sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Cagliari


A cidade de Cagliari, tal como a própria ilha da Sardenha, foi fundada pelos fenícios, ocupada pelos cartagineses e romanos e, mais tarde, foi ainda disputada e governada por espanhóis, pisanos e piemonteses, até de se tornar italiana, depois da unificação de Itália como país.

Uma das presenças marcantes nesta ilha foi a da coroa espanhola, a partir do século XIV, quando o Reino de Aragão conquistou Cagliari numa batalha contra os pisanos, oriundos de Pisa, que dominavam o território. Depois de ter sido conquistada pelo exército catalão-aragonês, Cagliari foi repovoada por catalães, valencianos e aragoneses, e tornou-se a capital administrativa do recém-nascido Reino da Sardenha, um dos muitos reinos que formavam a Coroa de Aragão, que, mais tarde, com o casamento de Fernando de Aragão com Isabel de Castela, passou a estar sob o domínio espanhol.

No século XVIII, a dinastia de Saboia cruzada com os Habsburgos austríacos, que dominava a coroa espanhola, veio também a governar o Reino da Sardenha. Mas isso aconteceu apenas durante um período muito breve, pois a coisa não correu bem e os espanhóis foram destronados.

Nessa altura, foi instaurada uma mudança profunda, com o início de uma época de domínio de uma das regiões da futura Itália, o Piemonte, que vieram a dominar esta ilha durante vários anos.

Houve ainda uma nova tentativa de conquista da ilha, desta vez durante as invasões napoleónicas, quando a França tentou conquistar Cagliari devido ao seu papel estratégico no Mar Mediterrâneo. Um exército francês desembarcou na Praia de Poetto e avançou em direção a Cagliari, mas foi derrotado pelos sardos que se defenderam heroicamente.

A partir da década de 1870, com a unificação de Itália, a ilha foi integrada neste novo país, uma dependência que se mantém até aos dias de hoje. A meio do século XX, a cidade foi bombardeada pelas tropas aliadas, mas os edifícios destruídos foram depois prontamente recuperados.

Mas apenas um pouco desta longa história se torna percetível quando visitamos esta pequena cidade com as suas casas pitorescas encavalitadas sobre uma colina que nasce junto ao mar, e que refletem, sobretudo, a sua origem italiana mais recente.
Na nossa viagem fomos visitando a capital da Sardenha nos três dias em que lá dormimos, sempre ao fim da tarde e durante a noite. Mas usámos ainda a manhã do quarto dia, antes de partirmos para o Norte, para umas últimas visitas.

Como o nosso alojamento ficava a 800 m do centro histórico, fizemos os percursos de acesso à cidade sempre a pé, deixando o carro no estacionamento, o que simplificou bastante, bem mais fácil do que tentar estacionar perto do centro.

E foi assim, sempre andando a pé, que percorremos as ruas e praças do centro histórico, explorando os principais bairros da cidade, o bairro da Marina, o bairro do Castello e o bairro Stampace, tendo seguido mais ou menos os trilhos assinalados neste mapa:
 

Via Roma

Começámos pela Via Roma, uma alameda ampla com uma linha de edifícios monumentais bastante interessantes, que fica junto à marina da cidade. Trata-se de uma avenida charmosa, mas, infelizmente, estava ocupada parcialmente pelo estaleiro das obras de construção de uma nova linha de metro de superfície… isto é quase uma sina, com as obras a acompanharem-nos sempre.

O piso inferior de toda esta linha de edifícios clássicos, é formado por uma galeria bastante movimentada, onde se encontram várias lojas, cafés e restaurantes, e que é uma das referências desta avenida marginal.


No final desta avenida encontramos o Palazzo Civico di Cagliari, um prédio monumental que é a sede da câmara municipal da capital da Sardenha, e que se destaca pela envergadura do edifício e pelas suas fachadas revestidas em pedra branca.

Trata-se de um palácio bastante bonito e é uma das imagens mais marcantes desta cidade.

A vista do lado do mar

Se nos conseguirmos afastar um pouco para o lado do mar na zona da marina, vamos poder observar a silhueta da cidade, com os belos edifícios da Via Roma, cá em baixo, e com o casario pela encosta acima, onde pontificam alguns dos principais monumentos da cidade, como a Catedral ou a Torre do Elefante.

De qualquer forma, será difícil atingirmos um ângulo que nos permita ver toda a encosta onde se ergue a cidade, pois, para isso, teríamos de entrar na zona do porto de cruzeiros, e essa zona está vedada a passageiros e trabalhadores.

