quarta-feira, 24 de abril de 2024

A caminho das Highlands


Depois dos dias de visita a Edimburgo deixámos a cidade de manhã cedo, seguindo num dos autocarros da Airlink Bus que fazem a ligação até ao aeroporto, onde fomos levantar o carro que tínhamos alugado, que nos permitiria viajar até às Terras Altas da Escócia.

Os caminhos percorridos nos próximos dias seguiram os itinerários identificados neste mapa e, neste primeiro dia, fizemos o percurso assinalado a roxo:
 

Queensferry

Este primeiro troço de 13 km de carro até Queensferry foi o mais difícil, pela falta de hábito de conduzir com o volante à direita e, sobretudo, por ter de meter mudanças com a mão esquerda. De qualquer maneira lá conseguimos chegar ao pé do mar, num dos cais da pequena povoação de Queensferry, observando a baía que se forma no estuário de vários rios, designada por Firth of Forth, e que é atravessada por três pontes de grande dimensão.

Duas destas pontes são rodoviárias, sendo que uma delas é bastante recente e tem o tabuleiro atirantado, a The Queensferry Crossing South, com parecenças com a nossa ponte Vasco da Gama, enquanto que a outra, a Forth Road Bridge, tem um tabuleiro suspenso e assemelha-se bastante à nossa ponte 25 de abril, embora seja bastante mais baixa e esteja pintada de cinzento. 

A Forth Road Bridge já é uma ponte antiga, foi inaugurada em 1964, pela Rainha Isabel II, e tem uma extensão de 2,5 km, com o vão central de 1 km e 6 metros.
A terceira ponte, a Forth Bridge, é uma ponte ferroviária com uma estrutura treliçada curiosa com vãos do tipo cantiléver, que atravessa o Firth of Forth na mesma extensão de 2,5 km. 

Esta ponte é ainda mais antiga, foi inaugurada em 1890, e é considerada como um dos símbolos da Escócia, para além de ser também Património Mundial da UNESCO.


Castelo Blackness

A poucos quilómetros de Queensferry encontramos uma fortaleza de artilharia do século XV, que chegou também a ser usada como prisão e como depósito de munições do exército escocês.

Trata-se do Castelo Blackness, que tem um formato curioso, que lembra um barco que sai para o mar, mas que, na realidade, nunca dali saiu… e é por isso que este castelo é conhecido como o “navio que nunca navegou”.
Esta imagem do castelo só pode ser vista se entrarmos nas muralhas e chegarmos ao passadiço metálico que avança sobre o mar. Desta vez o acesso foi gratuito, mas não estou certo de que noutras ocasiões não se pagará, vi algumas placas com referências à compra de bilhetes, mas, neste dia, as portas estavam abertas e cobravam apenas o estacionamento a quem entrava com o carro.

Ao chegarmos à fortaleza não há assim muito para ver a não ser as próprias muralhas e os torreões que ali se erguem. Começamos num pátio relvado onde observamos as fachadas e a paisagem envolvente, e podemos ver também, ao longe, as três pontes que atravessam o Firth of Forth.

O castelo chegou às mãos da realeza em 1453, quando estas terras foram anexadas pelo Rei Jamie II, servindo de prisão para os seus inimigos. Com o tempo, foi sofrendo transformações até se tornar numa poderosa fortaleza de defesa.

Um dos aspetos mais notáveis do Castelo Blackness pode ser encontrado nas paredes de 5,5 metros de espessura, e que são perfuradas em vários locais ao nível do solo para permitir que a artilharia pudesse atirar através desses orifícios.

O castelo foi transformado numa das mais eficientes fortificações de artilharia da época, devido aos chamados pontos de Power Position, uns alinhamentos estratégicos onde eram colocados os canhões que apontavam para o rio, tornando o seu poder de fogo sobre as embarcações visadas bastante eficaz.

