segunda-feira, 17 de abril de 2023

Outros Castelos


Saímos neste dia de Tours com o objetivo de visitar alguns dos châteaux do Loire, onde se inclui um dos grandes palácios, o de Chambord, e mais alguns bastante menores, cujo registo deixo nesta crónica a que chamei de “Outros Castelos”.

Começo por representar a localização destes castelos no mapa seguinte, e definir o percurso que tivemos de realizar no mesmo mapa que tenho usado para localizar os trajetos ao longo do Vale do Loire:



Château de Amboise

Fizemos a nossa primeira paragem na pequena cidade de Amboise, situada nas margens do Loire. Depois de um breve passeio junto ao rio e à ponte que o atravessa, a Pont du Maréchal Leclerc, um general do exército francês com nome de supermercado, onde se conseguia apreciar a silhueta do castelo da cidade, o Château de Amboise.
O palácio surge num penhasco acima do Loire, com os seus jardins suspensos sobre a pequena cidade de Amboise, num espaço que foi um dos locais favoritos dos reis de França quando transformaram o país durante o período renascentista. Figuras como Ana de Bretagne, François I ou o italiano Léonard de Vinci, são rostos familiares que estão associados à história deste château.

Ao entrarmos nesta pequena cidade começámos por explorar as rua do centro histórico, umas ruas pitorescas encostadas ao penhasco onde se ergue o castelo, que é visível cá de baixo.

O próprio castelo de Amboise, que conseguimos contemplar bem melhor se nos afastarmos até à ponte que atravessa o Loire, é um a joia arquitetónica do Renascimento, que resulta da antiga fortaleza medieval que foi gradualmente desmantelada, dando lugar a uma residência real que durou nos reinados de Carlos VIII e de Francisco I.
Para além da corte francesa, também os grandes pensadores, artistas e cientistas da época, eram convidados dos reis e frequentavam o palácio. 

Um deles tem um principal destaque, tanto por ser o mais ilustre de todos, como pelo facto de ter mesmo sido sepultado na capela do castelo. Trata-se do grande Leonardo da Vinci, que, depois de ter vindo de Itália para França nos últimos anos da sua vida, sendo frequência habitual dos palácios reais, acabou por morrer neste país e encontra-se aqui sepultado na capela do Château de Amboise.
Mas apesar da grandiosidade de algumas das salas deste castelo, a sua grande beleza resulta do seu espaço exterior, os jardins e as belas fachadas, que conseguimos apreciar tanto melhor, quanto mais nos afastamos deste local.
Um último episódio trágico deste château e da cidade de Amboise, aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, quando, a partir de setembro de 1939, este castelo foi requisitado pelos nazis, obrigando à retirada dos serviços do governo francês para Bordeaux, dando lugar à ocupação alemã.

Depois disso ocorreram alguns eventos relevantes, como em 1940, quando vários confrontos com as tropas aliadas vieram a danificar o castelo.

Mas o final da história é conhecido, e a derrota dos nazis permitiu a devolução deste castelo aos franceses, e depois de várias obras de recuperação, encontra-se hoje com a sua arquitetura original devidamente recuperada... um bonito castelo que repousa sobre as águas do Loire.


Château de Chaumont-sur-Loire

O percurso seguinte leva-nos ao longo das margens do Rio Loire, que fomos apreciando pelo caminho e nas várias paragens que fomos fazendo.

O Loire não é diferente de muitos outros rios em todo o mundo, mas quem visita o seu vale, apesar de andar sobretudo à procura de castelos, não deve deixar de tentar apreciar as paisagens que nos são oferecidas ao longo das suas margens… e foi o que fizemos, fomos andando e fomos parando sempre que possível, desfrutando das paisagens que nos eram oferecidas.

Fizemos uma próxima paragem, desta vez, muito breve, em frente ao Château Chaumont-sur-Loire, um dos mais belos castelos desta zona, apesar de ser dos mais pequenos. Mas não estava na nossa lista de castelos a visitar, pelo que nos ficámos pela margem oposta, de onde apreciámos a sua silhueta à distância.
Este castelo foi construído no século X pelo conde de Blois, e esteve sujeito a várias disputas e intrigas regionais entre o poder local e a própria corte de Paris, o que fez com que tivesse passado de mão em mão durante vários séculos.

