terça-feira, 19 de março de 2013

Provence


Saindo de Lyon, iríamos atravessar, nos próximos dias, a região da Provence em direção ao mar Mediterrâneo, essa zona do sudeste de França que se desenvolve ao longo do rio Ródano e que corresponde literalmente à província rural francesa.

Percorremos o trajeto assinalado neste mapa, passando por alguns dos destinos referenciados nesta região da Provence, que é conhecida pelas suas aldeias pitorescas, com uma marca ainda bem visível da sua origem medieval, e pelos imensos campos de cultivo... sobretudo os campos de lavandas, mas que nem sempre podem ser vistos com todo o seu esplendor. 
 
Os campos de lavandas:

Ao longo do nosso trajeto fomos passando por um conjunto de pequenos povoados, mas também por algumas cidades, e por muitos quilómetros de terrenos de cultivo, com vinhas, searas, plantações de girassóis e, sobretudo, com os famosíssimos campos de lavanda que, na altura em que estão em flor, a partir do fim de maio, formam paisagens que são autênticas obras de arte, de uma beleza que quase nos ofusca.

A nossa viagem foi no final de março e os campos estavam cobertos de lavandas mas só se distinguia uma leve tonalidade arroxeada, faltando ainda cerca de dois meses para que os lilases vivos se libertassem, pintando as encostas e planícies como se de um quadro impressionista se tratasse.

Deixo aqui uma imagem da nossa viagem, com as cores ainda a despertar, mas também outras duas com as lavandas já floridas, para que se perceba o tipo de beleza que se pode esperar se visitarmos estas paragens na época certa.






Pérouges:

Começámos o percurso na Provence pela aldeia de Pérouges, ainda nas proximidades de Lyon. Pérouges é um povoado pequeno e tipicamente medieval, com as ruas empedradas e as casas em pedra sobre pedra, sempre muito bem conservadas, travadas com barrotes de madeira, formando o chamado enxaimel. 

A aldeia atrai algum turismo, mas, naquela manhã, ainda éramos só nós e os próprios aldeões, que faziam as suas primeiras tarefas diárias.




Pont du Gard:

Seguimos depois pela autoestrada para um longo percurso de 270 km em direção a Avignon, mas fizemos um desvio para uma primeira paragem, para visitarmos uma obra de referência, a Pont du Gard. 

Esta ponte faz parte de um aqueduto romano que percorre esta zona do Sul de França, e dispõe-se por três níveis de arcos, construídos no século I a.C., para permitir que o aqueduto de Nimes, que tem quase 50 km de comprimento, atravessasse o rio Gardon, também chamado rio Gard. A ponte tem 49 m de altura e 275 de comprimento, e é considerada uma obra de referência, artística e de engenharia.
O acesso para visita à ponte obriga a disponibilizar algum tempo. Temos que entrar num parque de estacionamento que pertence ao parque arqueológico e pagar a taxa de família de 18€ (em 2013), para um dia inteiro, incluindo até cinco pessoas (é a única forma de ver a ponte, não há outros acessos nem outros locais para parar o carro), e permite o acesso à totalidade da estação arqueológica da Pont du Gard, que inclui, para além da própria ponte, os restos do aqueduto, o acesso ao museu e a espaços de exposições temporárias e a outras áreas para caminhadas ao ar livre, picnics e muito mais.

Quem quiser apenas ver a ponte e seguir em frente, vai perder aqui algum tempo extra. Mas pode tentar não se demorar, não aproveitando todo o potencial daquele parque arqueológico, visitando apenas a ponte e passando rapidamente por algumas zonas do museu que sejam mais apelativas... mas o que interessa mesmo é poder ver esta ponte, que é, de facto, bastante bonita.


