domingo, 14 de junho de 2009

New York - Percurso 6 - Upper Manhattan



Neste percurso de um dia inteiro incluímos uma longa caminhada pelo grande jardim da cidade, o Central Park, com alguns desvios para visitarmos três dos principais museus de Manhattan, todos localizados junto ao parque.
Começámos a caminhada pela praça Columbus Circle, uma zona de entrada do parque, do lado West, o da 7th Avenue, que está totalmente rodeada por arranha-céus, como acontece na entrada do lado oposto, o lado East, junto à 5th Avenue. Mas, enquanto os arranha-céus desse lado são edifícios clássicos, cheios de história e glamour, do lado da Columbus Circle os arranha-céus são moderníssimos, como é o caso do complexo designado por Time Warner Center, um conjunto de edificações com a altura máxima de 229 m, e é também o caso de uma das Trump Tower’s, onde funciona um dos hotéis de luxo da cidade.
Seguindo pela avenida Central Park West, uma caminhada de cerca de 1,5 km, entre os arranha-céus e o parque, chegamos a um dos museus mais importantes da cidade, o Museu Americano de História Natural.
American Museum of Natural History foi fundado em 1869 e é o maior museu de história natural do mundo. É especialmente reconhecido pela sua vasta coleção de fósseis, incluindo de várias espécies de dinossauros. Uma das grandes atrações do museu é uma coleção de ossos de dinossauro, com fósseis e artefactos, espalhados por várias salas de exibição. 

Logo à entrada somos recebidos pela réplica de um enorme esqueleto de um T-Rex, com cerca de 15m, que nos dá as boas-vindas para o mundo de ciência e fantasia que nos espera.
O museu tem uma secção dedicada à história da América, embora de forma bastante antiquada, uma espécie de montras com bonecos no seu interior de índios, cowboys e muitas espécies de animais. Em 2006, o museu serviu como cenário para o filme "Night at the Museum", onde alguns destes bonecos adquirem vida e tornam-se personagens do filme, como o antigo presidente americano Theodore Roosevelt, que está ligado à fundação do museu e é atualmente recordado através de um memorial com a sua estátua.

A forma como explorámos este museu foi totalmente desordenada, fomos seguindo pelos corredores sem um destino definido, fazendo paragens nas salas mais apelativas e voltando de novo ao circuito, quase labiríntico, até darmos a visita por terminada, não porque já tivéssemos visitado exaustivamente tudo o que o museu tem para ver mas, muito provavelmente, parámos porque já estávamos exaustos. 

Como recordação daquelas horas que passámos neste museu, mostro aqui duas réplicas enormes recriando a era dos dinossauros, e destaco também alguns artefactos, como duas esculturas icónicas de cabeças (são duas réplicas, claro), uma da civilização Maia da américa central e outra recriando uma das famosas estátuas Moai, da Ilha da Páscoa.


Junto ainda uma foto da réplica de um grande meteorito, que domina a ala do museu onde se podem também ver pedaços de meteoritos verdadeiros e até tocar numa pedra trazida da lua pelos astronautas das missões Apollo, dos anos 70.

À saída do museu entrámos diretamente no admirável mundo de Central Park. Para visitar o parque é importante que esteja um dia de sol, caso contrário os verdes não serão tão verdes, nem encontraremos assim tantos nova-iorquinos e turistas praticando todo tipo de atividades que o parque permite.

Mas o nosso dia era mesmo um desses dias com um sol brilhante e pudemos apreciar devidamente as imagens maravilhosas que o parque pode oferecer.
A forma certa de conhecer este jardim imenso será deixarmo-nos perder serpenteando ao longo de cada caminho, para acedermos a cada lago, cada ponte, cada relvado... sempre sem destino previamente definido. Porque o parque é sempre uma surpresa e temos que deixar que ele nos surpreenda. Por isso, apesar de termos um destino final, que seria atingir o limite do lado Este do parque, percorremos alguns quilómetros por pura diversão e sem qualquer orientação... e foi assim que fomos passando por alguns locais menos frequentados, mas sempre muitos bonitos.