Tudo isso é visível quando percorremos os passadiços sobre as muralhas e observamos as torres principais dos antigos aposentos.
Mas a melhor forma de ver esta fortaleza foi ainda antes de lá chegarmos, na zona da praia, onde até conseguimos estacionar, tendo seguido depois a pé até ao castelo. Assim, não só não pagámos estacionamento, como pudemos ver a silhueta do castelo ao longe, que é a sua imagem mais bonita, onde o castelo parece avançar pelo mar adentro, navegando pelo delta do Rio Forth.


Castelo de Stirling

Stirling é uma cidade medieval que fica a 65 Km de Edimburgo, com vielas estreitas e prédios antigos feitos de pedra, e é também um local de concentração de muitos jovens, devido à sua universidade.

O turismo local gira em torno da Guerra da Independência Escocesa e da Batalha da Ponte de Stirling, assim como das lembranças e homenagens a William Wallace, um guerreiro que viveu no século XIII e liderou os escoceses nas batalhas pela independência da Escócia, contra a Inglaterra. Foi morto pela causa e hoje é o maior herói deste país… e todos o conhecemos bem como o Mel Gibson do filme Braveheart.

Começámos assim por visitar o local onde ocorreu a famosa Batalha da Ponte de Stirling, quando, no dia 11 de setembro de 1297, as forças da revolta escocesa, lideradas por William Wallace, derrotaram o exército inglês, muito mais potente e numeroso, surpreendendo os soldados ingleses quando estes atravessaram a pequena ponte de arcos que cruza o rio Forth, e que ainda hoje ali se encontra.
Seguimos depois para o Castelo de Stirling, que pudemos observar ainda cá de baixo, localizado no alto de um penhasco, para onde tivemos de levar o carro até ao parque de estacionamento que só aceita viaturas de quem for visitar o castelo, pagando assim obrigatoriamente os dois bilhetes, o do parque e o do acesso ao castelo… este de £17,50 por pessoa.
Logo à chegada ao castelo atingimos um imenso terraço de onde é possível avistar toda a paisagem envolvente, com o Rio Forth e a Ponte de Stirling, a mesma da batalha, e ao longe, na colina que fica em frente, é também visível a imponente torre do Monumento a Wallace, dedicado ao grande guerreiro da libertação da Escócia.
Nesse mesmo terraço fica ainda a estátua de Robert the Bruce, famoso rei escocês que lutou ao lado de Wallace e que conseguiu a independência da Escócia, já depois da morte do seu líder.
A maioria dos edifícios que se encontram dentro dos muros do castelo são dos séculos XV e XVI, mas existem também construções mais antigas que sempre foram habitadas e usadas como ponto estratégico para as várias guerras que ali ocorreram, como é o caso das muralhas e dos portões.
A história deste castelo está ligada à história da governação da Escócia, tendo sido aqui coroados alguns ilustres monarcas escoceses. Uma das coroações mais peculiares foi a da Rainha Mary da Escócia, ou Mary Stuart, que foi aqui coroada Rainha em 1543, com apenas 6 meses de vida.

O Palácio Real, o principal edifício do castelo, onde moravam os monarcas, foi o primeiro em estilo renascentista construído em terras britânicas, e o responsável pelo projeto foi o Rei Jaime V (pai da rainha Mary), que, no entanto, não chegou a ver o edifício completo, pois morreu prematuramente, com apenas 30 anos e antes da sua conclusão.

Após a morte do Rei Jaime V, duas facões (uma inglesa e outra escocesa), entraram em confronto pelo poder, mas, para se proteger, a rainha refugiou-se com a sua filha Mary, ainda bebé, no Castelo de Stirling, e decidiu ali coroá-la como descendente legítima do reino.

Depois disso muitos outros reis escoceses ali viveram, usufruindo dos luxuosos edifícios, que formam a parte residencial do castelo, com belas fachadas que pudemos apreciar a partir dos vários pátios, com destaque para o Palácio Real, a Capela, o Grande Salão e os vários jardins do complexo… e algumas destas fachadas encontram-se decoradas com estátuas de pedra, que lhes dão um toque especial.


