quinta-feira, 10 de abril de 2014

Londres: Dia 2 - Zona Ocidental da cidade


Neste segundo dia saímos de transportes até ao famoso bairro de Notting Hill. Seria um dia longo, em parte, dedicado à zona dos principais aposentos da família real.

O percurso realizado a pé, segue aproximadamente os trilhos assinalados neste mapa, e corresponde a cerca de 10 km:
 


Notting Hill

A escolha da manhã para visitar este bairro é fundamental, pois é nessa altura que os mercados de rua lhe dão mais vida e movimento. Já tivemos oportunidade de comprovar isso mesmo: durante a manhã, Notting Hill apresenta-se animado, colorido e cheio de gente, com as ruas e os mercados em plena atividade; à tarde, porém, a atmosfera muda completamente, tornando-se muito mais tranquila, quase mortiça e, em alguns recantos, surpreendentemente deserta.
Notting Hill é um dos bairros mais charmosos e conhecidos de Londres, onde as casas de fachadas coloridas, as ruas arborizadas e as elegantes moradias vitorianas se misturam com um ambiente descontraído, cosmopolita e cheio de personalidade. O bairro vive muito à volta da Portobello Road, uma das suas artérias mais famosas, onde se realiza o célebre Portobello Road Market. Entre as fachadas coloridas, cafés, restaurantes e lojas independentes, Notting Hill combina o charme de uma Londres mais tradicional com uma atmosfera multicultural e vibrante, tornando-se num dos seus bairros mais agradáveis.
O bairro respira um ambiente cosmopolita, marcado por uma forte presença da comunidade caribenha - já lá assisti a um “Carnaval da Jamaica”, que foi uma perfeita loucura! É o famoso Notting Hill Carnival, um dos maiores e mais importantes festivais de rua da Europa, que todos os anos, em agosto, transforma o bairro numa verdadeira explosão de música, cor e animação.

Mas foi sobretudo o cinema que tornou este bairro mundialmente famoso, graças ao filme Notting Hill (de 1999), protagonizado por Hugh Grant e Julia Roberts. A história de amor entre um simples livreiro londrino e uma famosa atriz de Hollywood, tendo o bairro como cenário, transformou alguns dos seus recantos numa espécie de roteiro romântico para milhões de visitantes.

Mas quem procure a célebre livraria do filme que se desengane: a Travel Book Co, onde trabalhava o personagem de Hugh Grant, é fictícia. Ainda assim, existem por Notting Hill várias bookshops bem reais que merecem uma visita, além de muitas outras lojas curiosas e cheias de personalidade, como a Alice’s, em Portobello Road, neste caso uma loja de antiguidades e objetos vintage. E foi precisamente essa a loja que fotografei, juntamente com a minha filha Alice e com as duas irmãs mais novas.


Hyde Park e Kensington Palace

Fizemos depois uma longa caminhada até ao Hyde Park, um dos grandes pulmões verdes de Londres, entrando no parque pelo lado de Kensington, no seu extremo Noroeste.

O parque é imenso e, uma vez lá dentro, deixámo-nos simplesmente vaguear pelos seus caminhos, atravessando e descansando nos grandes relvados e seguindo até aos lagos e às muitas atrações que se escondem entre a vegetação. É um daqueles lugares onde a própria dimensão convida a caminhar sem grande rumo, descobrindo, pelo caminho, diferentes recantos de uma das maiores e mais emblemáticas áreas verdes da cidade.

Uma das grandes atrações desta zona é o Kensington Palace, uma das residências reais mais emblemáticas de Londres, situado nos jardins de Kensington, no extremo Oeste do Hyde Park. Construído no final do século XVII, o palácio foi residência de vários monarcas britânicos e ficou particularmente associado à Princesa Diana, que ali viveu durante vários anos. Atualmente, parte do palácio está aberta ao público, permitindo visitar os antigos aposentos reais e conhecer alguns dos episódios mais marcantes da história da família real britânica.


Albert Memorial e Royal Albert Hall

No lado Sudoeste do parque encontramos o Albert Memorial e, logo que saímos do jardim, o Royal Albert Hall, ambos dedicados ao Príncipe Albert, que viveu entre 1819–1861, e foi marido da Rainha Vitória.

