quarta-feira, 11 de março de 1998

Florida

No Inverno de 1998, aproveitando uma promoção da British Airways, completamente imprevisível mas também totalmente imperdível, partimos em direção à Florida para uma aventura no Disney World. Desta vez fomos em família, eu a Ana Lúcia e as minhas filhas mais velhas, a Alice e a Madalena, na altura com 7 e 5 anos, e também o Zé Amorim, com a Rosário e o Nuno.

(7 dias em Março de 1998)

Dia 1:
Voámos via Londres e chegámos ao aeroporto de Orlando numa tarde quente de Março, Inverno em Portugal mas praticamente Verão naquela zona da Florida. Depois de alugarmos uma van de 7 lugares, partimos à descoberta do admirável mundo do Disney World.
A sensação foi fantástica, como acontece sempre que embarcamos num clima invernio e, passadas apenas algumas horas, aterramos já em pleno Verão, não que estivéssemos no hemisfério Sul, porque não estávamos, mas sim pela proximidade face ao Golfo do México e ao mar das Caraíbas. Mais tarde concluiríamos que não iria ser sempre assim…..às vezes há surpresas.

Mas assim que chegámos ao hotel corremos a disfrutar de um banho de piscina de águas quase mornas, com que nem sequer sonharíamos ainda uma semana antes.

Foi desta forma que terminámos um dia enorme, com a travessia do atlântico, do Norte para o Sul, de Leste para Oeste e do Inverno para o Verão……tudo num único dia. 

Amanhã começamos a aventura.

Dia 2:
O Disney World é constituído por três parques principais, para além de outro tipo de atrações, (como parques aquáticos, com escorregas de água, por exemplo), mas também uma rede de hotéis e restaurantes, que servem de apoio a todo o complexo. As várias infraestruturas e os vários parques são ligados entre si por uma rede de estradas e uma linha de comboio monorail.
Os principais parques Disney são o Epcot Center, o MGM Studios (atualmente designado por Disney Studios) e o Magic Kingdom, a verdadeira terra dos sonhos.

No primeiro dia começámos pelo Epcot Center. Com a sua imagem dominada por uma esfera gigante, com a aparência de uma bola de golfe, este é o parque do futuro, com atrações diversas que recorrem às tecnologias mais vanguardistas à época (de notar que estávamos em 1998, ainda antes do início da nossa Expo, que nos veio mostrar algumas dessas novidades tecnológicas, até então desconhecidas).
O dia no parque foi deslumbrante, até mais para os adultos do que para as crianças. O parque é enorme e tem sobretudo duas grandes áreas, uma relacionada com vários países que aqui são homenageados e a outra área que comporta as atrações futuristas, com recursos tecnológicos de vanguarda.
Na área envolvente ao enorme lago dispõem-se pavilhões inspirados em vários países, e é como se fossemos percorrendo cada uma dessas zonas, pelos edifícios e réplicas de monumentos, mas também pelos cheiros, que resultam das comidas típicas nos restaurantes temáticos, ou pelas músicas que ecoam das colunas de som.

Mas a parte forte deste parque são as atrações que usam a tecnologia mais avançada, relacionadas com os vários ambientes do nosso planeta, os mares e a terra, e também sobre o espaço, e ainda as zonas designadas por Universe of Energy e Imagination, onde se encontram vários simuladores e se apresentam espetáculos com efeitos especiais e tecnologias de vanguarda. 

No Universe of Energy destaco uma viagem ao mundo dos dinossauros, numa floresta tropical que parecia real, pela vegetação e até pelo ambiente, quente e húmido. E de vez em quando éramos surpreendidos pela presença de alguns daqueles gigantes, como se fossem verdadeiros e ameaçadores. Era a tecnologia dos animatrónicos, uns bonecos com mecanismos robóticos que lhes permitem movimentar-se como se fossem reais. Como dizia a minha filha Alice, na altura com 7 anos: pai, tens que reconhecer que isto é muito assustador……e era mesmo, mas também completamente incrível.
Não faço aqui a descrição pormenorizada do parque, também porque já não me recordo dos detalhes, mas sobretudo porque estes parques vão evoluindo e, atualmente, certamente que serão bastante diferentes (por exemplo, não faz sentido referir os preços dos ingressos, já que hoje serão completamente diferentes). 
Ao final de cada dia a noite é aproveitada como elemento decorativo e as luzes vão dando nova roupagem aos ambientes, culminando num espetáculo de luz, imagem, som e fogo de artifício, que se realiza sobre as águas do lago.

