terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Entre Marraquexe e Ouarzazate


Depois da chegada a Marraquexe, a meio da tarde, num avião direto desde Lisboa, e de termos aproveitado esse primeiro serão na cidade vermelha, partimos na manhã seguinte em direção à cordilheira do Alto Atlas. O trajeto era de 200 e poucos quilómetros e levava-nos até à cidade de Ouarzazate passando por algumas das atrações dessa zona.

Mais tarde, no caminho de regresso a Marraquexe, voltaríamos a percorrer a ligação entre estas mesmas cidades, mas desta vez escolhendo um trajeto ligeiramente diferente, com diferentes locais para visitar.

Os percursos efetuados, à ida e no regresso, da nossa viagem ao deserto, seguiram os trilhos e pontos de passagem que aparecem neste mapa
Quando saímos de Marraquexe fizemos um percurso direto até à encosta Norte do Atlas, onde começam a aparecer as primeiras aldeias berberes, onde fomos parando com grande entusiasmo….. talvez pela novidade.
Mais à frente começámos a escalada das encostas do Atlas, um percurso adornado pelas imagens fantásticas das montanhas ainda salpicadas do branco dos últimos nevões.

Continuámos depois, já por estradas de montanha, numa escalada que nos mostrava paisagens com cores que iam mudando sempre, como tantas vezes iria acontecer, e desta vez o tom dominante era o castanho, marcado por linhas brancas dos cordões de neve que se mantinham no topo das encostas.

Chegámos ao ponto mais alto daquela travessia sobre o Atlas, num local que se chama Tizi n'Tichka ou Col du Tichka e que atinge uma altitude de 2.260m, assinalada por um pequeno monumento à beira da estrada.....e pelas bonitas paisagens das montanhas nevadas.

Daí em diante começámos a descida da vertente Sul e escolhemos o trajeto mais a Oeste, ou à esquerda, se olharmos para o mapa. 

Entrámos num vale onde os vermelhos da própria terra e das aldeias voltaram a aparecer, o que nos levou a fazer sucessivas paragens, sem grande propósito que não fosse apreciar a paisagem e tirar fotografias.
Foi assim que percorremos cerca de 50 quilómetros numa estrada com pouquíssimo trânsito, que nos ia levando de aldeia em aldeia, revelando-nos sempre imagens lindíssimas que fomos apreciando e fotografando, sem perder pitada.

A cerca de 25 km do ponto onde iriamos fazer a próxima paragem, desde logo para almoçarmos, mas também para visitarmos o Kasbah Ait Ben-Haddou, o ex-libris desta região, o Ahmed, o nosso motorista, perguntou se queríamos continuar pela estrada pavimentada e percorrer os 25 km que faltavam para o nosso destino, ou se preferíamos seguir a corta-mato, num percurso todo-o-terreno de apenas 6 km, mas por trilhos totalmente inexistentes, confiando na sua perícia e capacidade de orientação. E não hesitámos, até porque o Ahmed é berbere e certamente não se iria perder.

E lá fomos por trilhos mais ou menos radicais, conforme as escolhas do Ahmed ou do próprio jeep. E no meio do nada parámos o carro, saímos e começámos a caminhar…….como quem desafia o deserto.

E este é o tipo de deserto que preenche grande parte do Sul de Marrocos, sem dunas, mas completamente desprovido de vida. Paisagens que nos arrepiam……….e um silêncio quase aterrador.


E talvez para quebrar aquele momento que se prolongava, o Ahmed abriu as portas do jeep, ligou o rádio e aumentou o volume da música marroquina que saía pelas colunas…….e houve logo quem desatasse a dançar freneticamente no meio daquele nenhures……e só para que não fiquem dúvidas, não fui eu nem o Rui.

Aqueles 6 km de todo-o-terreno foram muito mais do que uma pequena aventura…...foram uma forma de nos entregarmos incondicionalmente àquela envolvente, que mais do que marroquina, naquelas paragens, é sobretudo berbere…….povos livres que vivem hoje integrados num país, sob as leis de um monarca, mas que são e continuarão a ser sempre livres. 

Mais à frente encontrámos os primeiros sinais de vida…….um rebanho com um pastor no meio do nada, mas que nos fez sinal de que não queria ser fotografado……..e o Ahmed justificou……é por causa do Facebook e outras redes sociais, não querem que as suas fotos apareçam por lá…….coisa mais bizarra!
Fizemos uma paragem para e almoço tivemos a primeira experiência gastronómica berbere, ao partilharmos os tradicionais tajine e cuscuz, os pratos mais comuns em Marrocos, que acompanhámos com um excelente pão árabe e com uns sumos de laranja, que aqui são muito comuns e bastante saborosos.

Descemos depois até ao rio e entrámos no Kasbah Ait Ben-Haddou, um dos kasbahs mais importantes de todo o país e o único classificado pela UNESCO como património mundial, já desde 1987.
Ait Ben-Haddou era uma cidade fortificada localizada nas margens do rio Ounila, numa antiga rota de caravanas entre o Sahara e Marraquexe. A cidade é constituída por um grupo de várias fortalezas pequenas, todas construídas em adobe, com barro vermelho que marca a tonalidade de toda a antiga cidade. 

