quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

O Deserto Marroquino

Depois de nos termos instalado no hotel, tão acolhedor e tão mágico, aproveitámos aquela que era a nossa primeira noite junto ao deserto. E quando saímos para jantar, aquela refeição pareceu-nos um acontecimento especial, abrilhantado por todo aquele clima de excitação que se tinha instalado. 

E depois, já cá fora, junto à piscina, o hotel revelava-se como parte do próprio deserto e daquela noite estrelada e maravilhosa que nos envolvia.

E o deserto não é só um local com uma certa particularidade geológica....o deserto é também um estado de espírito que nos agarra, e nos agarrou, de forma definitiva. E foi nas dunas que passámos uma parte do nosso serão, contemplando aquele céu brilhante de um mar infinito de estrelas. 



Na manhã seguinte estávamos no dia quatro da nossa viagem e acordámos pela primeira vez às portas do deserto, e ainda num clima de grande exaltação por sairmos do quarto e, em qualquer zona do hotel, estarmos praticamente com os pés na areia....no restaurante, na receção ou junto à piscina. 
E é sempre assim, não só neste hotel, o Auberge du Sud ou Café du Sud, mas também na maioria dos hotéis que se instalaram junto às dunas do Erg Chebbi, o também chamado deserto de Merzouga.


E abro aqui um parêntese antes de continuar esta crónica, para tentar explicar melhor como é que as coisas funcionam por aqui, porque acho que pode ser útil.

Todo o Sul de Marrocos é maioritariamente deserto, a menos dos oásis que vão surgindo junto às margens dos rios, mas aquele deserto de areia e dunas só aparece a Sul de Zagora, mais a Oeste do país, e em Merzouga, do lado Este, quase encostado à fronteira com a Argélia. E foi esse o deserto que visitámos.

Mas o conjunto de dunas de Merzouga, o Erg Chebbi, ocupa apenas uma extensão com cerca de 20 km de comprimento e 5 km de largura, formando uma espécie de bolha, ocupada por enormes dunas, as maiores que se podem encontrar em todo o Sahara, chegando a atingir 150 m de altura. 

O local é atualmente uma das principais atrações turísticas de Marrocos e está a ser gerido pelos vários hotéis que se instalaram ao longo do perímetro do Erg Cherbbi, bem próximos das primeiras dunas, dos lados Oeste e Norte. E é ao longo desse perímetro que se encontra a aldeia de Merzouga, que não deixa de ser apenas uma pequena aldeia, mas ainda assim é a maior desta zona, o suficiente para que tenham escolhido o seu nome para identificar este deserto.

Cada hotel tem depois uma zona de acampamento no meio das dunas, promovendo, dessa forma, a atividade turística mais popular, levando os hóspedes em longos passeios de camelo (que, na verdade, são dromedários), que podem mesmo ser passeios ao pôr-do-sol e incluírem a dormida nas tendas. 

Apesar de existirem atualmente mais de duas dezenas de hotéis edificados junto ao Erg Chebbi, estão de tal forma distantes entre si que não nos dão qualquer sensação de ocupação excessiva, tal como acontece com a ocupação das clareiras do deserto pelos acampamentos, também ainda não estragaram a tranquilidade do local.

E voltando à nossa viagem, planeámos dormir uma noite no hotel e, no dia seguinte, fazer uma espécie de safari em jeep, contornando todo o deserto e visitando as aldeias envolventes. Entretanto, já ao final da tarde, partiríamos numa caravana de dromedários que nos iria levar até ao acampamento onde pernoitaríamos. 

O percurso de jeep seguia mais ou menos o trajeto que represento neste mapa:
Quando saímos para cumprir o itinerário deste dia, sabíamos que o deserto não nos iria abandonar, porque na maior parte do percurso continuaríamos a ter como pano de fundo as majestosas dunas do Erg Chebbi.
O nosso tour iria passar por pequenos oásis com populações berberes fixas, mas também iríamos encontrar algumas famílias nómadas, que vivem nas suas tendas ou pequenos casinhotos.

O Ahmed, o nosso guia e motorista, era, ele próprio, um berbere desta zona e, até à geração dos pais, que se fixaram numa aldeia, toda a família era nómada, e isso conferia-lhe uma ligação muito genuína com as famílias que viríamos a conhecer.