Por isso só conseguimos apreciar a envolvente da marina de recreio, com os seus veleiros na proximidade da cidade e, no ponto mais distante a que conseguimos chegar, só era possível ver por detrás dos prédios da Via Roma, uma parte da cidade velha que se encavalita sobre a colina que ali se forma... mas, ainda assim, vale a pena chegar a este ponto e contemplar a cidade sobre a montanha.


Bairro da Marina

Ao entrarmos de novo na cidade vamos subindo pelas ruas inclinadas do bairro da Marina, localizado entre o porto e a parte mais alta do centro histórico, e que era conhecido por ser ocupado principalmente por pescadores e todos aqueles que trabalhavam no porto. A partir do século XIV o bairro da Marina foi também povoada por comerciantes e outras pessoas vindas de fora, sobretudo das regiões da Ligúria ou da Sicília, e foi sob a influência dessa população que a cidade se foi formando.

E hoje em dia este bairro é um resultado de tudo isso, no aspeto das suas casas e ruas e nos hábitos adquiridos por uma população forasteira, que foram deixando as suas influências.

Ao entrarmos no bairro fomos passando por alguns dos locais mais notáveis desta zona, como a Piazza Santo Sepolcro, já nas ruas mais estreitas da cidade velha. É nesta praça que se encontram duas das igrejas da cidade, a igreja de Santo António Abade e a igreja do Santo Sepulcro.

A Chiesa di Sant'Antonio Abate fica um pouco mais elevada, e obriga a subir uma escadaria até à porta de entrada, que fica já na Via Giuseppe Manno. Apesar de passarmos por ali sempre ao final da tarde, as igrejas de Cagliari têm as portas abertas até tarde, e pudemos visitá-la, a esta e a todas as outras.

O seu interior é bastante sóbrio, com uma nave circular sobre a qual se eleva uma grande cúpula, que é a sua principal referência, tanto no interior como na sua silhueta exterior.

A Chiesa di Santo Sepolcro, que fica na praça com o mesmo nome e é conhecida sobretudo pela sua cripta, que é considerada pelos arqueólogos como o exemplo mais relevante da arquitetura funerária barroca de toda a ilha.

No conjunto desta igreja encontramos as salas abobadadas, com um sepulcro de alvenaria e alguns afrescos nas paredes de pedra.

Nas caves encontramos a cripta que ocupa duas salas distintas, ambas bafientas e até um pouco assustadoras.


Continuando pelo emaranhado de ruelas típicas no Bairro da Marina, que percorremos sem destino, apenas seguindo a torrente, vamos passando por alguns locais com edifícios mais típicos, que recriam um bairro italiano rústico, com algumas semelhanças com os bairros genoveses ou napolitanos.

    

Saímos do bairro da Marina subindo a sua rua principal, a Via Giuseppe Manno, uma rua íngreme que liga a Piazza Yenne à Piazza Costituzione, e onde se encontram as lojas mais importantes de Cagliari. É claramente o centro de comércio desta cidade e tem um ótimo ambiente envolvente, embora não seja aquele tipo de rua onde se costuma andar para trás e para a frente, pois é muito inclinada e parece que estamos a subir uma ladeira, o que se torna difícil, sobretudo com o calor húmido que se faz sentir na ilha.
Chegados à Piazza Costituzione, que é apenas uma rotunda onde termina a Via Giuseppe Manno, estamos perante um dos principais conjuntos monumentais da cidade, o Bastião de Saint Remy, a Terrazza Umberto I e a Galleria Dello Sperone.

O Bastião de Saint Remy é um edifício de estilo clássico, construído nos finais do século XIX, com duas grandes escadarias de pedra e um arco triunfal no topo.

A Galleria Dello Sperone é um site arqueológico que faz parte deste edifício, e representa uma antiga infraestrutura de defesa militar, usada para proteção de Cagliari das incursões muçulmanas do século XVI. Esta galeria tem acesso pago e nem estava aberta quando visitámos este monumento.
Quando se atinge o topo da imensa escadaria chegamos a um patamar superior e entramos num pátio enorme, revestido por mosaicos e adornado pelos seus típicos candeeiros, que é chamado de Terrazza Umberto I.
Este pátio está rodeado por uns edifícios bastante bonitos e permite desfrutar de umas belas vistas sobre a cidade, marcadas pela presença do mar ao fundo.


Bairro do Castello

Ao continuarmos a subir por detrás deste terraço, vamos entrar na parte mais antiga da cidade velha, o bairro do Castello, que está confinado ao interior do contorno das muralhas da cidade.

Este bairro é dominado pelo aspeto dos seus edifícios rústicos e tipicamente italianos, com fachadas em cores de terracota, e pela existência da catedral da cidade, cuja cúpula constitui uma marca da silhueta do bairro quando o observamos à distância.