A maioria dos habitantes da cidade vive agora numa aldeia mais moderna, do outro lado do rio, e atualmente o kasbah não é mais do que um polo turístico, dos mais afamados de Marrocos, e está preparado para receber os muitos visitantes que por ali passam, com o habitual comércio de rua. 

Quisemos ainda contemplar o kasbah em toda a sua envolvente e por isso voltámos a sair para o leito do rio e contornámos toda a cidade, voltando a entrar por uma porta no lado oposto da entrada principal, e subimos depois até ao alto do monte que se ergue por detrás do aglomerado de casas, conseguindo assim apreciar novas perspetivas da cidade.


A maioria das casas encontram-se num estado de conservação bastante razoável, com os pormenores arquitetónicos ainda bem definidos, apesar do material de construção ser vulnerável aos fenómenos de erosão.

E como o seu estado atual está ainda bem cuidado, o espaço revela uma beleza rara e extraordinária e, talvez por isso, este kasbah tenha sido utilizado tantas vezes para a rodagem de filmes, como o clássico Lawrence da Arábia, a Múmia, o Gladiador ou, o mais recente, Queen of the Desert, entre outros.
Depois de terminarmos a visita, o nosso motorista resolveu uma vez mais levar o jeep para fora de pista e levou-nos até ao topo da colina localizada bem em frente do kasbah, onde pudemos desfrutar de paisagens privilegiadas.
Percorremos 25 km na direção de Ouarzazate e fizemos um pequeno desvio até ao Kasbah Tifoultoute. Um dos muitos kasbahs desta região, o Kasbah Tifoultoute é uma fortaleza que pertenceu à família de Thami El Glaoui, o Pasha Glaoui, um importante líder político de Marrocos da primeira metade do século XX, que era proprietário de um sem-número de palácios e fortificações, algumas deles em muito mau estado.......como acontece com este. 
De qualquer forma o enquadramento do kasbah sobre a colina que se ergue do imenso palmeiral que se estende pelo vale do rio Ouarzazate, é uma imagem bem bonita……sobretudo com as cores de um final de tarde soalheiro, como este.
Seguimos depois até Ouarzazate, onde iríamos pernoitar, e fizemos ainda uma última paragem na principal fortificação e símbolo da cidade, o Kasbah Taourirt, mais um palácio do clã do Pasha Glaoui.

O kasbah foi construído em meados do século XVIII, mas encontra-se em bom estado de conservação e está numa zona da cidade com alguma oferta cultural, integrando um anfiteatro para espetáculos ou eventos ao ar-livre, e junto a uma praça ampla, que valoriza o aspeto da fachada principal do palácio.
Mas a vista mais completa e privilegiada deste kasbah é aquela que enquadra o seu alçado posterior, sobretudo como o encontrámos, ao entardecer, com a luz do sol que se começava a esconder, matizando toda a fachada em tons alaranjados…..mais uma vez o festival das cores que nos acompanha sempre ao longo deste país.
Desta vez fomos diretos para o Riade, o Dar Rita, propriedade da Rita Leitão, a organizadora da nossa viagem, mas uns dias depois, quando regressávamos do Sul, fizemos ainda uma visita ao centro da cidade de Ouarzazate, percorrendo o imenso mercado em torno da sua praça principal, a Place Al-Mouahidine.

Ouarzazate ou War-Zazat, no dialeto berbere, significa "sem barulho", mas a cidade nem é particularmente silenciosa, embora de manhã custe a acordar e já depois das 9h ainda não se via grande movimento de pessoas ou atividade de comércio.....mas os marroquinos são assim, vivem mais intensamente à tarde e à noite do que de manhã (talvez seja uma influência do Ramadão). 

A cidade de Ouarzazate situa-se no sopé das encostas Sul do Alto Atlas, na confluência dos vales dos rios Ouarzazate e Dadés, que se juntam ao maior rio do país, o Draa, a jusante da cidade. É a cidade de transição entre as montanhas do Atlas e o deserto do Sahara, e será a primeira cidade marroquina claramente marcada pela cultura berbere.....e é também conhecida como a capital do Sul.

A principal atração turística da cidade e da região envolvente são os kasbahs que se dispõem pelas montanhas e pelas planícies áridas, ou nos vales e oásis verdejantes. 


No nosso regresso do deserto voltámos a dormir uma noite nesta cidade e, no dia seguinte, o 6º dia da nossa viagem, fizemos o percurso de volta a Marraquexe, mas dessa vez percorremos caminhos distintos e visitámos outras atrações.

Começámos por visitar os Estúdios de Cinema de Ouarzazate, uma das referências desta zona do país. Uma pequena Hollywood marroquina que tem sido palco para a rodagem de várias dezenas de filmes, muitos deles bastante famosos. Sempre que se quer reproduzir o ambiente de um país árabe, atual ou em épocas mais remotas, encontram-se ali, para além das infraestruturas dos próprios estúdios, os locais ideais para se fazerem filmagens…..como os kasbahs, os oásis ou o deserto de dunas, mais a Sul, e as montanhas nevadas do Atlas, um pouco a Norte.