Avignon:

Faltavam ainda os últimos 25 km até à cidade de Avignon, no final de uma viagem extensa ao longo do dia, num total de 340 km. Avignon ia ser o prato forte deste dia, uma cidade com marcas medievais dominantes, famosa por ter sido convertida na residência dos Papas no século XIV. Optámos por estacionar o carro junto ao parque de campismo, na margem direita do rio, bem em frente do centro histórico, para começarmos a nossa visita com uma belíssima vista panorâmica sobre a cidade.
A cidade é dominada pela presença do rio Le Rhône, marcado pelo ex-líbris da cidade, a Pont Saint-Bénézet ou Pont d’Avignon. Trata-se de uma ponte medieval, do século XII, que se encontra semidestruída e encerra toneladas de história. A construção da ponte foi inspirada em São Bénézet, um menino pastor que foi santificado e que, depois de sua morte, foi enterrado numa pequena capela existente junto à ponte na margem do lado de Avignon. 
O centro histórico, incluindo o Palácio dos Papas, que é uma das maiores e mais importantes construções da arquitetura gótica na Europa, foram considerados, em 1995, como património da UNESCO.
A cidade tem, portanto, como visita obrigatória, o dito Palácio dos Papas. Confesso que não apreciei particularmente a visita, o que mexe comigo são mais as ruas cheias de gente, as esplanadas, as paisagens, e até a arquitetura dos lugares… os interiores de um palácio são quase sempre pouco motivantes, embora haja exceções, mas não é este o caso. E as entradas nem são baratas, 11€ por pessoa.
De qualquer madeira, este complexo palaciano acaba por nos revelar algo interessante, quer do ponto de vista da arquitetura e arte sacra, quer pela lição de história que aproveitamos para aprender. 

E, neste caso, gostei de aprender que o Papado de Avignon, conhecido também como o Cativeiro de Avignon, corresponde a um período da história da Igreja Católica, entre 1309 e 1377, em que a residência do papa foi alterada de Roma para Avignon. Em sequência de conflitos entre a igreja e o rei de França, durante o reinado de Filipe IV, registou-se um choque entre esse soberano e o então Papa, Bonifácio VIII. Tendo sido nomeado como sucessor de Bonifácio VIII o Papa francês Clemente V, o Rei de França, com o tremendo poder de que dispunha, obrigou o Papa a residir em Avignon, tal como os seus seis sucessores. Pela força dos poderes que valiam à época, todos os sete papas que viveram e pontificaram nesta cidade, eram franceses.

Assim, e enquanto absorvia os conhecimentos históricos que nos eram ensinados, fui registando algumas imagens de referência deste palácio, e das vistas que podemos contemplar a partir do seu interior.
         


Percorremos depois a cidade pelas ruas e praças sempre concorridas, desde logo a Place du Palais, que é abraçada pelo palácio e que dá acesso ao Jardin du Rocher des Doms. Localizado sobre uma colina rochosa, este jardim é bastante atraente, com esculturas e monumentos, e com uma vista extraordinária, dum lado o imponente Palais des Papes e, do outro, o rio Rhône, com a sua Pont d’Avignon, numa imagem quase mística.


Entrámos depois em algumas ruas mais apertadas do centro histórico, com a sua traça de influência medieval, e noutras mais amplas, que desaguam em praças com esplanadas, restaurantes e lojas, como as lojas dos artigos locais, sobretudo com os sacos de cheiro das lavandas, aliás os aromas a flores estão um bocado por todo lado e são mesmo uma característica dominante das ruas desta cidade… onde quer que estejamos, os aromas a flores estão sempre presentes. 

Uma das praças centrais e mais concorridas, é a Place de l'Horloge, onde se localizam dois dos edifícios de referência desta cidade, o Hôtel de Ville (a Câmara Municipal), e o teatro da Opéra Grand Avignon.

Mas a Place de l'Horloge é também o mais movimentado centro da cidade, cheia de esplanadas e restaurantes, é o local ideal para passar o início da noite e experimentar algumas iguarias provençais e tentar um dos vinhos da região... como um Côte du Rhône tinto ou um Côtes de Provence rosé.
Foi um percurso relativamente curto, cerca de 3,5 km, pois todas as atrações deste local se encontram numa zona muito restrita, e facilmente visitável, mesmo incluindo a travessia até à margem direita do rio, onde podemos contemplar as melhores imagens da cidade.
Ao final do dia voltámos a atravessar o rio para chegar ao carro junto à margem direita e, desta vez, encontrámos a paisagem da cidade velha entre as muralhas, totalmente transformada pelas luzes que surgem da noite, com novas cores e um novo brilho, como se fosse uma outra cidade. 