Pouco depois de entrarmos no bairro chegamos à Piazza Palazzo, onde se encontra uma das principais igrejas católicas da cidade, a Catedral de Cagliari.

A Catedral de Santa Maria de Cagliari é dedicada à Assunção da Virgem e a Santa Cecília, e a sua origem remonta ao século XIII, tendo sido depois reconstruída várias vezes ao longo dos tempos. O acesso ao interior mantém-se aberto até ao final da tarde, o que permitiu que conseguíssemos visitá-lo.

Trata-se de um espaço bastante interessante, sobretudo pela riqueza decorativa da nave principal, mas penso que também seria interessante visitarmos a sua cripta… mas essa já não estava acessível e não a pudemos ver.
O atual edifício da igreja resulta de várias sobreposições barrocas dos séculos XVII e XVIII, mas a sua fachada, bem mais recente e bastante bonita, e que se encontra em ótimo estado de conservação, só foi construída no início do século XX num estilo românico-pisano.

A imagem de marca desta catedral é a que enquadra a sua fachada principal e o edifício vizinho do Antico Palazzo di Città, que funciona atualmente com espaço de exposições temporárias.
À saída da catedral seguimos pela mesma praça, ao longo do imenso edifício do Palazzo Regio, e continuamos até à Torre di San Pancrazio. Trata-se de uma torre do século XIV que pertencia ao sistema de fortificação militar da cidade. Foi construída utilizando blocos de calcário e é formada por três fachadas maciças e uma outra completamente aberta, revelando os quatro pisos em mezaninos de madeira que ocupam o interior da torre e que serviam para acesso dos soldados durante as batalhas.

No próximo trajeto atravessámos as ruas mais apertadas e sinuosas do bairro do Castello, sempre com o mesmo tipo de traça medieval e com as cores de terracota como fundo, até atingirmos o lado oposto das muralhas.
    
Deste lado do bairro chegamos a um pequeno terraço que é chamado de Bastião de Santa Croce, de onde passamos a ter uma outra paisagem sobre a cidade, desta vez mostrando-nos o mar, que fica a Sul, e o bairro Stampace, do lado poente, sobre o qual iríamos assistir a um bonito pôr-do-sol.

Esta zona junto ao Bastião de Santa Croce fazia parte da antiga Giudaria, ou bairro judeu, que se desenvolveu dentro das muralhas a partir do século XIII, mas foi no século XV, sob o domínio espanhol (ou aragonês), que atingiu sua expansão máxima.

Porém, em 1492, os soberanos católicos de Castela e Aragão, os reis Fernando de Aragão e Isabel de Castela, ordenaram a expulsão de todo o reino dos judeus que recusassem converter-se ao cristianismo, o que aconteceu por toda a Espanha, incluindo todos os territórios dominados pelos Espanhóis, como era o caso da Sardenha.

Como resultado dessa lei, a sinagoga da Giudicaria de Cagliari foi transformada numa igreja católica, que foi dedicada a Santa Cruz, dando origem à atual Basílica Magistral Mauriciana da Santa Cruz, que fica ali bem perto.
Voltando ao terraço do Bastião de Santa Croce, que encontrámos cheio de plantas e flores a envolverem as esplanadas dos restaurantes que ali existem, e apreciámos, desta vez, a vista ampla sobre a cidade e também sobre a Torre dell'Elefante.
A Torre dell'Elefante, tal como a Torre de San Pancrazio, onde tínhamos estado há pouco tempo, tem três fachadas em blocos maciços de calcário, obtidos no monte Bonaria, e um quarto lado completamente aberto, mostrando os quatro andares construídos em mezaninos de madeira.

Estas duas torres, ambas de origem pisana, foram construídas no início do século XIV, e o Sacro Imperador Romano Carlos V, considerou-as como uma das melhores obras militares já construídas na Europa.

A Torre dell'Elefante tem este nome devido a uma pequena estátua de um elefante, na fachada Sul, que encontramos depois de passarmos sob o arco que se encontra no piso térreo da torre, e que é atravessado por uma rua.

Bairro Stampace

Este bairro, que podemos observar do Bastião de Santa Croce e da Torre do Elefante, é identificado pelas suas ruas típicas, com muitos restaurantes de rua, e pela presença de duas importantes igrejas, a igreja Colegiada de Santa Ana e a igreja de Sant'Efisio.

Uma das mais bonitas igrejas de toda a cidade, é a Igreja Barroca Colegiada de Santa Ana, que se ergue no meio do bairro onde, originalmente, se localizava um pequeno templo do período pisano, que foi demolido para dar lugar à construção desta nova estrutura.