Existem 2 estúdios distintos, embora conectados, o Cinema Studio Atlas e o CLA Studios, o que obriga a duas visitas distintas. O primeiro fica num complexo onde está também um hotel, o Hotel Oscar, numa alusão às estatuetas douradas de Hollywood. Estes estúdios estão apetrechados com uma série de cenários que reproduzem o antigo Egito.
Os CLA Studios incluem duas infraestruturas principais para filmagens. Na primeira existe uma espécie de museu, com peças utilizadas em vários filmes e com aqueles armazéns enormes, um deles com uma grande piscina para filmarem cenas passadas em mar-alto. E foi aí que começámos a nossa visita

Além do preço da entrada, 20 Dh ou 2€, levámos um guia a quem pagaríamos no final em função da sua competência. E o nosso foi bem competente, e bastou um pequeno truque que fez toda a diferença, trazia um tablet e ia-nos mostrando as cenas dos filmes que tinham sido rodados naquele local ou com aquele adereço…….muito giro visto dessa forma, porque, na realidade, os estúdios estão mal tratados e até parecem abandonados e com um aspeto deprimente. Mas estão ainda a ser utilizados e uns dias antes tinham mesmo estado em filmagens. Penso que só nessas alturas é que aqueles espaços adquirem vida……e não fazem por menos, juntando naquele local algumas das principais estrelas do cinema americano.
O terceiro local de filmagens, que pertence aos CLA Studios, é constituído por uma série de cenários que recriam espaços medievais, o que atrai todo o tido de produções passadas nessa época, como é o caso do famosíssimo Game of Thrones, rodado naquele local, como pudemos testemunhar através das imagens que nos foram mostradas no tablet do guia.
Apenas uma referência para a lista imensa dos filmes que ali foram rodados desde os anos 50, contendo alguns épicos, como o Cleópatra ou o Lawrence das Arábias. Mas a mim interessaram-me sobretudo a existência na lista de dois dos meus filmes de referência, o Gladiador, de Ridley Scott, e o Babel, do Alejandro Iñárritu.


À saída dos estúdios seguimos na direção do Atlas, agora escolhendo o trajeto mais a Este, como se representa neste mapa.
Fomos percorrendo caminhos ao longo de vales encaixados em montanhas argilosas com uma tonalidade avermelhada……sempre as cores a dominarem a paisagem……e encontrando aldeias, também elas de um vermelho forte. Em muitos casos as aldeias antigas ficaram degradadas e foram sendo abandonadas na medida em que as pessoas se mudavam para casas novas, e assim foram-se criando as aldeias atuais. 

As paisagens que vamos encontrando são fantásticas, com as duas aldeias, a atual e a antiga já abandonada, com as bonitas montanhas vermelhas e com os verdes dos palmeirais junto às linhas de água.


E ao longo desta estrada não paravam de aparecer sucessivas aldeias berberes, sempre tão pitorescas e tão autênticas, que não hesitávamos em saltar do carro para mais umas fotos.


Além das aldeias berberes, que continuavam a aparecer, as imagens das encostas do Atlas, marcadas pelo branco da neve, começavam a surgir também cada vez mais próximas.


Até que a última destas aldeias era um bocadinho maior que as anteriores, chamava-se Télouet e é conhecida pelo seu kasbah, também denominado por Kasbah do Pacha Glaoui
O kasbah foi construído entre o final do século XIX e o início do século XX junto à vila berbere de Télouet, ocupando uma posição estratégica no Alto Atlas, num lugar de passagem das caravanas comerciais que ligavam o Sahara à costa do mar Mediterrâneo, e também próximo de importantes minas de sal, uma mercadoria que sempre foi valiosa entre as populações do Sul.

Até meio do século XX o kasbah foi um local de grande luxo e riqueza, mas depois disso, com a morte do Pacha, foi abandonado gradualmente e foi ficando repentinamente degradado, parecendo atualmente uma ruína, e mantendo apenas uma pequena amostra da riqueza arquitetónica que continha.
O Pacha Glaoui, também conhecido como o Senhor do Atlas, e já mencionado neste texto sobre outros dois kasbahs em Ouarzazade, que eram também propriedade da sua família, tinha uma quantidade imensa de kasbahs, mas o de Télouet era o seu principal palácio e uma das suas mais importantes fortificações.

Como já referi foi um dos mais célebres líderes políticos de Marrocos da primeira metade do século XX. Foi chefe tribal dos berberes, mas chegou a ser também o Pacha (ou Paxá) da cidade de Marraquexe (uma espécie de sultão, na designação turca-otomana). Chegou a ter grande poder enquanto Pacha de Marraquexe, apoiando os franceses que mantinham o regime de protetorado, e contra quem o rei Mohammed V se opunha. Nessa altura chegou a ser visitado por algumas figuras internacionais de referência, como Winston Churchill ou Charlie Chaplin, que foram recebidos com pompas de estado no seu palácio de Télouet, luxuosíssimo à época, como podemos imaginar pelos detalhes que ainda se mantêm. 

Estas e outras histórias foram-nos contadas pelo guia que nos acompanhou, numa visita à pequena zona do palácio que ainda mantém os traços da riqueza arquitetónica original.

