sexta-feira, 3 de julho de 2015

Luxemburgo


Saindo da Bélgica, partimos para mais um dia de viagem e para mais um país, o nosso próximo destino seria o Gran Ducado do Luxemburgo.

O Luxemburgo surgiu no século X em torno de um castelo construído pelo Conde Siegfried. Ao longo dos séculos, foi disputado por várias potências europeias, incluindo Espanha, França, Áustria e os Países Baixos, devido à sua posição estratégica. Tornou-se um grão-ducado em 1815 e adquiriu plena independência em 1839. Durante as duas guerras mundiais foi ocupado pela Alemanha, mas, apesar de ser um país muito pequeno, após 1945, tornou-se um dos fundadores da União Europeia, da ONU e da NATO. Hoje, o Luxemburgo é uma monarquia constitucional e um importante centro financeiro e político europeu.
À partida, era daqueles países que não teria sequer razão aparente para existir, está entalado entre a Bélgica, a França e a Alemanha, e parece ser um bocado de terreno que ninguém quis. Mas a realidade é diferente, o Luxemburgo desempenhou sempre um papel geoestratégico naquela zona da europa, funcionando, muitas vezes, como fiel da balança nas várias disputas de poder que envolveram alguns dos poderosos países vizinhos, ao longo dos séculos.

Mas ainda hoje parece-nos que o país não faz sentido, tão pequeno e nem uma única língua materna consegue ter, usando o francês, o alemão e um idioma luxemburguês pouco utilizado, como línguas oficiais... e admito que, com a quantidade de portugueses que aqui vivem, a língua portuguesa será também quase uma língua oficial alternativa. 

Mas apesar desta falta de personalidade, a verdade é que o Luxemburgo tem hoje, como no passado, uma posição na Europa perfeitamente definida, com um papel ativo nos processos da governação europeia.

E é um país que permite um bom nível de qualidade de vida, embora a grande quantidade de emigrantes portugueses que lá vivem, e são muitos, privilegiem sobretudo o acumular das poupanças e não tanto a qualidade de vida no dia-a-dia. Mas há indicadores interessantes, como o salário mínimo de 1.900 €/mês (em 2015), que é o mais elevado de toda a Europa. O custo de vida é caro, sobretudo nos restaurantes, não tanto em supermercados, mas não mais que nas vizinhas Bélgica, França ou Alemanha… mas também não parece que a comunidade portuguesa frequente assim tanto restaurantes e hotéis, ou lojas de roupa, por exemplo… por isso deve dar para amealhar um bom dinheiro. 

Como polo turístico a cidade do Luxemburgo não é particularmente interessante. Não é, contudo, apenas mais uma cidade do centro da Europa. Esta tem um formato diferente do habitual por se localizar em torno de um vale cavado, que é ligado por várias pontes que nos permitem contemplar os dois lados da cidade, que ocupam as encostas do vale, e também a parte mais baixa, que ocupa o próprio vale ao longo do rio.

Fizemos um percurso que nos levou ao longo da zona histórica da cidade que, apesar de não ter sido muito extenso, foi penoso, devido aos 30 e muitos graus com que a cidade nos aguardava. O caminho que fizemos, pelo qual nos arrastámos, seguiu aproximadamente os trilhos marcados neste mapa:
 
Começámos a nossa caminhada pelo Sul da cidade, onde ficava o nosso hotel, mais ou menos na proximidade da gare ferroviária, apesar de termos vindo de carro e não de comboio. 

No primeiro percurso entrámos na Avenue de la Liberte, uma avenida a fazer lembrar os boulevards parisienses, até à Place des Martyrs, uma praça monumental ajardinada, 
Mais à frente, chegaríamos à Bourbon-Platte. O termo “Platte” significa plataforma ou planalto, referindo-se à parte elevada dessa zona, que fica o início da Pont Adolphe. Trata-se de uma área urbanizada com importância histórica e administrativa, onde têm sido desenvolvidos projetos de requalificação urbana para melhorar o espaço público e a mobilidade pedonal, mantendo a arquitetura clássica de alguns belos edifícios.
De seguida fizemos a travessia da Pont Adolphe ou Adolphe-Brücke. Construída entre 1900 e 1903 em homenagem ao Grão-Duque Adolphe, é uma ponte de arco em pedra sobre o vale Pétrusse, com cerca de 153 metros de comprimento e 42 metros de altura. É um símbolo nacional da independência, foi na época uma das maiores pontes em arco do mundo. Atualmente, além de servir o trânsito automóvel e uma linha de tram, é muito utilizada por peões e ciclistas.
Do lado Norte da ponte fizemos um pequeno desvio no Parc Edith Klein, onde resolvemos parar para refrescar um pouco, neste dia tão surpreendentemente quente. É um pequeno e tranquilo espaço verde, situado já muito perto do centro da cidade, com jardins bem cuidados, caminhos pedonais e áreas de lazer, ideal para passeios curtos ou, neste caso, para uns momentos de descanso.

