sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Sardenha

 
Quem pensar que vai à Sardenha para encontrar as praias paradisíacas e desertas que nos aparecem no Instagram, está muito enganado.

Porém, a Sardenha não deixa de ser esse mesmo lugar encantador, com os mesmos areais de cor branca e as mesmas águas maravilhosas, quase mornas e com tons azul-turquesa, que nos aparecem nas publicações… mas com um tremendo fator de perturbação, que são os milhões de turistas que enchem as praias durante todo o Verão.

Mas nós não fomos ao engano, sabíamos bem que as imagens publicadas tinham sido tiradas no Inverno, em dias de sol e sem vento, quando as praias estavam completamente desertas, no enquadramento ideal para vídeos e fotografias, mas isso, na vida real de quem vai aproveitar o calor do Verão, não existe de todo.

Mas, ainda assim, e mesmo na vida real e com o areal cheio de chapéus de sol, para quem gosta de boas praias e de água quentinha, como nós gostamos, esta ilha italiana será talvez um dos melhores destinos que podem ser encontrados em toda Europa… e não apenas pelas suas praias, pois a ilha tem uma história e uma autonomia regional, de que muito se orgulham os sardos, os habitantes locais, o que se reflete na própria bandeira da região, com o símbolo separatista, com uma cruz de São Jorge e uma cabeça de mouro em cada quadrante, representando a vitória do seu povo nas tentativas de invasão que a ilha foi sofrendo.


Para conhecermos a ilha partimos para Cagliari, a sua capital, no final do mês de agosto de 2024, num voo com uma escala, pois não existiam voos diretos a partir de Lisboa.

O programa desta viagem incluiu um período para visitar as praias do Sul, em que ficámos alojados em Cagliari, subindo depois para Noroeste e, mais tarde, para Nordeste, onde fica a zona mais famosa da ilha, a chamada Costa Esmeralda.

Fomos assim percorrendo toda a ilha de carro, que alugámos logo no aeroporto de Cagliari, e que iríamos devolver 10 dias depois no aeroporto de Olbia, de onde partimos no voo de regresso. Como se sabe, sempre que se faz a entrega do carro noutra cidade, há que pagar uma taxa adicional, e que aqui não chegou a 100€, mas que é mais vantajoso do que termos de voltar a Cagliari, que fica a 300 km de Olbia.

Neste mapa, representam-se os lugares visitados, diferenciando por cores cada um dos dias desta viagem:    

Nas crónicas seguintes vou descrever cada um dos locais que percorremos nesta viagem, agrupados por cada região visitada:








Ao fim de 10 dias de viagem em que pudemos usufruir de grande parte do que esta ilha tem para oferecer, ficámos completamente rendidos. A Sardenha foi uma belíssima surpresa e saímos com a sensação de termos estado num dos melhores locais em toda a Europa para se fazer férias de Verão, sobretudo para quem gosta de boas praias... e nós gostamos muito.


Carlos Prestes
Setembro de 2024




terça-feira, 11 de junho de 2024

Visitar o Holocausto*

*Origem etimológica: latim holocaustum, -i, do grego holókautos, -on, sacrifício em que se queima a vítima inteira


A decisão de visitar os campos de concentração de Auschwitz e Birkenau era antiga. Sentia que devia essa visita a todos os que por lá passaram, morreram e sobreviveram. A única forma de manter derrotada a filosofia dos alemães nazis é a lembrança, é a permanência da memória. As viagens, os lugares que se visitam, deixam um sulco traçado na memória, um lastro contra a esquecimento, pelo que fazer esta visita transforma a “percepção” do sofrimento e horror em realidade.


11 de junho de 2024

Auschwitz fica a cerca de 70 km de Cracóvia, distância que se percorre em pouco mais de uma hora de autocarro. Marquei a visita guiada através do get your guide para as 8h, o que implicou apanhar um autocarro no centro de Cracóvia, por volta das 6 da manhã.

Os memoriais são quase sempre lugares de romarias turísticas que podem retirar verdade e densidade a esses locais, por isso escolhi visitar este “lugar de memória e museu” num dia de semana, quinta-feira, 11 de junho, evitando as multidões de fim-de-semana.

Os polacos cuidam bem da preservação desta memória, os principais grupos de visitantes nesse dia, eram grupos de crianças em idade escolar. Reconhecer a tentativa de extermínio daquele povo é uma forma de ensinar sobre que europeus somos hoje.