A igreja que nasce no topo de uma imensa escadaria e é formada por uma bonita fachada com duas altas torres sineiras, em estilo barroco piemontês, atrás da qual se erguem três cúpulas de diferentes tamanhos.

Nas traseiras desta igreja encontra-se uma outra, bem mais pequenina, mas não menos importante, a Igreja de Sant'Efisio.

Este é o local das principais comemorações da cidade, que duram uma parte do mês de maio, e atraem à cidade um grande número de visitantes. O Santo Efisio que, apesar de não ser o padroeiro de Cagliari (esse é o San Saturnino) é muito venerado na capital e em toda a ilha, pois, segundo a lenda, terá salvado a cidade da peste. Nestas comemorações as ossadas do Santo saem da cidade puxadas por bois e vão até à cidade Nora, que foi onde o santo morreu como mártir.
   
Mas além dos monumentos e locais históricos que ficam no Stampace, vale também a pena vaguear sem rumo pelas suas ruelas. O Bairro começa na Piazza Yenne, que fica na base das muralhas e mesmo abaixo da Torre do Elefante, e depois desenvolve-se por um emaranhado de ruas onde voltamos a encontrar alguns edifícios de origem medieval, com fachadas típicas, algumas delas com as cores alaranjadas, típicas das cidades italianas.

Uma outra forma de conhecer este bairro será durante o serão, pois é um dos melhores locais da cidade para ir jantar, sobretudo na Piazza Yenne e no Corso Vittorio Emanuele II, com uma quantidade imensa de restaurantes, cujas esplanadas ocupam grande parte da via pública.



Santuário e Basílica de Nossa Senhora de Bonaria

Um pouco desviado do centro histórico, a cerca de 1 km, mas coincidentemente nas proximidades do nosso alojamento, encontra-se um importante conjunto religioso desta cidade. Trata-se do Santuário de Nossa Senhora de Bonaria, que é um título mariano associado à Virgem Maria como Estrela do Mar e padroeira dos veleiros.

É um dos complexos católicos mais importantes da Sardenha, formado por um mosteiro, um museu, uma igreja e uma basílica, localizados no alto de uma colina que podemos subir através de uma imensa escadaria, que constitui a imagem de referência deste santuário.
No topo da escadaria chegamos ao edifício da basílica, com uma pequena igreja ao seu lado, que era a única que estava aberta, pois os grandes portões de acesso à basílica encontravam-se fechados.
Assim, foi por esta pequena igreja que entrámos, mas que pareceu ser a igreja original, pois foi ali, no seu altar, que encontrámos a principal referência histórica deste santuário, uma estátua da Nossa Senhora segurando o Menino Jesus num braço e uma vela na outra mão.
Segundo a lenda, no dia 25 de março de 1370, esta estátua da Virgem Maria com o menino ao colo estava a ser transportada num navio, dentro de uma caixa, quando sofreu uma violenta tempestade, que fez com que a caixa tivesse caído ao mar. Mas, no preciso momento em que a caixa caiu, a tempestade parou, e a estátua foi recuperada e levada para o porto de Cagliari. Quando abriram a caixa, já em terra, e verificaram a existência da estátua, resolveram levá-la para esta igreja e colocá-la no altar, onde se encontra ainda hoje… e queremos acreditar que a história é mesmo verdadeira, mas pode ser apenas uma lenda.
Voltando à lenda, depois da estátua ter sido ali instalada, a igreja passou a ser um santuário de referência para muitos peregrinos. Com o passar dos tempos esta igreja tornou-se pequena para acolher todos os peregrinos que a visitavam, pelo que, já em pleno século XX, foi decidido construir uma nova igreja, a atual basílica, que veio a ser consagrada no dia 22 de abril de 1926… que está mesmo ali ao lado, mas que não tínhamos conseguido visitar.

Enquanto saíamos, com uma certa frustração por não conseguirmos visitar a basílica, estava a chegar uma excursão acompanhada por uma guia e, imediatamente, voltámos a entrar e começámos a rondar o grupo de turistas, não só para ouvir as descrições que a guia ia fazendo, mas na esperança de que ela conduzisse o grupo para o interior da basílica. E assim aconteceu (mérito da Ana, que teve a ideia), começaram todos a entrar por uma porta e nós fomos seguindo atrás, e em menos de nada estávamos a atravessar o altar mesmo encostados à estátua (e foi assim que tirei a fotografia tão próxima) e depois descemos do altar e entrámos na imensa nave da basílica.
Não sei se aquilo que fizemos foi “golpe” ou se qualquer pessoa o pode fazer, mas fica a dica.