Voltando ao caminho, parámos de seguida numa das praças mais diferenciadas da cidade do Luxemburgo, a Place de la Constitution. Esta praça ocupa uma saliência que se forma nas muralhas, localizada sobre o vale da Pétrusse, e é sobretudo um miradouro que permite contemplar a bonita vista sobre este vale, entre as pontes Adolphe e Passerelle. 

Além das paisagens sobre o vale, esta praça oferece também as belíssimas imagens do jardim que fica num patamar ligeiramente inferior à praça, uma espécie de jardim francês bem cuidado.

No centro da praça ergue-se ainda o monumento Gëlle Fra, que homenageia os soldados luxemburgueses mortos na Primeira Guerra Mundial. Uma estátua sobre um obelisco que foi inaugurada em 1923, e representa uma mulher dourada erguendo uma coroa de louros, símbolo da vitória e da liberdade. Destruída pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial e restaurada em 1984, a Gëlle Fra é hoje um dos principais símbolos nacionais do Luxemburgo, representando a paz, a resistência e a independência do país.
O destino seguinte foi o Palais de Justice de Luxembourg, localizado no Plateau du Saint-Esprit, formando um complexo que concentra as principais instituições do sistema judicial luxemburguês. Não deve ser confundido com o Tribunal de Justiça da União Europeia, que fica situado no bairro de Kirchberg.

Logo de seguida chegamos de novo ao vale sobre o rio Pétrusse que, nesta zona, é atravessado pela Ponte Passerelle. Trata-se de um viaduto construído entre 1859 e 1861 para ligar o centro da cidade à nova estação ferroviária do Luxemburgo, que foi localizada na margem Sul do vale Pétrusse. É feita em alvenaria, com 24 arcos, e tem 290 m de comprimento e uma altura de 45 m. É também conhecida como a ponte velha, sendo que a nova ponte, nessa comparação, será a ponte Adolphe. 
Do lado Norte do vale, no centro histórico da cidade, visitámos a Catedral de Notre-Dame. É a igreja mais importante do país e a catedral da Arquidiocese do Luxemburgo. Trata-se de um edifício gótico construído pelos Jesuítas no séc. XVII. O edifício destaca-se pelas suas torres esguias, vitrais coloridos e pela cripta onde se encontram os túmulos dos grão-duques do Luxemburgo.

O seu portão principal, tem uma estátua da Virgem e está também adornado pelas estátuas dos apóstolos Pedro e Paulo, e pelos jesuítas Inácio de Loyola e Francisco Xavier, e ainda uma estátua de São Nicolau a completar o conjunto.
Muito próximo da Catedral entramos na Place Guillaume II, que marca o coração do centro histórico da cidade, no bairro Ville Haute. A praça é dominada pelo edifício da Câmara Municipal e pela estátua equestre do antigo Grão-Duque Guilherme II, que dá o nome à praça.
Fizemos a próxima paragem na Place d'Armes, uma das praças mais emblemáticas e animadas desta cidade. Está rodeada por edifícios históricos, onde se destaca o Stadt Palais, antiga residência da família real e um exemplo notável da arquitetura clássica luxemburguesa.
Atualmente, a praça é um ponto de encontro popular, cheia de restaurantes, cafés e esplanadas, que criam um ambiente agradável e acolhedor. Frequentemente recebe também alguns concertos, feiras e eventos culturais, sendo um dos principais espaços de convívio e lazer da capital. Mais à noite iríamos voltar a esta praça para ali jantarmos.
Percorremos agora as ruas comerciais mais movimentadas do centro, como a Grand-Rue e a Rue du Cure, e passámos também pela Place du Théâtre, onde se encontra a Cinemateca Municipal e, em pleno centro da praça, um conjunto de estátuas que é chamado de Saltimbanques, com esculturas de um cuspidor de fogo, um palhaço e toda uma trupe de artistas, que celebram o lado criativo da cidade.