Dia3:
O segundo parque escolhido, os Estúdios da MGM, aproxima-se mais do mundo da fantasia Disney, embora ainda com uma série de atrações associadas aos efeitos especiais utilizados na rodagem de filmes, mas já inclui um conjunto de espetáculos que reproduzem alguns dos desenhos animados de referência. 
A entrada no parque faz-se pela Hollywood Boulevard e sentimos logo que entrámos num ambiente dos estúdios de cinema.
A primeira atração chama-se The Great Movie Ride e leva-nos ao mundo do cinema com referências ao imaginário dos filmes de toda uma vida, tanto para as crianças, com as produções mais recentes, como era o caso do filme Mulan, que estava ainda na fase de produção dos desenhos de animação, como para os adultos, com referências aos filmes eternos, como Feiticeiro de Oz, Singing in the Rain ou Casablanca.
Ainda no ambiente da rodagem de filmes passámos pelas zonas de filmagens com efeitos especiais de dois dos clássicos da MGM.

O Indiana Jones, com uma cena cheia de tiros e explosões rodada ali bem perto de nós.
O Terramoto, onde fomos envolvidos no interior da simulação de um tremor de terra, com a destruição a acontecer no momento, provocando explosões e o rebentamento de um tanque, com as águas em enxurrada ameaçando perigosamente a nossa zona de observação.
O parque tem depois umas zonas com teatros onde passam espetáculos que são mini musicais do estilo Broadway, sempre com os temas dos filmes da Disney.

Assistimos à Pequena Sereia, à Bela e o Monstro e ao Crocunda de Notredame, o mais recente filme naquela época, que foram os momentos altos do dia, sobretudo para as miúdas.

Para os mais corajosos havia a Torre do Terror, onde nos levam sentados num elevador por uma casa assombrada, sujeitos a todo o tipo de aparições fantasmagóricas e que, de repente, dispara em queda livre pela torre abaixo, deixando os nossos estômagos lá em cima.
O final do dia neste parque é também celebrado com um espetáculo de encerramento fantástico, com música, luzes e fogos-de-artifício.

Dia 4:
Faltava ainda o parque dos sonhos, o Magic Kingdom, dominado pela presença do imenso palácio da Cinderela, com uma beleza que nos leva de imediato até ao mundo de fantasia de Walt Disney.
Foi um dia espantoso para as crianças, que deliraram em corrida atrás das personagens principais dos seus filmes favoritos, a quem lhes pedem autógrafos, como o caso da Pequena Sereia, a escolha mais apreciada, e neste caso nem foi preciso correr atrás dela mas antes esperar numa fila à entrada da gruta onde estava esticada, por razões óbvias de falta de mobilidade. Mas num parque Disney as figuras mais relevantes serão sempre a de Mickey Mouse e a sua Minnie, que também nos deram os respetivos autógrafos.
Entrámos pela Main Street, a rua principal, com o castelo ao fundo, a partir da qual chegamos a todos os locais da magia. 
É desta rua que, diariamente, começa a parada dos personagens Disney, que percorre todo o parque com carros alegóricos, cada um com o tema de cada filme animado……e que constitui uma das principais atrações do parque, sobretudo para os miúdos.
O Magic Kingdom é o parque das atrações mais clássicas da Disney, com referências, por exemplo, à Branca de Neve, à Alice no País das Maravilhas, ao Pinóquio, ao Peter Pan….com vários tipos de diversões, como carrosséis, montanhas russas ou circuitos que se fazem no interior dos ambientes recriados de cada filme de animação. Todas estas diversões estão localizadas em áreas temáticas distintas: Adventureland, Liberty Square, Tomorrowland, Frontierland e Fantasyland.
Dentro desta terra de sonhos é no Fantasyland que se encontram os sonhos de criança e onde estão as atrações que nos levam ao imaginário Disney mais infantil.