O interior da basílica é imponente e bastante bonito, sobretudo o altar, com um afresco que reproduz o episódio da lenda, representando a chegada ao porto de Cagliari da caixa que guardava a estátua da Nossa Senhora… e, para nossa surpresa, existia ali uma outra estátua, também ela com a Nossa Senhora com o Menino Jesus num dos braços e uma vela na outra mão. E agora, qual delas é que será a estátua original?… provavelmente nenhuma das duas.
     

Spiaggia di Poetto

Longe de ser uma das melhores praias da Sardenha, a praia do Poetto é a praia urbana da cidade de Cagliari, bastante frequentada, tanto por turistas como pelos próprios habitantes da cidade. Fica a cerca de 6 km de quem vem do centro e estende-se por um areal imenso, com quase 8 km de comprimento, que é sempre acompanhado por uma estrada marginal.

Não deixa de ter a mesma areia branca e as águas azuis-turquesa, como todas as praias da ilha, mas deve ser mais poluída e é claramente menos interessante do que a maioria das outras praias que vamos encontrar ao longo da nossa viagem.

Assim, fizemos apenas uma breve paragem, já ao final da tarde, e estava um bocado de vento, que é mais comum numa baía tão extensa e totalmente exposta como esta. E só o vento é que impedia que os tons de azul-turquesa se mostrassem, mas quem não puder alugar um carro para ir até às melhores praias do Sul da ilha, que ficam a cerca de uma hora, pode muito bem tentar aproveitar esta praia do Poetto, que pelo menos irá deliciar-se com a temperatura da água.


Castelo de San Michele

À saída de Cagliari para Norte passámos ainda pela colina de San Michele, onde se ergue o castelo da cidade, o chamado Castelo de San Michele. Algumas escavações recentes encontraram ali vestígios de uma igreja do início da Idade Média, sobre a qual foi construído o castelo. Após a conquista aragonesa, a partir do início do século XIV, o complexo fortificado sofreu alterações significativas, para fins defensivos e para adaptar as suas muralhas às necessidades ao longo das guerras que tiveram lugar em Cagliari.

O Castelo de San Michele está agora transformado num “centro de arte multifuncional”, facto que poderia ser algo positivo, se tivesse algumas exposições de arte contemporânea no ambiente de um castelo, mas, segundo o que li, o interior do castelo estará muito longe de corresponder ao que se imagina.

Assim, achei que não valeria a pena visitar o seu interior, ficando-nos apenas por uma breve paragem no local para apreciar a imagem das fachadas do castelo no alto da colina.

Existem ainda mais alguns polos de interesse na envolvente da cidade, mas que não visitámos por falta de tempo. Um deles é um mercado da cidade, o Mercado Cívico de San Benedetto, que fica numa zona mais confusa da cidade, que é pouco procurada por turistas. O mercado foi construído no final da década de 1950 e é muito popular entre os habitantes de Cagliari, não tendo sido transformado para se tornar um polo turístico, como acontece com outros mercados, noutras cidades, inclusive em Lisboa.

Uma outra atração da cidade é o imenso complexo de sepulturas neolíticas, chamado de Tuvixeddu Necropolis, mas que precisaria de algumas horas para ser visitado convenientemente e conseguirmos fazer um tour completo.


Este é o resumo daquilo que podemos encontrar na cidade de Cagliari, que embora seja a capital da Sardenha, é muitas vezes ignorada por quem visita a ilha apenas à procura das praias do Norte, sobretudo da Costa Esmeralda. Mas é um erro imenso, pois nesta zona Sul as praias não são nada inferiores às do Norte e temos ainda o bónus de podermos visitar Cagliari, talvez a cidade mais italiana da ilha... e de que muito gostámos. 


Agosto de 2024

Sardenha

 
Quem pensar que vai à Sardenha para encontrar as praias paradisíacas e desertas que nos aparecem no Instagram, está muito enganado.

Porém, a Sardenha não deixa de ser esse mesmo lugar encantador, com os mesmos areais de cor branca e as mesmas águas maravilhosas, quase mornas e com tons azul-turquesa, que nos aparecem nas publicações… mas com um tremendo fator de perturbação, que são os milhões de turistas que enchem as praias durante todo o Verão.

Mas nós não fomos ao engano, sabíamos bem que as imagens publicadas tinham sido tiradas no Inverno, em dias de sol e sem vento, quando as praias estavam completamente desertas, no enquadramento ideal para vídeos e fotografias, mas isso, na vida real de quem vai aproveitar o calor do Verão, não existe de todo.