Por ser um imenso bosque encaixado no coração de uma cidade como Nova Iorque, o Central Park, oferece paisagens únicas, mostrando o contraste entre o verde dos campos e dos lagos, com as fachadas dos arranha-céus que se mostram por detrás da copa das árvores, com um resultado muito peculiar e perfeitamente magnífico.

Do lado East do parque localizam-se dois museus, o Guggenheim Museum e o The Metropolitan Museum. Parámos em cada um deles mas depois voltámos ao parque e fizemos todo o final de tarde no meio da dinâmica que o parque adquire a essa hora, com centenas e centenas de pessoas por todo o lado num frenesim incrível. E passámos ainda por alguns locais carismáticos, que nos são até algo familiares, por já os teremos visto no cinema ou na televisão.

Passámos, por exemplo, pela conhecida casa dos barcos, ou The Loeb Boathouse, e pela zona da Bethesda Fountain, uma fonte tantas vezes utilizada como cenário de filmes que recordamos, tal como as suas arcadas, as Minton Tiles at Bethesda Arcade.

Chegámos depois ao imenso relvado, o Sheep Meadow, que os nova-iorquinos utilizam para todo o tipo de atividades de lazer ao ar livre. O ambiente é excelente, apetece-nos ficar por ali, fazer parte daquele mundo... e foi isso que tentámos fazer, inspirar bem fundo e apreciar devidamente aquele momento.
Mas, para além da excitação daquele momento, surgiram-me ainda memórias antigas que deram mais brilho àquele lugar, já de si espantoso. É que o Sheep Meadow é exatamente o local onde grandes músicos quiseram dar os seus concertos e gravar os seus discos ao vivo no Central Parque, mas, para mim, este local lembra-me sobretudo aquele que foi um dos álbuns de referência da minha juventude, o Simon e Garfunkel "Live in Central Parque", gravado em 1982 neste mesmo local.
Já na fase final do dia, depois de escalarmos o rochedo do parque, o Umpire Rock, como todos fazem, e quando nos preparávamos para sair do parque e mergulharmos de novo na vibração de Manhattan, tivemos ainda um último vislumbre que nos trouxe à memória muitas cenas de filmes que aqui foram rodados... falo da imagem da charrete que tantas vezes foi palco de cenas de amor passadas no grande ecrã ao longo de muitos e muitos anos.
Como última referência ao Central Park queria só mencionar o Wollman Rink, uma imensa pista de gelo onde tantos atores já por lá patinaram em tantos filmes ao longo da história do cinema americano. Em junho não há gelo e, por isso, não tivemos acesso a esta atração, mas quem visitar esta cidade no Inverno não deixe de alugar uns patins de gelo e arriscar um passeio nesta pista mítica... se caírem será o sítio certo para se aleijarem... até fica bem, se é para partir uma perna que seja a patinar no gelo no Central Park, e ficam com uma boa história para contar.

Voltando atrás, quando saímos do parque do lado da 5th Avenue, e antes de termos reentrado de novo em direção ao Sul do parque, passámos pelo Museu Guggenheim e depois pelo Metropolitan Museum.

Mas optámos por não visitar o Guggenheim, trata-se de um museu de arte moderna, tal como o MoMa, e já não sobrava tempo, nem disposição, para mais uma visita, sobretudo porque ainda tínhamos o Metropolitan para visitar.

Assim, focámo-nos apenas nos aspetos arquitetónicos do edifício e deixámos as obras de arte para uma próxima visita.


A apenas 500 m abaixo do Museu Guggenheim surge o Metropolitan Museum of Art, conhecido informalmente como The MET, e é um dos museus de arte mais visitados, não só nos Estados Unidos, como em todo o mundo.
Foi aberto ao público em 1872 e desde então que é considerado como um dos maiores e mais importantes museus do mundo. Abriga importantes coleções de pintura europeia dos séculos XII ao XX e obras de arte antiga (grega, romana, egípcia, oriental e assírio-babilónica). São salões enormes com estátuas, quadros e peças de cerâmica, onde nos poderíamos perder por um dia inteiro, e ainda assim jamais conseguiríamos analisar o detalhe que este museu tem para oferecer.
No entanto, depois de já termos visitado uma grande parte da cidade de Nova Iorque, e termos sido bombardeados com toneladas de informação e conhecimento, entramos agora no MET e tudo nos parece demasiado grandioso... diria mesmo, assustadoramente grandioso. É nestas alturas que é preciso saber dosear o tempo e definir o foco, o que é que gostamos mesmo e não podemos perder, e do que é que podemos perfeitamente prescindir, sem grande perda. E foi isso que fizemos, dispensámos toda aquela arte clássica e fomos diretos observar a coleção fascinante que ocupa toda a ala dos impressionistas.