Em 1560, a nossa conhecida Catarina de Médici, viúva do rei Henrique II, e mãe do regente do reino de França, comprou o Castelo de Chaumont-sur-Loire e forçou Diane de Poitiers, antiga favorita do rei, a dar-lhe em troca o Château de Chenonceau… o que fez com que Diane se tivesse de resignar a ocupar um edifício tão “modesto” como este, a pobrezinha.



Blois

Neste caso fizemos apenas uma breve visita à cidade de Blois, e não tanto ao seu castelo, o Château Royal de Blois. Na verdade, a cidade é bastante grande e até é interessante, com vários monumentos e edifícios históricos, mas, por outro lado, o seu castelo não é minimamente comparável com muitos outros que estão espalhados ao longo do vale do Loire.

Assim, fizemos um percurso que nos permitiu obter uma panorâmica geral da cidade, observando alguns dos principais monumentos, onde se incluem a Igreja de Saint-Nicolas e a Catedral St. Louis, esta localizada ao lado de um outro edifício importante, o chamado Hôtel de Ville, que corresponde à Câmara Municipal, como em todas as cidades francesas.

Em quaisquer dos casos, não chegámos a entrar nas igrejas, pois preferimos ficar em miradouros mais distantes onde era possível observar as silhuetas enquadradas com os edifícios envolventes, formando um conjunto bastante interessante.

Um dos locais de observação é mesmo uma das pontes da cidade, neste caso a Pont Jacques-Gabriel, também ela bastante bonita.
Mas a visita à cidade de Blois também se faz pelas ruas pitorescas do centro histórico, onde se vamos percorrer umas rampas e até mesmo algumas escadarias, que permitem vencer os declives da colina sobre a qual a cidade de desenvolve. Um dos lugares interessantes da cidade, que nos obriga a subir uma escadaria, é a plataforma onde se ergue a Catedral St. Louis e onde se estende a imensa esplanada do edifício do Hôtel de Ville.
E é através de uma outra escadaria que chegamos até ao Château de Blois, com acesso a um imenso terreiro com esplanadas de onde podemos observar a fachada exterior de uma parte do palácio. 

Se quisermos conhecer este castelo em pormenor devemos pagar o ingresso e visitar o seu interior, mas nós não tínhamos tempo para uma visita mais demorada e acabámos por ficar apenas no lado exterior, observando a fachada principal do edifício. Este château foi uma antiga residência dos reis de França e é formado por um edifício majestoso que reúne vários estilos arquitetónicos: gótico, flamboyant gótico italiano, renascentista e clássico… o que constitui uma amostra da diversidade da arquitetura francesa da época.

Do lado de fora do castelo fica a Place du Château, o tal terreiro com esplanadas e com vista para o rio e para a bonita fachada do palácio.
Reconheço que esta visita a Blois não foi a mais interessante, pois não dispúnhamos de tempo suficiente para uma permanência mais demorada e mais detalhada.


Terminámos assim uma breve visita a um conjunto de castelos do Loire menos relevantes, cujo percurso resolvi juntar nesta crónica, e seguiríamos agora até a um dos châteaux mais interessantes, o Castelo de Chambord.


Carlos Prestes

domingo, 16 de abril de 2023

Tours


Para quem esteja a fazer uma viagem ao longo do Vale do Loire, a cidade de Tours é o local ideal para se pernoitar, por estar mais ou menos no centro de gravidade dos principais castelos da zona, mas também por ser uma cidade que vale a pena ser visitada.

Assim, resolvemos chegar à cidade a meio da tarde e aproveitámos o resto do dia para fazer uma caminhada pelas ruas e praças mais importantes, seguindo o percurso assinalado no próximo mapa, e terminando numa das esplanadas da cidade velha, que estão sempre animadas e cheias de gente.
 
Começámos a visita à cidade partindo do hotel, que ficava mesmo junto à estação ferroviária, a Gare de Tours, com a sua fachada monumental, em frente da qual se estende o Jardin Léonard de Vinci e, logo depois, surge o edifício moderno do centro de congressos, que é chamado de Le Vinci-Palais des Congrès de Tours e que é uma enorme sala de espetáculos.

Continuando depois pelo Boulevard Heurteloup chegamos a uma das praças mais monumentais da cidade, a Place Jean Jaurès, onde se encontra o Tribunal Judiciaire de Tours, o principal tribunal da cidade.
E logo ao lado do tribunal encontra-se aquele que talvez seja o edifício mais bonito da cidade, o Hôtel de Ville de Tours.