Este campo foi sendo sistematicamente aumentado tendo se tornado no maior campo de concentração da Alemanha nazi e, a partir de 1942, tornou-se o maior centro de extermínio em massa.

Em 1941, para levar a bom termo a “solução final da questão judaica” o Terceiro Reich deu início à construção de Auschwitz II - Birkenau, um campo de extermínio, localizado a cerca de 3,5 km de Auschwitz.


Auschwitz

A entrada para o campo de concentração de Auschwitz faz-se através de uma construção recente, uma espécie de corredor em betão, às vezes fechado, outras vezes a céu aberto, que se percorre em silêncio.

O silêncio acompanha cada passo, cada pensamento, cada pergunta sem resposta e adensa-se através da voz off que em ecoa, soltando palavras inicialmente sem sentido, mas que, rapidamente, ganham a forma dos nomes das pessoas que caminharam para aquele lugar de extermínio.

Durante toda a visita será o silêncio, o companheiro do lado de cada visitante.

O campo de concentração de Auschwitz foi fundado em 1940, na Polónia invadida pelo exército nazi, no centro da Europa ocupada. As suas instalações pertenciam, antes da guerra, ao exército polaco e encontravam-se desertas, pelo que estavam prontas para receber o crescente número de prisioneiros polacos, que as prisões existentes já não suportavam por estarem sobrelotadas.

Apesar do museu poder ser visitado por conta própria, pareceu-me importante fazer esta visita com um guia. Um guia não apenas fornece contexto histórico, mas também ajuda a interpretar os inúmeros artefactos e locais significativos dentro do campo, permitindo uma compreensão mais profunda da magnitude dos acontecimentos que ali ocorreram... e chegamos assim ao início desta experiência arrebatadora, ao nos depararmos com a imagem tantas vezes ficcionada do portão de entrada, que quase nos parece familiar.

Ao atravessar a porta de Auschwitz começa a visita guiada, sob o poder da inscrição “Arbeit macht frei“ que significa “o trabalho liberta.  E a ironia da frase atinge uma crueldade inimaginável.

  
             „Arbeit macht frei“ significa “o trabalho liberta”                                                    Foto by: Oleg Ignatovich

Todas as manhãs, saíam por este portão milhares de prisioneiros para executar trabalhos forçados e pesados. No regresso, à noite, para além do cansaço carregavam os corpos dos que tinham sido assassinados.

A foto de Oleg Ignatovich foi tirada em 27 de janeiro de 1945 aquando da libertação do campo de concentração pelos soldados russos.

Restavam sete mil prisioneiros neste campo, entre eles Primo Levi, que no seu livro “Se isto é um Homem”, faz um relato tão cru e despido de emoções que revela alguém que já não conhece dor, alegria, medo, nada. “Se isto é um homem” é a expressão da morte da humanidade.

Ao caminhar pelas ruas tranquilas ladeadas por passeios onde crescem árvores plantadas com intervalos regulares e edifícios construídos em tijolo, bem conservados, é difícil imaginar as atrocidades ali cometidas.
     

Os edifícios de Auschwitz estão numerados. Essa numeração tinha uma função prática e organizacional, permitindo que prisioneiros, guardas e administradores, localizassem rapidamente cada edifício, como alojamentos, áreas administrativas, armazéns, ou locais de tortura. A organização do mal. A racionalidade do mal. Nem todos estes edifícios são visitáveis.

A marcha do grupo de visitantes faz-se de aparente e serena tranquilidade. Em mim, essa respeitosa tranquilidade transforma-se em dor quase física ao entrar em alguns dos edifícios.

O museu está instalado em vários blocos. O Bloco 5 é talvez o mais difícil da visita, é o Bloco com as provas do crime, ainda que, com o aproximar do fim da guerra, os nazis tivessem tentado apagar todos os vestígios das suas actividades e destruir os objectos roubados aos judeus.
        

        
Estes objectos estão ali. Existem. Existem fora dos filmes e dos documentários que todos já vimos. Óculos, sapatos, malas de viagem e cestos de comida, acumulavam-se nos armazéns. Pertences de judeus que, por serem considerados inaptos para mão de obra escrava, eram de imediato assassinados nas câmaras de gás.

Os cabelos. São toneladas de cabelos de mulheres expostos numa enorme vitrina. Os cabelos eram utilizados para colchões e travesseiros.
        
