o mais alto da cidade.

Trata-se de um dos mais importantes e emblemáticos locais de culto de Dubai. Embora as fachadas revelem uma certa sobriedade, é na sua arquitetura de inspiração islâmica tradicional que se reconhece a herança cultural da região. Ainda assim, é sobretudo no interior que a mesquita mais impressiona, com as suas nove cúpulas principais e dezenas de cúpulas menores a compor o conjunto. Como é habitual, o acesso ao interior está reservado aos fiéis, particularmente durante o período do Ramadão, quando as práticas religiosas assumem maior relevância.



Já no pier, foi necessário regatear o bilhete do barco, que desta vez acabou por ser numa embarcação privada, só para nós – pois não havia qualquer opção pública disponível num prazo razoável. Situações típicas em contextos onde a negociação faz parte do quotidiano. Ainda assim, a diferença foi mínima: acabámos por pagar 6 €, em vez dos 5 € do percurso anterior, feito num barco público.

Neste trajeto de volta, e com o privilégio de termos o barco só para nós, tivemos oportunidade de apreciar uma última vez a zona de Deira, a chamada cidade-velha, com a sua silhueta à beira do Creek… uma imagem que contrasta claramente com a face mais moderna e arrojada, mas também menos genuína, que hoje define este emirado.









A marina do Dubai

A Dubai Marina é um dos espaços urbanos mais impressionantes e emblemáticos da cidade, representando na perfeição o lado moderno e sofisticado do emirado.

A ideia de um Dubai moderno e luxuoso, e um refúgio apelativo para as grandes fortunas (pela privacidade, segurança - pelo menos pensava-se assim – e, sobretudo, pela isenção fiscal), surgiu da ideia do Emir Maktoum bin Rashid Al Maktoum, na década de 1990, quando este chegou ao poder após a morte do seu pai, o anterior Sheikh. Depois da morte do Emir, em 2006, subiu ao poder o seu irmão mais novo, o atual emir, Mohammed bin Rashid Al Maktoum, que tem continuado as obras de modernização do emirado.

Uma das primeiras imagens de marca de um Dubai em processo de modernização, foi a do hotel Jumeirah Burj Al Arab, inaugurado em 1999.



Voltando à marina, trata-se de um espaço totalmente artificial, construída ao longo de um canal escavado, rodeada por uma densa floresta de arranha-céus que criam um dos skylines mais marcantes do planeta… e, claro, é a maior marina artificial do mundo.

De qualquer forma, e apesar de ser algo artificial e muito recente, para um engenheiro, é fácil deixar-se fascinar por tantos arranha-céus modernos e bonitos, como estes que aqui encontramos.

Neste imenso bairro destaca-se o agradável passeio pedonal, sempre animado, onde se sucedem restaurantes, cafés e esplanadas com vista para o espelho de água. Durante o dia, a zona convida a caminhadas tranquilas, mas é ao final da tarde e à noite que ganha uma atmosfera mais vibrante, com as luzes dos edifícios a refletirem-se na marina, criando um cenário particularmente fotogénico.

Neste dia em particular, por estarmos em pleno Ramadão, a mesquita local assumia uma importância ainda mais marcante, tornando-se um ponto de referência não só espiritual, mas também social, acompanhando o ritmo próprio desta época tão significativa.







Um dos traços mais distintivos deste espaço é a presença constante de iates e embarcações de luxo, que acentuam o seu caráter exclusivo. Mas mais do que uma simples marina, trata-se de um notável exemplo de engenharia e planeamento urbano à grande escala, onde cada detalhe parece cuidadosamente concebido para otimizar a funcionalidade e valorizar o impacto visual. Para os apreciadores de grandes empreendimentos – por exemplo, o caso dos engenheiros - a Dubai Marina destaca-se como um verdadeiro caso de estudo: uma área inteiramente artificial que se afirmou como um dos principais polos da cidade.







Tínhamos marcado um passeio de barco, que foi, sem dúvida, o momento mais marcante da nossa visita à marina - uma experiência dinâmica e privilegiada que nos permitiu observar esta zona marginal do Dubai, bem como o complexo de ilhas que forma uma imensa palmeira, chama de Palm Jumeirah. A bordo de uma lancha rápida da Xclusive Yachts, percorremos a linha de costa passando por alguns dos ícones mais reconhecidos da cidade.



Logo à saída, junto à JBR Beach, começámos a sentir o contraste entre a animação da praia e a imponência dos edifícios que a envolvem. Pouco depois, surge no horizonte a impressionante Ain Dubai, a maior roda-gigante do mundo… lá está, cuja escala se torna ainda mais evidente vista do mar.