Mas, ainda assim, preferimos a paisagem sublime que tínhamos contemplado horas antes, ainda com a luz do sol, e sempre com os contornos bem visíveis do Palácio dos Papas e da mítica Pont d’Avignon... ou então, e ainda de forma mais sublime, preferi uma outra imagem, fotografada nessa tarde, e que é quase uma alusão ternurenta à fantástica obra de Picasso, Les demoiselles d'Avignon, não pela forma dos rostos destas demoiselles, mas porque, em ambos os casos, estamos perante obras de arte preciosíssimas.

Na manhã seguinte fomos entrando cada vez mais por uma Provence genuína, numa procura das aldeias medievais mais típicas e também, tentando encontrar alguns campos de lavandas onde os tons lilás se pudessem mostrar mais viscosos, apesar da época inadequada para tal.

A Provence é uma espécie de Toscana francesa, tem uma paisagem dominada sobretudo pela vinha e pelos campos de cultivo, mas com aquela marca muito especial que lhe é dada pelos imensos campos de lavanda que florescem entre os meses de junho e agosto… mas também, e tal como na Toscana italiana, pelos pequenos povoados, na generalidade, muito bonitos e bem conservados. 

Há também algumas cidades maiores, como a de Avignon, onde acordámos neste dia da nossa viagem, mas a Provence vale principalmente pela paisagem rural, pelos aromas muito intensos, pelos temperos provençais, por aquilo que se pode descobrir quando experimentamos uma incursão nas zonas mais profundas e mais genuínas. 

Assim, resolvemos escolher este dia para fazer uma série de trajetos ligando algumas das mais bonitas aldeias provençais, mas com o propósito principal de aproveitarmos os percursos feitos ao longo de estradas secundárias, e fazendo sempre várias paragens, mais ou menos prolongadas, de cada vez que nos apetecesse... e apeteceu muitas vezes, parámos só para observar, ou para provar uma iguaria qualquer, ou para um copo de um qualquer vinho da região.


Baux-de-Provence:

Ainda de manhã cedo seguimos em direção de Baux-de-Provence, uma pequena aldeia totalmente marcada pelas construções de origem medieval, tem mesmo um espaço dedicado a eventos medievais, como feiras e os famosos torneios.
O acesso à aldeia está bem organizado, direi mesmo que demasiadamente organizado, porque, apesar de estarmos no meio de nenhures, as estradas estão sinalizadas de forma a impedir o estacionamento, o que nos obriga a parar o carro nos parques da Comuna, pagando 5€, ainda que só se queira ficar um par de horas, como era o nosso caso.

Dentro da aldeia, ao longo das ruas empedradas, vamos passando por algumas igrejas tradicionais e pelas típicas casas da idade média, sempre em bom estado, de onde vão surgindo todo o tipo de lojas para turistas, com o artesanato local e sempre os aromas vendidos a saco, como em toda a Provence.
A principal atração da aldeia é o castelo, o Château des Baux de Provence, mas só valerá a pena visitá-lo se houver alguma programação de espetáculos, caso contrário, não justifica o preço de 10€ por adulto.

A programação é diversa, desde logo, durante o dia, há vários tipos de torneios e eventos medievais, mas, mesmo sem ter assistido a qualquer espetáculo, tudo me pareceu ser totalmente postiço, para turista assistir e sem qualquer interesse. Mas, à noite, utilizando uma técnica de projeção sobre as paredes do castelo, existem dois tipos de espetáculos que são muito elogiados por quem os viu, a Carrières de Lumières e a Cathedrale Des Images.

Como estivemos menos de duas horas na aldeia, ainda de manhã, não havia quaisquer espetáculos e a animação de rua estava ainda muito mortiça. Assim, apesar de ser indiscutível que se trata de uma aldeia bonita, é necessário que a visita se faça numa tarde ensolarada e não numa manhã cinzenta.

À saída parámos ainda na encosta em frente à aldeia para a podermos contemplar devidamente e, dali, parece-nos claramente uma aldeia fortificada da idade média, pelo menos à luz do imaginário que fomos formando com base nos filmes a que assistimos.

O percurso seguinte levou-nos até Gordes, uma das mais belas aldeias da Provence e, no trajeto fomos já atravessando algumas das zonas rurais mais bonitas onde fomos parando e inspirando fundo aqueles aromas que misturam o cheiro da terra com as plantas e flores primaveris.