Explicou-nos também que em 1956, exatamente no ano da libertação de Marrocos do protetorado francês, que permitiu o regresso do rei Mohammed V, o Pacha Glaoui morreu de cancro no seu palácio em Télouet. Desde então todo o kasbah entrou em total degradação e, só recentemente, com o regresso ao país de alguns descendentes da família do Pacha, foi possível abrir as visitas ao palácio, reservando-se, dessa forma, o valor das entradas de 20 Dh/pessoa, para futuros trabalhos de reabilitação que vão ser necessários.
Voltámos à estrada, estávamos a 130 km de Marraquexe e, pelo caminho, tínhamos ainda de atravessar o Alto Atlas, de novo no ponto de passagem de Tizi n'Tichka.

Fizemos apenas mais duas paragens durante esse caminho. Uma para visitar um espaço onde pudemos assistir ao processo de fabrico do Óleo de Argan. Um óleo que se obtém da seiva dos frutos, uma espécie de amêndoas, de uma árvore chamada Argania Spinosa. As amêndoas são esmagadas através de pequenas mós de pedra, que vão sendo rodadas pelas mulheres berberes, obtendo-se um óleo que é considerado como um bálsamo para o corpo e para o espírito, com um sem-número de utilizações possíveis.
A outra paragem serviu apenas para um último olhar sobre a beleza das montanhas do Alto Atlas.




segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Marrocos - Le Sud


(Janeiro de 2018)

No final de janeiro de 2018 partimos à aventura até às portas do Sahara, saindo de Marraquexe, atravessando a cordilheira do Atlas e percorrendo depois as terras do Sul de Marrocos até às areias do deserto. 

Era esse o nosso objetivo, ou mesmo mais que um objetivo, o deserto era uma atração que sempre nos tinha fascinado e que agora iríamos alcançar.
Além da minha mulher, a Ana, habitual companheira de viagens, desta vez vieram também dois amigos, a Marisa Martins e o Rui Cabrita, que já nos acompanharam noutras viagens, e formam connosco uma excelente equipa para estas aventuras.

A viagem começou com um voo direto para Marraquexe, onde passámos uma noite, e fizemos depois um percurso de cerca de 1400 km em jeep, com regresso de novo a Marraquexe, onde ficámos mais um dia completo até ao voo do dia seguinte, de volta a Lisboa. 

Desta vez, e ao contrário do que é habitual, marcámos o percurso através de um site que providenciou a organização do tour até ao deserto, garantindo as viagens de jeep com motorista e as estadias nos hotéis ou riads.

Recomendo francamente a equipa com quem fizemos a viagem e, por isso, vou deixar aqui as referências e os contactos. A organização foi feita pelo site http://www.marrocos.com/ e o contacto foi através da Rita Leitão - emailmarrocos@gmail.com - uma portuguesa que vive em Ouarzazate e que organiza todo o tipo de passeios por Marrocos. O nosso motorista foi o Ahmed, que falava apenas um espanhol ainda um pouco atabalhoado, mas compensava perfeitamente com a sua simpatia e disponibilidade. Como estávamos interessados em tirar boas fotos, o Ahmed inventava trilhos todo-o-terreno para nos levar aos locais com as melhoras vistas panorâmicas. Além disso nunca nos tentou impingir restaurantes ou lojas, como consta ser habitual nestas paragens. 

Desta vez, além da crónica de viagem mais detalhada, que vou apresentar ao longo destas páginas, deixo aqui também um vídeo com um breve resumo da nossa viagem, uma versão mais instantânea e apelativa, daqueles dias que passámos em Marrocos (vídeo by Rui Cabrita).


Marrocos é um país muçulmano do Norte de África, com uma população de cerca de 35 milhões de habitantes, formada por árabes e pelos povos berberes, todos eles praticantes da religião islâmica. É uma monarquia governada atualmente pelo rei Mohammed VI, que tem tentado introduzir algumas alterações aos costumes tradicionais, modernizando um pouco mais a vida dos marroquinos, como é o caso da lei que permitia a poligamia para os homens, até a um máximo de 4 mulheres, que foi anulada pelo novo rei.

O turismo tem um papel determinante na economia do país e talvez seja também por isso que a sua população é tão afável. Árabes e berberes são sempre muito simpáticos, tentam falar a nossa língua, mesmo o português, embora o mais comum seja encontrar quem fale o francês e o espanhol (pela influência dos antigos protetorados destes dois países), mas mesmo o inglês é bastante comum. E não é apenas com objetivo do comércio, eles são simpáticos por natureza.

Talvez também para que o turismo seja bem preservado, o país revela-se bastante seguro, não há grande risco de assaltos, embora nas cidades grandes possam existir alguns carteiristas….mas isso há por todo o lado. Mesmo em relação ao terrorismo, existem medidas de proteção permanentes, evitando que um atentado possa afastar os turistas, com o enorme prejuízo que isso traria para o país e para o seu povo.


Em relação ao percurso que fizemos ao longo desta viagem, seguimos o roteiro representado no próximo mapa e detalhado nas descrições que se seguem.