O edifício da Câmara Municipal foi construído entre 1896 e 1904 e é um verdadeiro palácio municipal, um manifesto à glória dos valores da República.

A fachada tem uma decoração extraordinária, com destaque para várias esculturas com figuras humanas. O edifício estava fechado, mas sabe-se que o interior é também magnífico, com as salas cerimoniais e uma escadaria monumental, decoradas com pinturas e esculturas.
No trajeto seguinte fomos pela Rue Nationale, uma rua comprida que percorre quase 1 km em linha reta até ao rio, com bastantes lojas de ambos os lados, e que é atravessada pelo Tram da cidade.
Mais à frente virámos à direita na Rue de la Scellerie e encontrámos a Grand Théâtre - Opéra de Tours, a grande sala de espetáculos da cidade para ópera e bailado.
Continuando pela mesma rua, dirigimo-nos até à Catedral de Tours, ou Cathédrale Saint-Gatien.

A atual catedral sucede a três outras igrejas e a sua construção prolongou-se entre os anos 1160 e 1547, sendo atualmente um monumento classificado como património arquitetónico de França, tanto pela sua história riquíssima como pelo conjunto de vitrais que se encontram nas fachadas do edifício.

A primeira igreja ali construída foi palco da coroação de São Martinho como bispo de Tours e do chamado “milagre do globo de fogo”, quando São Martinho era apenas um jovem soldado romano que ofereceu o seu manto a um mendigo e, mais tarde, esse mendigo haveria de se revelar num sonho, como sendo o próprio Jesus. Depois disso São Martinho seguiu o caminho da igreja, rezava e pregava a fé católica por terras francesas, e veio mesmo a ser bispo desta cidade... e após a sua morte foi beatificado e considerado Santo.

Nos anos seguintes à morte de São Martinho, no ano de 316, esta igreja chegou a ser um dos mais famosos centros de peregrinação do Ocidente, para visita do túmulo do Santo.

Mais tarde os restos mortais de São Martinho foram saqueados, embora tenham sido depois recuperados e transladados para uma outra igreja da cidade, a Basilique Saint-Martin de Tours, construída no século XIX exatamente para guardar e homenagear as relíquias do Santo.

Quanto ao edifício da Catedral, o corpo da nave central foi construído entre os séculos XIV e XV e reflete a evolução do estilo arquitetónico entre o chamado gótico radiante até ao gótico extravagante… mas a mim isso diz-me muito pouco, o que realmente me tocou foi a beleza extraordinária das fachadas desta igreja, com destaque para esta fachada principal lindíssima, uma autêntica obra de arte.
O interior da igreja oferece um conjunto riquíssimo de vitrais medievais dos séculos XIII, XIV e XV, e outros bem mais modernos, dos séculos XIX e XX. Mas nem são só os vitrais, toda a arquitetura interior da catedral é fantástica e merece ser visitada com tempo, para que possam ser apreciados devidamente todos os pormenores.

Encontramos também nesta catedral uma obra-prima da Renascença francesa, que corresponde ao túmulo dos filhos de Carlos VIII e Ana da Bretanha, Charles e Charles-Orland, que morreram muito jovens.
Saindo da catedral dirigimo-nos na direção do rio Loire e, um pouco mais à frente, encontramos um pequeno castelo rodeado por um jardim, o Château de Tours.

O Castelo de Tours foi um monumento particular e é hoje um edifício público, que funciona como sala de exposições, oferecendo uma programação diversificada que abrange vários campos artísticos, como pintura, fotografia, escultura e arte contemporânea.

De seguida viramos pela Rue Colbert, uma rua cheia de restaurantes, passando depois pela Abbaye de Saint-Julien, uma pequena igreja onde nem entrámos, limitámo-nos apenas a apreciar as suas fachadas, que nem são particularmente bonitas.
Voltando de novo na direção do rio Loire, chegámos à sua ponte mais antiga, a Pont Wilson. A ponte original foi construída no final do século XVIII e está classificada como monumento histórico, sendo composta por 15 arcos que cruzam o rio num total de 434 m de comprimento.

Esta ponte é também chamada de “ponte de pedra” e é determinante na história da própria cidade, sobretudo devido a uma série de catástrofes que ocorreram desde a sua construção e que provocaram o seu colapso parcial, impedindo a travessia do rio para acesso à cidade.