A primeira paragem foi no oásis de Tisserdmine, mas só depois de termos feito alguns trilhos de todo-o-terreno mais radical, escolhidos propositadamente pelo Ahmed, com subida de ravinas e mesmo de dunas e até com o risco eminente de ficarmos atolados na areia mais solta, num palmeiral no meio de coisa nenhuma.
Mas rapidamente chegámos a outros pisos mais pedregosos, mas sempre com uma envolvente paisagística fabulosa.

E não nos cansámos de parar e voltar a parar, primeiro apenas para mais umas fotos, mas depois até deu para improvisar umas danças berberes ao som do rádio do carro.
Mas mais tarde, já em silêncio, haveríamos de parar de novo para alguns instantes de tranquilidade e de reflexão, enquanto contemplávamos o infinito quase absoluto daquelas paisagens.

Toda a zona de dunas do Erg Chebbi é rodeada por extensas planícies, igualmente secas e desertas, mas pedregosas e não com areia. Percorrer esta zona dá-nos uma sensação de amplitude e de infinito extraordinária. E o Ahmed sugeriu-nos que nos deixássemos ficar por ali algum tempo sozinhos, sem a proteção do jeep e dele próprio....desafiando assim o deserto....e desafiando-nos a nós próprios.

E a sensação foi brutal e emocionante, vermos o jeep a se afastar e um silêncio denso a se instalar, num espaço que parecia não ter fim, e onde os únicos seres vivos que a vista alcançava éramos nós próprios, despojados de todos os pertences, e alguns dromedários que vagueavam por ali em busca de pasto. E quanto aos seres que a vista não alcançava, imagino cobras e escorpiões, era melhor nem pensar.

Fizemos uma longa caminhada até reencontrarmos o nosso jeep e o nosso porto seguro....e o Ahmed esperava-nos curioso pela nossa reação, confrontados com aquela experiência, e resolveu tirar-nos algumas fotos que fizeram perdurar aqueles instantes.
                                                                                                                                                                                        (Photo by Ahmed)

E seguimos depois para aquela que seria a experiência mais intensa do dia e talvez mesmo de toda a viagem - o contacto com os nómadas - famílias que optam por esta forma de vida, sem destino e sem imposição de regras, preservando acima de tudo a sua liberdade.
Pode parecer uma visão algo poética desta condição, mas apercebemo-nos, pelos relatos do Ahmed, que entende bem o espírito e a motivação destes povos que, para eles, o mais importante é a sua condição de seres livres e de uma vida em paz e em perfeita harmonia. Rejeitam as regras a que os sistemas de comunidades ou aldeias se obrigam, e rejeitam também a própria cidadania, não se sentem marroquinos ou argelinos, são cidadãos livres de um deserto sem fronteiras e, naturalmente, não reconhecem qualquer legitimidade à figura do rei. Revêm-se apenas em Alá e são muçulmanos devotos.

O maior problema que este modo de vida provoca, segundo o que nos disse o Ahmed, numa revelação que não deixa de ser surpreendente, é a dificuldade em fazer com que as crianças consigam ir à escola. E é bem estranho, vidas totalmente despojadas de bens de conforto, mas conscientes da importância de levar as suas crianças à escola, para lhes abrir horizontes e dar-lhes a possibilidade de fazerem as suas próprias escolhas na altura certa.

Sabíamos desde o início do dia que nos iríamos cruzar com algumas crianças nómadas, porque o Ahmed quis levar bolos e guloseimas para lhes dar, mas não estávamos à espera de uma proximidade tão tocante, nem de uma experiência tão avassaladora.

E abro aqui um outro parentese para deixar um conselho a quem queira ir ao deserto. Tragam o que puderem trazer para oferecer a estas crianças, que certamente os vão encher de alegria.

E sentimos isso tão claramente. Estivemos com grupos de crianças de várias famílias e em vários locais, e todas tinham aquele olhar envergonhado, com os rostos fechados e sem sorrisos. Mas fomos tentando quebrar o gelo e fomos distribuindo aquilo que trazíamos, sobretudo doces, os que tínhamos levado, mas também outras coisas que estavam nas mochilas - frutos secos, chocolates, barras de cereais. E alguns traços de alegria pareciam então despertar naquelas faces, embora ainda sem sorrisos nos lábios, mas aqueles olhos baços e carregados com que nos olhavam, pareciam começar a cintilar, adquirindo um brilho que antes não estava lá. E ao sentirmos essa transformação, sentimos também um tremendo choque, que alcançou cada um de nós de forma peculiar, e todos nos emocionámos, percebendo que nunca iríamos esquecer aqueles momentos e jamais deixaríamos de recordar aquelas crianças do deserto.
         