O ambiente envolve-nos como se fossemos entrando em postais ilustrados, embora sem termos tido a sorte de apanharmos as lavandas em flor.

Parámos também para um picnic rodeados de vinha, ainda despida de folha e de terrenos apenas lavrados, mas, mesmo assim, apesar do cenário não ter ainda a marca da Primavera, sentimos uma beleza tocante.




Gordes:

Chegámos por fim ao topo de uma montanha rochosa onde podíamos contemplar, logo ali à frente, a a imagem de uma aldeia medieval. Está classificada como uma das mais belas aldeias da França, com um património bastante rico, com duas abadias, ruas empedradas, algumas muito íngremes, com casas típicas medievais, quase sempre bem conservadas, algumas azenhas e moinhos de vento e vários povoados seculares em cabanas de pedra seca, na zona envolvente da aldeia... é de um pouco de tudo isto que se forma a bonita aldeia de Gordes.

A visita foi dura, porque desatámos a descer pelos empedrados como se não houvesse amanhã, mas depois havia sempre que subir… e muito subimos nós naquele início de tarde. Mas palmilhámos cada beco e cada escadaria escondida, sempre desaguando em autênticos miradouros com uma vista quase infinita sobre as terras provençais.

Chegámos mesmo às zonas mais baixas, onde surgem as azenhas que aproveitam a força do riacho que desce o rochedo, onde as casas típicas vão sendo substituídas por casas senhoriais, algumas aproveitadas para turismo rural.

Escalámos tudo de volta até ao pico, que é também o centro da aldeia, e onde tínhamos estacionado, mas, apesar do esforço, fomos ainda capazes de espreitar os vestígios de antigos povoados com cabanas feitas em pedra seca.
Dissemos adeus a esta aldeia que nos encantou e voltámos à estrada para mais um percurso pela Provence rural, por estradas tão secundárias quanto possível e, uma vez mais, disponíveis para qualquer paragem eventual, ao sabor do acaso. Até ao nosso próximo destino, Roussillon, faltavam apenas 12km para percorrer. 
Voltámos às paisagens campestres, desta vez ao longo de alguns campos de lavanda, ainda só parcialmente floridas e, por isso, também com os lilases ainda não tão vivos como irão aparecer lá mais para os finais de Maio.
Depois, uma vez mais, ao longo de vinhas e campos cultivados, e alguns povoados, sempre com o mesmo tido de arquitetura, com grande harmonia, sem nunca se vislumbrar qualquer construção a destoar.




Roussillon:

Entrámos, entretanto, por terrenos diferentes, mais avermelhados, devido à formação geológica daquela zona, constituída por saibro argilosos, com cores de ocre muito vivo, que domina não só os terrenos envolventes, mas também a coloração das próprias casas da aldeia de Roussillon.
A região é conhecida pelos grandes depósitos de ocre encontrados nas camadas de argila existentes ao redor da aldeia. Os ocres correspondem a pigmentos que vão do amarelo e laranja até ao vermelho, que são as cores que vestem as construções e fazem com que esta aldeia seja lindíssima e muito peculiar, diferente das restantes aldeias da Provence e talvez uma das mais bonitas.


Passear naquelas ruas é como quem percorre um cenário perfeito, sem que nada destoe, todas as casas com os mesmos tons e a mesma traça... tudo em harmonia. Deixámo-nos ficar por algum tempo, parámos para uma bebida, para descansar as pernas e para saborear o momento.
Fizemos ainda um percurso que nos levou a uma zona de miradouro, a partir do qual a aldeia surge completa, com as suas cores de ocre vivas, contrastando com o verde viçoso dos pinheiros envolventes e, ao longe, as montanhas marcando presença, com o cume caiado de neve.



Lacoste:

Apenas alguns quilómetros depois, numa zona rural das mais bonitas que atravessámos durante o dia, chegámos à aldeia de Lacoste.

A aldeia desenvolve-se no alto de uma colina, tem as habituais construções de traça medieval, tem também o típico castelo e tem as ruelas do costume, com empedrados tortos e desalinhados, que nos magoam as articulações quando as tentamos percorrer… ou, mais precisamente, quando as tentamos escalar, porque as ruas são quase sempre bastante íngremes.