No Tomorrowland encontramos uma das montanhas russas mais famosa de todo o Disney World, o Space Mountain. O Frontierland é também bastante interessante, e recria um ambiente entre o Farwest e o Rio Mississipi, com referências aos cowboys e ao mundo de Mark Twain, com os seus heróis, Tom Sawyer e Huckleberry Finn.


À medida que o sol se vai pondo, o parque adquire novas cores. A parada da noite, ou Electrical Parade, é uma festa de luz e cor inesquecível…….e precede o espetáculo de encerramento mais fascinante de todos os três parques, com as luzes e o fogo de artifício enquadrados com a imagem do castelo da Cinderela, recriando um ambiente que parece ser magia de verdade.



O último dia de diversões terminou, depois de termos percorrido tudo o que havia para percorrer, depois de uma exaustão quase inacreditável, com o acumular destes três dias, mas o que se guarda, acima de tudo, é uma satisfação quase indescritível.


Neste último dia tivemos uma mudança súbita do clima, uma grande surpresa, que vou aqui referir apenas para alertar que os planos nem sempre saem perfeitos, e temos que nos saber adaptar a realidades diferentes. Neste caso tínhamos ouvido na véspera nos telejornais que existia uma onda de frio na costa Leste dos Estados Unidos. Por exemplo, em Chicago, o aeroporto estava fechado devido ao gelo, e na Florida previam-se temperaturas mínimas de 31o Fahrenheit.

Ui….pensámos nós, 31º F devem ser p’raí uns 15º Celcius, se calhar é melhor levar umas sweats na mochila…..mas para mim não é necessário nada, eu vou de calções que não tenho frio nas pernas. Mas 31ºF não são 15 Celcius, são -1º. Por isso o dia foi incrivelmente frio e não estávamos preparados. Tivemos que recorrer ao merchandising disponível para tentar comprar tudo o que nos pudesse aquecer. Só as minhas pernas é que eu não consegui tapar, mas foi bem merecido……reconheço.

Dia 5:
Ainda nos sobravam mais dois dias livres até ao regresso. Assim, neste dia iríamos visitar a cidade de Orlando e chegaríamos até à costa do Atlântico.

Mas a principal atração do dia seria a visita a Cape Canaveral, de onde os americanos fazem sair os seus foguetões com aeronaves e Space Shuttles, para o espaço e, em tempos, mesmo até à lua. 
Saímos de manhã em direção a Orlando para uma visita rápida. A cidade não acrescentou absolutamente nada, parámos no downtown e percebemos que não se tratava de uma grande cidade e não justificava uma visita mais demorada.

Chegados depois a Cape Canaveral, fizemos a visita turística ao complexo, numa zona onde se expõem naves e foguetões antigos e se conseguem ver, a uma certa distância, os locais de lançamento que são atualmente utilizados.

A principal atração é um Space Shuttle, onde podemos entrar e visitar o espaço que tem albergado os astronautas nas principais missões espaciais das últimas décadas. Depois de terem acontecido dois acidentes com a destruição dos respetivos Space Shuttles e com a morte de todos os tripulantes, o governo americano suspendeu as missões com este tipo de aeronaves. Há também um conjunto de outro tipo de naves espaciais que estão expostas nos espaços exteriores do complexo.


É estranho porque nos custa a acreditar que aquelas geringonças, ou outras semelhantes, tenham alguma vez ido até ao espaço e não sejam meros adereços de filmagens para Hollywood. De qualquer forma e apesar dessa sensação de que nada daquilo é real, para quem vier ao Disney World, esta é uma visita imperdível porque, na verdade, foram mesmo naquelas latinhas, ou noutras semelhantes, que os astronautas se lançaram espaço fora.