O Albert Memorial destaca-se pela enorme estátua dourada do Príncipe Albert sentado, rodeada por esculturas que representam as artes, as ciências e os grandes continentes do mundo. É um monumento de grande riqueza decorativa, que traduz bem o espírito e a confiança da era vitoriana.
O Royal Albert Hall é uma das salas de espetáculos mais famosas e emblemáticas da capital inglesa, inaugurada em 1871 pela Rainha Vitória, que lhe deu o nome em homenagem ao marido, o Príncipe Albert. Com a sua característica forma oval e a enorme cúpula, tornou-se um dos grandes palcos culturais do Reino Unido, recebendo concertos de música clássica, ópera, mas também rock, pop e muitos outros espetáculos.

É particularmente famoso pelos BBC Proms, abreviatura de Promenade Concerts, uma célebre temporada de concertos de música clássica realizada desde 1895, tendo o Royal Albert Hall como principal palco. Os Proms ficaram conhecidos pelo ambiente descontraído e pelos preços acessíveis, procurando aproximar a música clássica de um público mais vasto, incluindo os mais jovens e aqueles com menos possibilidades económicas. O momento mais famoso é o Last Night of the Proms, que se transforma numa verdadeira festa musical e patriótica, com o público a empunhar bandeiras, cartazes e cachecóis, quase como se estivesse nas bancadas de um estádio de futebol, e a cantar em uníssono Rule, Britannia! e Land of Hope and Glory. É uma imagem que me é familiar desde miúdo, quando estas transmissões passavam frequentemente na nossa televisão e eu ficava a acompanhar aquela curiosa mistura de música clássica, patriotismo e festa popular.

Ao longo da sua longa história, passaram por este palco nomes tão importantes e distintos, como Wagner, Verdi, ou os Beatles, entre muitos outros, fazendo do Royal Albert Hall um verdadeiro ícone da vida cultural londrina.

Já estive várias vezes à sua porta, mas nunca consegui entrar para assistir a um espetáculo - precisamente aquilo que sempre quis fazer. Fica, portanto, mais uma dívida de Londres para uma próxima visita.


Natural History Museum London e Science Museum

Caminhando apenas cerca de 600 metros, chegámos a um complexo que reúne dois dos principais museus de Londres, o Natural History Museum e o Science Museum, ambos com entrada gratuita nas suas exposições permanentes, embora, em períodos de maior afluência, seja conveniente reservar antecipadamente online o bilhete gratuito.

O Natural History Museum é um dos mais importantes museus de história natural do mundo, instalado num magnífico edifício de arquitetura vitoriana, inaugurado em 1881.
As suas coleções reúnem milhões de exemplares relacionados com a vida na Terra, desde fósseis e dinossauros a minerais, animais e plantas. Entre os elementos mais impressionantes encontra-se atualmente o enorme esqueleto de baleia-azul que domina o Hintze Hall, suspenso no teto e impressionando pela sua dimensão - que substituiu a famosa réplica de Dippy, o Diplodocus que, durante décadas, recebeu os visitantes à entrada do museu - e que, em todas as visitas que fiz anteriormente, lá esteve sempre, quase como uma presença obrigatória.
Este museu, eventualmente combinado com uma breve visita ao Science Museum, é particularmente interessante, pois consegue juntar ciência, história e algum espetáculo, tornando temas como a evolução da vida, a geologia e a biodiversidade acessíveis a visitantes de todas as idades.

Mas fica o aviso para quem pretenda visitar estes museus com algum detalhe: são enormes e têm muito para ver, pelo que será necessário reservar várias horas - ou mesmo um dia inteiro - para os explorar devidamente. Nesse caso, talvez seja necessário repensar o número de dias a reservar para a visita a esta cidade.


Bairro de Chelsea e Stamford Bridge Stadium

Saindo desta zona dos museus iriamos agora caminhando até à Brompton Road, uma zona luxuosa da cidade. Recordo que aqui estamos a poucos quilómetros de Chelsea, um dos bairros mais exclusivos e sofisticados da capital, conhecido pelas suas elegantes ruas residenciais, casas senhoriais e comércio de luxo. É, contudo, um daqueles bairros onde grande parte do encanto está precisamente na vida privada dos seus moradores, pelo que não será o local ideal para visitar.

Ficará apenas, para alguns de nós, a referência mais popular do bairro: o Chelsea Football Club - porque, em Londres, até os bairros de gente rica têm direito a uma equipa de futebol.