                                                                                                                         (Photo by Marisa Martins)
         
Para além deste contacto emocionante com as crianças berberes fomos também recebidos no espaço de duas famílias nómadas.

Estivemos numa das suas tendas onde nos ofereceram chá e frutos secos em troca de nada, só pela hospitalidade e simpatia. E este foi um chá bem diferente, saboroso como costuma ser o chá de menta, mas com um significado muito especial, por nos ter sido oferecido por quem nada tem e ainda assim quis que nos sentíssemos bem-vindos.

Enquanto tomávamos o chá nem pensámos como é que conseguiriam garantir reservas de água para toda a família num local tão ermo como aquele, sem quaisquer vestígios de ribeiros ou nascentes. Mas mais tarde soubemos algo surpreendente que jamais imaginaríamos, é que o deserto de dunas contém água no seu subsolo a poucos metros de profundidade. E é a partir de poços feitos nessa zona de extensos areais, que as famílias nómadas se abastecem.

E foi então que vislumbrámos o fantástico meio de transporte usado para abastecimento de água....e impressionou-nos sobretudo a qualidade do sistema de armazenamento, que teria acondicionado previamente a nossa água do chá....o que vale é que no chá a água é bem fervida e mata a bicheza toda.
Numa outra família encontrámos a mãe a fazer o almoço, uma pizza berbere com duas rodelas de massa de um pão que parece pita, recheado com aquilo que conseguirem arranjar, mas sempre com um tempero intenso com os cominhos e o picante.

As pizzas são cozidas num forno de lenha improvisado numa cavidade feita com terra, e a senhora, sentada no chão junto ao forno, deixou que a observássemos, mas já sabíamos que não lhe deveríamos fotografar o rosto diretamente. E, entretanto, surpreendeu-nos ao nos oferecer um bocado de uma das suas pizzas, que agradecemos e provámos sem hesita. Seria uma enorme desfeita não o fazer e todos comemos daquela pizza feita com cebola e sardinha de lata, e com um paladar forte a picante e a cominhos. Uma vez mais, a simpatia e a hospitalidade deste povo a nos surpreender. 
Também aqui, as crianças voltaram a aproximar-se de nós e, como seria de esperar, conquistaram os nossos corações uma vez mais.


Saímos dos acampamentos nómadas com uma sensação estranha, como se a vida daquelas pessoas nos tivesse sido revelada como um ensinamento, uma lembrança que não iríamos esquecer e que nos deveria servir de referência para alguns momentos e algumas decisões das nossas vidas.


Só mais uns quilómetros sempre em terra batida e chegámos à aldeia mineira de Mfis. As minas que ali floresceram durante várias décadas até ao início deste século, permitiam a extração da stibnite, também chamada antimonite, um mineral com utilização na maquilhagem, e muito usado na pintura dos olhos das mulheres do Norte de África. De acordo com a descrição que o Ahmed nos fez e também como pudemos observar no local, a exploração mineira era feita em galerias profundas e estreitas, onde trabalhavam homens das tribos da região em condições difíceis e muito perigosas.

Mas a mina foi-se tornando inviável e à medida que a sua exploração foi sendo abandonada, a aldeia de Mfis foi ficando deserta e foi-se degradando, e atualmente não é mais do que uma aldeia fantasma, mas ainda bastante fotogénica, no enquadramento das imponentes dunas do Erg Chebbi, como se fosse uma imensa cadeia montanhosa.
Contornando o Erg Chebbi a Sul encontrámos um ponto de observação privilegiado com magnificas paisagens sobre as dunas, onde aproveitámos para mais uma sessão de fotografias.


No ponto mais a Sul do nosso percurso, a cerca de 6 km de Merzouga, fica Khamlia, uma pequena aldeia onde os habitantes são quase todos negros, com origem na África sub-sahariana, e que se foram estabelecendo neste local ao longo dos anos, beneficiando das trocas comerciais com as caravanas do deserto.

A aldeia é também chamada de “village des hommes noirs” pelo facto da população ser constituída por negros, como não se encontram noutros lugares de Marrocos, mas que são também bastante sorridentes e simpáticos. Mas Khamlia é sobretudo conhecida como a capital da música Gnawa, que foi trazida para esta região pelos escravos dos países mais a Sul, como o Senegal ou o Mali. Organizam-se até festivais internacionais deste tipo de música, que atraem sempre muitos participantes e visitantes.