Mas gostava de registar que, mais do que o itinerário turístico que aqui represento, esta foi sobretudo uma viagem pelas culturas, a árabe e a berbere, diferentes entre si e ambas tão ricas e tão estranhas e fascinantes para nós, e foi também uma viagem de contrastes que nos levou pelo mundo das cores, não só aquelas que salpicam os souks, nas bancas de especiarias ou nos tecidos e tapetes garridos, mas também as cores da terra que atravessámos....o branco das montanhas nevadas, os vermelhos da terra e das casas no alto Atlas, os verdes dos palmeirais nos oásis, o amarelo alaranjado das areias do deserto, ou ainda o negro forte da cordilheira do anti-atlas.



Dia 1: Lisboa - Marraquexe
Dormida no Riad Riad Dar El Masa: http://www.riad-darelmasa.com

Dia 2: Marraquexe - Alto Atlas (Tizi n'Tichka) - Kasbah Ait Benhaddou - Kasbah Tifoultoute - Kasbah Taourirt - Ouarzazate. 
Dormida no Riad Dar Rita: http://www.darrita.com/hotel-marrocos/

Dia 3: Ouarzazate - Oásis de Skoura (Kasbah Amridil) - Kelaat Boulmane (Vale das Rosas) - Boumalne Dadès - Gargantas e vale do rio Todgha - Erfoud - Deserto de Merzouga. 
Dormida no hotel Auberge du Sud, às portas do deserto: http://www.aubergedusud.com/pt/

Dia 4: Deserto de Merzouga - Oásis Tissardmine - Acampamentos Nómadas - Minas de Mfis - Aldeia de Khamlia - Merzouga - Rissani - Deserto de Merzouga - Percurso de dromedário (cerca de 1h30m) pelas dunas de Erg Chebbi até ao acampamento, com uma paragem durante o pôr-do-sol. 
Dormida em tendas de luxo do Auberge du Sud: http://www.aubergedusud.com/pt/

Dia 5: Subida a pé ao alto das dunas ao amanhecer para acompanhar o nascer do sol - Depois do pequeno almoço, passeio de dromedário de volta - Voltando ao jeep até Rissani - Alnif - Tazzarine - Nkob - Agdz (Vale do Draa) - Desvio até ao Oásis de Fint - Ouarzazate.
Dormida no Riad Dar Rita: http://www.darrita.com/hotel-marrocos/

Dia 6: Ouarzazate - Estúdios de cinema CLA - Télouet (Kasbah do Pacha Glaoui) - Alto Atlas - Marraquexe
Dormida no Riad Dar El Masa: http://www.riad-darelmasa.com

Dia 7: Marraquexe
Dormida no Riad Dar El Masa: http://www.riad-darelmasa.com

Dia 8: Marraquexe – Lisboa


Nos posts seguintes registei as crónicas de cada um dos percursos que efetuámos:

Ainda antes de terminar queria deixar apenas algumas dicas para quem quiser fazer uma viagem semelhante.

A duração total desta viagem foi de 8 dias, o que permitiu um tour de 5 dias pelas terras do Sul, o período suficiente para fazer este itinerário. Porém, existem tours ao deserto, a partir de Marraquexe, que são feitos em menos dias, 4 ou mesmo 3, os quais, na minha opinião, têm uma duração insuficiente. 

Quando pensamos na melhor altura para fazer esta viagem não tenho dúvidas em dizer que é bem melhor irmos nesta época, inverno ou primavera, evitando assim os 40 e muitos graus de temperatura, quer no deserto quer em Marraquexe. Mas tentem fugir das épocas muito altas, como a Páscoa, Carnaval ou passagem de ano, porque o fascínio destes locais pode-se perder com grande concentração de turistas. Neste período, no final do mês de janeiro, estes locais estavam encantadores, com uns dias bonitos de sol e sem grande confusão…..mas há quem se queixe de algum frio, sobretudo nas noites do deserto....mas não foi o meu caso. 

Outra dúvida que se coloca é a eventual necessidade de fazer esta viagem de jeep, ou se podemos ir em viatura própria a partir de Portugal ou alugar em Marraquexe algum carro ligeiro. Na verdade, grande parte da viagem pode ser feita com qualquer viatura uma vez que as estradas são quase sempre pavimentadas. No entanto, existem alguns lugares que justificam um veículo todo-o-terreno, nomeadamente durante o dia em que andamos em torno do deserto, mas, para esse dia, podem deixar o vosso carro no hotel às portas do deserto e alugar aí um tour em jeep com motorista. De qualquer forma considero que se tivéssemos ido em viatura própria teríamos perdido alguma coisa, porque o nosso driver acabou por nos levar a conhecer uns recantos mais escondidos que, de outra forma, não iríamos descobrir.

O chá de boas-vindas, que é um chá de menta, por vezes servido com frutos secos ou biscoitos, é um hábito marroquino que revela a hospitalidade de quem nos recebe, seja num riade ou hotel, ou numa loja qualquer, mesmo antes de termos comprado alguma coisa. E sabemos que nas casas marroquinas a oferta de chá é também uma prática corrente. Refiro este detalhe apenas para assinalar que será de bom tom aceitar este chá de boas-vindas, tornando-se pouco cordial recusar a oferta. O chá é sempre servido em pequenos copos de vidro, utilizando um bule metálico trabalhado, como o que registámos nesta fotografia.