Seguimos depois pela costa da Florida, numa zona a norte, sem o interesse turístico das praias de Miami ou Palm Beach. Ao longo da costa fomos percorrendo várias zonas de praia, embora o clima não nos tenha ajudado, com as nuvens que cobriam a zona tudo se tornou completamente cinzento, em vez das cores de azul vivo que seriam previsíveis encontrar naquelas águas. 

Descemos a costa até à Indian Harbour Beach, tendo regressado depois à zona do hotel no Disney World.

Dia 6:
Aproveitámos este último dia para visitar um outro parque de diversões, fora do mundo Disney, embora na mesma zona de Orlando.

A opção mais lógica seria escolher o parque da Universal Studios, que é um parque fantástico, com uma oferta que tenta competir com a liderança natural da Disney, e que tem mesmo algumas diversões que superam as mais famosas atrações dos parques da Disney. 

Contudo, achámos que seria mais do mesmo e tentámos um dia mais calmo, de forma a que sobrasse também algum tempo para compras.….que é quase um vício para quem visita os Estados Unidos. 

Assim, optámos pelo Sea World.
Trata-se de um imenso parque de vida marinha, ao estilo do Zoomarine do Algarve, mas muito maior e muito mais fantástico. Tem os habituais shows de golfinhos e leões-marinhos, enormes aquários, espaços para interação com os animais e algumas diversões semelhantes a montanhas russas.
Os grandes tanques de aquário têm um acesso privilegiado através de um túnel de vidro, que nos permite observar aquele mundo marinho como se fizéssemos parte dele……chegámos mesmo a estar rodeados de tubarões numa das zonas do tanque.
Mas este parque tem uma atração muito especial, o show das orcas. Semelhante ao dos golfinhos, este show é feito com enormes orcas, as chamadas baleias assassinas, o que faz com que o espetáculo esteja associado a um clima de algum risco, em que os tratadores adquirem o estatuto de domadores de leões. (registo que, em 2010, uma orca macho, a maior do parque, atacou e matou a sua treinadora em pleno espetáculo). Neste caso, o show correu na perfeição, sem quaisquer sustos, a menos da parte em que uma baleia gigante, que era apresentada como tendo entrado nos filmes da sequela, Libertem a Willy, molhava propositadamente a metade inferior da bancada. Num dia normal de Verão até seria agradável para nos refrescar, mas face à onda de frio que estávamos a viver, quem ficou molhado não gostou nada.

O parque tem depois imensas diversões, mas tinha várias zonas em obras, adivinhando-se a abertura de novas atrações em pouco tempo. Por isso, não vou descrever tudo o que vimos naquela altura porque, certamente estaria muito desatualizado.

Mas refiro-me apenas às atrações mais interessantes à época, para além do show das orcas e do aquário dos tubarões, gostámos muito da zona da Antártida, chamada o Império dos Pinguins, onde sentimos um frio polar passando junto dos pinguins imperadores, que nos pareciam estar perfeitamente no seu habitat natural.
Gostámos também das zonas de leões-marinhos e de golfinhos, que pareciam quase naturais de tão bem integrados na paisagem, onde podíamos interagir com os aninais livremente, por exemplo, chegámos a fazer festas no dorso dos golfinhos.


A meio da tarde saímos do parque e partimos para mais uma diversão típica nos Estados Unidos……as compras, sobretudo os outlets.

Pelo caminho, ao longo da International Drive, encontrámos uma casa museu perfeitamente incrível, construída como se tivesse sido arrancada pelas fundações e virada ao contrário.
No outlet escolhido existiam duas mega lojas que me fizeram perder a cabeça, as lojas da Calvin Klein e, sobretudo, da Gant.

Naquela época o dólar estava em baixa e os preços da maioria dos artigos eram espantosamente baratos. A oferta das lojas era incrível, todas as cores, todos os tamanhos…….queria trazer tudo para Portugal, a grande dificuldade foi saber parar e ter que fazer escolhas. 

Registo apenas que não sou propriamente adepto dos outlets americanos. Aliás, nas outras visitas que fiz aos Estados Unidos nunca me deixei levar pela loucura das compras…….mas há que reconhecer que uma megastore Gant a preços incrivelmente baixos, é de fazer qualquer um perder a cabeça.