Todos estes pertences fizeram parte da vida destas pessoas cujos rostos estão estampados na galeria de fotografias do museu. São rostos de desesperança que, no início, eram associados a um nome, mas depois, já eram apenas um número. Todos as pessoas destas fotografias foram assassinadas em Auschwitz.
        

A visita continua no exterior do memorial e museu de Auschwitz I. Havemos de passar pela parede da morte, entre os blocos 10 e 11, onde eram executados por fuzilamento em massa os condenados à morte.
Parede da Morte

No Bloco 10 esteve instalada a estação experimental de esterilização, onde centenas de judias morreram durante as experiências ou foram assassinadas para a realização de autópsias. Este Bloco não está aberto ao público, mas passar por ele provoca uma terrível sensação de impotência e medo.

O Bloco com o número 20 era uma enfermaria para prisioneiros com doenças infecciosas. O termo "enfermaria" é também ele cruel no contexto de Auschwitz. Os prisioneiros doentes eram abandonados nestes blocos sem cuidados médicos e acabavam por morrer das doenças, de fome ou eram seleccionados para execução.
                
Bloco com o nº10                                                                 Bloco com o nº20

O caminho, há direita do crematório, dá acesso ao portão da casa de Rudolf Höss, comandante de Auschwitz, cuja vida foi retratada no filme de 2023, “Zona de interesse”. De facto, a banalidade do mal tão cruelmente entendido por Hannah Arendt é aqui bem documentado.
Casa de família de Rudolf Höss

As cinzas e o odor a carne queimada envolviam seguramente a casa desta família. Os crematórios são paredes-meias com os jardins da casa. Apesar disso, viviam aquilo que parecia ser, de uma forma completamente aberrante, a vida de uma família feliz.

Antes da ocupação nazi, este edifício semi-enterrado era um armazém de munições do exército polaco. Tudo foi criteriosamente pensado neste campo de extermínio.

A sala maior foi inicialmente utilizada como depósito dos corpos dos prisioneiros assassinados. Mais tarde seria uma camara de gás. A inexorável crueldade é tão desmesuradamente grande que é até cruel a banalidade dos fornos, quase caseiros…
         


Foi um alívio sair dali. A incompreensão adensou-se dentro de mim, mas sou hoje testemunho de parte da nossa história.


Birkenau – Auschwitz II

A distância, curta, entre Auschwitz I e II faz-se de autocarro, em breves minutos... e somos recebidos por um edifício com uma fachada já conhecíamos de tantos filmes e tantos documentários, mas cuja proximidade se tornava agora arrepiante. 

Para este campo de extermínio foram transportados, a partir de Março de 1942, mais de um milhão de judeus.

Além de ser um campo de concentração, Birkenau tornou-se no principal local do holocausto, onde foi levado a cabo o maior assassinato em massa de que há memória.

No início, os comboios paravam em frente ao edifício de vigia principal, cuja porta é conhecida como “Porta da morte”, e entravam os deportados. A partir de 1944, assim que os comboios entravam, os deportados eram logo, separados em duas filas: uma para mulheres e crianças e outra para homens. De cada uma das filas, eram seleccionados os que eram aptos para trabalhar, e os restantes, velhos, doentes, grávidas e crianças eram de imediato conduzidos às câmaras de gás.

Com a iminência do fim da guerra os alemães nazis destruíram quase todo o campo, restando apenas as ruínas das camaras de gás e alguns edifícios da secção das mulheres que se situava do lado esquerdo do edifício de vigia.
   
Nestes túneis entravam pessoas cujo destino desconheciam

Os barracões das mulheres, consideradas aptas e que, por isso, não eram encaminhadas directamete para as câmaras de gás, estão ainda preservados, quer os próprios edifícios quer também o seu interior, onde se encontram vestígios das muitas mulheres que por ali passaram.
Barracões dos dormitórios das mulheres

  
Interior dos dormitórios das mulheres

No primeiro ano de utilização, nenhum destes edifícios tinha qualquer casa de banho. A primeira foi construída um ano depois. Cada barracão recebia centenas de mulheres e, em cada compartimento, dormiam pelo menos cinco... como se dormir ali fosse algo possível.

Por ser um campo aberto numa área de 140 hectares, e talvez pelo seu grau de destruição, a visita a Birkenau não me transmitiu o mesmo sentido dramático de Auschwitz.

No entanto, um soldado da SS que fotografou as actividades do campo, em 1944, conseguiu repor em mim, a consciencialização profunda do que ali aconteceu.