Aliás, para quem quiser aproximar-se do mundo do futebol em Londres - a grande capital do desporto-rei e berço desta modalidade - recomendo uma visita ao Stamford Bridge, o histórico estádio do Chelsea, assinalado no mapa. A partir do Museu de História Natural são apenas cerca de 2,5 km, pelo que uma boa opção será fazer o trajeto de Uber, quer de ida quer de volta.

Podemo-nos deparar com o estádio tranquilo e praticamente vazio ou, se a visita coincidir com um dia de jogo, encontrar um ambiente vibrante que se vive à sua volta. Mas não esperem encontrar as tradicionais roulotes de bifanas e couratos: aqui estamos em território blue, e o Chelsea sempre teve fama de ser o clube dos ricos!


Victoria and Albert Museum e Harrods

Voltando de novo até à Brompton Road, vamos passando por vários edifícios de referência, uns mais clássicos, e outros revelando a típica arquitetura londrina, com as casas revestidas a tijolo.

O mais clássico neste percurso é o Victoria and Albert Museum, o maior museu do mundo dedicado às artes decorativas, ao design e à moda. Foi fundado em homenagem à Rainha Vitória e ao Príncipe Albert, reúne coleções de escultura, pintura, joalharia, mobiliário e vestuário, sendo um dos mais importantes museus culturais de Londres… mas confesso que nunca o visitei, fiquei sempre pela sua fachada, até porque não é a temática que mais me interessa.
A Brompton Road é uma das ruas mais elegantes e características de South Kensington, marcada por uma sucessão de edifícios vitorianos, com fachadas ornamentadas em tijolo, pedra e terracota, que conservam muito do ambiente da Londres do final do século XIX e início do século XX. Ao longo da rua, a arquitetura histórica mistura-se com lojas, restaurantes e um comércio sofisticado, criando um ambiente simultaneamente elegante, cosmopolita e movimentado, que caracteriza esta zona de Londres.

Chegámos, entretanto, ao grande protagonista desta rua, que é, naturalmente, o Harrods, cujos enormes armazéns ocupam um quarteirão inteiro e se distinguem pela monumental fachada em terracota, que constitui um dos ícones comerciais mais reconhecidos de Londres… o seu interior funciona como loja de departamento, uma espécie de El Corte Inglês, mas este verdadeiramente inglês!


Wellington Arch e Green Park

Vamos agora por um percurso diferente, desta vez, em torno dos edifícios e jardins associados ao palácio real.

Caminhámos na direção do Green Park, junto ao Wellington Arch, um dos grandes arcos monumentais de Londres. Este arco foi construído no século XIX para celebrar as vitórias britânicas nas Guerras Napoleónicas, e sobretudo a liderança do Duque de Wellington, vencedor da Batalha de Waterloo em 1815.

Entrámos depois pelo Green Park, um dos oito Royal Parks de Londres e um dos mais pequenos, mas também aquele que fica mais próximo do Palácio de Buckingham. Este parque caracteriza-se pela sua simplicidade, com grandes extensões de relva, árvores e caminhos, mas praticamente sem canteiros de flores - diz-se que a tradição remonta à à nossa conterrânea Rainha Catarina de Bragança - a mesma que levou o chá para Inglaterra - que terá mandado retirar as flores depois de descobrir que o marido, Carlos II, as oferecia a outras mulheres. Mas mesmo sem flores, este parque oferece um belo cenário para o nosso percurso até ao Palácio Real.



Buckingham Palace

O Buckingham Palace é a residência oficial em Londres da Rainha (atualmente do Rei), e um dos símbolos mais reconhecidos da monarquia do Reino Unido. O palácio tornou-se residência oficial dos soberanos em 1837, com a subida ao trono da Rainha Vitória, e continua a desempenhar essa função atualmente.

Quando o visitamos, mesmo que seja apenas junto aos portões, há bastante para apreciar. Desde logo a grandiosa fachada do palácio, mas também o grande Victoria Memorial - com a estátua dourada que é uma personificação da deusa romana Victoria, símbolo do triunfo e das vitórias. 