Eu sempre fui fã dos impressionistas, e tenho visto algumas obras na Europa, nomeadamente em França, onde estão as galerias com as principais peças deste movimento. Mas a coleção dos impressionistas do MET pareceu-me ser perfeitamente extraordinária, contendo algumas das pérolas do movimento criado em França no século XIX.

E assim deixámo-nos ficar um pouco por aquelas galerias, sobretudo em torno de algumas das obras de que mais gostámos e que mais nos tocaram.

Começo por referir uma pintura de Paul Gauguin, já do pós-impressionismo, o famoso “Two Tahitian Women with Mango Blossoms”. 
Depois, já na zona dos impressionistas, passámos por algumas obras de Edgar Degas, como o “Woman with a Towel” e um dos muitos quadros que Degas pintou sobre o tema “As bailarinas”.
Renoir é talvez o meu favorito de todos os impressionistas. Embora as suas principais obras se encontrem espalhadas por alguns museus de Paris, aqui encontrámos também várias peças importantes da coleção do pintor, como o “Madame charpentier et ses filles” ou o “Femme assise au bord de la mer”.
Outro dos pintores impressionistas representados nesta ala do MET é o francês Claude Monet. Escolhi as imagens do “Regatta at Sainte Adresse” e de um dos vários “Buquê de Girassóis”. Registo também um dos famosos “Nenúfares”, sendo que a coleção principal sobre este tema se encontra no Museu Orangerie em Paris.

E chegámos a Vincent Van Gogh, com todo um espaço dedicado a este pintor, não faltando um dos seus habituais auto-retratos.
Van Gogh tem a maior parte da sua obra exposta no museu com o seu nome em Amesterdão, onde já fui duas vezes, mas foi aqui que, pela primeira vez, um quadro do pintor holandês me haveria de emocionar. 

Muito para além de todas as obras que tinha vindo a encontrar, fui surpreendido, quase esmagado, pelo magnífico quadro a óleo “Campo de Trigo com Ciprestes” de Vincent Van Gogh.

Conhecia a imagem mas não estava à espera que este pequeno quadro, com apenas 73cm x 93cm, me pudesse tocar daquela forma. Fiquei sentado, imóvel e em silêncio, observando aquelas cores, aquele emaranhado de pinceladas espessas que quase me arrepiaram, aquela luz, que parecia irradiar das camadas subjacentes de tinta, já com 120 anos de idade.

Aquele quadro tinha um efeito quase físico, um magnetismo que me impressionou de uma forma brutal... e eu não estava preparado para toda aquela beleza.

Ah, é verdade, antes de acabar ainda falta a referência ao cinema! Foi um clássico na minha juventude (quem nunca viu que procure), chama-se Vestida Para Matar, um thriller de Brian de Palma. Tem uma cena determinante em pleno museu.


Depois de sairmos definitivamente do parque voltámos então ao frenesim daquela parte da cidade a caminho da Times Square e com um único desvio, passar à porta do Carnegie Hall, a mítica sala de espetáculos nova-iorquina por onde passaram tantas figuras da música, de todo o tipo de estilos  e provenientes de todas as partes do mundo.




sábado, 13 de junho de 2009

New York - Percurso 5 - Lower Manhattan


Depois de uma manhã completa no downtown quisemos aproveitar o resto deste dia ainda na zona do Lower Manhattan, percorrendo os bairros do Chinatown, do Little Italy, do SoHo e do Greenwich Village, cada um deles com as suas características muito particulares e bem diferentes entre si, mas com a semelhança de serem todas zonas que fazem lembrar pequenas cidades ou mesmo aldeias, sem a marca dos grandes arranha-céus que domina o resto da cidade.
Começámos por visitar o bairro do Chinatown, um dos maiores bairros chineses em todo o ocidente e também um dos mais antigos enclaves asiáticos fora da Ásia, com origem em meados do século XIX.