Acrescento uma outra dica, agora sobre a moeda oficial do país, o Dirham marroquino. Em primeiro lugar é possível obter dirhams nas máquinas de multibanco, mas não são muito comuns fora das cidades grandes e nem sempre nos deixam tirar dinheiro. Um euro vale cerca de 11 dirhams, o que permite que se faça uma conversão mais prática de 1 euro para 10 dirhams, que é favorável aos marroquinos e que faz com que eles aceitem que paguemos em euros. Apesar desta pequena perda no câmbio sugiro que se leve sempre algum valor em euros, ou para fazer o pagamento direto de algumas compras, ou mesmo para trocar em casas de câmbio ou em bancos, e nesse caso será praticado o câmbio oficial.

Falando agora de compras, um dos atrativos deste país, mas também uma dor de cabeça para os turistas, como é sabido, para qualquer compra em mercados ou lojas tradicionais é indispensável regatear preços. É algo que faz parte da cultura local e, por isso, é inevitável entrarmos nessa onda sempre que queremos adquirir algum produto. Mas a mim, essa necessidade de regatear preços é uma coisa que me chateia, confesso, e chateia-me sobretudo que me tentem impingir produtos que eu nem sequer quero comprar. Por isso fizemos um trato, tendo a consciência daquilo que queríamos mesmo comprar, e que conseguiríamos transportar no avião, e que eram apenas alguns souvenires e dois tapetes berberes perfeitamente identificados, e só avançámos no regateio quando decidimos que era a altura certa para a compra. Isso fez com que ao longo de toda a viagem tivéssemos estado mais tranquilos e praticamente imunes à constante pressão que todo o tipo de vendedores fazem sobre os turistas. A solução é acenar com a cabeça dizendo que não, sem parar ou vacilar, e terminar com um sorridente e firme “shukran”....o obrigado na língua árabe.


Fecho esta crónica, em tom de balanço, dizendo que fiquei absolutamente encantado com este país e que espero voltar em breve para explorar outras paragens, as chamadas Cidades Imperiais, vindo diretamente de carro, de Tarifa ou de Algeciras, e percorrendo o país a partir do Norte.

Alguns dos locais visitados são extraordinariamente cativantes, com a sua arquitetura tão genuína, com as cores das terras e das aldeias, que vão mudando sempre, com os kasbahs berberes, grandiosos ou já arruinados, e com tanta história para contar, com as montanhas e os oásis e, claro....com o deserto, não só o deserto de dunas, mas todas as terras desertas que vamos encontrando desde o Atlas e por todo o Sul do país. Mas para além dos locais visitados, o que realmente mais nos encantou foram as próprias pessoas, tão afáveis e tão simpáticas....e uma das experiências mais marcantes foi mesmo o contacto que tivemos com as famílias nómadas, nos seus acampamentos, com os seus parcos pertences....e com as suas crianças....as crianças que tanto nos tocaram e sensibilizaram....e foram os olhares tímidos daquelas crianças que nos haveriam de emocionar de uma forma tão intensa e completamente inesperada.

Termino referindo os instantes mágicos e quase indescritíveis que experimentámos quando nos deixámos ficar sobre as dunas, inspirando o ar frio das noites do deserto, apreciando um silêncio absoluto e contemplando o espetáculo magnífico de um céu infinito com mil estrelas cintilando, como só no deserto podemos encontrar.




Carlos Prestes
Janeiro de 2018

terça-feira, 29 de agosto de 2017

A verdadeira cozinha algarvia

Para além da descrição dos locais visitados, que vou fazendo nestas crónicas, para ilustrar devidamente cada viagem não posso deixar de mencionar a oferta gastronómica que cada local proporciona. Embora este não seja um espaço para analisar e classificar restaurantes, em certas viagens surgem restaurantes que acabam por ser relevantes para a experiência vivida e, nesses casos, acho importante mencioná-los nas minhas crónicas. 

No entanto, muitas vezes, a gastronomia não se revela importante e a opção por um restaurante é meramente aleatória e, nesses casos, acabo por não fazer sequer qualquer referência. Mas existem alguns lugares onde a escolha dos restaurantes e da sua oferta é fundamental para apreciarmos devidamente o local visitado. 

É sobretudo em Portugal que a escolha dos restaurantes me vai merecer mais referências e, neste caso, vou referir-me particularmente ao que se pode comer na região do Algarve. 

O Algarve tem uma oferta enormíssima de restaurantes e, há dois anos atrás, tive a oportunidade de publicar uma crónica relativa a um dos melhores restaurantes algarvios. A crónica chamou-se “Uma experiência gastronómica”, e referia-se ao Vila Joia, um dos restaurantes mais caros do país e o primeiro a ser contemplado com duas estrelas Michelin. Mas sendo um restaurante algarvio também não é, de todo, um restaurante de comida algarvia. E o que pretendo fazer agora é descrever a minha experiência de degustação da comida típica algarvia, dos verdadeiros sabores da região. E, para tal, experimentei vários restaurantes mas apenas um me convenceu verdadeiramente. 

Esta crónica vai falar sobretudo da nossa experiência numa noite de final de agosto em Estômbar, no restaurante “O Charneco”... um nome a fixar. 

Mas vou ainda começar por falar de outras experiências, de outros locais e de outros tempos, algumas até mal sucedidas. 