Mais à frente, chegámos ao Palais Grand-Ducal, o palácio da residência oficial do Grão-Duque do Luxemburgo para o exercício das suas funções como Chefe de Estado e o principal símbolo da monarquia luxemburguesa. Foi construído no século XVI em estilo renascentista flamengo, e serviu inicialmente como sede do governo municipal, antes de se tornar, já no século XIX, no palácio oficial do soberano. Com uma fachada elegante e varandas ornamentadas, o palácio combina uma rica história e tradição com as funções atuais das institucionais modernas, acolhendo cerimónias oficiais e receções de Estado. 

Durante a ocupação alemã, na Segunda Guerra Mundial, o Palácio Grão-Ducal foi usado pelos nazis como estalagem e salão de concertos. Nesse período, várias mobílias e obras de arte foram destruídas ou pilhadas. Com o fim da guerra, em 1945, e com o regresso da grã-duquesa Charlotte, o palácio voltou a ser a sede da corte. Entretanto, durante a década de 1960, e ainda sob a supervisão de Charlotte, o palácio foi totalmente redecorado. Desde então, o seu interior, que não se encontra regularmente aberto ao público, voltou a ser renovado para ficar compatível com os padrões modernos de conforto.
Vamos agora aproximando-nos de novo das muralhas da cidade, onde podemos apreciar as bonitas paisagens que esta cidade vai mostrando. A disposição da cidade do Luxemburgo é muito sui generis, distribuída entre os patamares superiores das colinas que formam o vale Pétrusse, a chamada Ville Haute, e o próprio fundo do vale, conhecido por Grund. Estes desníveis permitem que possamos observar algumas bonitas paisagens da cidade, tanto das encostas como do próprio vale, com as suas pontes e as suas construções.

Nesta zona, junto às muralhas, e também da Pont du Château, vamos encontrar vários miradouros que permitem desfrutar das paisagens da cidade, como neste caso do belíssimo conjunto urbano que integra a Église Saint-Michel.
Nestes mesmos pontos da fortaleza podem contemplar-se outras paisagens da cidade, com destaque para a vista sobre o Grund, um bairro que foi considerado património da humanidade e que fica lá em baixo, no fundo do vale. É um bairro típico e muito calmo, que se desenvolve ao longo das margens do rio Pétrusse, e onde se salienta a Neumünster Abbey.

Nestas fortalezas existem alguns pontos notáveis, como as Três Torres ou as Casemates du Bock. 

As Três Torres são os vestígios de uma antiga fortificação medieval situada na cidade, junto ao bairro de Clausen. Construídas entre os séculos XIII e XV, faziam parte do extenso sistema defensivo que protegia a cidade, conhecida como a “Gibraltar do Norte” devido à sua impressionante estrutura militar. As torres, feitas em pedra e de formato cilíndrico, integravam muralhas, ameias e aberturas para arqueiros, refletindo a importância estratégica do local naquela época. Hoje, as Três Torres são um monumento histórico preservado e um dos marcos mais antigos do património fortificado do Luxemburgo, testemunhando o passado militar da cidade.
As Casemates du Bock foram as antigas muralhas da cidade de Luxemburgo, na época da sua fundação, por volta do ano 1000 e que, em 1994, foram declaradas pela UNESCO como património da humanidade. 

Atualmente estão abertas ao público durante a Primavera e o Verão. A visita a este lugar pode ser interessante, embora não seja recomendável para claustrofóbicos, pois está cheia de passagens e cavernas ocultas... mas também alguns pequenos miradouros por entre os túneis e as cavernas que se vão encontrando.
Daqui é também visível o imenso Viaduc Ferroviaire, uma das estruturas mais emblemáticas da cidade do Luxemburgo. Construído entre 1859 e 1861, durante a expansão da rede ferroviária do país, o viaduto liga o centro histórico à estação central, atravessando o vale de Pétrusse. Projetado por engenheiros britânicos, o viaduto desempenhou um papel crucial no desenvolvimento urbano e económico do Luxemburgo e continua hoje a ser uma importante via ferroviária e um marco arquitetónico da cidade.


Antes de terminarmos o dia passámos de novo pela Place d'Armes, onde jantámos numa das esplanadas. Estava uma grande animação com o som da música que saía de um palco, onde decorria uma festa popular, a fazer lembrar as festas de Verão das nossas aldeias... seria só coincidência ou haveria dedo de portugueses por detrás daquele evento - acredito bem que sim.