O enquadramento do conjunto deste memorial com a fachada do palácio, constitui uma das imagens mais reconhecíveis desta parte da cidade.
Ainda junto aos portões e, se o horário coincidir, podemos assistir à famosa Changing of the Guard, a cerimónia de rendição da Guarda Real, acompanhada pela banda militar e por todo o aparato que lhe é característico… aqui com a Guarda Real britânica devidamente trajada com o tradicional uniforme: as casacas vermelhas, contrastando com as calças escuras e, sobretudo, o imponente bearskin, aquele enorme e peludo capacete preto, com cerca de 45 centímetros de altura, originalmente feito de pele de urso. Um uniforme de aparência quase teatral, mas que se tornou uma das imagens mais icónicas e imediatamente reconhecíveis de Londres.


The Mall, St. James's Park e Palácio de St. James

Depois de Buckingham Palace, passando ainda pelo Canada Gate - com a icónica imagem que enquadra o portão e a estátua de uma figura semi-nua - continuamos pelo The Mall, a grande avenida cerimonial que liga o palácio ao Admiralty Arch e à Trafalgar Square. Ladeada por árvores e edifícios monumentais, é utilizada nas grandes cerimónias de Estado e nas celebrações da família real, sendo particularmente impressionante quando está engalanada com as bandeiras britânicas, como já a encontrei algumas vezes.

Ao longo deste percurso encontramos o St. James’s Park à nossa direita, um dos mais bonitos e antigos Royal Parks de Londres. É um parque relativamente pequeno, mas muito agradável, com um belíssimo lago, pontes, árvores e jardins cuidados com canteiros de flores.
Do lado do lago voltado para o palácio, há excelentes perspetivas sobre o Buckingham Palace, enquanto que, no sentido oposto, se avista a silhueta do London Eye, a roda-gigante da cidade.
Já junto ao parque encontramos o St. James’s Palace, construído no século XVI por Henrique VIII e considerado o mais antigo palácio real ainda utilizado oficialmente no Reino Unido. Embora não esteja normalmente aberto ao público, continua a ter funções oficiais e é particularmente interessante pela sua história: foi residência de vários monarcas britânicos e, durante mais de 300 anos, foi a principal residência dos soberanos em Londres, antes de Buckingham Palace assumir esse papel. É também aqui que tradicionalmente se realizam algumas cerimónias relacionadas com a monarquia.

Este pequeno percurso, que acabámos de fazer entre o Buckingham Palace, o The Mall, St. James’s Park e St. James’s Palace, atravessa, em poucos quilómetros, alguns dos lugares onde a história da monarquia britânica parece ainda permanecer suspensa no tempo. À primeira vista, podem parecer apenas palácios, avenidas e jardins, lugares por onde se passa quase distraidamente. Mas, quando olhamos com mais atenção, percebemos que cada fachada e cada alameda carregam séculos de histórias, de cerimónias, de poder e de tradição.

É essa dimensão que talvez se deva procurar quando percorremos estes espaços: não apenas aquilo que os nossos olhos veem, mas também aquilo que o tempo deixou invisível. Por aqui passaram reis e rainhas, príncipes e estadistas; por estas avenidas desfilaram coroações, funerais e celebrações, enquanto gerações inteiras assistiam à continuidade de uma das mais antigas e marcantes dinastias da história.

E talvez seja essa a verdadeira beleza deste percurso: caminhar tranquilamente por lugares que, apesar de hoje fazerem parte da paisagem quotidiana de Londres, continuam a guardar, quase em silêncio, a memória de séculos de história.


Terminámos aqui o trajeto que tínhamos planeado para este dia, depois de uma caminhada de cerca de 10 quilómetros, que nos levou por alguns dos lugares mais emblemáticos de Londres. Regressamos agora ao hotel, talvez com algum cansaço nas pernas, mas ainda com a noite pela frente. É, por isso, uma boa altura para deixar para trás os palácios, os parques e as grandes avenidas e procurar a cidade sob uma outra luz, aquela que começa a acender-se quando as fachadas se iluminam e as ruas ganham um novo movimento.

E, para esta noite, nada melhor do que seguir até ao West End, o coração dos grandes espetáculos londrinos, e deixar que a música e o teatro nos prolonguem a viagem. Entre os muitos musicais em cartaz, a minha sugestão seria para o Les Misérables.


Foi um dia para uma longa caminhada, de mapas consultados a cada esquina, de Metros, autocarros e algumas viagens de Uber estrategicamente utilizadas, quando as pernas começavam a dar sinais de revolta. Mas foi também um dia de reencontros com lugares que já faziam parte das nossas memórias e de novas descobertas numa cidade que parece viver permanentemente entre o passado e o futuro.


Carlos Prestes
Abril de 2014