Mas, ainda assim, e mesmo na vida real e com o areal cheio de chapéus de sol, para quem gosta de boas praias e de água quentinha, como nós gostamos, esta ilha italiana será talvez um dos melhores destinos que podem ser encontrados em toda Europa… e não apenas pelas suas praias, pois a ilha tem uma história e uma autonomia regional, de que muito se orgulham os sardos, os habitantes locais, o que se reflete na própria bandeira da região, com o símbolo separatista, com uma cruz de São Jorge e uma cabeça de mouro em cada quadrante, representando a vitória do seu povo nas tentativas de invasão que a ilha foi sofrendo.


Para conhecermos a ilha partimos para Cagliari, a sua capital, no final do mês de agosto de 2024, num voo com uma escala, pois não existiam voos diretos a partir de Lisboa.

O programa desta viagem incluiu um período para visitar as praias do Sul, em que ficámos alojados em Cagliari, subindo depois para Noroeste e, mais tarde, para Nordeste, onde fica a zona mais famosa da ilha, a chamada Costa Esmeralda.

Fomos assim percorrendo toda a ilha de carro, que alugámos logo no aeroporto de Cagliari, e que iríamos devolver 10 dias depois no aeroporto de Olbia, de onde partimos no voo de regresso. Como se sabe, sempre que se faz a entrega do carro noutra cidade, há que pagar uma taxa adicional, e que aqui não chegou a 100€, mas que é mais vantajoso do que termos de voltar a Cagliari, que fica a 300 km de Olbia.

Neste mapa, representam-se os lugares visitados, diferenciando por cores cada um dos dias desta viagem:    

Nas crónicas seguintes vou descrever cada um dos locais que percorremos nesta viagem, agrupados por cada região visitada:








Ao fim de 10 dias de viagem em que pudemos usufruir de grande parte do que esta ilha tem para oferecer, ficámos completamente rendidos. A Sardenha foi uma belíssima surpresa e saímos com a sensação de termos estado num dos melhores locais em toda a Europa para se fazer férias de Verão, sobretudo para quem gosta de boas praias... e nós gostamos muito.


Carlos Prestes
Setembro de 2024




terça-feira, 11 de junho de 2024

Visitar o Holocausto*

*Origem etimológica: latim holocaustum, -i, do grego holókautos, -on, sacrifício em que se queima a vítima inteira


A decisão de visitar os campos de concentração de Auschwitz e Birkenau era antiga. Sentia que devia essa visita a todos os que por lá passaram, morreram e sobreviveram. A única forma de manter derrotada a filosofia dos alemães nazis é a lembrança, é a permanência da memória. As viagens, os lugares que se visitam, deixam um sulco traçado na memória, um lastro contra a esquecimento, pelo que fazer esta visita transforma a “percepção” do sofrimento e horror em realidade.


11 de junho de 2024

Auschwitz fica a cerca de 70 km de Cracóvia, distância que se percorre em pouco mais de uma hora de autocarro. Marquei a visita guiada através do get your guide para as 8h, o que implicou apanhar um autocarro no centro de Cracóvia, por volta das 6 da manhã.

Os memoriais são quase sempre lugares de romarias turísticas que podem retirar verdade e densidade a esses locais, por isso escolhi visitar este “lugar de memória e museu” num dia de semana, quinta-feira, 11 de junho, evitando as multidões de fim-de-semana.

Os polacos cuidam bem da preservação desta memória, os principais grupos de visitantes nesse dia, eram grupos de crianças em idade escolar. Reconhecer a tentativa de extermínio daquele povo é uma forma de ensinar sobre que europeus somos hoje.

Este campo foi sendo sistematicamente aumentado tendo se tornado no maior campo de concentração da Alemanha nazi e, a partir de 1942, tornou-se o maior centro de extermínio em massa.

Em 1941, para levar a bom termo a “solução final da questão judaica” o Terceiro Reich deu início à construção de Auschwitz II - Birkenau, um campo de extermínio, localizado a cerca de 3,5 km de Auschwitz.


Auschwitz

A entrada para o campo de concentração de Auschwitz faz-se através de uma construção recente, uma espécie de corredor em betão, às vezes fechado, outras vezes a céu aberto, que se percorre em silêncio.

O silêncio acompanha cada passo, cada pensamento, cada pergunta sem resposta e adensa-se através da voz off que em ecoa, soltando palavras inicialmente sem sentido, mas que, rapidamente, ganham a forma dos nomes das pessoas que caminharam para aquele lugar de extermínio.

Durante toda a visita será o silêncio, o companheiro do lado de cada visitante.

O campo de concentração de Auschwitz foi fundado em 1940, na Polónia invadida pelo exército nazi, no centro da Europa ocupada. As suas instalações pertenciam, antes da guerra, ao exército polaco e encontravam-se desertas, pelo que estavam prontas para receber o crescente número de prisioneiros polacos, que as prisões existentes já não suportavam por estarem sobrelotadas.