Mas a última dessas catástrofes aconteceu já muito perto dos nossos dias, quando a ponte desabou no ano de 1978, arrastando uma viatura com o seu motorista para a corrente do rio, num acontecimento que marcaria profundamente a história da cidade e a forma como os seus habitantes tiveram de viver a partir dessa altura, e até à sua reconstrução em 1982.
Saímos depois desta zona do rio e entrámos na cidade velha, seguindo diretamente para visitar a Basilique Saint-Martin de Tours.

Percorrendo as ruas de paralelepípedos da cidade velha, cheias de lojas e restaurantes, e ao lado das antigas casas feitas em enxaimel, encontra-se a Basílica de São Martinho – dedicada ao mesmo São Martinho que foi Bispo da Catedral da cidade e que foi depois transformado em Santo… e é ainda o mesmo que conhecemos das comemorações do dia 11 de novembro, dos magustos com castanhas assadas e água-pé, ou vinho leve, e é também o do Verão de São Martinho, quando faz sol naqueles dias de novembro. Só não é o meu Santo favorito, porque a sua data não está consagrada com um feriado nacional, de resto só nos traz coisas boas.

Os restos mortais do Santo estiveram vários séculos na Catedral de Tours, até serem saqueados, tendo-se perdido a noção do seu paradeiro. Só em 1860 é que as relíquias de São Martinho foram redescobertas e, só depois disso, ainda no final do século XIX, é que esta Basílica foi construída para homenagear o Santo e preservar as suas ossadas e o seu espólio.

O edifício da Basílica é bastante bonito, num formato típico da arquitetura bizantina, contendo uma grande abóboda central, a fazer lembrar as igrejas turcas.
No pátio do portão principal de acesso à Basílica existe uma estátua que representa São Martinho no episódio que é chamado de “milagre do globo de fogo”, no qual ele dá o seu manto a um mendigo, que depois, afinal era Jesus… e que levou a que ele fosse beatificado.

Já no interior da Basílica encontramos um espaço muito simples, sem grandes luxos, num estilo que é claramente bizantino.
    
Na cripta que ocupa o espaço por debaixo do altar, estão guardadas as relíquias e as ossadas de São Martinho, numa zona escura e bafienta, que serve de ponto de romagem aos devotos do Santo… um lugar desagradável e tão pouco acolhedor, que certamente que o próprio Santo não o aprovaria, já que se trata do Santo dos magustos e dos dias de sol.
Já de novo cá fora, na envolvente da Basílica, entramos na Place Châteauneuf onde se tornam visíveis as silhuetas da própria Basílica e de uma outra igreja, a Collégiale Saint Martin, com a sua torre, chamada de Torre Carlos Magno.

    
A cidade velha de Tours, o Vieux Tours, constituída por uma parte do seu bairro medieval original, mantém ainda devidamente preservado uma grande parte do seu património histórico, que foi recentemente submetido a um processo de renovação, recuperando as antigas casas de enxaimel dos séculos XII a XV.

A Place Plumereau é o local mais típico da cidade, com várias casas de enxaimel e repleta de esplanadas de restaurantes, bares e gelatarias.

Depois de mais um passeio pelas ruas animadas da cidade velha terminámos o serão jantando numa das esplanadas da Place Plumereau, com uma oferta imensa de restaurantes.

No passeio final até ao hotel, já à noite, pudemos rever alguns dos locais mais interessantes da cidade, terminando onde começámos, junto à Gare ferroviária, onde ficava o hotel… amanhã iriamos ter mais uma série de castelos e palácios para explorar.


Carlos Prestes

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Château de Chenonceau


O próximo castelo, que é, na minha opinião, o mais interessante de todos os que visitámos, chama-se Château Chenonceau e fica localizado conforme se assinala no mesmo mapa desta região do Loire:
 
O Château de Chenonceau é apelidado de "Château das Damas" pois, ao longo da sua história, houve um conjunto de mulheres que foram determinantes na vida deste palácio.