O bairro chinês desenvolve-se entre a Chatham Square e a Canal Street, e estende-se até às margens do East River junto ao viaduto da Manhattan Bridge.

Na Chatham Square o início do bairro chinês é assinalado com a estátua de Lin Zexu um estudioso chinês da dinastia Qing, do século XVIII.
Por toda esta zona desenvolve-se um bairro ocupado por chineses, com todo o tipo de características bem orientais, do comércio à cultura, da gastronomia à economia. Mas para um turista, incapaz de perceber a complexidade daquele bairro ao nível do poder económico e financeiro das empresas chinesas que ali estão sediadas, o Chinatown é apenas o local onde encontramos restaurantes e lojas ou armazéns chineses, para venda de quase tudo, como comida, roupa, equipamentos e aparelhos eletrónicos. Existem também alguns espaços dedicados a atividades culturais e religiosas, como templos chineses ou aquelas lojas cheias de um aparente misticismo, algumas onde se tenta adivinhar o futuro.
Mas nas ruas, o que realmente faz diferença e nos faz sentir num ambiente exótico, são os letreiros sempre em caracteres chineses e é também, à porta das lojas de comida, uma quantidade imensa de patos pendurados que nos criam desconforto e não nos convidam minimamente para uma refeição naquele local.

Conhecer o Chinatown não vai além de serpentear pelas várias artérias do bairro, descer até ao rio e voltar a subir, até terminar na Canal Street... mas ir sempre entrando em algumas lojas, com ou sem interesse nos produtos que estão a ser vendidos.

Em tempos, e concretamente em 1996, a contrafação era feita naquele local sem qualquer pudor, vendiam-se, por exemplo, as melhores marcas de relógios a “ten dólar”, um preço que se anunciava à porta de cada loja como um pregão. E lá estavam as imitações perfeitas dos melhores Rollex... e que iriam durar e dar horas certas pelo tempo em que a máquina eletrónica funcionasse, o que poderia acontecer por vários anos.

Em 2009 a contrafação estava muito mais controlada e esta venda de material pirateado já não se fazia de forma descarada e massiva, e reconheço que, com essas novas regras, o bairro perdeu uma parte da piada e do interesse que tinha anteriormente.

A saída do bairro faz-se pela Canal Street, que recebe o trânsito da Manhattan Bridge, numa zona adornada por um monumento com colunas romanas. Esta é a rua principal do bairro e estão aqui as melhores lojas, nomeadamente uma série de ourivesarias... as tais que antes vendiam Rollex's a ten dólar.

Saindo da Canal Street para Norte entramos num outro bairro, com influências bem diferentes, desta vez marcadas pela comunidade de imigrantes italianos que ali se instalaram no início do século XX, formando o chamado Litle Italy.

Entretanto, com o grande fluxo de imigrantes vindos de Itália, sobretudo com a 2ª guerra mundial, foram sendo criadas outras comunidades de italianos na cidade, principalmente em Brooklyn e Staten Island, e o Litle Italy, por estar em Manhattan e ser um bairro mais caro, começou a ser ocupado por outras comunidades, tendo atualmente na sua população permanente apenas cerca de 10% de italo-americanos. No entanto o bairro continua a representar o espirito e a cultura de Itália, materializado através das lojas e sobretudo dos muitos restaurantes italianos que ali se concentram.

Nas referências no cinema às comunidades italianas, que são tão comuns, por exemplo nos filmes sobre as famílias mafiosas, a ação raramente se passa no Litle Italy mas quase sempre noutros bairros, como o Brooklyn.

Mas o Litle Italy é ainda o rosto mais visível da influência italiana na cidade de Nova Iorque.
Percorremos as várias ruas do bairro, sempre muito concorridas e com uma imensa oferta de cafés e restaurantes, e não deixámos de apreciar a boa cozinha italiana num almoço tardio que nos soube divinamente. 



Saímos do Litle Italy e caminhámos até ao SoHo, o bairro dos artistas de Nova Iorque.