Este soldado organizou um album com a sua reportagem fotográfica. Por ironia do destino, quero acreditar, esse album foi encontrado por uma sobrevivente de Auschwitz, LiLi Jacob, judia eslovaca, que se reconheceu numa das fotografias do album.

Na loja do Museu estatal Auschwitz-Birkenau, comprei um livro que mostra algumas das cerca de 200 fotografias feitas por este soldado das SS. O livro foi concebido por Piotr M. A. Cywiński e as fotos dos mesmos atuais dos mesmos locais, são de Pawel Sawichi.

"As fotografias de arquivo do chamado álbum de Lili Jacob, de 1944, feitas pelas SS durante a recepção de transportes de judeus húngaros em Birkenau, foram comparadas com as fotografias contemporâneas feitas exatamente nos mesmos lugares. Do álbum de Lili Jacob, que contém aproximadamente 200 fotografias, foram selecionadas 31. Representam as diferentes etapas de receção do transporte judeu em Birkenau, desde a chegada à rampa, seleção, divisão entre aptos e não aptos para trabalhar, até às fotos de pessoas levadas ao Holocausto e enviadas para o campo."

 
Fotografias retirados do livro de Piotr M. A. Cywiński e Pawel Sawichi

”Na coluna da direita, a quarta pessoa da esquerda para a direita, na primeira fila, é Lili Jacob”


Quando nos lugares vazios, ainda que preservados para memória futura, se colocam os fantasmas das pessoas que os percorreram, para além da memória fica também tatuada a dor da sua existência... e é essa dor impressionante que nos aperta o coração ao percorrermos as imagens deste documento.


Junho de 2024
Dulce Cascalheira





domingo, 28 de abril de 2024

Glasgow

A cidade de Glasgow, a segunda cidade escocesa, depois da capital Edimburgo, é normalmente considerada como uma cidade feia e muito industrial. É isso que se ouve constantemente falar de Glasgow, e é por isso que, muitas vezes, quem visita a Escócia, não inclui sequer esta cidade nos seus roteiros.

E era disso que estava à espera… mas reconheço que foi uma agradável surpresa. Na verdade, grande parte da antiga zona industrial, como é o caso das docas do porto, foi reconvertida numa zona moderna, com uma série de infraestruturas artísticas, culturais e de divulgação científica, que fazem desta parte da cidade um local bastante atrativo… a fazer lembrar o nosso Parque das Nações, a seguir à Expo.

E depois de me ter apercebido do interesse destas novas docas, programei a visita percorrendo três zonas distintas, que estão representadas com cores diferentes neste mapa da cidade, em que começámos justamente pela antiga zona industrial do porto de Glasgow:
 


As Docas de Finnieston

Começámos o dia fazendo um passeio pelas margens do rio Clyde na zona das chamadas Docas de Finnieston, onde ficava o hotel que reservámos, o Hilton Garden Inn.

O percurso escolhido, que se encontra assinalado a roxo no mapa anterior, leva-nos ao longo desta parte da cidade, que outrora foi a principal zona do porto, chamada de Queens Dock, e que, atualmente, depois de requalificada, integra ainda algumas instalações originais devidamente recuperadas, mas inclui também um conjunto de novas infraestruturas, como museus e salas de espetáculos, todos com uma arquitetura moderna, fazendo com que esta zona se tornasse num dos principais centros culturais e artísticos da cidade.
Começámos junto ao hotel onde se ergue o imponente guindaste do antigo porto, o Finnieston Crane, que é atualmente uma peça de arqueologia industrial, e que constitui a principal imagem de marca da zona.

Atravessámos depois o rio através da Clyde Arc Bridge, uma ponte rodoviária com uma silhueta vanguardista, formada por um único arco superior atirantado, que lhe dá este formato de ponte do futuro.

Ao percorrermos a margem esquerda do rio vamos observando os edifícios modernos que se elevam na área da margem direita, com o chamado OVO Hydro, que é um imenso pavilhão multiusos, e o SEC Armadillo, que é um auditório modernista… ambos enquadrados pela imagem imponente do Finnieston Crane.

E seguindo ainda pelo passadiço da margem esquerda vamos chegar ao complexo do Glasgow Science Centre, que inclui o próprio centro, um Cinema IMAX e a Centre Tower.