Deixámos uma cidade que surge por entre vales verdes e muralhas seculares, e que é também um país que se revela, não apenas como um destino, mas como uma sensação - a de um lugar onde o tempo desacelera e a história sussurra a cada esquina. As ruas de pedra, os cafés tranquilos e os sons suaves de uma mistura de línguas criam uma melodia especial, discreta e acolhedora. No coração da Europa, o Luxemburgo ensina que a grandiosidade nem sempre se mede em tamanho, mas na forma de como um lugar nos faz sentir parte de algo maior, mesmo que por um breve instante... e foi desta forma que conhecemos uma nova cidade e também um novo país.


Carlos Prestes
Junho de 2015





Gante


Saindo de Bruges a caminho de Bruxelas, encontramos Gent a escassos 40 km. A cidade de Gent, que é também chamada pelo nome de Gante, é mais uma belíssima cidade da parte flamenga da Bélgica e foi uma extraordinária surpresa... não contávamos com algo tão bonito.

Gante ergue-se como um lugar sedutor, com as suas três torres que dominam o horizonte, firmes testemunhas de séculos de história, enquanto os canais refletem fachadas que parecem pinturas vivas. Caminhar pela cidade é entrar num cenário que respira harmonia e convive com a vitalidade das ruas, dos tantos jovens universitários que lhe dão ritmo, sem lhe retirar delicadeza e requinte.
Ao contrário de Bruges não tínhamos quaisquer expectativas relativamente a esta visita, o que talvez tenha sido decisivo para que, no final do dia, tivéssemos ficado surpreendentemente maravilhados. 

A cidade é fantástica, com catedrais e igrejas monumentais, e até um castelo, todas muito próximas umas das outras, num centro histórico banhado por um canal que faz com que esta cidade seja muito peculiar, diferente de qualquer outra cidade, na Bélgica como na Europa. 

E essa é uma característica bastante relevante. Na verdade, há uma tendência para que as cidades, em determinadas zonas e, neste caso, no centro da Europa, sejam muito semelhantes. Os centros históricos quase não se distinguem entre si, a menos de pequenos detalhes que resultam, por vezes, de algum monumento que se diferencie do comum. Existem depois as cidades mais do Norte, como as holandesas, que são atravessadas por canais e apresentam, também elas, semelhanças entre si. É esse o caso da cidade de Bruges que podia ser uma cidade holandesa. Mas Gent é diferente de todas essas cidades, tem uma personalidade própria e isso constitui, desde logo, um grande atrativo para os visitantes. 

Gent é a capital da província de Flandres Oriental e chegou a ser uma das cidades mais ricas e prósperas do Norte da Europa. Hoje é a terceira maior cidade da Bélgica e tem pouco mais de 200 mil habitantes. Não é uma cidade muito grande, mas o seu esplendor arquitetónico mantém-se bem preservado. Além disso, é um lugar bastante animado por ser uma das cidades universitárias belgas, é muito frequentada por jovens, é alegre e movimentada, servindo de palco a festivais de música e cinema.

O centro histórico não é muito grande e pode-se perfeitamente caminhar passando pelos principais pontos de interesse. Foi isso que fizemos, caminhámos pelas principais ruas e praças, deambulando por entre monumentos e casas que parecem ter saído de contos de fadas. O percurso passa obrigatoriamente por alguns dos principais monumentos, seguindo os trilhos marcados neste mapa:
Começámos junto ao canal e à rua pedonal, ambos com o mesmo nome de Kraanlei, em direção à praça Vrijdagmarkt. A praça fica em torno da estátua de Jacob van Artevelde, um antigo líder da cidade. A maior parte dos edifícios remontam ao século XVIII, mas já desde o século XII que a praça serve de palco a um mercado semanal. 


Logo à saída da Vrijdagmarkt surge a imponente igreja de Sint-Jacobskerk (Igreja de São Tiago), com as suas torres assimétricas e raízes que remontam ao século XII, é ainda hoje um refúgio de história e tranquilidade na cidade de Gante. 

Por ser uma uma igreja de São Tiago, está ligada à Peregrinação a Santiago de Compostela, e é um importante polo numa das rotas de peregrinos rumo a Santiago, o que fez dela um local de acolhimento aos viajantes que ali passaram durante séculos.
Seguimos depois atravessando uma das principais ruas de comércio, a Hoogpoort, em direção à Pensmarkt e à praça seguinte, a Korenmarkt. Cheia de esplanadas e com centenas pessoas na rua... é aqui que o centro desta cidade palpita.