Havia apenas mais uma noite para aproveitar, porque as noites eram sempre um ponto alto de cada dia…..para os adultos, porque as crianças fizeram o pleno, dormindo em todos os restaurantes onde as levámos.

Mas é indiscutível que aquela zona nos oferece uma outra atração, como em todo o país, que é o conjunto de restaurantes com a típica comida americana, que nada tem a ver com fast-food, mas muito mais com influências dos paladares mexicanos…..os nachos, as enxilhadas, mas também os hamburgers de “pounds” à escolha, as baby ribs e muito mais. Sempre com a típica cerveja americana, a Bud Weiser (mais tarde apenas designada por Bud, devido às guerras de patentes com a marca original, da República Checa).
Alguns dos restaurantes na envolvente do mundo Disney são, eles próprios, parte do cenário de fantasia, e foram sobretudo esses que acabámos por escolher para os nossos jantares. 
Um dos mais emblemáticos é o Planet Hollywood, dentro de um enorme globo terrestre……onde fomos neste último dia para nos despedirmos em beleza.
Terminámos o dia e terminámos também esta viagem fantástica, com um extraordinário efeito surpresa, porque não foi minimamente uma decisão planeada com tempo, foi tomada por impulso, de um dia para o outro…..até as miúdas estavam em aulas, e tiveram que faltar.


Viajámos pela terra dos sonhos, as crianças deliraram, porque são crianças e nós, os adultos, delirámos também, porque este mundo de fantasia nos fez voltar outra vez a ser crianças……e não há melhor sensação. No dia seguinte partiríamos, primeiro para Londres e depois para Lisboa……para o Norte, para o frio, para o Inverno, para as nossas escolas, os nossos trabalhos…….para fora do mundo dos sonhos entrando definitivamente no mundo real, de onde tínhamos fugido numa escapadela que ficou gravada nas nossas memórias e nos nossos corações, onde perdurará por muito tempo.

Carlos Prestes
Março de 1998

sábado, 15 de dezembro de 1990

Chamonix - Mont Blanc

Esta pequena vila encaixada entre os mais altos picos da cordilheira dos Alpes, foi um ponto de partida para uma descoberta pessoal de um gosto profundo pela atividade de ar livre, explorando montanhas e vales e, mais tarde, para a prática do ski, que me leva todos os anos a procurar locais para descer pistas nevadas e absorver toda excitação que essa experiência provoca, e que, até então, me era desconhecida.

Tive a oportunidade de visitar duas vezes a vila de Chamonix. Primeiro no verão de 1985, quando constatei, com surpresa, que em pleno agosto, as montanhas podiam estar cobertas de neve, o que me deixou fascinado ao explorar aquelas magníficas paisagens em torno do imenso Monte Branco. Mais tarde, já em 1990, voltei de novo a esta simpática vila, mas desta vez já armado de skis e botas, para explorar as pistas que descem pelas colinas em torno deste vale magnífico.


A grande montanha:

O Monte Branco constitui um tremendo fascínio, desde logo para todos aqueles que visitam o vale de Chamonix, e que ficam deslumbrados com a dimensão daquela cordilheira imponente, mas, sobretudo para os montanhistas e alpinistas, que têm esta montanha como uma das principais referências planetárias. Com os seus 4.810 metros de altitude, o pico do Monte Branco atrai milhares de pessoas todos os anos, que percorrem os trilhos de escalada até ao topo, podendo seguir por diferentes vertentes e com níveis dificuldade e aventura muito distintos, desde os mais tranquilos, quase em regime de caminhada, até às escaladas mais técnicas e arrojadas.
Mas sabe-se que os verdadeiros alpinistas utilizam muitas vezes as escaladas nos Alpes e, concretamente, no Monte Branco, como forma de preparação para o seu grande objetivo, e que será escalar os picos com mais de 8.000 m, que são 14 em todo o mundo e todos eles nos Himalaias, liderados pelo incontornável Mont Everest, que atinge os 8.848 m e que é só para os verdadeiros profissionais, ao pé do qual o nosso Monte Branco parece uma montanha de brincar.