O nome original do bairro resulta da abreviatura de South Houston, por ser o bairro que fica a Sul da Houston Street. Mas ao mesmo tempo representa um conceito de bairro, que existe em algumas grandes cidades, como em Londres, e que se chamam SoHo na abreviatura de Small Office-Home Office. E é este o ambiente que ali se encontra, quer na sua vivência diária quer na ocupação dos espaços urbanos, com a existência de muitas lojas, galerias de arte e ateliers. 

E assim, encontramos nesta zona da cidade, uma arquitetura residencial de grande requinte, e um sem número de lojas, quase sempre bastante acolhedoras e com grande qualidade.


O conceito SoHo de Small Office-Home Office, privilegia os espaços residenciais onde surgem pequenos negócios, normalmente em pequenos escritórios ou oficinas. E, naturalmente, os negócios mais comuns num espaço residencial como este estarão sobretudo ligados às artes, quer seja pintura e escultura quer sejam outros tipos de design, como o mobiliário, a roupa e calçado ou a joalharia, mas sempre de marcas exclusivas. 

E é esse tipo de produtos que são oferecidos em estabelecimentos que se assemelham a galerias de arte e que ocupam as ruas do bairro, intercalados com outras lojas mais comuns, mas sempre com elevada qualidade, e com restaurantes, bares ou lounges, com o mesmo nível de requinte. 


No final do SoHo entramos no Greenwich Village, a “aldeia” chique de Manhattan, cheia de restaurantes, cafés e clubes de jazz. 

Começámos a Sul na zona da Our Lady of Pompeii Church, uma das igrejas do bairro, mas o que importa fazer nesta zona da cidade é percorrer, mais ou menos sem destino, as ruas que vão oferecendo diferentes locais de interesse, como lojas ou restaurantes.


A Norte do bairro, e depois de termos encontrado, para além de muitos cafés e restaurantes, também alguns clubes de jazz, como o famoso Blue Note, chegámos ao coração do Greenwich Village, o Washington Square Park.

É um parque público com 40 mil m² de área verde e é um dos espaços mais importantes do Village. A Este do parque fica a Universidade de Nova Iorque e a Sul ergue-se a igreja protestante Judson Memorial Church.
O parque tem sido palco para a rodagem de muito filmes mas vou destacar uma única cena do filme August Rush, onde o ator Freddie Highmore, ainda miúdo, toca guitarra num improviso incrível... só visto, não só esta cena, mas o próprio filme.

O ex-libris do parque é o Washington Square Arch, um arco de triunfo construído em mármore no final do século XIX, que alinha com a 5th Avenue e marca o início desta avenida. 

New York - Percurso 4 - O Downtown



Íamos passar toda a manhã deste dia na baixa da cidade e começámos por ir diretamente de Metro até ao Brooklyn Bridge Park, com vista para o downtown do outro lado da ponte.
Depois de algum tempo a contemplar as paisagens de Manhattan observadas a partir desta margem do East River, atravessámos a ponte de Brooklyn, uma ponte que é quase um símbolo americano e um dos grandes ícones da cidade. 
Brooklyn Bridge é um dos meus locais favoritos na cidade de Nova Iorque e a sua travessia pedonal, que é obrigatória, é sempre uma experiência emocionante. Trata-se de uma ponte suspensa com 1.834m de comprimento, que liga Brooklyn ao downtown de Manhattan, sobre o East River. Foi inaugurada em 1883, o que a torna como uma das pontes suspensas mais antigas dos Estados Unidos. 

A tecnologia de suspensão dos tabuleiros, utilizando milhares de cabos cruzados, marca bem a imagem singular de uma ponte que nos habituámos a conhecer como uma peça de engenharia rara e preciosa.
Durante o século XIX a ilha de Manhattan cresceu muito com a chegada de imigrantes que vieram tentar a sua sorte nos Estados Unidos. Como o custo de vida em Manhattan era elevado, muitas pessoas optaram por morar na região de Brooklyn, que se desenvolveu extraordinariamente. Nesse período, o único acesso entre os dois locais era feito por barcaças que atravessavam o rio e garantiam o transporte de pessoas e bens. Quando, no Inverno de 1867, o East River congelou, causando prejuízos enormes para a população local, as autoridades de Nova Iorque decidiram iniciar o processo que levou à construção desta ponte.