Mas esta aldeia tem algo que a diferencia das muitas aldeias provençais. E não é por causa do nome, que nada tem a ver com a marca de roupa desportiva, que tem um crocodilo como logotipo. O que fez desta aldeia um lugar especial foi a presença de uma figura ilustre, ou nem por isso, que por aqui morou e é ainda hoje o seu personagem de referência.

Falo do conhecido Marquês de Sade, que foi proprietário do castelo e chegou a viver por lá alguns períodos, como entre 1769 e 1772, quando pretendia refugiar-se das acusações que lhe vinham fazendo e que o levaram posteriormente à prisão no Château de Vincennes, em 1777.



Em 2001, Pierre Cardin comprou o castelo do Marquês e renovou completamente o palácio, bem como os espaços exteriores, que foram transformados num grande anfiteatro para festivais e mostras de arte, como acontece com as esculturas dispostas no espaço entre muralhas.

A visita a essa parte da aldeia é imprescindível, apesar da dificuldade da subida, que chega a ser extrema. Mas lá no topo, com o espaço dominado pelas imensas esculturas que se enquadram numa vista deslumbrante, quase infinita, sobre a planície com os seus campos de cultivo e as aldeias vizinhas.



Terminámos a visita com a sensação de que Lacoste era uma aldeia especial, sobretudo pelo seu castelo, pela sua história, e até pela sua atual utilização, num misto de monumento, miradouro e centro de artes. Toda a terra anda ainda muito à volta da história do Marquês de Sade, com nomes e símbolos em restaurantes e lojas, mas sempre sem quaisquer referências sádicas… o que é pena, porque animava!

Aix-en-Provence:
Ao fim de mais 60 km chegámos à cidade que é considerada como a capital da Provence, Aix-en-Provence, uma cidade com um património rico e com praças e ruas que revelam inúmeras belezas arquitetónicas. 

É também uma importante cidade universitária, com uma frequência muito jovem, e com uma elegância que se revela, por exemplo, nas esplanadas cheias de estudantes e de gente descontraída.

As ruas e praças estão sempre animadas, o que convida a longos passeios para descobrir os monumentos, capelas e oratórios e outros tesouros do património local e, sobretudo, para sentir a pulsação da cidade.

Torna-se imprescindível uma paragem numa das muitas esplanadas e, no nosso caso, por estarmos já num final de tarde muito apetecível, aproveitámos para um jantar à base dos paladares destas terras, dominados pelos aromas das ervas provençais, pelos azeites e pelos vinhos da região. 



Esta cidade é considerada como a capital da Provence, porém, na divisão oficial do país em regiões, a Provence ficou associada aos Alpes e à Côte d'Azur, e a capital oficial desta região francesa, não é Aix-en-Provence, mas sim Marselha.

Foi exatamente para Marselha que nos dirigimos ao final dos últimos dias de visita à Provence, faltavam somente 30 km seguindo por uma autoestrada com muito tráfego, levando diariamente os muitos habitantes de Aix-en-Provence, que trabalham na grande metrópole de Marselha.

A Provence deixa-nos uma imagem extraordinária, ficando o desejo, e quase a obrigação, de um regresso em plena época das lavandas floridas, e com a calma que este local exige, para aproveitarmos os prazeres que ali se podem experimentar... a comida, os vinhos, os aromas e a contemplação das magnificas paisagens que nos rodeiam por todo o lado.


Carlos Prestes

segunda-feira, 18 de março de 2013

Alpes Franceses

Viajámos pela inevitável Easyjet para Lyon, eu e a família quase toda, porque nas viagens de neve vão sempre, além da Ana, a minha mulher, também três das minhas filhas, a Marta, a Beatriz e a Madalena. Chegámos ao final da tarde ao aeroporto Saint Exupéry, numa homenagem ao aviador e autor desse clássico da literatura infantil, o Principezinho, e alugámos um carro que iríamos utilizar durante toda a viagem.


Partimos para um trajeto até aos Les Trois Vallés, o que nos parecia bastante simples, apenas 170km, quase sempre em autoestrada, mas, na verdade, acabou por se tornar um pouco mais complicado. É que começou a chover e, na fase final da viagem, quando começámos a escalada para a zona das estâncias dos Alpes, a chuva transformou-se num nevão intenso, as estradas foram ficando cobertas de neve, cada vez pior à medida que íamos subindo, e chegámos a temer não conseguir chegar ao nosso destino e ter que recuar até a uma estação de serviço para colocar correntes nos pneus.