O percurso prossegue em direção ao icónico Atlantis The Palm, situado na extremidade do conjunto de ilhas que compõem a Palm Jumeirah. Este hotel de luxo, reconhecido como um dos mais emblemáticos do mundo, inspira-se no mito da cidade perdida de Atlântida. Destaca-se pela sua arquitetura monumental e pelo imponente arco central, que se afirmou como um dos principais símbolos visuais da cidade do Dubai.



Pouco depois, chegamos ao Atlantis The Royal, um dos hotéis mais recentes e luxuosos da Palm Jumeirah. Destaca-se pela sua arquitetura moderna e arrojada, com um design singular formado por blocos sobrepostos, constituindo mais um impressionante exemplo de engenharia e arquitetura. Mais do que um simples hotel, o resort proporciona uma experiência exclusiva, com quartos sofisticados, muitos com piscinas privadas, e uma ampla oferta de restaurantes e atrações. No fundo, simboliza o luxo extremo e a inovação que definem o Dubai… mas para nós, só nos resta observar à distância.



Um dos pontos altos do trajeto é, sem dúvida, a aproximação ao emblemático Burj Al Arab, cuja silhueta em forma de vela se destaca isolada sobre o mar. Visto deste ângulo, reforça-se a ideia de exclusividade e ousadia arquitetónica que caracteriza a cidade.



O Burj Al Arab é um dos hotéis mais icónicos do mundo e um verdadeiro símbolo do Dubai. Inaugurado em 1999, destaca-se pelo seu formato em vela e pela sua localização sobre uma ilha artificial, ligada à costa por uma ponte privada. Reconhecido pelo luxo extremo, oferece suítes espaçosas, serviço altamente personalizado e experiências exclusivas. Mais do que um hotel, o Burj Al Arab representa a ambição e o pioneirismo do Dubai no turismo de alto padrão.

Para os turistas de pé-descalço - que é aquilo que nos sentimos neste conglomerado de luxo faraónico – resta-nos apenas apreciar a silhueta do hotel, única e impressionante, que se destaca não só pelo seu design icónico, mas também como um notável exemplo de engenharia e arquitetura.



No restante percurso, fomos deixando para trás esta grande referência do emirado e contornámos algumas praias de ilhas privadas, incluindo a ilha particular do Sheikh, onde se ergue um imponente palácio de veraneio, parcialmente oculto por um denso coqueiral. Ao fundo, surgia o contorno de mais um conjunto de grandes edifícios, sinal de uma nova zona urbana em pleno crescimento.





Entrámos depois no complexo de ilhas que se dispõem em forma de palmeira, completamente ocupadas por resorts privados – a Palm Jumeirah.

Passámos na proximidade Palm West Beach, com os belíssimos edifícios dos resorts que ali existem, servidos pelas suas praias de uso privado.





Nesta posição, ao nível do mar, ou se nos deslocarmos a pé, não temos qualquer noção de estarmos junto a um conjunto de ilhas e penínsulas que formam uma imensa palmeira. Para conseguirmos obter esse tipo de vista, em que seja possível observar o formato da Palm Jumeirah, teremos de subir a locais elevados ou recorrer a meios aéreos, já que este desenho inacreditável só se revela claramente quando visto de cima.

A melhor solução será subirmos ao The View at The Palm, um miradouro no piso 52 da Palm Tower, localizada em frente ao tronco da palmeira, por um custo de 110 AED (cerca de 26€). Ali, teremos acesso a vistas panorâmicas de 360 graus sobre o golfo pérsico, o skyline do Dubai e a icónica forma de palmeira desta ilha.



Ao longo de todo o percurso, a velocidade da lancha acrescenta uma dose extra de adrenalina, tornando a experiência ainda mais envolvente. Mais do que um simples passeio turístico, este trajeto revelou-se uma forma privilegiada de compreender a escala, a ambição e a diversidade dos grandes projetos costeiros de Dubai - muitos deles verdadeiras obras de engenharia que ganham uma nova dimensão quando observadas a partir do mar, como este novo conjunto de arranha-céus que vai crescendo de um dos lados da marina.







Regressámos à marina, onde nos despedimos daquela envolvente extraordinária, com grandes edifícios e um belíssimo canal ocupado por barcos de recreio… iriamos ainda tentar desfrutar de um dos lugares onde a vida noturna do emirado é mais interessante.

Mas o dia não terminava aqui - iríamos ainda aproveitar para sair e jantar, tentando desfrutar de um dos locais onde a vida noturna do emirado se revela mais vibrante e interessante.