Trata-se de um edifício lindíssimo e um dos castelos mais majestosos do vale do Loire, incorporando a elegância do estilo renascentista, mas com o pormenor de atravessar todo o leito do rio Cher, um afluente do Loire, através dos arcos de fundação de uma antiga ponte, sobre a qual foi depois construída uma ala do castelo, formando um conjunto particularmente bonito.
Depois do estacionamento e das bilheteiras (desta vez o preço era de €15, só com a brochura, ou €19, com áudio-guia), o acesso ao castelo é feito por um imenso espaço ajardinado, com uma alameda principal ladeada por um imenso arvoredo e, mais à frente, passámos ainda por alguns canais… um conjunto que dá a toda esta zona uma beleza muito particular.

Ao chegarmos ao castelo vamos encontrar a imensa Torre dos Marques, logo seguida do edifício principal do palácio.
E mal chegámos, entrámos logo no castelo, só mais tarde voltaríamos a sair para apreciar devidamente as suas belíssimas fachadas.

Como já mencionei noutras crónicas deste blogue, não costumo apreciar particularmente o interior de palácios e palacetes, mas confesso que, aqui, foi bem diferente, pois só com a visita ao castelo se pode conhecer a história riquíssima que ali foi vivida, e que faz com que este edifício seja conhecido como o Château das Damas, ou mesmo, o Château das Sete Damas.

E será acompanhando a história de cada uma dessas sete mulheres que vos vou aqui contar a própria história do Château Chenonceau:


Katherine Briçonnet (1494-1526)


Katherine Briçonnet e o seu marido, Thomas Bohier, compraram este local em 1512 para construir um château renascentista. Para tal, o antigo castelo fortificado, pertencente à família Marques, foi quase todo demolido, à exceção do torreão, que é chamado de Torre dos Marques.

Como tesoureiro do reino das guerras que decorriam em Itália, Thomas Bohier estava frequentemente fora de casa e, na sua ausência, era a mulher, Katherine, que supervisionava os trabalhos de construção. Nessa fase ela teve que fazer várias escolhas arquitetónicas significativas, como, por exemplo, a inclusão de torres no edifício, ou a definição do design da escada principal, que ela concebeu com um formato que pudesse aproveitar a luz das aberturas e as vistas para o rio Cher.

Podemos considerar que Katherine foi assim a primeira arquiteta deste palácio, tomando as principais decisões sobre a conceção de uma parte das belas fachadas que ainda hoje ali encontramos, sabendo-se que, na altura, ainda não existisse a ala Sul, que atravessa o rio, e que só foi construída mais tarde.
No entanto, em 1524, Thomas Bohier haveria de morrer em Itália e a mulher acabou por resistir apenas mais dois anos após a sua morte, terminando assim a presença desta senhora que foi das mais importantes na história de Chenonceau, contribuindo decisivamente para a construção deste bonito château.

Os portões principais do palácio ostentam ainda o brasão de Thomas, à esquerda, e o de Katherine, à direita.

O castelo permaneceu na família Bohier pela geração seguinte até que, em 1535, o rei François I o confiscou a Antoine II Bohier, o filho e herdeiro de Thomas e Katherine, por dívidas não pagas, e o incorporou na Fazenda da Coroa Francesa.

Mal sabia Katherine que a sua importância na criação deste castelo era apenas um primeiro passo que iria ser replicado por mais uma série de mulheres extraordinárias que haveriam de fazer de Chenonceau o seu lar, ao longo dos séculos seguintes.


Diane de Poitiers (1499-1566)


A partir do momento em que o palácio passou a fazer parte da Fazenda da Coroa, passou a ser propriedade de cada um dos reis franceses. Foi assim que o rei Henrique II decidiu oferecê-lo à sua amante Diane de Poitiers, não só com direito de utilização, mas também com direito de posse (foi esta decisão do rei, na altura altamente contestada, que viria a retirar este castelo da lista de propriedades da Coroa, o que o veio a salvar mais tarde, durante a Revolução Francesa, quando a maioria dos castelos e palácio reais, foram saqueados e destruídos).

Diane fez parte de um dos triângulos amorosos mais embaraçosos da história, quando Henrique II, ainda príncipe, impôs a presença da amante nos mesmos aposentos em que vivia a sua esposa, Catarina de Médici.

Diane era uma nobre respeitada, bem-educada, que aprendia latim e grego, mas era também uma desportista e uma caçadora, algo pouco comum naquela época, e talvez tenha sido isso que atraiu o rei… ou talvez fosse o facto da esposa legítima, Catarina, não ser particularmente bonita, aliás, muito pelo contrário, a ver pelas ilustrações da época.