Do outro lado da praça fica o Post Plaza, a antiga sede dos correios, um imponente edifício em estilo neogótico, atualmente em obras para se tornar num shopping grandioso.
Chegados à rua Sint-Michielspleis é possível observar o alinhamento das três principais torres da cidade de Gent, razão pela qual lhe é dado o nome da "cidade das três torres".
A primeira das três torres é a da Igreja de St. Nicholas (Sint Niklaaskerk), construída no século XIII em estilo gótico, dedicada ao padroeiro dos mercadores. 
A torre seguinte é a do campanário (Belford) de Gent, que teve a sua origem do século XIV. O campanário foi construído para servir como torre de vigia, alarme e relógio e é um ponto de referência na cidade com os seus 90 m de altura. 
No final da rua surge a praça de St. Bavo, em torno da qual terá nascido a cidade e é por isso considerada como o coração de Gent. É aí que fica a terceira torre, na Catedral de St. Bavo (Sint Baafskathedraal), em estilo gótico, feita ao longo de vários séculos, entre o Séc. X e o Séc. XVI. 
Regressando no sentido oposto desde a Catedral de St. Bavo até ao canal que atravessa o centro histórico, chega-se à ponte de St. Michael. 

Esta é uma das zonas mais encantadoras da cidade, parece um porto medieval com uma paisagem lindíssima, com a imagem das casas junto às águas calmas do canal, que já serviu como principal ponto de comércio para os mercadores europeus. 


Foi nesta zona que nos demorámos mais tempo, e foi junto a essas margens do canal que escolhemos uma das muitas chocolatarias, a Chocolaterie Cédric Van Hoorebeke, onde comprámos algumas obras de arte da chocolataria belga. 

Os belgas orgulham-se de produzir alguns dos melhores chocolates do mundo. Normalmente são pequenos bombons com recheios delicados e coberturas do mais fino chocolate. As lojas de chocolate são também, elas próprias, dignas de uma visita, pelo modo como expõem os bombons em vitrinas de forma quase preciosa, como se fossem joias e estivéssemos numa ourivesaria. 

Selecionámos alguns exemplares, entre pralinés, gianduias, ganaches e outras pérolas. Escolhemos depois a esplanada de uma cervejaria, ainda junto ao canal, onde se podiam experimentar algumas das cervejas produzidas na Bélgica e onde acompanhámos os bombons comprados anteriormente com cerveja artesanal.

Talvez não seja um hábito gastronómico belga mas está mesmo a pedir que se juntem estas duas especialidades locais, acompanhando chocolates com cerveja... para mim faz todo o sentido e mesmo é delicioso.
   
Continuando ao longo do canal chegámos ao castelo de Gravensteen, uma fortaleza medieval que, inesperadamente, surge em pleno centro histórico da cidade.

O Castelo ergue-se com um testemunho silencioso da Idade Média, com muralhas imponentes, torres de vigia e fossos que recordam antigas batalhas, e transporta-nos para épocas em que a bravura dos cavaleiros era poder. 

No interior encontram-se armas, armaduras e até instrumentos de tortura, que revelam traços de uma vida de outrora, enquanto a imagem das suas muralhas sobre os canais, nos faz lembrar que, mesmo hoje, Gante continua ainda a manter a mesma aura misteriosa de séculos de história.
 
Numa época de dias grandes, sobretudo nesta zona Norte da Europa, em que o sol se põe para lá das 10 da noite, permite-nos esticar os dias até nos levar quase à exaustão. Neste dia não foi diferente e partimos para Bruxelas onde iríamos ficar duas noites e passar ainda o final deste dia. A viagem era de apenas 50 km de autoestrada mas que se revelaram difíceis de percorrer. 

Faço agora uma referência à rede de estradas que encontramos ao longo deste país, que é um ponto importante para quem viaja de carro. Foi na Bélgica que foram criadas as autoestradas tal como as conhecemos, com os sentidos do tráfego separados. Inclusive, na Bélgica, todas as autoestradas são totalmente iluminadas, e não apenas nos nós de ligação, como acontece em Portugal e na maioria dos outros países (o que não fez diferença nenhuma, porque só fazia noite quase às 23 h). Mas, o melhor é que não se paga qualquer portagem ao longo das muitas centenas de quilómetros de autoestradas belgas.