O Glasgow Science Centre é uma das atrações turísticas da Escócia, com muitas atividades científicas e de entretenimento para visitantes de todas as idades, com exposições interativas, oficinas, espetáculos, um planetário e um cinema IMAX.
Junto a este complexo fica ainda um outro edifício moderno, onde funciona a delegação escocesa da BBC, cuja imagem faz conjunto com o Centro de Ciência na paisagem que observamos do lado oposto do rio.
Depois de percorrermos a margem Sul do rio Clyde, atravessámos uma outra ponte, desta vez a Bell's Bridge, uma ponte pedonal, e chegámos de novo à zona de Finnieston, agora bem mais perto do pavilhão multiusos OVO Hydro e do auditório SEC Armadillo.
O trajeto seguinte levou-nos até a uma destilaria, a The Clydeside Distillery, para a qual já tínhamos feito a reserva para uma visita.

A reserva foi feita online pelo preço de £18,5 por pessoa, o que inclui uma visita de cerca de uma hora a esta destilaria, para percebermos um pouco da sua história, ou da história do próprio whisky, que pode ser considerado como um património desta cidade.

O nome da destilaria tem a ver com a sua proximidade com o rio Clyde, sabendo-se que integra mesmo a Pumphouse, ou casa das bombas, das antigas docas, localizadas nesta zona do rio. E o bonito edifício de tijolo com uma torre, onde hoje encontramos esta destilaria, era já visível nas antigas fotografias da Queens Dock.

Durante a visita foi-nos explicado como se faz o whisky, quais os ingredientes e onde são produzidos, e depois todos os processos, da maturação à destilação, que nos foram mostrados nas várias salas e com os diversos equipamentos, como os bonitos alambiques de cobre.

No final tivemos ainda direito a umas provas, desde o whisky mais comum até aos de puro-malte… mas que a mim, me sabem todos ao mesmo, a álcool desinfetante.

Depois da visita à destilaria regressámos ao hotel para ir buscar o carro e seguimos para uma zona mais distante das docas, onde se encontra o recente museu, o Riverside Museum.

Este museu foi construído especificamente para este fim, criado na junção dos rios Clyde e Kelvin, em que o edifício segue um formato semelhante ao dos antigos armazéns existentes nas docas.

O museu foi inaugurado em 2011, com projeto da arquiteta e designer iraquiano-britânica, Dame Zaha Hadid, e tem mais de 3.000 objetos em exposição.

No seu interior encontram-se coleções sobre os transportes e as tecnologias que existiram nesta cidade, e que foram reunidas ao longo dos séculos, representando a importância de Glasgow na indústria pesada escocesa, como a construção naval, ou a construção ferroviária.



O West End e a Glasgow University

Tentámos agora escolher um estacionamento neste lado da cidade, junto ao bairro do West End, de onde íamos sair de novo a pé para visitarmos um conjunto de jardins e edifícios históricos, seguindo os percursos assinalados a vermelho no mapa da cidade que juntei no início desta crónica.

O termo usado de “tentámos”, tem a ver com a dificuldade encontrada, que não foi por falta de lugares de estacionamento, mas porque nos foi difícil conseguirmos moedas para os parquímetros. É que na Escócia quase tudo se paga com cartão, mesmo os parquímetros que fomos encontrando durante a nossa viagem, e só aqui em Glasgow tivemos necessidade de arranjar libras, e não em notas, porque aí teríamos ido a uma máquina ATM, os parquímetros exigiam apenas moedas.

Tivemos de resolver à portuguesa… não pagámos e rezámos para que não nos multassem, e não multaram, tivemos sorte.

Depois deste percalço, fizemo-nos ao caminho começando pelo Kelvingrove Art Gallery and Museum, que é o museu, fora de Londres, mais visitado no Reino Unido, talvez por ser de acesso gratuito.

O edifício é, por si só, uma belíssima atração, com as fachadas em cor de terracota e com o seu interior, que tem um hall principal muito bonito. Encontra-se ali uma das grandes coleções europeias sobre arte cívica, mas que não achei grande graça, faz lembrar os museus de história natural, cheio de bichos empalhados.


Este museu está localizado junto a um imenso parque, o Kelvingrove Park, e imediatamente abaixo do principal Campus da Universidade de Glasgow. Assim, fizemos o percurso que los levou até a Universidade, cuja torre do edifício principal se tornava visível ainda durante o caminho, enquadrada pelo arvoredo e pelo rio Kelvin, que estão integrados neste grande parque verde.