Apesar do museu poder ser visitado por conta própria, pareceu-me importante fazer esta visita com um guia. Um guia não apenas fornece contexto histórico, mas também ajuda a interpretar os inúmeros artefactos e locais significativos dentro do campo, permitindo uma compreensão mais profunda da magnitude dos acontecimentos que ali ocorreram... e chegamos assim ao início desta experiência arrebatadora, ao nos depararmos com a imagem tantas vezes ficcionada do portão de entrada, que quase nos parece familiar.

Ao atravessar a porta de Auschwitz começa a visita guiada, sob o poder da inscrição “Arbeit macht frei“ que significa “o trabalho liberta”.  E a ironia da frase atinge uma crueldade inimaginável.

  
             „Arbeit macht frei“ significa “o trabalho liberta”                                                    Foto by: Oleg Ignatovich

Todas as manhãs, saíam por este portão milhares de prisioneiros para executar trabalhos forçados e pesados. No regresso, à noite, para além do cansaço carregavam os corpos dos que tinham sido assassinados.

A foto de Oleg Ignatovich foi tirada em 27 de janeiro de 1945 aquando da libertação do campo de concentração pelos soldados russos.

Restavam sete mil prisioneiros neste campo, entre eles Primo Levi, que no seu livro “Se isto é um Homem”, faz um relato tão cru e despido de emoções que revela alguém que já não conhece dor, alegria, medo, nada. “Se isto é um homem” é a expressão da morte da humanidade.

Ao caminhar pelas ruas tranquilas ladeadas por passeios onde crescem árvores plantadas com intervalos regulares e edifícios construídos em tijolo, bem conservados, é difícil imaginar as atrocidades ali cometidas.
     

Os edifícios de Auschwitz estão numerados. Essa numeração tinha uma função prática e organizacional, permitindo que prisioneiros, guardas e administradores, localizassem rapidamente cada edifício, como alojamentos, áreas administrativas, armazéns, ou locais de tortura. A organização do mal. A racionalidade do mal. Nem todos estes edifícios são visitáveis.

A marcha do grupo de visitantes faz-se de aparente e serena tranquilidade. Em mim, essa respeitosa tranquilidade transforma-se em dor quase física ao entrar em alguns dos edifícios.

O museu está instalado em vários blocos. O Bloco 5 é talvez o mais difícil da visita, é o Bloco com as provas do crime, ainda que, com o aproximar do fim da guerra, os nazis tivessem tentado apagar todos os vestígios das suas actividades e destruir os objectos roubados aos judeus.
        

        
Estes objectos estão ali. Existem. Existem fora dos filmes e dos documentários que todos já vimos. Óculos, sapatos, malas de viagem e cestos de comida, acumulavam-se nos armazéns. Pertences de judeus que, por serem considerados inaptos para mão de obra escrava, eram de imediato assassinados nas câmaras de gás.

Os cabelos. São toneladas de cabelos de mulheres expostos numa enorme vitrina. Os cabelos eram utilizados para colchões e travesseiros.
        
Todos estes pertences fizeram parte da vida destas pessoas cujos rostos estão estampados na galeria de fotografias do museu. São rostos de desesperança que, no início, eram associados a um nome, mas depois, já eram apenas um número. Todos as pessoas destas fotografias foram assassinadas em Auschwitz.
        

A visita continua no exterior do memorial e museu de Auschwitz I. Havemos de passar pela parede da morte, entre os blocos 10 e 11, onde eram executados por fuzilamento em massa os condenados à morte.
Parede da Morte

No Bloco 10 esteve instalada a estação experimental de esterilização, onde centenas de judias morreram durante as experiências ou foram assassinadas para a realização de autópsias. Este Bloco não está aberto ao público, mas passar por ele provoca uma terrível sensação de impotência e medo.

O Bloco com o número 20 era uma enfermaria para prisioneiros com doenças infecciosas. O termo "enfermaria" é também ele cruel no contexto de Auschwitz. Os prisioneiros doentes eram abandonados nestes blocos sem cuidados médicos e acabavam por morrer das doenças, de fome ou eram seleccionados para execução.
                
Bloco com o nº10                                                                 Bloco com o nº20

O caminho, há direita do crematório, dá acesso ao portão da casa de Rudolf Höss, comandante de Auschwitz, cuja vida foi retratada no filme de 2023, “Zona de interesse”. De facto, a banalidade do mal tão cruelmente entendido por Hannah Arendt é aqui bem documentado.
Casa de família de Rudolf Höss

As cinzas e o odor a carne queimada envolviam seguramente a casa desta família. Os crematórios são paredes-meias com os jardins da casa. Apesar disso, viviam aquilo que parecia ser, de uma forma completamente aberrante, a vida de uma família feliz.