Mas aqui, mesmo os menos preparados terão alternativas para experimentarem um cheirinho do que é o universo do alpinismo, e é sempre assim que eu entro… pelos trilhos mais soft e sem grande risco, mais como turista do que como alpinista, utilizando, por exemplo, Teleférico da Aiguille du Midi, que nos deixa logo à cota de 3.842 m, já a meio caminho da grande montanha.
Este tipo de percursos, quase de alta montanha, devem ser feitos no verão ou na primavera, para evitar o risco de tempestades e das avalanches. Se assim for, e apenas com alguma preparação física, mas sem ser necessário a permanência em patamares intermédios para nos ambientarmos à altitude, podemos fazer parte de um tour, no qual o guia nos conduz até ao topo e nos traz de volta a Chamonix num só dia. Mas chegamos como autênticos heróis… na verdade, heróis de coisa nenhuma.

O Monte Branco faz parte do conjunto montanhoso que ocupa toda colina do lado Sul do vale de Chamonix e que se estende por muitos quilómetros, onde se sucedem montanhas e pistas de ski, que vão de França até Itália, e outras até à Suíça, sendo que, Chamonix se encontra muito próximo do vértice onde se juntam as linhas de fronteira destes três países, e está a uma altitude de 1.035 m. Esta cordilheira é claramente a mais alta de toda a Europa e apresenta diversos picos com mais de 3.500 m, e quatro deles acima do 4.000 m.

Explorar uma montanha é algo perfeitamente incrível, naquela época nem tinha bem a noção do privilégio que era estar ali, num local tão icónico como aquele, e a viver uma experiência assim tão rara. Caminhar pelos trilhos que nos fazem subir estas montanhas leva-nos a uma dimensão quase inacreditável, como quando nos posicionamos sobre o espesso manto de nuvens que cobre todo o vale e contemplamos as imensas montanhas que nos rodeiam… magnífico.



A vila de Chamonix:

A melhor forma de chegar a esta terra será voar até ao aeroporto de Genève, na Suíça, e depois, de carro alugado, autocarro ou comboio, percorrer os cerca de 80 km até ao vilarejo de Chamonix.

Da primeira vez que ali cheguei vinha de comboio diretamente de Paris e, da segunda vez, cinco anos mais tarde, vim de carro diretamente de Portugal, numa loucura jamais repetível de cerca de dois mil quilómetros, para cada lado.

Em agosto de 1985 esta vila estava cheia de luz e de cor, com as centenas de montanhistas que ali encontramos, e os esquiadores, com fatos garridos, muito na moda naquela época, preparados para um ski fora de época, pelas neves eternas nesta zona dos Alpes. Mas aquilo que mais marca este local é a presença da neve que cobre as montanhas, num branco que quase encandeia, e ilumina as ruas da aldeia, como se fosse um segundo sol.
Mas a chegada no inverno, e após um intenso nevão, é um abrir de portas às imagens dos contos de fadas, um mundo fantástico que nos fascina, sobretudo numa altura em que era ainda um jovem e tudo isto era uma completa novidade.

As casas estavam cobertas por espessos mantos de neve e assim permaneceram pelos dias em que lá estive, devido aos sucessivos nevões, transformando toda a vila num ambiente que nos fazia lembrar a terra do Pai-Natal.

Enquanto que, no verão de 1985, tinha aproveitado para explorar os trilhos de caminhada, usufruindo do bom tempo e desfrutando das paisagens, nesta época, em pleno dezembro, além do ski, que fui sempre praticando, aproveitei também o ambiente bucólico que a neve confere, quer nas próprias ruas do vilarejo quer nos múltiplos locais na envolvente, que nascem no sopé das montanhas e nos vão dando imagens de autênticos cartões-postais.

Bem no centro da povoação, senti a necessidade de olhar para o topo, seguindo a indicação da figura representada na estátua com os alpinistas Balmat e Saussure, que regista aquela que foi a primeira subida ao Monte Branco.
        