Já mais próximos, pudemos apreciar a bonita fachada deste edifício, uma vez mais nos tons de terracota.

Já junto ao edifício da Universidade não sabíamos ainda se poderíamos entrar ou se nos teríamos de contentar em apreciar as suas fachadas. Mas correu bem, talvez por ser um dia de semana, todas as portas estavam abertas e pudemos apreciar o interior deste edifício, com os seus pátios e as suas salas, bastante bonitos, que já foram até utilizados na rodagem de algumas cenas dos filmes da saga Harry Potter, representando a escola de magia de Hogwarts… e é exatamente esse o ambiente que ali encontramos.

Uma outra atração deste Campus, e também com uma envolvente que nos faz logo lembrar o universo de Hogwarts, é a Capela da Universidade, com os espaços assinalados com os brasões de cada equipa… que imaginamos serem equipas de feiticeiros.

À saída desta zona da Universidade entramos diretamente pelos jardins que fazem parte do Kelvingrove Park, um imenso parque que é atravessado pelo rio Kelvin, e que já foi, em tempos, designado por West End Park, devido à proximidade do bairro com o mesmo nome. Este jardim é muito rico em termos artísticos e culturais, pelos vários monumentos que ali se encontram, mas também pelos eventos que ali têm lugar, desde exposições a espetáculos de música e teatro, alguns deles decorrem no anfiteatro do parque, o Kelvingrove Bandstand.

E nos dias de sol, que serão raros, este parque é utilizado pela população local para banhos de sol e atividades ao ar livre… como os ingleses costumam fazer no Hyde Park.
Já de volta ao estacionamento, passámos ainda perto de uma outra galeria de arte, a Kelvin Hall Open Collections, mas, apesar de ter acesso gratuito, não quisemos entrar, estávamos um pouco ansiosos para saber se iriamos encontrar um talão de multa no carro.

Assim, observámos apenas as fachadas em tijolo avermelhado, como os demais edifícios monumentais desta zona, e seguimos diretamente até ao carro. Sabíamos também que, até 2010, este edifício funcionou como Museu dos Transportes e, nessa altura, talvez até tivesse interesse, pois sempre apreciei as referências aos meios de transporte do antigamente... mas a coleção aqui existente foi levada para o novo museu Riverside Museum, e atualmente nem sei o que é que ali estará em exposição.


Centro Histórico

Seguimos de novo de carro e fomos diretamente para um dos parques cobertos do centro da cidade, mais caros que os parquímetros de rua, mas não nos exigem moedas de pound.

Depois do carro arrumado fizemos um longo passeio pela o centro histórico seguindo aproximadamente as referências marcadas a castanho no mapa da cidade que juntei no início deste texto.

Começámos depois pelas principais ruas do centro, como a Gordon Street ou a Renfield Street. No final desta rua chegámos ao Pavilion Theatre, um dos teatros mais antigos de Glasgow, inaugurado em 1904 como um Music Hall, mas que continua a ser um dos mais importantes teatros da cidade.
Entrando depois na Sauchiehall Street chegámos ao The Glasgow Royal Concert Hall. Trata-se de uma das maiores salas de espetáculos do Reino Unido, inaugurada em 1990, em substituição do aclamado St. Andrew's Hall, que foi destruído num incêndio em 1962.
Estávamos agora no início da Buchanan Street, uma das mais importantes e mais movimentadas ruas do centro de Glasgow, mesmo numa tarde chuvosa, como esta, e percorreremos esta rua até metade da sua extensão, virando depois à esquerda quando chegámos à St George's Tron Church.


Vamos agora na direção da Royal Exchange Square, onde vamos encontrar a Gallery of Modern Art, inaugurada em 1996 neste edifício neoclássico dos finais do século XVIII, com uma fachada formada por um conjunto de colunas gregas.

Esta é a principal galeria de arte moderna da cidade e é abreviadamente conhecida como GoMA.
De seguida entrámos na George Square, a principal praça da cidade e que é considerada como o seu epicentro.

A praça foi criada em 1781 com o nome do Rei Jorge III e, depois disso, começaram a ser construídas casas de dois e três andares que formaram a sua envolvente. Mas, de todos esses edifícios originais pouco resta atualmente, de qualquer forma, a maioria das construções que foram substituindo os prédios que iam desaparecendo, foram sempre edifícios notáveis que fazem desta praça um espaço monumental.