No interior dos edifícios encontrámos vários quartos e salões com uma decoração muito interessante, usando belas tapeçarias, quase todas com o leão vermelho, que é o símbolo da Inglaterra, e com o unicórnio, o símbolo da Escócia.

Uma das salas mais importantes deste conjunto é o chamado Grande Salão, que é a maior sala de todos os castelos e palácios da Escócia, e a primeira do país a ter uma influência renascentista na sua arquitetura. Era neste espaço, que foi construído originalmente em 1497, que ficava o trono do rei escocês, e ainda hoje se reproduzem no topo da sala, as duas cadeiras do trono onde, supostamente, se sentavam o Rei e a Rainha.
No interior do castelo encontram-se ainda outros elementos de referência, refiro-me às famosas Stirling Heads, peças decorativas feitas de carvalho que enfeitavam o teto das salas do palácio. Muitas foram destruídas depois de um dos tetos ter caído, mas as que sobreviveram estão ainda neste Castelo. Algumas delas, que estão pintadas, continuam ainda a decorar os tetos, e outras, que estão em madeira envernizada, estão visíveis em vitrines numa sala de exposições… e há ainda outras que foram levadas para o National Museum of Scotland, em Edimburgo.

Num último passeio pelas muralhas numa zona do castelo que é chamada de Ladie's Lookout, há uma vista especial lá em baixo, sobre um imenso espaço relvado onde se destacam alguns formatos invulgares, quase como se o terreno tivesse sido esculpido.

Trata-se do King's Knot, que fica no antigo King's Park, propriedade da Coroa desde o século XII e onde a realeza da Escócia participava em caçadas e em sessões de falcoaria.

Ao longo dos anos foram feitas várias obras de terraplenagem que permitiram criar os chamados Nós do Rei e da Rainha, mas a mais importante restauração deste espaço, e que o deixou tal como o encontramos atualmente, foi feita em 1842, sob as ordens da Rainha Vitória.


Castelo de Doune

A próxima paragem foi feita junto ao Castelo Doune, um castelo medieval do século XIII que foi construído para o regente Albany, Rei não coroado da Escócia.

Fica no alto de uma pequena colina nas margens do Rio Teith e, ao chegarmos, constatámos que só estávamos autorizados a estacionar o carro se adquiríssemos o ingresso para visitar o castelo. Ora, como o castelo não tem grande interesse no seu interior, que é pouco mais que uma ruína, não queríamos entrar e, por isso, não contávamos ter de pagar as £10 por cada bilhete de acesso, mais o preço do estacionamento.

Assim, fomos até à povoação de Doune, onde se consegue estacionar gratuitamente, seguindo depois até ao castelo por um trilho pedonal que ali existe.

Ao voltarmos já a pé pudemos contemplar a silhueta do castelo vista do lado de fora, o que nos leva de imediato para as cenas ali gravadas da série Outlander.
O castelo esteve parcialmente em ruínas na sequência da sua idade, mas também das várias guerras a que esteve sujeito, como a Guerra dos Três Reinos, em meados do século XVIII ou, já no século XIX, durante os Levantes Jacobitas.

Apesar disso, e após ter sido restaurado em 1880, passou a ser administrado pelo estado escocês e encontra-se atualmente aberto para visitas. De qualquer maneira, o seu estado de conservação, sobretudo no interior, não é minimamente aceitável, mas, ainda assim, continua a ser visitado com entusiasmo, principalmente pelos fãs da série Outlander, pois decorreram ali várias cenas importantes.

Por isso, quem for entusiasta da série, o que não é o nosso caso, pode pagar o ingresso e apreciar o pátio interno medieval onde foram rodadas as cenas desta série.

Saiba-se que, antes disso, já este castelo tinha sido utilizado como palco para filmagens de um episódio do Monty Python e o Santo Graal, e também para algumas cenas do Reino de Winterfell, em Game of Thrones.

Mas, como não sou fã do Outlander nem do Game of Thrones, embora confesse que, à época, gostava bastante dos Monty Python, não tivemos interesse em entrar pelo portão principal do castelo e limitámo-nos a caminhar nos trilhos existentes na sua envolvente, apreciando assim as bonitas imagens da sua silhueta.