Os instrumentos utilizados são versões rudimentares de alaúdes, tambores e uma espécie de castanholas metálicas, o chamado qraqeb

Atualmente existem umas associações ou coletividades onde se ensina e ensaia esta música e onde nos preparam um pequeno espetáculo de boas vindas para divulgação e, certamente, também esperando alguma gratificação, que será essencial para a subsistência das famílias que ali vivem.
Nos espetáculos, onde nos oferecem também o tradicional chá de menta com frutos secos, observamos os músicos que tocam e dançam de uma forma muito peculiar, numa espécie de transe, movendo todo o corpo à exceção da cabeça. 

Esta dança e este tipo de música, fazem parte de uma espécie de ritual com um significado que jamais conseguiremos entender, mas percebemos que é algo com uma força determinante e que vale muito mais do que uma simples dança....mas ainda assim, quando nos chamaram para que nos juntássemos a eles, houve logo uns corajosos, ou corajosas, que não hesitaram e foram dar o seu pezinho de dança.
E foi assim a nossa experiência durante a curta visita que fizemos à aldeia de Khamlia…le village des hommes noirs.


Para finalizarmos o percurso de uma manhã já longa entrámos na primeira estrada pavimentada do dia que percorre o perímetro do lado Oeste do Erg Chebbi, passando, desta vez, pela aldeia de Merzouga, que confirmámos ser apenas uma pequena aldeia, mas com a presença imponente das dunas.

Ao fim de mais 40 km chegámos a Rissani, a maior cidade desta zona do deserto, conhecida pela imagem de marca do bonito pórtico da sua entrada do lado Norte.
A outra grande atração de Rissani é o seu mercado tradicional que funciona junto ao souk, bem no centro da cidade, todas as terças, quintas e domingos....e era quinta-feira.
No souk e no mercado encontrámos todo o tipo de comércio bem tradicional, nada de artigos para turistas. Assistimos à venda de legumes e fruta, de carne e peixe, mas também de tapetes, tecidos e artesanato.

Mas cá fora, na rua, encontrámos a venda de outro tipo de produtos, como animais vivos, sobretudo ovelhas. Encontrámos ainda um parque de estacionamento onde estavam parqueadas algumas dezenas de burros, o meio de transporte privilegiado para este tipo de mercados.

Mas os meus locais favoritos foram algumas lojas no souk, as de especiarias e as de frutos secos, onde comprei tâmaras do oásis de Tafilalet, consideradas as melhores tâmaras do deserto.


Aproximava-se o final de tarde e o início do ponto alto deste dia, a entrada nas areias do deserto. Passámos primeiro pelo hotel para ir buscar a mochila que iríamos levar até às tendas e tivemos uma boa surpresa....as dormidas nas tendas do deserto obrigam, normalmente, a que se leve apenas uma mochila com o essencial para passarmos a noite, porque os camelos ainda não vêm equipados com porta-bagagens nem barras de tejadilho. Mas tínhamos escolhido as tendas de luxo (a outra alternativa são as tendas standart) e. neste hotel, não consegui confirmar se acontece também com outros hotéis, o luxo inclui o transporte das malas em jeep ou moto 4. Assim, quando chegarmos ao acampamento já lá vão estar as nossas bagagens.

Seguimos ainda de jeep até ao local de saída das caravanas de dromedários - e mais uma boa surpresa - éramos só nós 4....nós e os 4 camelos, numa espécie de caravana privada. 

Subimos às bossas dos dromedários e lá seguimos, por entre as dunas, numa experiência curiosa.
Apesar da extensão do deserto de Erg Chebbi não ser muito vasta, como já mencionei, no seu interior temos a sensação de que se está num deserto de areia quase infinito, pois só se avistam dunas e mais dunas para onde quer que estejamos a olhar....e essa é uma sensação extraordinária, como se estivéssemos mesmo a conquistar aquele espaço grandioso.

Ao longo do caminho, que demorou perto de hora e meia, a boa disposição instalou-se naturalmente, com toda a excitação que a experiência provoca. É algo indescritível, uma sensação que nos toca e nos alegra profundamente.

Com paisagens daquelas não parávamos de tirar fotos e pedimos também aos dois guias que acompanhavam os camelos, para nos fotografarem....e fomos colecionando algumas imagens incríveis, sobretudo devido à luz fantástica do pôr-do-sol que se aproximava.