Ski em Chamonix:

Nesta estadia em dezembro de 1990 o objetivo era mesmo fazer ski. Ainda com receio de me aventurar pelas estâncias principais, localizadas nas cotas superiores, comecei por experimentar algumas pistas a altitude mais baixa, onde o céu se encontrava coberto e nevava frequentemente, prejudicando a minha já fraca competência enquanto esquiador, mas com a compensação de estarmos numa zona de floresta, esquiando entre as árvores cobertas de neve, num cenário lindíssimo.
Depois dos dois primeiros dias a treinar nas pistas cá de baixo, resolvi então subir de nível e subir também até ao alto da montanha. Apesar de continuar a nevar no fundo do vale, os teleféricos que nos levam até às estâncias lá de cima ultrapassavam o denso manto de nuvens e despertavam no alto de cada uma das montanhas com um sol brilhante e uma neve fantástica, pronta para um ski de enorme qualidade… que eu ainda não dominava completamente.


Depois, já lá no alto, as pistas e os meios mecânicos levam-nos a percorrer quilómetros e quilómetros de trilhos, de um conjunto de estâncias que gravitam em torno da vila de Chamonix e que incluem o acesso a estações de ski francesas, suíças e até italianas. Só esquiei em estâncias do lado francês, mas apenas por receio de apanhar pistas demasiado difíceis… se tivesse sido uns anos depois teria explorado cada uma das zonas onde fosse possível esquiar, e que são muitas, conforme se vê neste mapa dos meios de elevação… telecadeiras, telecabines e teleféricos.

Já no mapa seguinte, representam-se apenas as duas estâncias francesas que explorei, Brevént e Flégèr, com as suas pistas, onde se encontram demasiadas negras para o meu gosto, isto é, muito difíceis.

O ski em Chamonix é algo que remonta aos primórdios da modalidade do ski alpino e, mesmo ao nível da competição, este foi um lugar pioneiro, por exemplo, com a realização dos primeiros Jogos Olímpicos de inverno, que ocorreram em 1924, e cujos símbolos e referências, e até algumas infraestruturas, são ainda visíveis, como é o caso da rampa para saltos de ski utilizadas nessas olimpíadas.

Mas escolho aqui alguns dos posters anunciando esses Jogos Olímpicos, um deles mantenho ainda hoje exposto em minha casa, desde que o comprei em 1990.

Mas, voltando ao meu ski, naquela altura, ainda muito pobre e atabalhoado, sempre que me encontrava no topo da montanha era com enorme preocupação que me aventurava pelas pistas, algumas eram apenas azúis, ou seja, de dificuldade média, mas, para mim, eram quase todas dificílimas… que pena não ter conseguido aproveitar devidamente.
         


Um dos locais que explorei nas duas visitas que fiz a este lugar foi o pico Le Brévent, através do teleférico com o mesmo nome. Este pico leva-nos a uma das pistas de ski mais famosas de toda esta área, a Piste Charles Bozon, em homenagem ao esquiador natural de Chamonix, que morreu jovem num acidente de escalada. Trata-se de uma pista preta que, naturalmente, evitei, regressando no mesmo teleférico para o patamar de baixo (mas que hoje vejo em vídeos e constato que será uma pista fantástica). 

Mas, naquela época, tive que concentrar o meu ski nas pistas menos exigentes... e foi assim que vivi a minha primeira experiência a sério como esquiador, como já tinha vivido, cinco anos anos, e neste mesmo lugar, uma outra experiência como caminheiro de alta montanha.


         

Termino a descrição de duas viagens feitas já há séculos atrás, que até mal recordo, só as fotos, que na altura eram limitadas, me ajudaram a reavivar as memórias e a escrever esta crónica.

É claramente um local onde gostaria voltar mais uma vez, mas desta vez para usufruir de forma menos deslumbrada, e ficar demoradamente, voltando a experimentar os mesmos desafios, mas com uma maturidade diferente, seguindo os trilhos de escalada até ao Monto Branco, e aproveitando as centenas de quilómetros de pistas esquiáveis que ali estão disponíveis.


Carlos Prestes
Dezembro de 1990


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