Porém - como não há bela sem senão - é que não havendo concessionárias de autoestradas, não há também obrigação em garantir que o tráfego se mantenha com o mínimo de perturbações, o que faz com que as obras de reparação decorram durante as horas do dia e mesmo nas horas de ponta, impondo estrangulamentos por cada local de interrupção... e que são muitos. Ora, o resultado é que estamos sempre sujeitos a filas enormes, como foi o caso deste percurso entre Gent e Bruxelas, em que demorámos 1h30m para percorrer apenas 50 km. E uns dias depois, já a caminho de Luxemburgo, voltaríamos a passar pelo mesmo martírio.


Saímos então de Gante, onde aprendi que uma cidade pode ser, ao mesmo tempo, guardiã de séculos e palco de um espírito de juventude muito presente. As suas três torres erguem-se alinhadas e orgulhosas, lembrando-nos da grandeza do passado, enquanto os belíssimos edifícios junto ao canal criam um cenário que parece pintado para ser contemplado sem pressa. E há também os prazeres mais simples, mas não menos marcantes: saborear um bom chocolate belga, autênticas peças de arte, acompanhado uma das cervejas artesanais, outra especialidade local, cuja combinação adquire um paladar especial, que só aqui consegui descobrir. 

Esta cidade valeu muito, não só por aquilo que oferece, mas também por ser uma belíssima surpresa, para quem, como eu, não tinha quaisquer expetativas... fiquei realmente rendido a tanta beleza.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Bruges


O nosso destino de viagem neste dia de julho de 2015 foi a cidade belga de Bruges, um lugar lindíssimo que desempenha o papel de capital da Flandres Ocidental, onde se fala a língua flamenga, uma espécie de holandês, totalmente indecifrável, e que é marcada pela presença de belas igrejas e dos seus carrilhões, e que pode ser associada a imagens saídas de autênticos contos de fadas.

Bruges chega a ser chamada a "Veneza do Norte", por causa dos seus canais que a cercam e a atravessam... mas estes chavões em nada engrandecem ou diminuem uma cidade que vale por si só, pelas suas paisagens e pela sua personalidade, e não precisa de comparações com quaisquer outras cidades.
Bruges é uma cidade extraordinariamente bonita, com uma arquitetura que nos situa nas terras de príncipes e princesas e com recantos de uma beleza sublime, que nos fazem apetecer ficar demoradamente naquelas ruas e praças, desfrutando do encanto que se vai descobrindo. Mas como não há bela sem senão... encontrámos a cidade repleta de turistas, mas isso já vem sendo habitual, e temos que aceitar, afinal nós não somos diferentes, mas turistas a mais, distorcem uma paisagem que, supostamente, deveria ser medieval.

Mas, assumindo a cidade como ela é e não descartando os turistas, que dela fazem parte, vamos encontrar uma arquitetura prodigiosa, com ruas e praças dignas de bilhetes-postais, e muito marcada pela presença dos canais, que lhe dão ainda uma beleza mais requintada. Não é difícil percorrer as ruas que nos levam às principais praças e aos monumentos mais relevantes, e que nos permitem encontrar as mais bonitas margens dos canais, pois é tudo muito próximo, e mesmo que não se goste muito de andar a pé, não são necessárias caminhadas muito exigentes.

Deixo aqui o mapa da cidade, onde se assinalam os roteiros que fizemos sempre caminhando, e também a localização das principais atrações que visitámos:
O percurso que escolhemos levou-nos aos principais pontos de interesse, começando pela Igreja Nossa Sra. Mariastraat e pelos canais nas proximidades.
As paisagens dos canais são as mais bucólicas e mais encantadoras que podemos imaginar, sobretudo pela arquitetura medieval dos edifícios que se dispõem ao longo das margens, como se emergissem das próprias águas.

A poucos metros do canal principal chega-se à praça Burg, com um conjunto arquitetónico fantástico, que enverga o edifício da Câmara Municipal, o Stadhuis, construído no século XV, num estilo gótico luxuoso, mostrando o poder que Bruges ostentava na Idade Média.
Ainda na praça Burg, fica o santuário Heilig Bloedbasiliek, com uma entrada discreta e pequena que pode até passar despercebida. O acesso é bastante sóbrio, mas o interior da Basílica, cujo nome se traduz como a Basílica do Sangue Sagrado, guarda uma relíquia poderosa, um frasco que, supostamente, guarda o próprio sangue de Cristo. 