Antes da ocupação nazi, este edifício semi-enterrado era um armazém de munições do exército polaco. Tudo foi criteriosamente pensado neste campo de extermínio.

A sala maior foi inicialmente utilizada como depósito dos corpos dos prisioneiros assassinados. Mais tarde seria uma camara de gás. A inexorável crueldade é tão desmesuradamente grande que é até cruel a banalidade dos fornos, quase caseiros…
         


Foi um alívio sair dali. A incompreensão adensou-se dentro de mim, mas sou hoje testemunho de parte da nossa história.


Birkenau – Auschwitz II

A distância, curta, entre Auschwitz I e II faz-se de autocarro, em breves minutos... e somos recebidos por um edifício com uma fachada já conhecíamos de tantos filmes e tantos documentários, mas cuja proximidade se tornava agora arrepiante. 

Para este campo de extermínio foram transportados, a partir de Março de 1942, mais de um milhão de judeus.

Além de ser um campo de concentração, Birkenau tornou-se no principal local do holocausto, onde foi levado a cabo o maior assassinato em massa de que há memória.

No início, os comboios paravam em frente ao edifício de vigia principal, cuja porta é conhecida como “Porta da morte”, e entravam os deportados. A partir de 1944, assim que os comboios entravam, os deportados eram logo, separados em duas filas: uma para mulheres e crianças e outra para homens. De cada uma das filas, eram seleccionados os que eram aptos para trabalhar, e os restantes, velhos, doentes, grávidas e crianças eram de imediato conduzidos às câmaras de gás.

Com a iminência do fim da guerra os alemães nazis destruíram quase todo o campo, restando apenas as ruínas das camaras de gás e alguns edifícios da secção das mulheres que se situava do lado esquerdo do edifício de vigia.
   
Nestes túneis entravam pessoas cujo destino desconheciam

Os barracões das mulheres, consideradas aptas e que, por isso, não eram encaminhadas directamete para as câmaras de gás, estão ainda preservados, quer os próprios edifícios quer também o seu interior, onde se encontram vestígios das muitas mulheres que por ali passaram.
Barracões dos dormitórios das mulheres

  
Interior dos dormitórios das mulheres

No primeiro ano de utilização, nenhum destes edifícios tinha qualquer casa de banho. A primeira foi construída um ano depois. Cada barracão recebia centenas de mulheres e, em cada compartimento, dormiam pelo menos cinco... como se dormir ali fosse algo possível.

Por ser um campo aberto numa área de 140 hectares, e talvez pelo seu grau de destruição, a visita a Birkenau não me transmitiu o mesmo sentido dramático de Auschwitz.

No entanto, um soldado da SS que fotografou as actividades do campo, em 1944, conseguiu repor em mim, a consciencialização profunda do que ali aconteceu.

Este soldado organizou um album com a sua reportagem fotográfica. Por ironia do destino, quero acreditar, esse album foi encontrado por uma sobrevivente de Auschwitz, LiLi Jacob, judia eslovaca, que se reconheceu numa das fotografias do album.

Na loja do Museu estatal Auschwitz-Birkenau, comprei um livro que mostra algumas das cerca de 200 fotografias feitas por este soldado das SS. O livro foi concebido por Piotr M. A. Cywiński e as fotos dos mesmos atuais dos mesmos locais, são de Pawel Sawichi.

"As fotografias de arquivo do chamado álbum de Lili Jacob, de 1944, feitas pelas SS durante a recepção de transportes de judeus húngaros em Birkenau, foram comparadas com as fotografias contemporâneas feitas exatamente nos mesmos lugares. Do álbum de Lili Jacob, que contém aproximadamente 200 fotografias, foram selecionadas 31. Representam as diferentes etapas de receção do transporte judeu em Birkenau, desde a chegada à rampa, seleção, divisão entre aptos e não aptos para trabalhar, até às fotos de pessoas levadas ao Holocausto e enviadas para o campo."

 
Fotografias retirados do livro de Piotr M. A. Cywiński e Pawel Sawichi

”Na coluna da direita, a quarta pessoa da esquerda para a direita, na primeira fila, é Lili Jacob”


Quando nos lugares vazios, ainda que preservados para memória futura, se colocam os fantasmas das pessoas que os percorreram, para além da memória fica também tatuada a dor da sua existência... e é essa dor impressionante que nos aperta o coração ao percorrermos as imagens deste documento.


Junho de 2024
Dulce Cascalheira