O facto da ponte ter um pouco menos de 2km de extensão permite que, turistas e nova-iorquinos, possam realizar o trajeto entre as duas margens de forma bastante fácil, caminhando ou de bicicleta, o que faz com que esse passeio se tenha tornado num dos mais populares da cidade, e imprescindível para quem quiser entrar verdadeiramente no espirito de Nova Iorque.

Assim, atualmente, atravessar esta ponte é uma experiência imperdível, pelas vistas incríveis do skyline de Manhattan, mas sobretudo pela sensação que se experimenta, que chega a ser arrepiante e, certamente, inesquecível. 

Como não poderia deixar de ser esta ponte está também ligada à sétima arte, surgindo em vários filmes rodados na cidade. De todas essas aparições da ponte no grande ecrã, saliento uma cena brutal do filme Sophie’s Choise, numa interpretação brilhante do ator Kevin Kline, contracenando com Meryl Streep e Peter MacNicol... e é mesmo uma daquelas cenas que marcam um filme, também ele marcante.


À direita da Brooklyn Bridge fica mais uma ponte suspensa sobre o East River, a Manhattan Bridge, que faz também a ligação de Brooklyn até Manhattan, e neste caso vai desembocar na Canal Street, no China Town. 
É uma ponte de estrutura metálica com um comprimento total de 2.089m que foi aberta ao tráfego no ano de 1909. A técnica de suspensão, inovadora à época, veio a ser utilizada mais tarde na conceção de outras pontes suspensas de referência, como a Oakland Bay Bridge e a Golden Gate Bridge, ambas em San Francisco, e mesmo a nossa Ponte 25 de Abril.

A referência cinematográfica que associo de imediato é a imagem desta ponte no cartaz do filme Once Upon a Time in America, de Sergio Leone, com Robert de Niro, um clássico incontornável dos anos 80.
Já do lado de Manhattan seguimos diretamente até ao City Hall Park e à Foley Square. O conjunto formado por estas duas praças concentra alguns edifícios públicos importantes, como tribunais, edifícios municipais, incluindo a Câmara Municipal, e destaca-se ainda, entre outros edifícios imponentes, um dos arranha-céus mais bonitos da cidade. 

Começando pelo New York County Supreme Court, na Foley Square, o Supremo Tribunal do Estado de Nova Iorque que é o tribunal de primeira instância do Estado. Trata-se de um edifício do início do século XX com grande riqueza arquitetónica, e com uma bonita fachada com 10 colunas no estilo clássico romano, que era muito popular na arquitetura dos tribunais nessa época.
Logo ao lado fica o Thurgood Marshall United States Courthouse, o tribunal americano Thurgood Marshall. 

O edifício tem duas partes principais, uma base e uma torre com um total de 180m de altura e 37 andares. A base do tribunal é também bastante particular pela sua fachada com colunas romanas.
Bem próximo deste tribunal mas já no City Hall Park, um jardim conhecido pela sua fonte, a Jacob Mould Fountain, fica o The David N. Dinkins Manhattan Municipal Building, um edifício Municipal construído em 1914, com um total de 40 andares e onde trabalham atualmente cerca de 2 mil funcionários públicos. 

O prédio, que foi o primeiro a incorporar uma estação de Metro na sua base, a estação Chambers Street, tem uma série de influências clássicas da arquitetura, nomeadamente do Romano, do Renascimento italiano e do Beaux-Arts. 

Apesar de ter uma altura 180m, o que, nesta cidade, parece ser razoavelmente baixo, acaba por ser um dos edifícios governamentais mais altos de todo o mundo.
De novo em pleno City Hall Park fica o edifício clássico e monumental do New York City Hall, a Câmara Municipal de Nova Iorque, que funciona como sede do conselho municipal e como escritório do Presidente da Câmara, o Mayor da cidade. O edifício foi construído em 1811 e é mesmo a sede municipal mais antiga dos Estados Unidos que ainda se encontra em plena utilização. 
Ainda neste mesmo parque, no número 233 da Broadway Avenue, que começa aqui bem perto, fica o Woolworth Building, um arranha-céus de 57 andares e 241m de altura, que na época da sua inauguração, em 1913, era um dos mais altos edifícios do mundo. Foi mandado construir pelo milionário Frank Winfield Woolworth, para sediar sua empresa Woolworth. 