Parámos num local privilegiado para assistirmos ao final do pôr-do-sol, desmontámos dos camelos e colocaram-nos uma manta sobre a areia para que assistíssemos confortavelmente ao espetáculo de cor que aí vinha. Mas a exaltação continuava a dominar-nos e parecíamos crianças a entrar num parque de diversões, e precisámos de alguns minutos para sossegarmos e conseguirmos simplesmente ficar parados a ver o sol que se escondia.


Já depois da noite ter caído fizemos o restante percurso até ao acampamento, aproveitando as magníficas paisagens que nos eram oferecidas em cada instante desta caminhada inacreditável pelo deserto a dentro.

Chegámos ao acampamento onde fomos recebidos por várias pessoas, simpáticas e afáveis, como sempre, e que nos prepararam uma receção com chá de menta e vários tipos de bolinhos, havia uma fogueira a arder e uma roda de homens animados, que parecia ser apenas um grupo de amigos, mas que eram também, todos eles, funcionários do hotel que ali estavam e por lá iriam também pernoitar, apenas por causa de nós....e quando digo nós, éramos mesmo só nós os quatro. Há quem se queixe de turistas a mais, mas agora calhou-nos a boa surpresa de sermos os únicos turistas para toda aquela imensidão de deserto.

Levaram-nos às tendas, eram 10, no total, mas só as nossas duas ficaram ocupadas, porque os funcionários do hotel tinham um acampamento só para eles. Tínhamos reservado tendas de luxo, em alternativa às tendas ou bivaques standard, localizados numa outra área, com o objetivo exclusivo de termos a nossa própria casa de banho, e não porque quiséssemos um ambiente luxuoso. Por isso, não esperávamos exatamente uma tenda como aquelas dos nómadas, mas também não esperaríamos a tenda de um sultão….e foi mais uma surpresa agradável porque, na verdade, parecia que estávamos mesmo nas tendas das "mil e uma noites", com todo o luxo e conforto, eletricidade, casa de banho e chuveiro com água quente. Até me senti mal, não era isto que eu queria, não era esta a minha ideia quando sonhava acampar no deserto, seria a dormir no chão a ouvir a bicharada….mas fiz um tremendo sacrifício e lá me deixei ficar na tenda do Alibabá.


Seguimos depois para a tenda central, que mais parecia a tenda do sultão, e fomos servidos que nem príncipes num jantar que será necessariamente inesquecível.

À saída juntámo-nos à roda da fogueira e entrámos na dança dos batuques, uns a tocar e outros a dançar, e ali nos deixámos ficar todo o serão. 

Mais tarde, quando nos despedimos e todos recolheram às suas tendas, e o silêncio se instalou, o deserto ficou inteirinho por nossa conta. E não resistimos a subir pelas dunas até nos sentirmos confortáveis, e por ali ficámos, sem dar pelo tempo passar, deitados na areia e a olhar para o céu, o céu mais belo e mais brilhante que pode ser visto - aquele era o céu do nosso deserto - e aqueles eram momentos tão mágicos e tão preciosos que jamais serão esquecidos.


Na manhã seguinte, ainda antes do amanhecer, não eram sequer sete horas, voltámos a ser nós os primeiros a encarar o deserto. Agora o desafio era escalar as dezenas de metros de uma das grandes dunas, de forma a assistirmos ao nascer do sol.

E já bem lá no alto, e éramos ainda os únicos, claro, deixámo-nos ficar tranquilamente à espera que o sol resolvesse aparecer e iluminasse aquele cenário fantástico que nos envolvia.


O sol foi nascendo e as dunas foram ganhando cor revelando algumas das paisagens mais belas que jamais tinha presenciado, por isso, não nos foi nada fácil deixarmos aquela duna e regressarmos ao mundo real.


Cá em baixo esperava-nos um banho quente e um pequeno-almoço apropriado à situação, ou seja, digno de um sultão. Enquanto isso, o sol instalava-se e a paisagem ia mudando.


Voltámos depois aos dromedários para o passeio de regresso, mais uma hora e meia, mas com uma nova luz e com cores renovadas.

E já não há muito que se possa dizer, só respirar fundo e apreciar a beleza das paisagens, com a certeza de que cada uma delas nos vai ficar gravada no nosso livro de recordações.


E chegou mesmo a hora de nos despedirmos do deserto e seguirmos para Norte....com um último olhar de um recente companheiro de viagem.


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