Acabou por não ser necessário, mas são circunstâncias que podem acontecer, porque viajar não é sempre um mar de rosas, também vão aparecendo alguns espinhos.

Instalámo-nos em Brides-les-Bains, uma zona termal, com um teleférico direto para Méribel e, a partir daí, teríamos acesso às outras duas estações dos Les Trois Vallées, Courchevel e Val Thorens.

Queríamos passar os próximos três dias a esquiar em cada uma das três estações de ski dos Trois Vallées e, como o dia acordou ainda com queda de neve e só pouco a pouco é que começou a clarear, escolhemos este dia para ficar em Méribel, por ser a estância mais próxima e a menos cotada das três.


Méribel:

A estância de Méribel desenvolve-se no vale central deste conjunto de montanhas e a maior parte das pistas são bastante bonitas por estarem rodeadas de árvores e com chalets por todo o lado.

À época, era a estação menos famosa das três mas, infelizmente, no final desse mesmo ano de 2013, ficou tristemente célebre devido ao acidente que vitimou Michael Schumacher, deixando o antigo campeão de Fórmula 1, com graves lesões cerebrais.

Quando chegámos às pistas já o tempo estava a ficar limpo e fizemos um dia de adaptação a uma neve fresca, mas mal tratada. A neve que caiu durante a noite não foi batida de manhã o que originou o aparecimento de sulcos e bossas, que tornavam as pistas desconfortáveis.
Não foi uma experiência extraordinária, nada que se comparasse às pistas excelentes dos Pirenéus espanhóis, dos Alpes italianos, ou mesmo de Serra Nevada, que temos experimentado noutros anos. Esta desilusão já me tinha acontecido quando, alguns anos antes, tinha passado uma semana a esquiar num outro destino dos Alpes franceses, em Chamonix, no Monte Branco, e começo agora a admitir que terá a ver com o modelo que os franceses usam na preparação das pistas, não se preocupando com o seu tratamento e deixando toda a gente permanentemente numa espécie de “fora de pista”. Mas, para compensar, as paisagens aqui são bem mais bonitas do que noutras estâncias que temos visitado.

Ainda numa toada crítica, não só relativamente a Méribel, porque as queixas são também extensivas à estância de Courchevel, a maior parte dos meios mecânicos são teleféricos com cabines, em vez das habituais tele-cadeiras. Talvez tenha a vantagem, em caso de dias frios e ventosos, de proteger os esquiadores durante as subidas, mas obriga-nos, ao fim de cada descida, a retirar os skis e carregá-los às costas (não só os nossos, mas os das miúdas) escalando rampas e escadas para uma nova subida. Este pormenor provoca um cansaço que se chega a tornar insuportável... felizmente as paisagens continuavam particularmente bonitas, o que fazia esquecer a fadiga.

Falando agora da parte boa, é claro que esquiar ao sol em paisagens que parecem postais ilustrados dos Alpes, é uma experiência excelente e dá-nos um gozo que só quem é amante do ski consegue entender, porque as outras pessoas pensarão que é apenas loucura (ou estupidez) andar com umas botas daquelas, pesadas e rígidas, um dia inteiro para cima e para baixo.


Courchevel:

Este segundo dia nos Alpes acordou soalheiro e partimos diretamente para a estação mais chique daquelas três estâncias, Courchevel.

Trata-se uma das estâncias de ski mais famosas, não só em França, mas em todo mundo. É frequentada por celebridades do cinema e do rock, por milionários de todo o mundo, pela realeza europeia e príncipes árabes, por oligarcas russos e, na mesma linha, admito que por muitos traficantes de droga e armas de alta escala. É por isso que detém o estatuto de uma das mais caras estações de ski em todo o mundo, sobretudo pelos restaurantes e hotéis que oferece nos pequenos povoados que vamos cruzando durantes as nossas descidas.
Mas, no nosso caso, esse efeito dos preços altos não se tornou particularmente relevante... tínhamos adquirido o passe de acesso (o chamado forfait) para todas as estações dos Trois Vallée, o nosso hotel era em Bride-les-Bains e não um dos hotéis luxuosos que se encontram nesta estância, e os hambúrgueres com ice tea e coca cola, a meio do dia, num dos restaurantes nas pistas, é sempre caro em qualquer local e não particularmente em Courchevel.