O edifício é um dos mais antigos e famosos da cidade, com uma arquitetura preciosa, o que levou a que fosse escolhido para diversas aparições em produções de cinema.
Saindo da zona do parque caminhámos até à margem do East River, junto à área de esplanadas dos piers. Mas ainda antes percorremos um quarteirão junto às ruas Fulton St, Front St e South St, onde se concentram uma série de restaurantes bastante apelativos, a maioria especializados em seafood. Face à proximidade do rio toda esta zona tem acesso a uma vista privilegiada que alcança as duas pontes que cruzam o East River.

A zona dos piers, sobretudo o Pier 17, é também um local de concentração de restaurantes, a maioria especializados em seafood, e que atraem sempre muitos turistas. É também especialmente emoldurada pela paisagem magnífica de um conjunto de torres na primeira linha, junto ao rio, onde se encontram fundeados alguns veleiros de grande porte.

Nos piers seguintes até ao Battery Park ficam os portos de algumas carreiras de barcos e ferries para acesso a Staten Island, à estátua da liberdade ou para cruzeiros à volta de Manhattan.


Entretanto saímos da zona marginal e deambulámos pelo chamado Financial District, sobretudo a zona mais próxima do coração da finança nova-iorquina, o Wall Street.

Além de um conjunto quase infinito de escritórios de instituições financeiras, o centro desta zona fica na interceção das ruas Wall St, Nassau St e Broad St, onde se localizam o Federal Hall e o New York Stock Exchange.

O Federal Hall foi construído no ano de 1700 como sede do governo da cidade de Nova Iorque, e mais tarde serviu como primeiro edifício do Capitólio dos Estados Unidos, e foi mesmo neste local que George Washington tomou posse como primeiro presidente dos Estados Unidos. 

No entanto o edifício original seria demolido e seria construído depois, em 1842, o edifício atual, que funciona como museu comemorativo e memorial ao antigo Federal Hall e a George Washington.
O New York Stock Exchange (NYSE) ou Bolsa de Valores de Nova Iorque, fica um pouco à frente do Federal Hall, na Broad Street. A NYSE, que é atualmente administrada pela NYSE-Euronext, foi criada em 1792 e é uma das principais e das mais antigas bolsas de todo o mundo. O edifício tem uma arquitetura clássica com um conjunto de colunas gregas na sua fachada e uma imensa escultura decorativa de baixo-relevo no seu pórtico… mas o que mais se destaca é a bandeira americana gigante que cobre toda a fachada.
Um pouco mais abaixo do centro financeiro, na praça Bowling Green, exatamente onde começa a Broadway Avenue, encontramos a estátua do Charging Bull, o “Touro de Wall Street”, uma escultura de bronze com 3,5 toneladas, medindo 3,4 m de altura e 4,9 m de comprimento. 

O touro foi concebido pelo artista italiano Arturo de Modica e foi instalado em dezembro de 1989, originalmente na Broad Street, em frente ao edifício da Bolsa de Valores. A instalação foi feita de forma provocatória, sem qualquer aviso prévio... num dia não havia lá nada e na manhã seguinte já lá estava o touro. 

Depois da sua instalação junto ao edifício da Bolsa, a escultura foi apreendida pela polícia de Nova Iorque e foi levada para um parque de automóveis, onde ficou alguns dias. Mas, o protesto público que se seguiu, fez com que a estátua fosse rapidamente reinstalada, mas, desta vez, dois quarteirões abaixo, no parque Bowling Green, junto à Broadway, onde se encontra atualmente.