Era uma mulher mais velha 20 anos do que o rei, que conhecia desde pequeno, quando era dama de companhia da realeza, mas apesar dessa diferença de idade, foi-se desenvolvendo um vínculo estreito entre os dois, que viria a perdurar até um deles morrer.

A presença da esposa legítima, também ela 20 anos mais nova do que Diane, não alterou a relação entre o rei e a sua amante, tendo sido vivida uma ménage à trois perfeitamente assumida. E dessa relação a três, não havia qualquer dúvida que o grande amor da vida do rei Henri II, era Diane, que ele considerava como uma deusa... numa alusão simbólica ao seu próprio nome de Diana, que, na mitologia romana, era a Deusa da caça, da fertilidade e da lua.
 
E a existência desta paixão arrebatadora entre Diane e Henri, faz com que a história que foi vivida neste palácio, embora possa parecer uma traição terrível e inaceitável, na verdade, foi sobretudo uma lindíssima história de amor entre dois amantes que se mantiveram juntos até ao fim, apesar das pressões exercidas pela corte, para que se separassem.

Uma das provas assumidas desta ligação amorosa, é o brasão que encontramos no palácio, e que combina dissimuladamente as iniciais de Diane e Henri.
Após a morte de Francisco I em 1547, Henrique II foi coroado rei e ofereceu o Castelo de Chenonceau como presente à sua amante Diane… mas foi a entrega das Joias Reais a Diane, também dadas como presente, que mais irritou Catarina de Medici, que era agora rainha de França.

Já na posse do palácio, Diane pôde então fazer algumas adaptações no edifício para tirar um maior usufruto. A alteração mais importante foi a construção de uma ponte fundada em arcos que atravessava o rio Cher, dando acesso à margem oposta, por onde Diane saía a cavalo a caminho das suas caçadas.

A ponte é hoje o piso inferior da ala Sul do palácio, mantendo os seus arcos sobre o rio.
Além disso, Diane mandou transformar a cozinha do palácio, que funciona na cave, onde ela entregava os animais que trazia das caçadas. Criou também uma escada exterior encostada à cozinha, que era usada para a entrega dos mantimentos que chegavam de barco, mas que ela aproveitava também para sair do castelo entrando diretamente no rio, onde gostava de nadar completamente nua.
Outra importante referência a Diane é o seu quarto, um aposento posicionado de forma a facilitar o acesso do rei com toda a privacidade... ao contrário do quarto da rainha, que estava mais distante e que ele frequentava muito menos vezes, apesar dos 10 filhos que tiveram juntos.
Um outro símbolo de Diane neste castelo é o seu jardim, o magnífico Jardin de Diane de Poitiers, oferecido pelo rei, mas criado por ela em estilo italiano, deixando bem claro quem é que era a favorita naquele palácio, pois é muito maior do que o da rainha, o Jardin de Catherine de Médicis, tornando-se até numa declaração pública do poder de que Diane dispunha.

Apesar da oferta da propriedade a Diane ter sido feita em 1547, o Château de Chenonceau ainda permaneceu na Coroa até 1555, quando, após oito anos de intrigas legais e políticas, veio a ser formalmente entregue à amante do rei. Mas, até lá, e após a morte do rei, Diane foi mesmo expulsa do seu próprio castelo pela rainha.

Diane de Poitiers morreu em 25 de abril de 1566 devido ao envenenamento por ouro… bebia todas as manhãs um elixir que continha uma alta concentração de ouro, conhecido na época por desacelerar o envelhecimento.


Catherine de Médici (1519-1589)


Catarina era uma descendente dos Médici, uma das famílias reais italianas, e herdeira de uma enorme fortuna, quando foi prometida ao príncipe Henri II, o que levou a um casamento quando ambos tinham apenas 14 anos, mas com a certeza de que, mais tarde ou mais cedo, seria rainha de França.

E assim foi, e não só rainha como mãe de 10 príncipes da coroa francesa, e um deles seria mesmo o futuro rei Henri III.

Mas durante a sua vida Catarina haveria de ser, primeiro princesa e, depois, já rainha, a mais maltratada da história… não é que todos os reis não tivessem assumidamente amantes. O problema é que esta teve de enfrentar uma amante que vivia nos seus próprios aposentos, onde o rei lhe dava privilégios a que ela não tinha direito.