A rua Breidelstraat, com apenas 50 m, liga as duas principais praças da cidade, a Burg e a Markt. É uma rua repleta de lojinhas que vendem souvenires, gofres acabados de fazer e as famosas rendas de bilros da cidade (semelhantes às portuguesas), bem como de algumas lojas de chocolates belgas, como os Godiva.

A praça central, o Markt, é o coração de Bruges e ainda preserva boa parte de seu traçado original. Em tempos este local era chamado de fórum, tendo sido palco de muitos episódios da história da Flandres, desde batalhas a festas populares. 
Cada lado da praça é ocupado por edifícios de diferentes estilos e diferentes épocas. De um lado ergue-se o grandioso Palácio Provincial e o antigo correio, que ocupam edificações neogóticas, e ao centro, fica a estátua de Jan Breidel e Piet de Konink, feita em 1887, em bronze e pedra, para homenagear o triunfo dos belgas numa batalha contra o rei da França, na revolução de 1302.
Num dos topos dispõem-se em sequência um conjunto de casas coloridas de quatro andares, muito bem conservadas, que parecem quase casas de brinquedo, atualmente ocupadas por esplanadas de cafés e restaurantes.
É também na praça central que fica o Belford ou Campanário de Bruges, principal símbolo da cidade. 
O Campanário de Bruges foi feito em etapas. Inicialmente, no século XIV, foram construídos o campanário e o corpo do prédio. Alguns anos depois, foi construído um terceiro trecho da torre, com secção octogonal (enquanto o corpo mais antigo é quadrado), levando-a até aos 80 m de altura. Assim a torre podia ser usada como observatório que servia, por exemplo, para evitar a propagação de algum incêndio, o que era bastante comum naquela época. 
Apenas eu e a minha filha Beatriz tivemos a coragem de avançar na escalada pela torre acima, subindo por uma escada em caracol de “apenas” 366 degraus para chegar ao topo e disfrutar de uma vista privilegiada sobre toda a cidade, e também para poder observar de perto o mecanismo do seu carrilhão que faz tocar 47 sinos. 

A Ana e a Martinha optaram por ficar a disfrutar de um gofre magnífico, numa daquelas esplanadas nas casinhas coloridas que se observavam lá do alto... mas logo nos juntaríamos a elas, também merecíamos o nosso gofre.

Depois de deambularmos pelas ruas envolventes à praça central, o Markt, e experimentarmos algumas das iguarias mais típicas, como os gofres, e até comprarmos uns souvenires, seguimos pela principal rua de comércio, a Steenstraat, passando pela Simon Stevinplein, uma praça cheia de esplanadas, totalmente repletas, neste dia de sol e calor, até chegarmos à catedral de Sint-Salvators.

No regresso até à ponte de saída do centro da cidade, para voltarmos ao hotel, passámos ainda pelo principal jardim da cidade, o Minnewaterpark, mais um recanto bucólico desta cidade belíssima.

Apesar da cidade ser relativamente pequena, este percurso ainda obriga a uma caminhada entre três e quatro quilómetros, mas existem ainda outras alternativas de caminhos que podemos percorrer. Na verdade, caminhamos sempre para além dos trilhos que estão representados no mapa, e vamos assim explorando outros recantos na envolvente das ruas e praças principais, menos notáveis, mas igualmente bonitos e interessantes. 

Mas há ainda uma outra hipótese de explorarmos esta cidade, que será fazermos um passeio de barco nos canais, aumentando a proximidade, e também a nossa entrega, nesta procura da face mais profunda da cidade... embora os canais, ao contrário do que acontece, por exemplo, em Amesterdão, não atravessem os principais pontos de interesse, cercando apenas o centro da cidade velha, mas, ainda assim, vão-nos dando uma perspetiva interessante daquilo que teria sido esta cidade medieval durante os séculos da sua existência.
 
Uma outra opção seria fazer um passeio de charrete o que me pareceu uma alternativa interessante, pelo menos para os mais preguiçosos (embora não tenha sequer sabido os preços, que não devem ser baixos, porque ali tudo é caríssimo). No entanto, esta proliferação de charretes pelas ruas do centro histórico provoca um efeito secundário bastante nefasto, com o cheiro a bosta de cavalo que domina a cidade, em vez daquilo que estaríamos à espera... que seria a mistura dos aromas vindos das casas de gofres e das chocolatarias.