Um serão no Dubai

O local onde se concentra a vida noturna mais intensa, sobretudo durante o Ramadão, quando os fiéis só podem comer depois do pôr-do-sol, é na envolvente ao Dubai Mall - o maior shopping do mundo, repleto de restaurantes para todos os gostos – ou nas suas proximidades, junto à Fonte do Dubai - também ela a maior do mundo – localizada aos pés do Burj Khalifa - cujo ranking mundial nem vale a pena questionar, teria de ser o maior do mundo.

A caminho desta zona fomos apreciando a paisagem urbana, marcada pelos arranha-céus iluminados, que vamos encontrando ao longo das vias rápidas que percorremos. Voltámos ainda a passar pelo Museu do Futuro, que é tão bonito à noite como de dia.







Mas o mais incrível foi quando fomos surpreendidos pelo outdoor promocional de uma seleção de futebol. Podia ser da seleção dos Emirados, ou do Catar ou até da Arábia Saudita, países onde o futebol está a crescer, e com investimentos gigantescos. Mas não, para grande surpresa minha a equipa publicitada era mesmo a seleção portuguesa.

E lá estavam os nossos craques, equipados a rigor, ocupando vários outdoors enormes… uma vergonhosa promoção dos ativos do super-agente Jorge Mendes, paga pela Federação Portuguesa de Futebol, ou seja, pelos dinheiros públicos nacionais.



A noite no downtown estava de facto fantástica. Milhares de pessoas percorriam os corredores do centro e enchiam os restaurantes, enquanto, a cada meia hora, se reuniam junto à fonte para assistir a um espetáculo impressionante. Luzes, música e dança de jatos de água, criavam um jogo fascinante de movimento e pulverização, complementado pelas projeções de imagens no próprio Burj Khalifa, tornando a experiência ainda mais memorável… completamente artificial, como quase tudo no Dubai, mas um excelente entretenimento.













O espetáculo noturno da Fonte do Dubai faz parte do conjunto de atrações mais icónicas da cidade, e é já visto como e um verdadeiro símbolo do carácter grandioso do emirado. As águas desta fonte criam uma experiência envolvente, repetindo em intervalos regulares - que me pareceu ser a cada meia hora – que acompanham os jatos de água que se elevam a dezenas de metros de altura, ao ritmo de diferentes bandas sonoras - que vão desde música clássica a temas contemporâneos e tradicionais do Médio Oriente.

Enquanto isso, milhares de pessoas amontoam-se à beira do lago, contemplando o belíssimo espetáculo que ali vai acontecendo… enquanto algumas escolhem uma experiência mais imersiva, percorrendo o lago em pequenas embarcações.





A iluminação deste espetáculo é cuidadosamente sincronizada com a dança das águas, e acrescenta cores vivas e profundidade, num efeito visual hipnotizante. Mas o que torna este espetáculo ainda mais singular é a integração do próprio Burj Khalifa na coreografia. A fachada do arranha-céus serve de tela para projeções de luz e imagem que dialogam com os movimentos da água, ampliando a escala e a intensidade do momento. O resultado é uma fusão harmoniosa entre arquitetura e espetáculo, onde o edifício mais alto do mundo deixa de ser apenas cenário para se tornar parte ativa da performance.



Assistir ao espetáculo da Fonte do Dubai é muito mais do que ver um simples jogo de água - é vivenciar uma experiência sensorial completa, onde a grandiosidade técnica se alia à emoção estética, criando um dos momentos mais memoráveis de qualquer visita à cidade.





O balanço da visita ao Dubai acaba por ser marcadamente positivo, e até surpreendente. À partida, poderia esperar-se uma experiência algo artificial - afinal, trata-se de uma cidade construída de raiz e num período muito curto. No entanto, essa mesma característica acaba por se transformar num dos seus maiores pontos de interesse.

O Dubai revela-se como um verdadeiro laboratório à escala real, onde a ambição, a visão e a capacidade técnica se materializam em projetos de enorme dimensão e complexidade. Para quem tem formação em engenharia civil, a cidade ganha uma camada adicional de significado: cada edifício, infraestrutura ou empreendimento não é apenas impressionante à vista, mas é também um exemplo concreto de inovação, planeamento e execução.

A magnitude de muitas das obras é difícil de ignorar - desde arranha-céus icónicos a ilhas artificiais, passando por centros comerciais gigantescos e sistemas urbanos altamente eficientes. Muitos destes projetos podem ser considerados verdadeiras proezas da engenharia contemporânea, desafiando limites técnicos e logísticos.

No final, mais do que a sua imagem futurista ou o luxo frequentemente associado, o Dubai conquista pela sua capacidade de surpreender e pela forma como transforma ideias ambiciosas em realidade. É uma cidade que, apesar da sua natureza artificial, consegue ser genuinamente interessante - sobretudo para quem olha para ela com um olhar técnico e curioso.



Fevereiro de 2026
Carlos Prestes