Por isso imagina-se que terá vivido uma vida de revolta, por não ser a preferida, apesar de ser ela a esposa legítima.

E assim, só depois do rei ter morrido em 1559, após um acidente com uma lança, Catarina pôde finalmente pôr a sua vingança em prática, expulsando do palácio a Diane caçadora, e amante do seu falecido marido, e rapidamente instalou o seu filho como autoridade maior do castelo de Chenonceau.

Apesar de Diane ser a proprietária do castelo, haveria de demorar oito anos até esse direito lhe ser concedido e foi mesmo expulsa. Mas como Catarina receava que Diane recuperasse o seu direito à posse do castelo, negociou com ela a troca de Chenonceau pelo Château Chaumont… e aproveitou ainda essa negociação para recuperar as Joias Reais.

Nessa atura Catarina ordenou a construção de uma nova ala do edifício que cresceu sobre a ponte que havia sido mandada construir por Diane, conforme representado no esquema seguinte, que mostra as três fases da vida do castelo, sendo a última a que encontramos atualmente.

Catarina ficou algum tempo como rainha regente até à coroação do seu filho, Henri III, e fez deste palácio o centro de governação. Aproveitou, entretanto, para fazer diversas obras de melhoramentos, tendo transformado o castelo num espaço muito popular na corte, onde ela organizava grandes festas.

No interior encontramos ainda hoje o reflexo da presença de Catarina, desta fase, depois da saída de Diane. Desde logo o seu próprio quarto, mas também o quarto das suas cinco filhas, conhecido por Chambre des Cinq-Reines… ambos fazem ainda parte dos cómodos visitáveis.

Depois temos também o seu jardim, que ela redecorou tornando-o equivalente ao jardim de Diane, não em dimensão, mas em requinte.

Mas o mais relevante que Catarina deixou, foi a nova ala do edifício e a grande Galeria Catarina de Médici, que ocupa todo o primeiro piso, exatamente onde existia o anterior tabuleiro da ponte.



Louise de Lorraine (1553-1601)


Com a morte de Catarina, em 1589, o château passou para a sua nora, Louise de Lorraine, esposa do Rei Henrique III.

Apesar de ser uma das sete damas do castelo, Louise de Lorraine teve pouco tempo para deixar a sua marca em Chenonceau, pois o seu marido foi assassinado oito meses após ter recebido o castelo como herança.

Com a dor pela perda do marido, Louise refugiou-se no castelo, vestiu-se de branco, a cor do luto segundo a etiqueta da corte, e caiu num estado de profunda depressão.

Inconsolável, mandou pintar o teto do seu quarto de preto e branco, forrou as paredes com tapeçarias escuras e com símbolos de luto, tristeza e morte, e manteve este quaro com as janelas fechadas, numa imensa escuridão, onde passava a maior parte do tempo.
Sempre que aparecia vinha de luto serrado, ou seja, vestida de branco, e por isso ganhou o nome de la Reine Blanche (a Rainha Branca). Até ao final da sua vida juntou-se a grupos de freiras e dedicou-se à oração e ao trabalho de caridade.

A sua morte marcou o fim da presença real em Chenonceau, que entrou num período de decadência por mais de um século, durante o qual, grande parte do seu recheio foi vendido, com muitos itens a serem levados para Versalhes.


Louise Dupin (1706-1799)


Em 1777 o castelo foi comprado por Claude Dupin, marido de Louise Dupin, senhora do iluminismo, que acolheu em Chenonceau os maiores estudiosos, filósofos e académicos de França.

Louise restaurou Château de Chenonceau e devolveu-lhe o seu antigo esplendor, com novos móveis e novas decorações, incluindo este quarto chamado de Salão Luis XIV.
Louise Dupin passava todo o tempo com os seus amigos do mundo das finanças e da elite intelectual, da literatura, artes e ciências, incluindo alguns intelectuais importantes como Voltaire, Montesquieu e Jean-Jacques Rousseau. Rousseau tornou-se mesmo secretário de Louise e tutor de seu filho.

Esta excecional mulher foi mesmo a primeira a redigir um Código dos Direitos da Mulher, e foi a responsável por um período distinto neste palácio, em que foi privilegiado o conhecimento e as artes.