Tivemos ainda a oportunidade de jantar numa das praças preenchidas por mesas e cadeiras das muitas esplanadas que a cidade oferece, e pudemos experimentar um dos pratos mais característicos da cozinha belga, os mules, ou mexilhões, que aqui se cozinham ao natural ou com vários tipos de molhos. O prato é bastante agradável e vale a pena experimentar pelo menos uma vez, embora os preços sejam proibitivos. Temíamos que viesse a ser assim em toda a Bélgica e até em toda a viagem mas, na realidade, Bruges foi mesmo a cidade mais cara que encontrámos.

Raramente faço referência aos hotéis onde ficamos porque raramente esses hotéis têm importância relevante na viagem. Mas em Bruges o hotel foi uma agradável surpresa. Situado fora dos limites da cidade velha, que são materializados pelo canal principal, mas apenas a escassas centenas de metros, oferece facilidades de estacionamento, o que se torna impossível nos vários hotéis do centro. O hotel, o Bed&Breakfast Filemon&Baucis é um espaço extremamente acolhedor, numa casa antiga totalmente recuperada com muito bom gosto e com uma decoração de estilo romântico, cheia de peças de grande requinte, tornando os quartos e os espaços comuns muito bem decorados e bastante aprazíveis. A dona do hotel foi uma simpatia e, para completar, o pequeno-almoço foi divinal, o que não é nada habitual por estas paragens. Por isso, recomendo vivamente este hotel pelo deixo aqui o link para acesso à respetiva página de Facebook (apesar de não ter qualquer interesse direto ou indireto):


Em jeito de balanço, Bruges é mesmo um destino interessante e encantador, apesar dos turistas. É uma cidade que não se visita apenas com os olhos, também se percorre com a alma, e ao partir, fica uma sensação nostálgica de abandonarmos um lugar apaixonante... entre os seus canais silenciosos e as ruas, praças e palácios, que, apesar das multidões, continuam ainda a transmitir as suas histórias de muitos séculos.


Julho 2015
Carlos Prestes



quarta-feira, 1 de julho de 2015

Bélgica


Chegar à Bélgica foi como entrar num cenário que já me parecia familiar, mas que, ainda assim, me foi surpreendendo a cada recanto. Viajar por este país é como folhear um livro ilustrado de contrastes e encantos, entre ruas medievais que parecem suspensas no tempo, canais tranquilos que refletem fachadas coloridas e praças que respiram história, cada cidade guarda a sua própria poesia.
Durante anos conhecia apenas a cidade de Bruxelas, que, reconheço, nem me tinha cativado particularmente. Só em 2015 fiz uma viagem mais profunda por este país, contactando, desta vez, com outras duas cidades, Bruges e Gante, que são claramente de um outro patamar, e essas sim, deixaram-me completamente encantado.

Em Bruges, perdemos a noção do tempo ao caminhar por entre canais e ruas de empedradas, que escondem histórias antigas. Em Gante, sentimos a vibração de uma cidade jovem e viva, onde o peso da história convive com a leveza do quotidiano. Já em Bruxelas, o ritmo muda, é o coração pulsante de um pequeno país, mas cheio de mundo, uma espécie de capital oficial de todo o continente europeu.

Nos trajetos que fizemos em 2015, integrados numa viagem por mais alguns países (percorrendo o chamado Benelux), entrámos na Bélgica vindos da Holanda, começando por Bruges, seguido de Gante, depois a capital Bruxelas, e saímos mais a sul pelo Luxemburgo, seguindo mais ou menos os trilhos assinalados neste mapa:

Através dos seguinte links, apresento as cronicas das visitas que fiz a estas três cidades belgas:




De Bruges a Gante, de Gante a Bruxelas, cada cidade revelou-me uma faceta diferente da Bélgica, ora romântica e intemporal, ora vibrante e jovem, ora cosmopolita e cheia de energia. No fim, ficou a sensação de que este pequeno país guarda muito mais do que caberia numa só viagem: sabores que se descobrem devagar, detalhes escondidos em fachadas antigas, e um convite constante a regressar. Viajar pela Bélgica não foi apenas visitar lugares, foi sentir atmosferas, deixar-me perder nos caminhos e voltar com a certeza de que algumas cidades vão ficar connosco para sempre.
 

Julho de 2015