Quanto à qualidade do ski praticado e mantendo a queixa de termos que entrar em cabines de teleférico constantemente, a neve já estava mais ou menos tratada e era possível fazer uma grande quantidade de pistas sempre diferentes e pouco concorridas, ou seja, sem tempos de espera. 

As pistas são sobretudo vermelhas, isto é, difíceis, não sendo muito comuns as pistas azuis, ditas fáceis (há apenas alguns espaços de pistas verdes para aprendizagem). Isso não foi um problema porque, até a Martinha, com oito anos naquela altura, se conseguia aventurar facilmente por todo o tipo de pistas, grande parte delas, integradas em paisagens perfeitamente magníficas.


Apesar de ser uma estância já antiga, foi totalmente remodelada para a realização de algumas provas dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1992, sediado em Albertville, a cidade grande desta zona dos Alpes.

Sempre que paramos no alto das montanhas e contemplamos as paisagens imensas dos vales totalmente nevados, com um sol tão brilhante que quase nos cega, experimentamos uma sensação única, que jamais poderíamos viver em qualquer outro ambiente. Para além do prazer do ski enquanto prática desportiva, com picos de adrenalina constantes, há uma sensação de fazermos parte daquelas montanhas, envolvidos por paisagens esplendorosas, sentindo emoções que não conseguimos experimentar de qualquer outra forma. É quase sempre tremendamente compensador, apesar do cansaço, apesar da logística que é sempre necessária, apesar do risco de uma queda e de alguma lesão, a verdade é que todos os anos lá estamos nós outra vez em busca deste bálsamo para o corpo e para o espírito.

Foi um grande dia de ski, que maravilha é descer uma montanha pelo meio de uma floresta de abetos cobertos de neve, com um sol intenso que nos aquece o corpo e nos bronzeia a cara, sentindo a vertigem da velocidade…
Ao final do dia vivemos sempre uma das partes preferidas, o chamado aprés-ski, que começa logo com o ato de prazer sublime de descalçar as botas. E depois complementamos com uma série de mimos que reservamos para nós próprios, como um chocolate quente numa esplanada ainda aquecida pelos últimos raios do sol, ou um crepe a pingar de chocolate derretido, ou ainda, já mais tarde, um banho de imersão cheio de espuma, para retemperar o corpo do cansaço físico e, por fim, um jantar suficientemente generoso, de forma a compensar um dia inteiro a maçãs e barras energéticas.

Mas antes disso tudo, há ainda a possibilidade de apreciarmos as paisagens do entardecer, tantas vezes ainda mais bonitas do que durante o dia.




















Bride-les-Bains:

Pretendíamos passar este terceiro dia em Val Thorens, mas a manhã acordou sob um imenso nevão... que desilusão. Gostamos muito de neve e de ver nevar, mas quando a intensidade é muita, o ski perde toda a graça, pela falta de visibilidade e porque as pistas ficam cheias de neve fresca, o que não ajuda nada para um ski de qualidade. Este é um dos problemas da montanha, não conseguimos controlar as condições do tempo, é uma lotaria e, normalmente, não há nada a fazer, porque não dá para prolongar a nossa estadia até que o sol regresse.

Neste caso perdemos, não só um dia de ski, mas sobretudo a possibilidade de conhecer uma das estâncias a maior altitude em todos os Alpes franceses, que oferece um ski diferente, tal como as paisagens, que são bem diferentes das duas estâncias mais abaixo.

Com tudo isto, o dano só não foi maior porque, face às previsões meteorológicas, nem adquirimos o for-fait para este dia e assumimos que iríamos passar um dia mais alternativo, aproveitando o ambiente pitoresco das montanhas nevadas, em vez de mais um dias de ski com a adrenalina a mil. 

Assim, alterámos os planos iniciais e fizemos um passeio em Bride-les-Bains, enquanto aguardávamos que os limpa-neves tornassem a estrada transitável para umas voltas mais profundas pelas montanhas. É uma pequena cidade termal que adquire um encanto especial quando coberta por um espesso manto de neve, como era o caso daquela manhã.