Newtonmore e Highland Folk Museum

O próximo trajeto foi bastante mais longo e mais demorado, cerca de 150 km e quase duas horas de viagem numa estrada com troços de duas faixas para cada lado, que quase parecia uma autoestrada, embora sem bermas, mas que, subitamente, estreitava para apenas uma faixa em cada sentido.

Foi por esta estrada que entrámos nas montanhas das Terras Altas, a província escocesa, das Highlands, cuja capital é a cidade de Inverness, onde iríamos chegar hoje ao final do dia, e onde iriamos jantar e dormir.

Ao longo das montanhas mais altas fomos surpreendidos pela paisagem que, em vez dos campos relvados e muito verdes, de que estávamos à espera, nesta época, e apesar de estarmos já no fim de abril, a Primavera ainda não se revelou e, à exceção das árvores, a vegetação continua queimada pelo frio e pela neve do Inverno, e apresenta uma coloração amarelada e acastanhada, em vez do verde viçoso que esperávamos encontrar.
Só quando descemos até cotas mais baixas é que encontramos a tais paisagens verdejantes, neste caso até com as típicas ovelhas escocesas.
Ao longo deste caminho fizemos uma paragem no Highland Folk Museum, um espaço imenso que apresenta uma simulação da vida nas Highlands entre os anos de 1700 e 1950.

Se tivéssemos tempo para percorrer devidamente este espaço poderíamos encontrar 35 edifícios que reproduzem os originais desta região, e assim iriamos perceber melhor como viviam as pessoas nas Terras Altas, que ali trabalhavam, como as suas crianças iam à escola e como todos aproveitavam os seus momentos de lazer.

Mas falo no condicional porque, na realidade, não explorámos devidamente este museu. A entrada é gratuita, só temos de pagar o estacionamento, £2 por carro, e quem quiser pode fazer uma doação, e as portas estão abertas todos os dias das 10h00 às 17h00. Como nós chegámos já perto das 17h, só conseguimos lá estar pouco mais de 20 min e só deu para apreciar as construções e os espaços mais próximos da entrada. Quem tiver mais tempo e quiser explorar esta temática pode fazer uma caminhada na qual irá encontrar toda a riqueza deste espaço museológico, mas nós ficámo-nos só por uma pequena amostra, com as antigas casas de colmo e outras já mais modernas, e alguns edifícios comunitários, como uma escola.




Carrbridge

A paragem seguinte foi feita junto a uma pequena ponte de pedra em Carrbridge, uma antiga ponte para cavalos de carga.

A Old Pack Horse Bridge foi construída em 1717 e é a ponte mais antiga das Terras Altas. Foi construída para permitir que os funerais dos habitantes da margem oposta do rio chegassem até à Igreja Duthil, quando o rio estava cheio… o que fez com que tivesse ficado conhecida localmente como 'ponte do caixão'.

Atualmente, tudo o que resta desta ponte é um único vão em arco que atravessa o rio que corre rapidamente por baixo, dando a ideia que, a qualquer momento, irá arrastar a ponte, tal como arrastou em anteriores cheias tudo o que ali falta da antiga ponte.

Há um local de observação ao nível da estrada, e um acesso a uma plataforma mais baixa, quase ao nível da água.

Talvez aquilo que faz desta ponte uma atração turística seja apenas a noção de finitude, pois é bem evidente que, mais tarde ou mais cedo, o rio vai arrastá-la e nada mais sobrará.

Mas, neste momento, é ainda possível observar aquele arco formado por pedras empilhadas como um castelo de cartas, que em tempos serviu de base a uma ponte por onde passavam cavalos e eram levados os caixões dos defuntos locais a caminho do cemitério.

Seguimos depois até Inverness, que iriamos visitar na manhã seguinte, e onde jantámos e dormimos, terminando assim este dia.


Abril de 2024
Carlos Prestes