Ao vasto menu que a degustação no Charneco nos ofereceu, e que irei descrever mais à frente, acrescento agora três pratos, que são bastante comuns na região do Algarve, e que poderiam figurar num menu de uma espécie de top 10 da comida algarvia. 


E começo pela Sardinha Assada. Não a provámos no Charneco e nem é sequer uma iguaria regional, visto que a podemos saborear por toda a nossa costa, e basta lembrar a época dos Santos Populares, quando a sardinha é rainha, ou, por exemplo, a sardinha que se come junto à lota de Matosinhos. Mas aqui a sardinha come-se principalmente em Portimão. Junto à foz do Arade, atravessamos um arco que nos leva à praça dos restaurantes, com um grelhador comunitário onde todos levam o seu peixe para assar. Sugiro dois restaurantes, o Peixarada e o Dona Barca. Este último é muito mais famoso, o que torna mais difícil arranjar lugar e, por isso, acabo quase sempre por escolher o Peixarada. Não sei se é ali que se come a melhor sardinha do Algarve, e certamente também dependerá da própria sardinha estar mais seca ou mais gorda, mas o que vos posso dizer é que ali se comem umas belas sardinhas e não há Verão em que eu não passe por Portimão para uma sardinhada.


Outro prato característico da região algarvia, e que também não estava incluído no menu daquele dia, é o Arroz de Lingueirão, típico sobretudo na Ilha de Faro, e também imperdível nas nossas viagens ao Algarve num dos restaurantes da ilha.


Para terminar as referências gastronómicas que não foram contempladas no menu daquele dia no Charneco, mas que são experiências imperdíveis da gastronomia algarvia, falta mencionar o Franguinho da Guia. Naturalmente, na Guia, esta receita de pequenos frangos assados e bem temperados, pode ser encontrada em vários restaurantes, mas registo aqui a minha preferência evidente pelo restaurante O Teodósio. Mais um sítio que repetimos todos os Verões. 

Ainda antes de chegarmos ao Charneco vou referir um outro restaurante que me tinha sido “vendido” como sendo o melhor espaço para experimentar a boa comida tradicional algarvia. Refiro-me ao restaurante Vila Lisa, na Ameixoeira Grande, próximo do Alvor. Um restaurante com uma decoração interessante, com quadros pintados pelo proprietário, e com um conceito que parecia vencedor, uma degustação de pratos regionais, num ambiente que mistura o típico e genuíno algarvio com uma tendência artística e intelectual. E foi assim que foram atraindo milhares de visitantes todos os anos, e mesmo fora do verão, o que fez com que o restaurante tivesse ficado na moda, e não há nada pior. Quando lá fui já estava na moda, mas deu para usufruir do espaço e do ambiente e até foi uma noite divertida, talvez por causa das garrafas de aguardente de medronho e de abafadinho que deixaram na nossa mesa. Mas a verdade é que a refeição propriamente dita, e que, na minha opinião, é o que mais importa - chamem-me conservador - esteve muito aquém das expetativas. Serviram uma série de pratos e todos eles típicos da região, mas já não me pareceu que se preocupassem com o rigor e a qualidade, nomeadamente na escolha da cozinheira, porque as casas cheias já estavam garantidas dia após dia. Foi este o exemplo do restaurante típico mais afamado do Algarve que se revelou como uma tremenda desilusão, apesar de ter sido uma noite super divertida... como já mencionei. Ah, é verdade, o preço também não foi particularmente simpático... pagámos 35 € por pessoa há já 4 anos. 



E, finalmente, depois de muitos outros restaurantes que fomos experimentando ao longo dos anos em toda a região do Algarve, encontrámos O Charneco. Aconteceu no final de agosto de 2017, tinha-me sido recomendado e fiz a reserva pelo telefone. Encontra-se bem no coração de Estômbar, a pequena vila de casas brancas, situada entre Lagoa e Portimão. O restaurante fica ao lado da sede do Clube de Futebol "Os Estombarenses" e mesmo atrás da igreja local, um bonito edifício, também ele caiado de branco, como toda a vila.
O nome aparece sobre a porta, onde se refere também, para que não hajam dúvidas, que se trata de uma Tasquinha.
A decoração é a que se espera de um restaurante típico, sem luxos nem grandes pretensiosismos, quase como se estivéssemos numa casa de família, com fotos e outros objetos pessoais. Na verdade é um espaço descontraído onde nos sentimos bem. 

O atendimento é perfeito, também familiar. O Sr. Charneco andava por lá mas, na altura, já era a filha que assegurava a cozinha... e de que maneira!

Explicaram-nos apenas o conceito, vão trazendo os pratos que prepararam para aquele dia, e só temos que escolher as bebidas, que também estão incluídas no preço do menu. Escolhemos água e vinho branco, que é da casa, sem marca, mas que nos pareceu bastante agradável.
Depois das bebidas e de um pão de fatia, que parecia o típico pão alentejano, mas que era um pão algarvio, começou o desfile de iguarias confecionadas pela cozinheira... que é muito mais chef do que muitos outros que assim se apelidam.