Marguerite Pelouze (1836-1928)


Mais uma senhora deste castelo, esta muito colorida nas suas relações, o que veio a dar origem a um escândalo financeiro que levou à renúncia do presidente da república francesa.

Marguerite nasceu numa família muito rica, em que o pai, Daniel Wilson Senior, fazia fortuna instalando iluminação a gás em toda a cidade de Paris.

Com a morte dos pais, utilizou a herança na compra de Chenonceau, e decidiu restaurar todo o palácio, seguindo a mesma tendência que tinha acontecido há vários séculos, com as anteriores proprietárias… especialmente Diane e Catarina, as mais empreendedoras.

Gastou assim uma fortuna no restauro, repondo e redecorando as salas, quartos e a cozinha, dando-lhe o aspeto semelhante ao que encontramos atualmente, durante a nossa visita.

No entanto, a presença desta mulher no castelo veio a terminar mal, na sequência de um obscuro caso político e financeiro, que envolveu o quarto presidente da República Francesa, Jules Grévy, de quem Marguerite se tornou amante, juntamente com uma fraude cometida pelo irmão de Marguerite em pleno Palácio do Eliseu. Este escândalo político causou a queda daquele presidente, e levou à falência da proprietária de Chenonceau, apesar da sua fortuna colossal, obrigando-a a vendê-lo em 1888… inscrevendo assim uma página negra na reputação deste extraordinário castelo.


Simone Menier (1881-1972)


Em 1913, o château passou finalmente para os seus atuais proprietários, ao ser comprado por George Menier, da família Menier, detentores de uma enorme fortuna construída em torno do negócio do chocolate.

Durante a Primeira Guerra Mundial permitiram que Chenonceau se tornasse num hospital para os soldados feridos, com a Galeria de Catarina de Médici convertida numa enfermaria com 120 camas e um centro cirúrgico.

Simone Menier, a mulher de George, que era enfermeira, dirigia o hospital de campanha com o seu marido, enquanto a Menier Chocolate Company suportava todas as despesas.

Mais de 2.000 soldados foram aqui tratados, e há ainda hoje uma placa na Galeria que faz referência ao Hospital Militar de Chenonceau, numa homenagem aos soldados que por ali passaram e às enfermeiras que lá trabalharam.
Na Segunda Guerra Mundial, Chenonceau estava novamente no meio da confusão. O rio Cher formava a linha divisória entre a França controlada pelos nazis e a França livre, em que os alemães controlavam a margem a Norte da ponte, enquanto que a margem do lado do palácio era dominada pelos franceses.

Os nazis estavam constantemente a patrulhar o rio para impedir que as pessoas o cruzassem, no entanto, Simone Menier conseguiu ajudar vários judeus e moradores franceses a escapar, destrancando as portas da Galeria sempre que as patrulhas estavam fora do alcance da vista. Assim, estes fugitivos atravessavam o rio pela galeria do castelo e não eram apanhados pelos nazis, que estavam focados nas águas do rio.

No final de tantos séculos de uma história riquíssima, nada melhor do que associar este castelo a atos de bravura e solidariedade, como estes. Simone Menier arriscou a sua própria vida, mas conseguiu salvar várias vidas, permitindo a fuga de uma captura fatal pelas tropas alemãs.

Já depois do fim da guerra, em 1951, a família Menier restaurou o castelo e os seus jardins, devastados por umas cheias que ocorreram em 1940, e também pelos efeitos da Segunda Guerra… trazendo este castelo de volta à sua antiga glória.


À saída passámos ainda pelos jardins, para observarmos mais de perto a riqueza da decoração de cada um deles, e para explorar um outro jardim, o chamada labirinto, onde nos podemos divertir um pouco a tentar encontrar o caminho de saída.

Ainda nessa zona dos extensos jardins vamos poder contemplar uma última vez a magnífica silhueta do belíssimo Château de Chenonceau.


O Château de Chenonceau será certamente um dos mais bonitos de todos os castelos do Vale do Loire, mas aquilo que mais o diferencia, não é apenas a beleza das suas fachadas, mas, sobretudo, a riqueza da sua história, que aqui tentei contar resumidamente, e que está ligada de forma decisiva ao papel desempenhado por sete das suas ilustres proprietárias que construíram, ampliaram, embelezaram, restauraram e até salvaram este castelo, o que esteve na origem do nome atribuído de Château das Damas, ou Château das Sete Damas.


Carlos Prestes