A escultura representa um touro em posição de ataque e simboliza um mercado financeiro agressivo, o chamado bull market. O escultor idealizou a estátua logo após o crash da bolsa de valores de Nova Iorque, em 1987, a chamada "segunda-feira negra", e resolveu oferecê-la à cidade, como símbolo da força e poder do povo americano. Modica gastou (a modica quantia de) 360 mil dólares das suas economias na execução desta obra, mas certamente, de forma indireta e ao longo da carreira, terá tido um benefício significativo com a inclusão no seu curriculum deste ícone da cidade de Nova Iorque. 
O dowtown da cidade termina junto ao rio num belo jardim totalmente rodeado por arranha-céus lindíssimos, o Battery Park

Trata-se de um parque urbano com cerca de 10 hectares de área verde localizado no Sul da ilha de Manhattan, e que foi construído no início do século XX sobre um antigo aterro sanitário.

Além do Battery Park existe também o Promenade, um passeio junto ao rio que permite longas caminhadas ou passeios de bicicleta, com uma vista privilegiada da baía e da Estátua da Liberdade. Aliás, os pores-do-sol neste local, quando as condições climatéricas o permitem, são momentos muito populares entre os nova-iorquinos, oferecendo uma bela panorâmica sobre a baía. 

É também deste local que saem os barcos com destino à Liberty Island, onde se encontra a Estátua, um dos principais pontos turísticos da cidade.
Ainda em pleno Battery Park existia também uma escultura designada por “The Sphere” do escultor alemão Fritz Koenig. A escultura foi montada originalmente em Bremen e trazida depois para Manhattan. A obra de arte deveria simbolizar a paz mundial e foi colocada junto às antigas Twin Towers, no centro de um anel de fontes, projetado pelo arquiteto do World Trade Center, Minoru Yamasaki.

Depois dos ataques do 11 de setembro a escultura foi recuperada de uma pilha de escombros, desmantelada e enviada para um armazém. Entretanto, como se tratava de um objeto que preservava a memória daquele local, a escultura acabou por retornar a Manhattan apenas seis meses depois do ataque, e foi novamente erguida, desta vez no Battery Park, a alguns quarteirões do local onde se encontrava anteriormente. O próprio Koenig supervisionou esse trabalho de remontagem da escultura que passou a ser um memorial às vítimas dos ataques. Koenig disse "Era uma escultura, agora é um monumento", "Agora tem uma beleza diferente, que eu nunca poderia imaginar. Tem a sua própria vida, diferente da que eu lhe dei". 

Foi este o símbolo, bem mais que uma escultura, que encontrámos nesta zona da cidade.
Mais tarde, em 2014, com a inauguração do One World Trade Center (5 anos depois da nossa visita à cidade), foi criado um memorial às vítimas na zona do Ground Zero, e a “The Sphere” foi mudada para o Liberty Park e foi integrada nesse imenso memorial.

Ainda pela zona do downtown, enquanto percorremos um conjunto de ruas, sempre emparedadas por arranha-céus gigantes, surge-nos inesperadamente uma igreja do século XVIII. A Trinity Church é uma capela pertencente à Igreja Anglicana localizada bem no coração da finança de Manhattan, no cruzamento entre a Wall Street e a Broadway Avenue.
E apenas a alguns quarteirões chegámos ao imenso estaleiro do novo World Trade Center. O local onde outrora se ergueram as torres gémeas (que pude visitar em 1996), o palco de uma das catástrofes mais marcante para todo o mundo ocidental, mas que hoje não é mais que um estaleiro de obras, com gruas e contentores, e com a estrutura da nova torre a emergir do imenso buraco que ficou conhecido como Ground Zero
Não sentimos a importância e a carga emotiva daquele local... penso que nem quiséssemos mesmo sentir o dramatismo que lhe está associado, talvez porque todos nós já tivéssemos feito o luto que aqueles acontecimentos justificavam. Mas talvez mais tarde, com a inauguração do edifício e a criação de um memorial, esse exercício de reflexão volte a ser possível... talvez mesmo inevitável.

O nosso grupo era constituído por cinco engenheiros civis e uma médica e, por isso, não descansámos enquanto não estávamos dentro do estaleiro a fazer perguntas ao encarregado.
Entre as várias informações que nos transmitiram sobre o novo projeto e sobre a construção, e que vos vou poupar, por serem demasiado exclusivas de quem anda nesta coisa das obras, mostraram-nos ainda algumas imagens virtuais do edifício que virá a ser o futuro One World Trade Center.