Mais tarde haveríamos de percorrer algumas estradas de montanha que nos levaram àquelas paisagens que formam o nosso imaginário das aldeias alpinas após um nevão.


Terminámos assim uma experiência de ski numa das estâncias mais conceituadas dos Alpes franceses, mas reconheço que não foi, de todo, o meu destino de neve favorito. Talvez por circunstâncias práticas do estado da neve, mal tratada e muito danificada pelos esquiadores. Também não gostei da existência de pequenos teleféricos, em vez das habituais tele-cadeiras, obrigando-nos a descalçar os esquis e carregá-los às costas antes de cada subida... e nesta altura também carregávamos os das miúdas mais pequenas. 

Mas a paisagem é deslumbrante, com as montanhas, com as florestas e os pequenos chalés completamente cobertos de neve, numa imagem de sonho.


Carlos Prestes



domingo, 17 de março de 2013

Alpes, Lyon, Provence e Côte d’Azur

(Março de 2013)

Desde as minhas primeiras viagens que fui ganhando um gosto especial pelos destinos franceses, desde logo porque Paris foi sempre um marco de referência e, à data dos meus inter-rails, era mesmo a minha cidade favorita, mas também porque o país oferece a possibilidade de percursos muito diversificada e interessante. 

Ao longo dos anos fui fazendo várias viagens a França e fui também repetindo sempre a cidade de Paris, sem nunca me arrepender. 

Esta viagem que aqui vou descrever, aconteceu na Primavera de 2013, seguindo um percurso ambicioso que incluiu uns dias de ski nos Alpes Franceses e depois um percurso que começou em Lyon, continuou pela Provence e acabou na Côte d’Azur, seguindo aproximadamente o trajeto assinalado neste mapa:
 

As crónicas de cada um dos locais visitados nesta viagem, podem ser vistas através dos seguintes links:






Além da informação partilhada nas crónicas anteriores, há ainda duas dicas que gostaria de acrescentar, e que podem ser úteis na preparação de uma viagem a França. 

Relativamente ao estacionamento nas cidades opto sempre por fazer o que já tenho escrito nas crónicas de outros destinos, isto é, assumir desde logo o custo dos parques de estacionamento no orçamento da viagem e trazer as coordenadas de GPS de dois ou três parques, decidindo depois qual deles é que vou escolher. Assim evito o desespero de tentar encontrar um lugar de estacionamento em zonas históricas, o que chega a ser um inferno.

O outro tema tem a ver com a comida em restaurantes franceses, porque é sempre bastante cara. Mas, para as refeições mais correntes, há um truque. Se pedirem os menus completos, da entrada à sobremesa, o preço que está na carta acaba por ser o preço final que se paga… e aí pode ficar entre 15 e 18€ por pessoa. Se escolhermos à lista os preços acabam por subir bastante, sobretudo por causa das entradas e das saídas e, claro, das bebidas. Eles trazem-nos sempre pão e um jarro de água da torneira (o termo é “une carafe d'eau”, que é bastante melhor que a nossa, ao contrário das águas engarrafadas que, em França, são horríveis). Como não cobram nem pão nem água o custo fica controlado. Depois podem fazer como eu fiz… como estamos na zona dos vinhos Cote du Rhône (um rosê afamado), se calhar mandava vir um copo para nós os dois… que depois passam a dois copos, e que são partilhados com o conjugue na proporção conveniente de 80% - 20%.

Terminámos assim esta viagem que pode ser considerada cansativa, por ser longa, com centenas de quilómetros percorridos de carro e umas dezenas a pé, enquanto palmilhámos as várias cidades, as aldeias pitorescas ou os imensos campos de cultivo… a acrescentar aos quilómetros de descidas vertiginosas nas montanhas nevadas dos Alpes. 

Mas, ainda assim, o cansaço físico não foi mais do que um efeito secundário, perfeitamente suportável, desta viagem extraordinária, cheia de encantos e de emoções, ao longo de 10 dias que valeram por muitos mais, pela intensidade da experiência, e que irão valer por uma eternidade, ficando gravados para sempre na memória de cada um de nós... e agora, também aqui neste blogue.


Carlos Prestes
Março de 2013


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