Começaram por uma entrada fria numa Tábua de Queijo e Presunto, e umas tigelas com Azeitonas, com um Picadinho de Febra de Porco com tempero de alho, azeite, vinagre e salsa, com uma Salada de Cenouras à Algarvia, cortadas às rodelas e temperadas com azeite, alho e salsa, e ainda com umas fatias de Muxama de Atum em azeite. A muxama é um produto feito com a mesma receita que os fenícios e os romanos utilizavam há dois mil anos. Resulta de um antigo modo de processamento do peixe, utilizando os lombos do atum, que são curados em sal grosso e depois lavados para retirar o excesso de sal, resultando numa espécie de presunto do mar, e com o aspeto muito semelhante ao do presunto.
Da entrada passámos para a sopinha do dia, uma Tomatada quente com ovo, que em vez de escalfado tinha sido mexido na sopa, que estava perfeitamente deliciosa. 
Os pratos iam-se sucedendo e nem sempre nos diziam do que se tratava, deixaram alguns para que adivinhássemos. Foi o que aconteceu com o prato seguinte... e não adivinhámos. 

Era uma salada fria e tinha o tempero habitual de uma salada de polvo, com cebola picada, azeite, vinagre e salsa, mas, neste caso, com umas batatas cozidas e com uma iguaria que eu nunca tinha provado, as Ovas de ChocoUma delícia, digo-vos eu, que nem aprecio cebola crua e não morro de amores por batata cozida e, ainda assim, considerei este prato um dos petiscos top da noite. 
Ainda nos frios, brindaram-nos com os tradicionais Carapaus Alimados, um prato dos mais típicos do Algarve, com os lombos de carapau bem salgados, quase a parecerem de conserva. Neste caso acompanhavam com rodelas de tomate algarvio, o chamado tomate rosa, e alho cru, para os mais corajosos.
A noite foi passando e o apetite começava já a escassear depois de, nos petiscos iniciais e de forma pouco cautelosa, termos abusado do pão e até do vinho. 

Mas não íamos deixar de cumprir a empreitada até ao fim e, assim, fomos substituindo o vinho pela água e deixámos de molhar o pãozinho. 

Chegaram os pratos quentes, mais um difícil de adivinhar. Eram pataniscas, isso dava para perceber, mas não eram de bacalhau. E, de facto, era um prato menos comum, tratavam-se de Pataniscas de Raia, raras e muito saborosas.
Para quem não fuma e, por isso, não tem necessidade de fazer umas saídas periódicas, recomendo que façam também umas pausas, vão até ao largo da igreja, apanhem ar e estiquem as pernas. E este é um dos momentos-chave para essa pausa... é que ainda falta uma entrada, um prato de peixe e um de carne, e uma sobremesa, ou seja, é como se estivessem agora a chegar ao restaurante. 

E lá veio mais uma entrada quente e esta foi diretamente para o top. Não que se tratasse de algo raro, porque era apenas um prato de Ameijoas à Bolhão Pato, mas com ameijoas fresquíssimas da Ria de Alvor, o que fez com que o resultado final fosse sublime, talvez umas das melhores ameijoas que já provei.
E chegámos aos pratos principais, trocaram inclusive do prato de petisco para pratos grandes. Pena já não termos espaço no estômago, porque ainda vinham aí iguarias excecionais. 

O prato de peixe era um Arroz de Tamboril, bem malandrinho e com um tempero pouco comum, mas fantástico, sem tomate e com bastantes coentros. Uma delícia, se tivesse aparecido uma hora antes seria devorado com sofreguidão, mas, agora, depois de uma hora e meia de jantar, já só comemos quase por obrigação... isto é um conselho para quem resolva viver esta experiência, trata-se de uma maratona e há que dosear o esforço para os últimos quilómetros... e eu que comecei a fazer sprints logo nos primeiros 100 metros.
Faltava apenas o prato da carne, informaram-nos tratar-se da influência árabe na gastronomia algarvia, um Borrego Assado com Hortelã. Felizmente a hortelã aparecia crua a enfeitar o prato e não no tempero, porque eu sou daqueles que não aprecio particularmente a hortelã... talvez num Mojito ou na pasta de dentes. Mas aqui a hortelã podia ser retirada e o borrego ficava divinal, derretia-se na boca, que pena quase não ter um espacinho no estômago... fiz nova paragem e nova volta até à igreja, imprescindível para esta fase final.
E achávamos que tinha acabado, tínhamos lido que eram sete pratos e já havíamos provado oito. Mas ainda havia uma sobremesa, ou melhor, um pijama de sobremesas algarvias, com o tradicional Figo Seco com Amêndoas, uma Tarte de Laranja, uma Tarte de Alfarroba e Canela e, o meu favorito, um Don Rodrigo, o doce regional com fios de ovos e amêndoa, que vem embrulhado num saquinho de papel de prata.
No final veio ainda um café servido num copinho de barro e a conta que, tal como tínhamos lido, foi de 25€ por pessoa... uma bagatela para uma oferta com esta qualidade. 

Terminámos assim um manjar que se transformou numa experiência que nos ficou gravada na memória, com a autenticidade da gastronomia da região, incomparavelmente melhor do que a maioria dos restaurantes algarvios que tínhamos experimentado. 

Ficámos completamente rendidos com tantos paladares e tanta comida, e totalmente satisfeitos com a experiência. Fechámos uma noite, tão rica e tão extraordinária, com a certeza de que teríamos de voltar.

Carlos Prestes