Hoje em dia, o principal destaque nesta praça é o City Chambers, um prédio colossal que foi construído em 1890 e onde funciona a sede do governo local, e que é considerado o principal edifício público de Glasgow.

Na praça encontram-se ainda várias estátuas de escoceses famosos, como é o caso da coluna dórica que está no centro, e que é um memorial ao escritor escocês Walter Scott, cuja estátua de mármore se encontra no topo.

Na rua que fica atrás do City Chambers, a John Street, encontram-se dois arcos que fazem parte da estrutura daquele edifício e que ganharam relevo recentemente, ao terem sido utilizados como cenário na primeira temporada da série Outlander, como a rua em que fica o registo civil onde a protagonista se casa.
De seguida continuámos a nossa caminhada num bairro que é chamado de Merchant City. Nas ruas destes quarteirões encontramos boutiques de design, cafetarias e restaurantes, e espaços para apresentações musicais que ocupam antigos armazéns.

Os bares e restaurantes são variados, com bistros gourmet, escoceses, italianos, indianos e mediterrânicos, com alguns lounges de cocktails e bares de gin, tudo isso ocupando os edifícios reformados do século XVIII, como o City Halls & Old Fruitmarket e o Merchant Square, que são também espaços culturais que oferecem concertos de música, desde a clássica ao pop.

Pensámos que talvez pudéssemos voltar a este local, para jantar, ou depois de jantar, para apreciarmos o ambiente da noite que ali se vive... e seria uma boa alternativa se fosse sexta ou sábados, mas, numa terça-feira não havia grande animação e acabámos por escolher outro local para jantar e passar o serão.

Nas proximidades deste bairro encontra-se a The Ramshor, uma antiga igreja que foi desconsagrada e é atualmente um edifício público que funciona como sede do Centro Nacional de Línguas da Escócia e do Instituto Confúcio para as Escolas da Escócia.
O próximo trajeto leva-nos agora até à Catedral da cidade, desta vez a caminhada era um bocadinho mais longa, quase 1 km.

A Glasgow Cathedral é a catedral protestante mais antiga de toda a Escócia e é também o edifício mais antigo da cidade de Glasgow.

Foi construída no século XII e era originalmente católica, sendo hoje um templo presbiteriano que pertence a Coroa Britânica. Esta é a única catedral medieval no continente escocês que sobreviveu à Reforma Protestante de 1560, tendo sido convertida numa igreja protestante, em vez de ter sido destruída, como aconteceu com a quase totalidade dos templos católicos.
Ao visitarmos esta igreja, com acesso gratuito, vamos encontrar alguns traços especiais, como a existência de várias naves distintas, tanto no piso térreo como na cave, e também com alguns vitrais bastante bonitos.

Situada numa colina adjacente à Catedral de Glasgow, fica a Glasgow Necropolis, um imenso cemitério que se estende num jardim vitoriano repleto de sepulturas ornamentadas e de esculturas, numa envolvente que é, ao mesmo tempo, macabra e fascinante, e que esconde, certamente, uma infinidade de histórias.

Foi inspirado no famoso Père-Lachaise de Paris e é descrito como um dos cemitérios mais importantes da Europa. Estima-se que, ao longo da sua história, tenham ali ocorrido mais de 50.000 enterros, nos cerca de 3.500 túmulos que hoje encontramos, alguns deles são memoriais dedicados a grandes nomes da Escócia.
Para acesso ao cemitério seguimos por uma ponte, a Bridge of Sighs, ou Ponte dos Suspiros, que nos leva ao monumento de entrada na necrópole, seguindo depois pelas rampas que nos conduzem até à parte mais alta, onde se encontram a maioria das sepulturas. À medida que vamos subindo por essas rampas vamos também podendo apreciar toda a paisagem da envolvente que fica lá em baixo, com destaque para a silhueta da catedral.

No caminho de regresso até o centro da cidade, passámos pelo Glasgow Tolbooth, um monumento que fazia parte de um edifício municipal que serviu de prisão, tribunal e local de execuções, durante os séculos XVII e XVIII. 

Após a demolição da estrutura principal no ano de 1921, ficou de pé apenas o campanário que hoje ali encontramos e que é uma marca nesta parte da cidade.
Quando nos aproximamos do rio encontramos, do lado esquerdo, um imenso jardim, que é chamado de Glasgow Green, e cuja porta é materializada pelo McLennan Arch.

Neste jardim encontram-se diversas estátuas e também o chamado People's Palace, mas que está um pouco distante, obrigando a um passeio mais longo... mas  que acabámos por fazer.


Continuando depois junto ao rio vamos chegar à Metropolitan Cathedral of St Andrew, a maior igreja católica da cidade, dedicada a Santo André, o santo padroeiro da Escócia.

A catedral católica da cidade foi construída no início do século XIX em estilo neogótico e, apesar de ter umas fachadas bastante modestas, o seu interior é lindíssimo, e até pouco habitual em igrejas católicas, com o branco como cor predominante.

Logo em frente à catedral encontramos uma antiga ponte pedonal feita de ferro forjado, que vence um vão suspenso de 126 m, a South Portland St Suspension Bridge.

Saindo, por fim, da marginal, dirigimo-nos à Saint Enoch Square, uma praça onde encontramos um enorme centro comercial, o St. Enoch Shopping Centre, que ocupa a antiga estação ferroviária de St. Enoch. 

Esta praça fica no fim da principal rua do centro, a Buchanan Street, que já tínhamos descido horas antes, e que iríamos agora subir, numa altura em que a chuva tinha voltado e, por isso, as ruas estavam quase desertas.

Antes da hora de jantar tínhamos ainda algum tempo e decidimos procurar uma bomba de gasolina para garantir a chegada até ao aeroporto na madrugada seguinte. Escolhendo uma das bombas mais próximas fui surpreendido pela sua localização, bem perto do estádio da equipa do Rangers FC, o Ibrox Stadium… onde o Benfica tinha jogado há pouco mais de um mês, e até tinha ganho (e eu não podia perder a oportunidade de dar esta informação).
Esta proximidade de um estádio de futebol fez-me lembrar que os escoceses são adeptos fervorosos das suas equipas, com grande rivalidade entre os dois grandes clubes de Glasgow, que, para além da cor clubística, representam também as fações religiosas, sendo o Rangers o clube dos protestantes e o seu rival, o Celtic, o clube dos católicos.

Depois desta reflecção, e como estávamos com carro, resolvi também visitar o outro estádio da cidade, o Celtic Park. O Celtic FC já foi um clássico europeu e o seu estádio, que foi palco de grandes noites europeias de glória, é agora bastante antigo. Mas mesmo velhinho, o Celtic Park ainda não foi demolido, embora, atualmente, a equipa já jogue num estádio novo, o Emirates Arena… e nesta nossa visita pudemos apreciar o exterior destes dois estádios, que são uma referência para os adeptos de futebol.


A noite aproximava-se e voltámos de novo ao centro histórico, procurando agora a zona de concentração de restaurantes, para escolhermos um deles para jantar.

Voltámos assim à Buchanan Street, que fica próxima de vários restaurantes, e encontrámos duas referências do centro por onde não tínhamos ainda passado, a Central Station, que é a grande estação ferroviária da cidade; e a The Lighthouse, um edifício que se assemelha a um farol, que já foi sede dos escritórios do jornal Glasgow Herald, e é, atualmente, o Centro de Design e Arquitetura da Escócia.



No dia seguinte iríamos sair de madrugada para o aeroporto, escolhemos o aeroporto de Edimburgo, que fica a 80 km, porque facilitava a entrega do carro, pois foi ali que o alugámos.

Terminámos assim a visita à cidade de Glasgow que, ao contrário do que se esperava, não é nada aquela cidade industrial, feia e suja, e é até bastante interessante. Nem mesmo na antiga zona das docas, principal polo industrial durante séculos, encontramos a decadência de que estamos à espera quando imaginamos um espaço industrial... na verdade, essa parte da cidade é hoje um espaço moderno e bastante agradável.

Reconheço apenas que Glasgow ficará sempre aquém de Edimburgo, mas, Edimburgo será talvez a segunda cidade mais interessante de todo o Reino Unido, só perde mesmo para Londres.


Mas hoje terminámos também esta viagem de oito dias pela Escócia, um regresso que estava anunciado desde a primeira visita ainda nos anos 80. Não direi que fiquei deslumbrado como da primeira vez, porque, entretanto, já vi milhares de outras coisas equivalentes… e estou a pensar, por exemplo, nos Açores, que não ficam nada atrás. De qualquer forma, não deixou de ser uma belíssima viagem que nos permitiu desfrutar em pleno, do que este país tem para oferecer.



Abril de 2024